preguiça crônica

move o dia a tal da preguiça / se a chuva acompanha… fica selada: não vou ali nem aqui. paralisar / ficar tem preço… eu deveria ir / claro, o melhor é repensar / pensar outras coisas. enfim! mover ou falar ou fazer / equilibrar: verbos no infinitivo.

o outro motiva / estar no mundo agita a imobilidade. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2025

galope

Ao mesmo tempo / enquanto a manhã galopa eu já me recolho outra vez para descansar. Quem desespera no eco das vozes? Aqueles sons a reclamar, aos gritos, por borboletas e pipas. Mundo colorido e morno. A dor precisa acomodar / ceder e dar passagem… Gramado e canteiro querem o cuidado possível. E eu preciso te ver / sentir e te acolher. Recolher teus beijos. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2025 – Torres

violino

Música perfeita / som natural: melodia. instrumento dos instrumentos: passarinhada amanhece lado a lado: humor / alegria e cheiro perfeito: verão.

Fotografo. Absorvo história. Carrego explicações desdobradas, eufóricas. Vida com cheiro de café. Cheiro de sabão e brilho: verão. Agradeço as fitas coloridas da vida. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2025 – Torres

detalhe

Aparecem e desaparecem. Mistério de viver sozinha e ser acumuladora de papel e detalhes. Mistério misterioso se não fosse também assustador, bastaria um detetive organizador se não fosse o que deixa a pele arrepiada. (risos) Livros e papéis / de repente, um chinelo. Não o par, apenas um, no lugar bem óbvio… Jesus meu Deus! Envelhecer tem muitas facetas engraçadas, não fossem… Nem vou dizer a palavra. Sabemos. Conselhos desnecessários: …, não, não. Nem vou enumerar. O bom! A certeza que ainda detecto o mistério. Faço um bom guisado. Descasco as frutas. Cozinho. E me surpreendo. Elizabeth M. B. Mattos – 27 de fevereiro de 2025 – aniversário da Valentina. Torres

Franz Kafka

11 heures et demie du soir

Que tant que je ne serai pas libéré de mon bureau, je serai perdu purement et simplement, c’est ce qui m’apparait clairement pardessus toute chose, il s’agit seulement de tenir la tête haute aussi longstemps que possible pour ne pas sombrer. A quel point cella sera difficile et combien cela absorera de mes forces, c’est ce que prouve le fait qu’aujourd’hui déjà je ne m’en suis pas tenu à ma nouvelle résolution de rester de huit heures à onze heures à ma table de travail, le fait qu’à l’instant même je ne tiens pas cette infraction pour un si grans malheur et que je n’ai fait qu’écrire hâtivement ces quelquer lignes pour m’aller coucher.

Commencé à travailler au bureau. L’après midi chez Max. Parcouru les journeaux intimes de Gothe. Notre distance par rapport à cette vie la montre figée dans sa serenité, la lecture de ces journeaux y met le feu. La clarté de tous les événements les rend mystérieux, comme une grille de jardin calme le regard qui se porte sur des vastes étendues de gazon, tous en nous tenant en respect. A l’instant, Mme X. arrive. qui vient nous voir pour la première fois. (p.73-74)

Franz Kafka Journal Intime

onda

onda e mar e onda e areia e sal e perfume de colônia e e e e e e, muitos enganchados, perdidos. boas e ruins as ondas desta memória. hoje, literalmente, sonhei com meu pai e minha mãe. ela sorria e feliz, feliz – eu surpresa, emocionada. eles tinham vindo me buscar. ela estava muito tão sorridente! pensei a vida com surpresas, e tantas! pinga felicidade: gotas de estar com os seus / entre os seus. sentido desta / nesta vida: elos, correntes. sonhos, fatias de realidade. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2025 – Torres

arrastar o erro

Errar ok, a gente erra, e depois? Há conserto ou novo caminho, ou falar no assunto, enterrar… Coisa mais complicada esta coisas de viver. E tomar consciência – saber dos cantos dos tantos mundos… São tantos possíveis! Tudo ao mesmo tempo… E saber dos sentimentos também. A tal possibilidade de discutir as inquietações, arrancar as dúvidas, confessar. E depois? Oxalá os muros se levantem! Tanta confusão! E deixamos de ser pessoas, logo números. Preenchemos exigências! Que saudade do tempo de ser menina sem exigências. Brincar no jardim. Depois ter aquela mãe e aquele pai -, abençoada eu fui. Nasci livre. Pés descalços, risadas e lágrimas soluçadas sem problema. Soluçadas. Era eu sem alma, sem culpa, ou apenas um pecado vivo e livre? Esta coisa de culpa caminhava, mas logo se perdia entre as margaridas, no gramado, ou na calçada. Sempre as frestas da luz eram boas direções. Uns conseguem, outros não. Coisa de sinfonia, da música deste abraço de sons poderosos… Escutar e entender a música, como a gente entende o silêncio. Conversar virou esgrimar. Difícil! Haja maestria e destreza. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2025 – Torres

Depois que a gente envelhece deixamos o coração envelhecer, não para tudo… A gente fica seletivo, deve ser isso. E como!

às vezes quero

às vezes quero perguntar a minha mãe: o que devo fazer? como fazer? será que o melhor seria mesmo não dizer nada? o amor atrapalha ou ajuda nas decisões? como é mesmo esta coisa de viver e escolher e decidir? quando foi que eu apreendi? quando foi que deixei de ter dúvidas? quando foi fácil? por que ainda sinto a incerteza forte e a dúvida?

decisões impostas pesam menos, muito menos. entrar ou invadir? ouvir / escutar paciente. por que tanta inquietude? o calor invadiu a alma e senti o corpo gelado. sacudidas de amor… deve ser isso. o amor aos trancos. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2025 – Torres com piscina e sol, aonde o mar?