bonecos

bonito / topetinho de saltos altos / saia justas já consegue girar o corpo, o outro gordinho, velho, já sem juízo se demora em lugar impróprio, claro, vai e senta e confraterniza com quem entrou no mesmo buraco e já conhece a brincadeira de esconde esconde. Não importa a fantasia, a idade: o mesmo sobre o mesmo. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2025 – Torres / vamos pular a fogueira?

ficção e vida real

sublinho como vida real: grande, profundo cansaço. persegue o tempo, a graça um fazer esvaziado… diz Júlio Ribeiro: “o amor é filho da necessidade tirânica, fatal, que tem todo o organismo de se reproduzir, de pagar a dívida do antepassado, segundo a fórmula bramânica.” e as ponderações…, o impulso da vida se esfarela na solidão. o amor é natureza. e acabo / termino sem entender a semente. aquele cansaço exaustão reduz… e não sei como mudar, pensar ou compartilhar. ficção ou vida real? Elizabeth M.B. Mattos – junho, num inverno sem defeitos: frio – 2025 – Torres

MARIA ANTONIETA / STEFAN ZWEIG tradução de Medeiros e Albuquerque

Mas o trágico também existe quando uma natureza média ou fraca é ligada a formidável destino, a responsabilidade pessoais que o arrastam e aniquilam, e, do ponto de vista humano, esta forma parece -mesmo mais pungente. Pois o homem procura inconscientemente um destino extraordinário, ou a dizer de Nietzsche, uma vida heroica, perigosa / desafia à natureza extra medida, desafia o mundo pela audácia. […] Como a tempestade arrasta nos seus vórtices a gaivota, assim a força do seu destino o leva mais longe e mais alto. O homem mediocre, em compensação, por essência, reclama uma existência pacata; não quer, não tem necessidade do trágico, prefere viver tranquilamente, na sombra, ao abrigo dos ventos, num clima temperado; eis a razão por que se amedronta, resiste, foge, quando mão invisível o impele para o desassossego, para a crise. Não quer responsabilidades históricas, não tem necessidade do trágico, prefere viver tranquilamente, na sombra, ao abrigo dos ventos, num clima temperado, eis a razão por que se amedronta, resiste, foge, quando mão invisível o impele para o desassossego, par a ‘crise’. Não quer responsabilidades mundiais históricas, ao contrário, teme-as, não procura o sofrimento, é-lhe imposto; vê-se constrangido de fora para dentro, não de dentro para fora, a ir além de si mesmo. Este sofrimento do ‘ não herói’, do homem meio-termo, se bem lhe falte senso evidente, não me parece menor que o patético sofrimento do verdadeiro herói, e talvez ainda seja mais comovente pois o ente ordinário deve suportá-lo sozinho e não tem como o artista, o meio venturoso de transformar seu tormento em obras de forma duradoura.’ Stefan Zweig se refere a MARIA ANTONIETA

32 anos ou 35 anos

sou péssima para contas / para datas / pedi ajuda para IA (risos) – mas fiquei independente (sem meu pai pagando contas) aos trinta anos / ou mais um pouco em 1985 quando minha caçula nasceu / ele ainda teve despesas grandes comigo / ou seja, sempre. feliz dos filos independentes / e guerreiros. raríssimos. padrão normal é ter ajuda / herança e etecetera e tal. / esta é / parece ser / a vida como ela é. heróis de guerras. existem. a vida como ela é começa aos trinta anos? Balzac eternizou a mulher de 30 anos / as vitoriosas passaram a ter 40 anos e as gloriosos com encargos e amores aos 50 anos / aos 60 anos pensamos ser o ápice – talvez. casamentos ajudam / separações definem / viver é o pleno. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2025 – Torres frio e com chuva. independência raríssimo… encargos se sobrepõem.

túnel e perfume

divagação

a herança / a fortuna que salva da mediocridade pode ser autonomia: autonomia para pensar / para refletir /ou escolher ser pessoa.

dinheiro e purpurina enfeitam, mas, não livram da mediocridade e do vazio /

chafurdar no dinheiro pode ajudar a afundar na mediocre. o tal vazio da caixa dourada /forrada de veludo vermelho

em vida / na vida toda a beleza se movimenta na inquietude ou (risos), talvez, passear pelo mundo não preencha a tal alma. oco sentimento sem entendimento: escrever é / pode ser boa transferência.

seletivo / odor

gosto de imaginar os cheiros / os perfumes. estão /estarão enfileirados ou esparralhados passeiam pela sala… sombras e essências – flores – tenho, assim, meu flutuante / exuberante jardim / posso remexer a terra e colher as margaridas. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2025 – Torres tão frio / tão gelado! ou sou eu mesmo eu envelhecendo seca?

escolher errado, pior do que não escolher…

entrei na loja para comprar o tecido, no tempo das lojas parques… / ir / brincar sem decidir nada, tomar sol na correria ou sentar no banco apenas para olhar. voltar depois… comprar ou não comprar? sair passear (o principal) e escolher. lembras do poema da Cecilia Meireles:

OU ISTO OU AQUILO – CECÍLIA MEIRELES Ou se tem chuva e não se tem sol, ou se tem sol e não se tem chuva! Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva! Quem sobe nos ares não fica no chão , Quem fica no chão não sobe nos ares. É uma grande pena que não se possa estar ao mesmo tempo em dois lugares! Ou guardo dinheiro e não compro o doce, ou compro o doce e não guardo o dinheiro. Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo… e vivo escolhendo o dia inteiro! Não sei se brinco, não sei se estudo, se saio correndo ou fico tranquilo. Mas não consegui entender ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo.

também o amado, também o amor / ou este ou aquele? fisgada, ou escolhida, ou decido / escolho e agarro. ou… depois a danada da saudade do que já foi e não é mais, podia ainda ser / mas… mas, mas pois é, se escolhi o momento incerto – foi bom ou ruim – se eu me escolhi, foi melhor, se me lancei a querer e a lutar, também bom… perder, horrível, afundar, assustador, não te beijar, muito muito ruim. difícil escolher o rumo, a esquina certa, o mar que eu quero, a onda que espero. o calor ou este frio. o frio de hoje, de agora, deste junho. ah! não tem defeito. congelo por dentro, por fora, mas escolho: vou fazer como a Elza e ficar com as cobertas até o nariz / pensando, a Elza, lendo. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2025 – Torres conhecendo um frio bem frio, e agora sem aquele fogo delícia das lareira.

s a u d a d e

tá muito frio não é gibi

tá gelado uaiii! os estremos dos estremos… SOS planeta ou a esperar, mudanças… vai que ficamos tipo POLO NORTE e lá quente… tudo pode / difícil assumir / ou pensar / ou decidir. tá danado! tá muito frio! Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2025 – Torres (Torres mesmo / Porto Alegre, muito mais)

milagre acontece

Hoje, milagrosamente, consegui fazer guisado, panquecas, perfumes faceiros, e, milagrosamente também, terminar / deixar a cozinha espetaculosamente limpa: tudo. Panelas, fogão, pia e chão. Lavei a alma escutando minhas canções francesas. A tarde mal começou. O dia se espreguiça, sol instalado. Frio, frio, frio. O sol tenta /parece resolver. Estamos todos concentrados. Eu? Louca pelas bananas -, se fosse mais corajosa faria uma torta com elas e devoraria. Este é o problema, devorar. Sim, já confessei que a cozinha não me interessa mais, o problema é a fome. Solução saudável, resolver. Pois é, aquela história de não ficar parada, exercitar-se, não enferrujar. Eu invento. Passo os lençóis, as dúzias de fronhas da meia dúzia de travesseiros. Perfumo. Aspiro a casa. Deveria revirar canteiros para as flores, as folhagens, sei lá das tantas mágicas de quem gosta da terra faz acontecer… Bem, o ideal nem é tão perfeito assim. Acho / penso, que minhas panquecas ficaram perfeitas. Quem sabe eu faço a torta? Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2025 – Torres