encarapitada no amanhecer

amanhece a gritaria da festa… são eles! conversam e gritam e se agitam em revoadas, quanta alegria! e as calçadas se movimentam… as carroças cheias de balangandãs! e o exercício matutino, colorido: férias!

este movimento tem cheiro de mar, alegria picotada como confete. ah! o gosto adocicado das férias! Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2025 – Torres

perdi / desapareceu

se eu perdi, foi porque o encontrei.. e se desapareceu / e se foi… foi, de certo com certeza porque existiu… ao alcance da minha mão. perto. tão perto! você aqui. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2025 – Torres espera por você

s tantossssss

a letra dá voltas e chega na saudade. a saudade ela mesma não se explica, volteia, retoma, desaparece. surge naquela curva e se surpreende: as hortênsias azuis, e as outras pintadas e rosadas. uma flor folhada… eu só queria dizer / escrever da saudade. picada, ardida, tão diferente… e tão sem explicação! puro sentimento elaborado: temperado de tanta vida! pois é… pois é, pois é! não sei explicar. não é pertencer, não é estar porque se fez assim ou daquele jeito, de repente, ouso dizer, não é / foi sequer uma escolha, mas amor. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2025 – Torres

Foto: Pedro Moog

fendas, botões e zíperes

… tesoura, linha e linho para o verão. Obrigada meu amigo. Estás a repartir o tempo entre estar / estar e estar sempre comigo. Respiro. Vou afofar a terra e semear / deve chover neste verão… Sinto tua falta. Um beijo. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2025 – Torres

HISHAM MATAR

Nascido em 1970, em Nova York, de pais líbios. Viveu em Trípoli e depois no Cairo antes de se mudar para Londres. Com O Retorno venceu o prêmio Pulitzer (tradução Odorico Leal) EditoraÂyiné / 2022 / Hisham Matar 2016

(p.57) O país que separa pais e filhos desorientou muitos viajantes. É fácil se perder aqui. Telêmaco, Edgar, Hamlet e inúmeros outros filhos, seus dramas particulares demoram-se nas horas silenciosas, navegaram tão longamente para a distância incerta entre passado e presente que parecem flutuar à deriva. São homens, como todos os homens, que vieram ao mundo por meio de outro homem, um fiador que, com sorte, abre o porão da forma mais gentil, talvez com um sorriso reconfortante e um tapinha encorajador no ombro. E os pais devem saber, tendo sido filhos, que a presença fantasmagórica de sua mão permanecerá ao longo dos anos, até o fim dos tempos, e não importa que peso seja posto sobre aquele ombro ou o número de beijos que uma amante plante ali, talvez levada deliberadamente pelo desejo secreto de extinguir o domínio do outro, o ombro permanecerá eternamente fiel, lembrando a mão do bom homem que o acolheu no mundo. Ser homem é ser parte dessa cadeia de gratidão e memória, de culpa e esquecimento, de entrega e rebeldia, até que o olhar de um filho se torne tão ferido e agudo que, contemplando o passado, ele já não veja nada além de sombras. A cada dia que passa o pai viaja mais para dentro de sua própria noite, aprofunda-se na neblina, deixando para trás vestígios de si e o fato monumental, embora óbvio, a um só tempo frustrante e piedoso – pois como o filho continuaria vivendo se também não esquecesse – que, não importa o quanto se tente, nunca podemos conhecer nossos pais por completo.” (p.57-58)

Não é uma novidade, também não é o ponto, talvez a reticência entre passado e presente – a reflexão de como e por que tanto e tanto se escreveu / descreveu sobre desesperos / amor / expectativas e frustações que nos arrastam como filhos. Estamos sempre / continuamente atrás da semente, procurando a essência deste motivo _ estamos vivos… Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2025 – Torres – outra vez mergulhada na leitura.

desabafo…

Salvo para quem trabalha, e trabalha… Ou tem projetos e empilha sonhos bafejantes, possíveis, envelhecer é muito, muito chato, limitado, traiçoeiro até… Morrer antes de envelhecer, pior. Ou seja: viver é mesmo desviar-se das armadilhas. Tantas! Caçar cupins. Varrer e limpar, polir e ventilar. Agarrar o vento das ventanias. Detalhes, recortes. Desviar do tempo. Afinal, pensar e conformar-se com beijos, afagos, abraços e confissões. Quando ouvimos o outro, escutamos a voz e a alma, duplicamos a vida. Talvez o segredo seja as confissões e palavras… Caçamos borboletas antes de se transformarem. É isso? Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2025 – Torres num dia tomado de aventuras.

Foto: Pedro Moog

abotoar o luto

O luto é o tempo costurando o rasgo da perda. O que desaparece, a perda, o sentimento dilacerado da dor não se explica na morte ela mesma. Perder alguém amado, perder a casa, o jardim ou o jacarandá da infância, o vestido, o carinho, a luz… Perder é um susto. De repente, completamente nus, expostos. Memória é o requinte da alta costura – da roupa sob medida. O guarda roupa necessário, escolhido, refeito. Renovado. É preciso apreender a se desfazer para organizar o armário, a gaveta. Os afetos precisam ser dedilhados como o som de um piano… Olhar / sentir / a percepção precisa passar por dentro. Amar o sono, o recolhimento e as próprias vontades. É zelar pela própria vida. Reconciliar-se com o gozo. Gosto de botões e abotoar é um bom jeito de enfeitar a vida. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2025 – Torres

fragilidade

De toda / qualquer / definida ou não, é a fragilidade amorosa, a que mais aflige e preocupa. Esta fragilidade amorosa estrangula. Independe de cuidado possível, de resolver ou não / não depende apenas de nós mesmos… Estou pensando uma bobagem? Talvez… Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2025 – Torres

adjetivo

Lugar / terra / espaço não tem adjetivo, como descrever? Por onde passamos, lá deixamos pedacinhos, lá estamos. Projetamos / lançamos um ‘pedaço’ de nós mesmos: uma partícula, um sentimento, um gosto fica moleculando por lá… Quer dizer, estive ali. E este ali eu carrego comigo. Quando bebo um suco de laranja, tomo leite ou como um pedaço de carne… Se o vento assobia, ele me conta. Viver é deixar estes pedacinhos por aí… Nas calçadas, na cama de lençóis desfeitos, ou na risada, até quando a lágrima se liberta. Sou eu. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2025 – Torres

Foto: João Brentano

amigo e encontro

Vou citando, e sigo a conversar contigo. Estou acompanhada entre minhas quatro paredes, ou são cinco? O vento parou. Ensolarou o dia meu amigo.

“Procurei um canto tranquilo para ler o que você escreveu. Os cachorros me acompanham como sempre. Li e reli algumas vezes procurando o que não estava escrito. Sua conversa era fluida e agradável, mas ela se sentia um pouco perdida, pois parecia falar não tanto para dizer e sim para ocultar. Estava escrito mas invisível, entre linhas, nunca óbvio, nunca claro mas transparente, invisível entre as linhas. Eu escrevi? Eu citei, Paulo? E segues: Esse vento que não para? Dias e meses a fio sem dar trégua, sopra como música de filmes de terror nas frestas das janelas. E essas pessoas na beira da praia? Acumuladas e espremidas no meio do lixo. O vento leva a areia aos olhos e a elas não permite ver. E elas insistem em se divertir, todo ano a mesma coisa: sol, sal, sul e… vento, muito vento. Corpos queimados, tostados, torrados, cobertos de areia e sal. E elas insistem em se divertir, lixo por todos os cantos e a areia nos olhos que não lhes deixa ver…” Paulo Biurrum

Eu não resisti. Transcrevo tua mensagem, e releio. Releio. Penso o mesmo, sem audácia de dizer. Ah! Estes amigos! Obrigada. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2025 – Torres