tulipas tulipas tulipa

Elas as flores: tulipas e a vida, a casa limpa e tua voz a sussurrar. Palavras jorram e se espalham pela casa e pelo meu sono. Sono de uma noite de tanto abrir os olhos, escutar a rua… Agitação de uma festa de falar falar falar… Som e música. Não. Apenas ponderar. Perorar e sapatear sobre ideias sonambulas e inquietas. Sou eu a viver. Elizabeth M. B. Mattos – março de 2025 – Torres

Luiza tão longe! Mas perto, sempre presas, nós duas, nas conversas deste longe pernambucano.

quinze linhas por dia

  1. Quando eu te conheci estava emocionada pelo momento urgente/triste arrasta do coma perda: um amigo se despedia / falávamos emocionados, com cuidado. Eu não resisti aos teus arregalados olhos claros e a tua magreza, nem a tua fala cheia de feitiço. Estellita esperou, deu tempo para conversar… Eras o herói do dia, com uma enorme matéria na Zero Hora a teu respeito. Eu voltaria para Torres no dia seguinte. A universidade me permitia ausência de dois dias. A vida estava estruturada com trabalho e alegria. Projetos estavam sendo realizados.
  2. Ficamos atordoados. Exaustos. E nós nos olhamos. E tu procuravas uma casa em Torres. Seria? Sei lá – foi a conversa e a troca de telefones. Guardei aquele micro / mínimo papel – letra pequena / pequena, mínima.
  3. Coisas de rede. De hora certa no momento certo. Já contei mil vezes esta história, eu e minhas estórias com olhos azuis. E também castanhos. Seriam verdes? Nos olhos / pelos olhos derramo o mel / o fel. Depois nas letras, nas cartas, neste frenético escrever. Que saudade sinto do amor amado, rimado. Contido e represado. Depois cachoeira e corrente: rio leva na corrente, afoga. Não lembro do que foi ruim, talvez o meu ciúmes, tu não tinhas nenhum / eu era tão eu / tão apressada de tanto trabalho de tanto falar, falar. E te escutar. Por que escrevo estas coisas? Por que eu volto. Ainda estás aí perto / agora não mais Buenos Aires. O Décio foi embora, o Iberê se foi. Memória do Esquecimento sucesso. As colunas no Estadão de São Paulo / Zero Hora / mas tínhamos lados diferentes / eu era desligada, ignorante, alienada / nenhuma militância. Nossos pensares não se misturavam, ideias e atitudes diferentes / eu simbolizava o oposto dos princípios, tu atravessavas com desenvoltura a biblioteca do meu pai e da minha mãe. Verdade, meu querido amigo, embora fosse Lajeado, e eu Porto Alegre / o Rio de Janeiro nos fez de carne e osso, homem e mulher. E o amor foi para Búzios depois Torres. Eu quero te ver.
  4. As linhas não se completam. A memória ela mesma se agita e se mistura toda nas barras dos meus lençóis. Ah! Estas camas perfumadas. O cheiro do amor e da saudade presa num minuto. Não, não podemos agarrar e reter tudo. Há sempre um oxalá atrás do suspiro… E com o tempo escorregando apressado morro abaixo. Subir um desafio, descer assusta, mas a expectativa de voltar ou chegar anima. Divagações! Elizabeth M. B. Mattos – 2025

Fotos do Pedro Moog

percepção: coisas de Huxley

Percepção: coisas ditas por Huxley: “Todos os ruídos haviam desaparecido. A escuridão era completa, mas no vazio e no silêncio, ainda perdurava um certo conhecimento, uma vaga percepção.

Percepção não de nome ou pessoa, não do presente, nem lembranças do passado, nem mesmo deste ou daquele lugar, pois não havia lugares. Havia apenas uma existência cuja dimensão única era saber que não pertencia a ninguém, que não possuía nada e que era solitária” (p.138) Aldous Huxley O tempo deve parar

Li / sublinhei, voltei e reli tudo outra vez. Avancei na leitura e me surpreendi… Acho que ainda acontece seguido isso de me surpreender e navegar… Surpreender com pessoas, textos e com a vida. Estamos assim, superlotados, surpreendidos, carregados de exclamações e interrogações. Viver tem encanto de amor, se renova nos teus beijos, teus abraços, e teu envolvimento. Com o teu objetivo, tuas risadas. Elizabeth M. B. Mattos – março de 2025 – Torres

eu digo bobagens

Eu não sei dizer o que pode, poderia, realmente, ajudar. No meio da dor, atordoada pelo medo, quero estender o braço, o socorro. O que faço? Com voz de fantasma repito coisas bizarras: beba um copo de leite, a maçã é uma boa fruta. Agarra um livro. Mesmo que não entendas bem, mesmo sendo aborrecido, segue lendo… Depois anota. Abre aquele caderno, com um lápis  / feito desenho escreve. Se nada original ocorre, descreve…., se não te ocorre ainda nada, escreve teu nome. Conta do almoço, do banho quente, ou gelado. Descreve a árvore que vês pela tua janela. Alinha o pensamento ao cotidiano. Deves ter comido tomates, feito um macarrão, cozinhado dois ovos. Ou uvas, ou pêssegos. Milho, quantas espigas de milho tinham ali na cozinha? E nada me ocorre. O que eu falo? Estamos juntos, tardes inteiras a rir bobagens, mas não consigo desenvolver a ideia. Tenho ideias? Ou eu mesma me agarrei na vida porque respirar era / é bom? Tenho dúvidas. Por que este meu otimismo pequeno é couraça? Um jogo do contente de M. Deli ou das Vacas Voadoras de Edy Lima. Em sala de aula eu atuava cheia de vigor. Anotava, e me proponha a explicar, ou eram os alunos que se propunham a ouvir e fazer. Era uma energia emprestada? Eu repito sempre as mesmas coisas. Coisas de beijo, de abraço, de carinho, de representação. Odor. Eu persigo o cheiro da luz, do brilho, da alegria, da risada cantante. Afinal, não faço nada. Sequer escrevo. Eu sonho. Como posso solucionar o problema dizendo: tudo vai ficar melhor, perfeito, sonhe meu querido, deseje forte e a vida se abrirá… Estou mentindo? Não. Eu sinto assim, a vida se abrirá… Elizabeth M. B. Mattos – março de 2025 – Torres

espiando o amor

Às vezes já não sei o que é ontem, hoje. Saberei do amanhã – planejarei!? Aonde estarão meus sonhos sonhados, vividos… pesadelos do aprendizado. O susto de quebrar o prato preferido, espatifar o copo, tropeçar: joelhos esfolados. Aonde a corrida, o perder o fôlego.  Já sinto dores de cabeça, pernas doloridas… Desconfiança no tempo. O calor? Talvez o cansaço se misture com o sol, ou exaustão de respirar. A leveza desapareceu. E nem sei das explicações, daquela lógica de dentro… Pois é, está tudo tão explicito na negação, no susto. O tal medo se estica.  Abraçar o escuro

Amar ou apaixonar-se é risco / como andar no escuro. Tropeçar nas coisas, cair, mas, chegar… O querer, o derramado das lágrimas! A gente sempre chora no amor. Ganha-se e perde-se tudo tão depressa! Elizabeth M. B. Mattos – março de 2025 – Torres

inquietude

inquietude move a montanha como movimenta a vontade. aquela vontade espinhenta / instigante… sentimento agitado. o dia se fez agitado, caminhado. neste passeio pelas calçadas a viagem vai no vagar do olhar… Elizabeth M. B. Mattos – março de 2025 – Torres

anotação, data e vozes: pequenas alucinações da memória: o perigo de ser gente / pessoa em movimento

de vez enquanto

vez que outra ela encrespa os cabelos, de escorridos ficam ondulados. às vezes faz um sorriso, sai no/ao vento, mas pouco… toda morena gosta do sol. e se enfeita sim, vejo as roupas… gosta da vida carregada, festeja a sorte, a carta premiada e sorri, ri… de vez em vez se arrepende, mas pouquinho. confia no testamento. Elizabeth M. B. Mattos – março de 2025 – Torres