Ela entrou na sala inquieta esperando resolver tudo bem depressa. O tudo a perseguia obcecado. Resolver imediatamente o assunto. O problema estava lá, distraído com o sol que se abriu… A luz rara do dia aqueceu as frestas, parcialmente, resolvido. Quem estenderia a mão? Queria que o assunto suavizasse… De repente percebeu que o drama era ela mesma, seus incautos vinte anos. Ela. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2015 – Torres
Autor: amorasazuis
sensação prematura
Frio. Segue frio por aqui e muito. Antes o frio chegava e bastava ter/acender a lareira: energia da vida, boas cobertas, claro. O frio se acomodou dentro dos meus ossos, congelou vontade e paralisou. Quero aquela alegria solta da vida… O luto não termina. Perdas curiosas se esticam, crescem. Habilidades desaparecem… Estou presa no silêncio. Dificuldade diária com certezas arbitrárias / confusão natural / natural por que estou viva? Faz frio aqui / cinzento londrino constante / outro jeito da vida! Olhar frio / friorento e velho / sim meu querido, sensação prematura do envelhecer posto que chegar aos 100 anos pode ser verdade… Então, falta muito. Frio sem palavra / grudado nesta coisa dita vida. Parece o fim do fim sentir frio, ter corpo gelado ou coisa semelhante. Que as lareiras sejam possíveis… Que os planos aqueçam. Que / que / que eu possa pensar. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2025 – Torres

volúvel
hoje acordei com a sensação não só de que fiz as melhores escolhas, mas também tive/tenho sorte! aquela coisa antiga de boa estrela… pois é, eu tenho boa e preciosa estrela… nunca estou sozinha. ISSO é muito bom! muito bom! Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2025 – Torres freio frio frio frio frio e frio frio frio frio frio…

às vezes, às vezes, tudo fica tão pesado!
extraordinariamente, pesado! a leveza está / se esconde num canto diferente hoje / e / eu visito, com saudade, a menina que fui. quanta extraordinária certeza! daria certo. fiz tanta coisa pequena, estranha, esquisita, tão menos! acovardada do sonho… escolhi errado, e poderia ter dado certo, mas eu me perdi nos desvios. tão esquisito pensar agora, eu te perdi sem nunca ter te encontrado. JCKCL Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2025 – Torres
dos velhos

jovens a se espelhar em jovens / olhar vivo para a surpresa / velhos devem conviver com velhos amparados e socorridos pelos jovens (é verdade) /a dignidade de viver exige autonomia… verdade, o ideal seriam mesmo as grandes família misturadas, a conviver. casas grandes abrigando gerações: os avós, os bisas, as crianças… estamos setorizados. as conversas se quebraram… apreender, estudar não é mais prioridade, as conversas são relatos, não experiências… os gestos e os odores se completam. conviver importa. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2025 – Torres

ALICE no País das MARAVILHAS
Caiu no poço, caiu, caiu… MA, eu lembro / era/ foi tudo um SONHO. Leio a leitura / o fato? Por que a surpresa? Era sempre sonho… Não. A leitura ou o fato de cair? Escuto… Mas é proibido pensar / falar. Haja céu! Nuvens! Flutuação. PROIBIDO. PROIBIDO proibir (interrogação) Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2025 – Torres
esboço ideal
modelo, esboço, linha mestra definem o que se imagina perfeito: pessoa, lugar e caminho. qual deve ser a medida? qual a história? que mundo retalhado este nosso… sem sono, sem saída, sem rumo… sem chegada, a deriva, não sei… estudar estudar estudar estudar, rabiscar, voltar, largar, continuar, refazer, estudar seria mecanizar um saber? ou criar um saber? E. M.B. Mattos
cozinha / fazer
cozinha não existe / o micro ondas, rei do pedaço. os tais odores que antecediam a fome desapareceram… a sala ficou dentro da cozinha ou foi a tal cozinha que se embelezou vestida de sala /desapareceu? que chatice cozinhar, preparar por horas e horas o almoço. chega tudo pronto (não é?) bom cheiro se de bons restaurantes / chega quase fumegando. rapidez nas entregas. outro mundo outra vida. chega de roupas a secar ao sol, quarar ou esticar. chega de ferro de passar ou tanque. tudo isso fora de moda. um bom filme, em casa, telas gigantes, televisão e tecnologia, outra fala, outro som, outro estar em casa. outro planeta: cães passeiam vestidos. passarinhos, sim, ainda voam. nada de jogar conversa fora, toda concentrada em correções e apertos e vídeos. uaiiiiii! eu vi uma margarida e espiei, ali adiante, uma borboleta. e vi / enxerguei frutas não ensacadas naquela árvore… tem um muro de pedras, não de cimento, as vizinhas conversam, dão risadas… o feijão vai queimar. estou delirando, é claro. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2025 – Torres
Fiódor Dostoiéski
russos! viva a literatura do denso, do importante. o que escrever sobre escrever ou falar / ou dizer sem atravessar estas vozes certeira? “Havia qualquer coisa de pesado, de reticente, de rixoso; todos andavam de cara fechada.“ (p. 211) O idiota / saudade de Paulo Hecker Filho que acendeu meu caminho para leitura fundamental / este livro. Por que eu cito? Idiota ilusão a minha. O IDIOTA pode ser fundamental. Se o carnaval fosse divagação! …ah! o que vou escrever? deveria ser sempre samba / e sacolejos e terra de sol e lavar a alma no mar quente da vida. deveria ser samba! e eu estaria, se tanto sou eu, mergulhada nos solfejos e ao som de um piano de canto, sentada a meia luz… tentando escrever versos não sendo poeta. não sendo carioca, não sendo esta ou aquela, apenas eu toda feliz por ser liberdade e paz rodeada de musica. não. a vida não está nunca foi arrumadinha ou certinha, mas nunca o exigido se vestiu de arlequim de pompa ou não, de seriedade. vou olhando, olhando, sentindo, sentindo, encolhendo, desentendendo o que um dia soube… escrever o nome com letra bonita tá difícil! Tá difícil! TÁ DIFÍCIL viver! Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2025 – Torres
quando chegam as rosas
quando toda a loucura transbordou e a fanfarronice esperneia brota uma rosa, não, meu amigo, não é um roseiral… nada disso. é o abuso da safadeza fantasiada… esta coisa de vestir roupas listadas, com bolinhas, com cheiro parisiense… não, estou no meio da fazenda verde, e construímos um galinheiro festivo: ou seja, as galinhas estão gordas, faceiras e o lugar de ciscar e magnífico. como tem árvores / particularidade, as rolas chegaram.
eu te conto em detalhes, hoje tem sol, embora seja inverno a luz do dia está aquecida. o carro/caminhoneta nova com as portas todas abertas se prepara para segurar a viagem, fantasiado, ele também, enfrentaremos trilha, aventura e estaremos eufóricos na barraca. brindaremos, ao adormecer: lugar quente, o lugar de amar. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2025 – Torres