caminho rota rumo

Minha mão tem necessidade da tua mão pra seguir no caminho / o caminho, de certo, será mesmo o melhor se nós dois, tu e eu, meu querido, estivermos na mesma direção ( coisas de Exupèry, sempre as mesmas ) – a seguir, a mesma estrela. Na saudade, no agora. Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2025 – Torres

a pessoa

Estar com as pessoas, pensar pessoas, dividir… Sair pelo mundo, olhar para as pessoas, falar com elas, dividir… Repartir um sanduiche. Ser pessoa.

Depois de sábado dobrado, quase completo, e eu diria perfeito. Respiro fundo. Claro que posso dobrar a esquina, ser eu e viver outro jeito de ser. Comprar um jardinzinho. Plantar aquelas rosinhas brancas miúdas. Ter dois os três vira-latas conversadores. E ao falar contigo, depois de te escutar tocar o piano…As teclas. Melodias e som.

Eu diria: eu me apaixonei, vou te beijar a noite inteira, beijar e rolar nos lençóis de linho perfumados. cheirosos. eu vou te beijar… e sorrir, e se feliz, meu querido. Tu não danças. Eu danço para te divertir. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de2025 Torres

rotina como rota

Hábito e vida, coisas de respirar e acontecer, devagar. Ritmo acertado de amar e encontrar e florescer. Canteiros devem ser revirados, remexidos, adubados: flores precisam ser podadas, cuidadas. Escrever e pensar se aglomeram… Preguiça na prensa, sanduiche colorido, deve ser paciente, elaborado. Ler através… Bastam letras? Cansar significa, exatamente, o quê? Falta de sono? Ou falta água na cisterna? Desidratar é a palavra escrita em vermelho: alerta / perigo. O amor também desidrata. Será que eu compreendo isso? Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro 2025 Torres, menos quente

cuida da lua

lua cheia. noite mansa e quieta. toda a voz do amor encheu a sala. abri janelas. fomos caminhar na calçada… noite tão calma! senti uma vertigem. tu tinhas, finalmente, voltado…

cuida dele, cuida. desdobra o amor em pedaços de alegria. cuida dele desejando alegria a cada pequena refeição, no polimento das frutas e no frescor da água. cuida dele e deste amor pronto que ele te entrega. Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2025 – Torres

demência

não sei…os pedaços devem se desprender aos poucos e voam. sonhos /não são exatamente pesadelos / ou podem ser? o lugar ela belíssimos como se as furnas / as rochas do mar, grandiosas, onde não tem mar, mas rocha… enorme caminho. eu queria logo voltar, descia a encosta, mas não via o mar. comecei a cansar. não sabia se era mesmo por ali a saída… caminhei muito, e mais rochas e rochas. abri os olhos

dormi outra vez, e desta vez eu estava num lugar muito lindo, palácio ou semelhante, uma cúpula desenhada ouro e pinturas, e abóbodas belíssimas, mas eu queria voltar, as escadas não me levavam para a saída / talvez eu devesse encontrar outro caminho, outro guia… comecei a cair, escorreguei de uma beirada e comecei a cair. calculava a queda, talvez conseguisse, mas eu não consegui… então acordei e resolvi escrever. Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2025 – Torres

desordem

1.

Acordei às sete horas: corpo amolecido. Faz dois dias que não durmo. Comi feijão com arroz, uma colher de doce de abóbora. A casa em desordem; tudo por fazer. A tarde caminha. Saio para comprar uma camisete, uma camisola curta, mas compro livros, muitos. Não consigo concentrar-me em nada. Estou pendurada na sacada olhando pro mar. Acho que vou ao correio buscar as cartas.

Eu me olho no espelho: feia, desfeita, triste. Quero reagir. Não consigo; sinto peso dentro de mim: dor, desânimo. Não quero atender ao telefone; não quero falar contigo. Não tenho nada para dizer. Ontem, três, duas vezes o telefone tocou: no fim do dia, no meio e no fim da noite. quando atendi, eras tu. Eu te amo por teres me chamado; mas não tenho voz para atender.

No dia seguinte o silêncio da casa. Estou sozinha. Tudo por fazer e uma vontade sem sono de dormir. Olho para a pilha de livros novos. Por quê? Tenho tantos em casa que não li. Esqueço a camisola, as roupas de verão e as lojas. Tu não verás Torres fervilhando. Escuto vozes na calçada. Agitam-se as pessoas. Os carros buzinam; os ônibus estacionam ao longo da rua e despejam turistas para o hotel ao lado, castelhanos, todos falam muito alto. Abro as janelas porque estou só. Fecho de novo: olho para meu corpo. Não vejo beleza; nem tem alegria. Fico tão velha no verão! Tão murcha! Tenho nos meus braços as marcas da tua boca; dos teus cabelos. Sinto saudades.

A casa, logo estará cheia. Farei almoço e jantar. Comerei menos; sentirei menos, dormirei menos. Sinto que preciso acalmar a tua presença nesta ausência. Sinto sono; quando estamos juntos, não dormimos. Exausta agora: o corpo dói. Também, agora, não durmo…

2.

Olha bem para mim: estou mesmo um trapo; não sei mais o que fazer. Voltei assustada da lembrança doente que agora me engole. O que aconteceu naquela noite de acordar, e acordar? O telefone tocou uma vez e outra e mais outra. Madrugada. Os olhos parados, esbugalhados. O que fizemos? Eu te consolo; embalo o teu susto e teu espanto. Mostro nela as outras todas mulheres, iguais. Defendo tua causa na esperança que defendas a minha e a nossa causa. E que me defendas. Devolvo teus braços aos braços dela.

Arrumar o que chegou, por telefone, altruísmo. Enquanto eu me desenho romântico pensas no amor com lógica. Ali riscamos as nossas diferenças. Amor que despenca em conclusão, a certeza consciente de sermos não mais tu e eu, mas nós, os três.

Ela que amas; ela não sou eu. Porque as verdades se provam pelo princípio de que nada pode ser e não ser ao mesmo tempo. e tu repetirás: Sempre soubeste. E eu te responderei: Palavras; não fatos. Palavras. Uma verdade cabe em duas versões. É verdade? Ou é apenas, liberdade de estar aqui, ali, logo adiante na conversa passageira do ir e vir, levar e trazer.

Das palavras…ao ato; teu amor por ela. Palavras que reafirmando reafirmam tua vida com a vida dela; (para mim) a outra. Mas teus beijos, teu toque? Enlouqueço?

Talvez. Tudo isso é o inferno. O próprio diabo engolindo-me, inferno. Despreparada para castigos terrenos, despreparada para castigos divinos. Tudo desmancha-se lá dentro, um vírus… Meio ao tormento, tu, o amado. Penso na tua boca; teus olhos cravados no prazer, na loucura: nós dois. Tanto eu preciso libertar-te e libertar-me, para, enfim, viver mansamente, outra realidade; o possível. Ou num inferno, ao menos, menor. O amor desmancha pessoas, modifica tudo. O que fazer desta plasmada e incômoda angústia de querer? Elizabeth M. B. Mattos – Torres

Que faríamos do nosso tempo?

É a pergunta de Henry Miller. Por agora , para limitar o problema a uma única fase – a leitura – peço-vos para tentarem imaginar que livro, que tipo de livros, uma pessoa consideraria valer a pena ler nestas circunstâncias. No momento em que analisamos o problema da leitura deste ângulo, quase toda a literatura cai por terra. Crei0 que atualmente lemos pelas seguintes razões: em primeiro lugar, para escaparmos de nós mesmos; e lugar segundo lugar, para nos armarmos contra perigos reais ou imaginários; em terceiro lugar, para não ficarmos atrás de nossos vizinhos ou para os impressionar, o que é uma e a mesma coisa; em quarto lugar, para sabermos o que se passa no mundo; em quinto lugar, para nos distrairmos, o que significa ficarmos estimulados de modo a alcançarmos uma atividade mais elevada e uma maior riqueza interior. (p.341) Henry Miller Os livros da minha vida – tradução Ana Bastos – Editora Antígona – segunda edição portuguesa – março 2006 – Lisboa