Primeiro Amor

Samuel Beckett ” Associo, com ou sem razão, o meu casamento à morte do meu pai, em outros tempos. Talvez existam outras ligações, em outros planos, entre esses dois acontecimentos, é possível. Já me é difícil dizer o que julgo saber.” É muito difícil mesmo, as associações passam pela laranja descascada, o leite derramado: saudade crônica do teu besejo (deve ser beijo com desejo). Dos teus bilhetes, agora de tuas reflexões que caminham, passadas (um pé diante do outro, cauteloso) e seguras: vida organizada. Não querido, eu sei, não são organizadas as caminhadas, mas necessárias, não como desejarias… Tu, livre. Eu livre. Como gosto de ter o passo incerto. Virar na esquina e não chegar ao lugar marcado. Peguei o bonde errado. A gente sai por aí a olhar as vitrines e aquele desejo impulso te faz voltar cheia de pacotes, tão desnecessários… Falar pode ser assim, meras e contínuas associações. Não será como cozinhas? Da batata doce, vamos para o feijão que estava de molho, depois os bifes à milanesa. Alface pedindo socorro, tomates fora de época, Por que comprei um abacaxi no inverno. Vou fazer uma farofa. Abrir uma coca-cola. Bom mesmo seria uma caipira e rir contigo. O que estamos fazendo? Desgovernados. Ou apenas dois meninos. Eu diria que me apaixonei pela tua sombra. Coisas de Primeiro Amor -, seria desgovernado amor de amar. Tens razão GJUTW eu adoro o amor, todas as voltas que faz. Estes dias me deu uma urgência de te ver e saber. Pois é, deste farol aonde moro estou no mundo dos sinais de luz… Não te encontrei, mas a luz brilhou e tive as boas notícias. Estás bem. Eu? Daquele mesmo jeito de sempre: distraída, apaixonada, a trabalhar e contar os dinheiros. Que carência este mundo! Depois me dou conta que uma caixa de mantimentos, teu sorriso, tua risada (melhor) faria tudo voltar à festa. Te amo. Que abuso! Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2025 – Torres

porta entrada

tem tanta coisa esquecida… e, paradoxalmente, surpreendentemente lembrada. portas entreabertas para um tempo/período esquecido, passageiro… projetei uma vida, foi uma vida aquele apartamento na Avenida Independência / eu conseguia dizer / fazer e estava trabalhando na Garagem de Arte! foi muito bom. Trabalhar define o quem somos. até hoje não perdoo a forma louca e repentina com que me despediram… depois desta experiência eu me adianto. porta aberta, eu saio. despedir-se antes… sempre antes. será precipitado? acho que vou fritar as bananas. e… Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2025 – Torres

a emoção para o jovem é…

para os mais velhos a emoção tem um custo alto / importa / ‘acontece’ / para os jovens está no varejo, é barata / fácil porque imediata e rasteira? sei lá… custa nada, custa um minuto da vida, vira-se a esquina e já se mergulha noutra emoção…

a emoção para o jovem é barata, a emoção para velhos é cara / assim?

Qual mar?

O tempo não fica de bobeira não, rola ladeira a baixo, fica exausto ladeira a cima. Às vezes descansa, descalço embaixo de um cinamomo. Então / assim a gente tira um cochilo… Porque viver não tem respiro, atenção e luta todos os minutos. Saúde a florir, nunca desfolhar. Sei lá. Atenção! E filhos atentos. Uma enormidade de vida a se esparramar, suar e ventar.

Preciso escrever. Antes, um projeto. Estou feito onda inesperada. Mar manso, mar limpo, mar sobrecarregado, forte, violento, ilustra ou proporciona aquela calma grande?! Tranquilo: um mar destes eu preciso. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2025 – Torres

raciocínio se espraia…

a lógica caminha a colocar o branco no banco, reduz o cinza e impõe o rubro. as questões se fantasiam com vontade e rodopiam… uma valsa? um tango? samba e alegria… consequente? talvez louca, fora do lugar, ou… sentada, exausta, confusa. concordo: bastante dinheiro resolve / aplaca. ou melhor nenhum dinheiro -, bem, tá resolvido. fica o beijo como realidade máxima. no meu caso, o sono e o desejo de ordem e bons cheiros. o raciocínio se espalha e vai a criar outras formas, outros contornos… conversar é dançar com os tambores. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2025 – Torres

caricatura da plástica

deve ser extraordinário se olhar jovem, a mesma, a surpreendente pessoa que não envelhece / o rosto sem sulcos, e a beleza dos seios perfeitos, sem barriga, com cabelos… ah! eu valorizo muito os cabelos! uma vasta cabeleira bem tratada faz toda a diferença! corpo, o corpo magro (segundo a moda atual) dentro das roupas jovens e… pois é. reforma-se o conceito de vida, o gosto da comida…dietas são a pauta do sofisticado: socorro! aonde se esconde o conceito do bom sono, o bom sexo, o beijo de verdade. o olhar de pessoa para pessoa. a boa risada. sem passaporte, com identidade: o caminho é viver. atualmente viver se transformou em consumir. trapacear, janjear por aí. sem trabalhar, politicando no carrossel. plásticas e viajar. ah! acho que o meu conceito de vida… claro! envelheceu. Elizabeth M. B. Mattos – maio de 2025 – Torres, ainda

talvez seja mesmo horrível

talvez a lógica esteja no cansaço, na tristeza, dentro do não tenho / não posso / não sei… e o caminho seja invertido. o hálito gelado, o abraço seco, as palavras vazias… sei lá. saber é muito esquisito / tão estranho como ter. mágicas traiçoeiras da vida… conjugar verbos será mesmo um eterno martírio. respirar tão lento, tão leve e…

talvez a felicidade e a lógica, a palavra abençoada estejam escondidas no pêssego, na cesta de morangos. nas tangerinas / bergamotas ou na mágica laranja doce.

talvez

talvez eu não compreenda português, como não sei japonês nem holandês. Elizabeth M. B. Mattos – maio de 2025 – Torres

quero

quero teu amor de volta / sentir a paz do amor amado outra vez / aquele desejo de abraço e achego, de luz no escuro do quarto, o cheiro do amor. quero outra vez o amor de volta, concentrado. quero. Elizabeth Menna Barreto Mattos – maio de 2025 – Torres