porque te amei não te perdoei

reli tua carta / tua. senti, amei outra vez. tens razão… da saída do cinema, no tempo adolescente ao ardor da maturidade. ah! pude te encontrar. amor de amor sentimos… e tanto tempo separados!

não fui a Portugal, não vi as luzes das muralhas do castelo de São Jorge. mas sei que viajei…tenho-te saudade. amo-te.

As luzes das muralhas do castelo de são Jorge estão avermelhadas, rubras ou encarnadas como se diz aqui. Agora tem este colorido novo eu também estou colorido de novo. Tenho agora a tua cor. Minhas roupas têm teu cheiro, teu tato, e literalmente teus cabelos. Encontro tua presença em tudo o que tenho (e trouxe comigo) e teus cabelos saltam até mesmo das meias que acabo de lavar na pia do quarto.”

ah! ah! que importa o tempo e bobagens que já fizemos, e todas as que deixamos de fazer… tudo empilhado a se acotovelar e agora prensado em novo amor. novo ou transferido amor, o mesmo. que coisa louca é amar! Elizabeth M. B. Mattos – maio de 2025 – Torres

Castelo de São Jorge / obrigada Marina (neste maio de 2025 – em Portugal) / viajando na viagem tua e do Adolfo. Obrigada

nem ótimo nem doçura

ninguém é ótimo para ninguém, ninguém é mesmo ótimo para si próprio. sou espinhenta, agressiva. olhar plástico, demorado, alterado… o jeito de olhar modifica tudo. importa ver e detalhar, olhar altera tudo… engorda o objeto, ou isola o objeto / pessoa, então, posso afluir sobre suas próprias significações, únicas. faço um esforço excepcional e isolo a história sem se tornar uma espécie de eterno presente, mas antes uma corrida vertiginosa e ininterrupta do passado para o futuro, uma oscilação de um extremo ao outro, sem repouso. seria / é uma avaliação. posso antecipar a convivência, a cobrança, ou mesmo a ternura pura por ser como é, ternura. oscilações da convivência. na verdade, esquisitices da vida: as contas. as tais contas que damos por feitas, nossas, não são tão exclusivas. ou nos orgulhamos e libertamos, ou nos submetemos e calamos. caso contrário, quer queira quer não queira, o outro bisbilhota tudo: a comida, o passeio, o tempo. quantas horas quanto tempo olho para o mar! se estou distraída com as nuvens, se devo ou não comprar um par de tênis, comer todas as bananas de uma vez ou se vou dividir em quatro dias. se posso comprar flores ou carne para o assado. bem, seria isso compartilhar ideias, conviver, dividir… dar explicações, abrir todas as janelas… esquisitices de sentimentos. escolher. escolher para ter a tal autonomia, e mordacidade afiada. a pensar no isto ou aquilo. Elizabeth M. B. Mattos – maio de 2025 – Torres

o veranico de maio

o veranico de maio coloca tudo no lugar. dá coceira na alma porque, num repente, está tudo como deve ser. vou colher as margaridas e te ver envolvido com os cães esperando o irmão… pois é, sempre tem o irmão chegando pra sacudir a memória. sacudir amores de meninos. eu te digo, meu querido, este juízo bom de estar junto nos salva: bom que estou com vocês! deixei pra trás umas fantasias bobas de pendurar quadros nas paredes e ter ateliê e tintas… vou costurar as palavras e pensar que escrevo. escrevo para que leias e possas sorrir sem mexer a boca, não é dissimulado: sorrir pra dentro. sabes, eu escrevo pra ti, meu amado. um beijo. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2025

qual conceito está no “quero me divertir”

os afins se encontram… no vácuo deste prazer. leitores se encontram com livros, mundanos se encontram em festas, nos bares / festas e convescotes / intelectuais em noitadas filosóficas, músicos nas canções dos violões, praianos na beira do mar / ao sol. os afins se encontram nas suas afinidades. os amorosos se encontram no carinho, os amantes no sexo, os enfeitiçados no fogo. os endinheirados no luxo, os passeadores nos jardins. e as rodas são feitas. os estudantes nas universidades, as rendeiras mexem com as mãos, as doceiras enchem tabuleiros, os pipoqueiros enriquecem as pipocas. mães cercam os filhos, poetas se debruça, no papel e nas palavras. divertir-se é saber certo quem somos e o que queremos… um jogo bom de viver. Elizabeth M. B. Mattos – maio de 2025 – Torres

ela nunca me contou

ela nunca me contou exatamente o que aconteceu… eu? eu não perguntei detalhes, nem para ele, muito menos para ela. certas coisas, a vida nos ensina no silêncio, aos empurrões… o curioso, ainda conversamos, ela e eu sobre tempos idos, mas ela nunca deixa de mencioná-lo com desprezo, ou inquietação raivosa. eu me surpreendo. já se passaram tantos e tantos anos? a esquisitice me surpreende. os anos / estes tantos que vivemos, mais do que meu pai e do que minha mãe, minha tia Joana…pois é, estes anos atravessam a alma e me fazem mais forte, eu quase esqueço… luzes, os filhos, os netos, e me sinto tão viva! eu ainda rezo. abro a porta e, quando vens me ver, sei bem do teu carinho, da tua saudade querido. obrigada. será que as intrigas interessam? sei lá… Elizabeth M. B. Mattos – maio de 2025 – Torres

…porque me gosto nesta foto que Joana Moog fez qdo fui visitar o primo Cláudio Bohrer e estávamos todos juntos no Rio de Janeiro

histórias se cruzam

Falavam português misturando com árabe, francês e espanhol, e dessa algaravia surgiam histórias que se cruzavam, vidas em trânsito, um vaivém de vozes que contavam um pouco de tudo: um naufrágio, a febre negra num povoado do rio Purus, uma trapaça, um incesto, lembranças remotas e o mais recente: uma dor ainda viva, uma paixão ainda acesa, a perda coberta de luto, a esperança de que os caloteiros saldassem as dívidas. Comiam, bebiam, fumavam, e as vozes prolongavam o ritual, a sesta. (p.48) Milton Hatoum, Dois Irmãos

Bom e precioso escritor. Dor acesa, paixão viva, coisas de escutar o eu, e transbordar na sintaxe. Escrever pode ser juntar letras. Pode ser, mas não é (pensar importa mais). Cito porque escrever me apunhala com a dificuldade – eu, vou a tentar, desanimo, persigo não chego. Agarro os pincéis , escolho as tintas, risco o papel e começo a desenhar… Antes, preparar o papel, mas, antes de preparar o papel escolher a boa qualidade. Depois a cor. Aguada, terebentina, esforço, ou o acrílico. A técnica, não basta. O bonito, não basta, o bom também não basta. Afinal, o que é trabalhar? Produzir? Suponho que seja continuar… Continuar. Elizabeth M. B. Mattos – maio de 2025 – Torres

foto de Ana Moog

(janela pro mar / janela pra lagoa/ janela pra vida)

eu ia contar quantas vezes eu me mudei, quantas eu comecei, quantas recomecei, contei a mesma coisa. casei com o amor amado, com o possível, casei às pressas descasei. rezei bastante. perdi perdão. nunca mais orei, mas estou a rezar o tempo todo. percorri quadras e quadras antes de chegar no lugar certo, e abri a porto do incerto. eu me assustei tantas vezes, eu festejei um milhão de vezes… coisas da vida! viver (começo outra vez, ou é recomeçar?)