caça as bruxas

quem são as bruxas? aonde o feitiço? como dançamos o som destes tambores? o começo e o fim, aonde o meio?

de vez em quando esquecemos de ver e ouvir, e não conseguimos falar. mas exatamente nesses minutos, por instantes recuperamos a lucidez.

e penso que minha lucidez, minha atenção, meu tempo começa a se esticar desnorteado. corro para os livros e volto, imediatamente, para as citações que me fazem refletir, respirar e voltar:

“Durante esses dias estive particularmente inquieto. Ora me sentava um pouco, ora andava de um lado para outro pela casa. Era como um sofrimento, mas antes se deveria chamar doçura do que sofrimento, pois não havia aborrecimento naquilo, mas uma sensação singular e muito sobrenatural de bem-estar. Eu superava todas as minhas capacidades, chegando à obscura força. Então escutei sem som, vi sem luz. E meu coração se tornou algo sem fundo, meu espírito informe, minha natureza insubstancial.

Os dois acharam aquelas palavras semelhantes à inquietação que os impelia pela casa e pelo jardim, e Ágata ficou surpreendida por também os santos chamarem seu coração de algo sem fundo, e seu espírito de informe; mas Ulrich logo pareceu retomar sua ironia costumeira.

Os santos dizem: um dia estive encerrado e então fui arrancado de mim e mergulhado em Deus sem saber.” (p.534-535) Robert Musil O Homem sem Qualidades

assim tomo emprestado um texto, um momento, sigo, eu também, uma voz e recomeço a jornada que me encanta por conta das margaridas, do excesso de luz, e excesso de vento, e excesso de mar, e excesso de beleza… e dou a minha mão… Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2024 – Torres

picotada vontade

A vontade picotada, uma surpresa boa. Pera flambada, alegria descompromissada. A boa comida e a fidelidade. Felicidade certa. Fico a pensar que toda a certeza certa transborda. Coisas de boa memória. Se inventada ou real, alimenta. Pequenas descobertas: copos de vidro pintados à mão, delicadeza nunca esquecida. Assim entrei na vida carioca: saltitante, confiante. Embora minha juventude causasse certo estranhamento. E todas as certezas ficaram à descoberto, expostas. Temerária eu fui. A lua perto do Cristo Redentor, o sol quente entrando naquelas tardes ferventes. Para tudo a solução da juventude, uma certa aceitação natural, então felicidade. Não fiz escolha, fui fisgada, em todas as ocasiões fisgada. Sair parecia sempre mais fácil. Entrava, caia e depois conseguia sair… Recomeçar. Acho que não há tempo, idade para recomeçar. Sair pode ser o mais difícil porque exige a disposição de abrir a porta, fechar e sentir o temporal do jardim, do mar, das ruas alagadas. Uma aventura. Aventuras nas telas de cinema, na televisão, na vida real, medo. E a gente foge do medo. Olhar nos olhos do medo, um desafio. A gravidez é uma destas felicidades cegas. Um estranhamento. A paternidade, um susto! Escrever um livro, pintar um quadro, esculpir o sentimento. Tão difícil! As cores nos confundem, as linhas atrapalham… O que nos salva e define? O sentimento. O sentimento sentido, vivido. doído. Então eu vivo! Não é surpreendente? Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2024 – Torres

Dezembro majestoso, não quente / os dias se fecham para este ano estranhado por espantos. Tão surpresa, tão manso! Preciso ver o mar, outra vez o salgado das águas. Desatrelar o atropelo deste desejo engasgado de ser feliz. Preciso apenas existir na tua memória como tu existes na minha. Boa memória flambada de amor. O nosso.

o que foi que você disse?

“O que hoje ainda se chama de destino pessoal está sendo substituído por fenômenos coletivos e, por fim, estatisticamente comparáveis.” Eu sinto enorme dificuldade para ser eu comigo, solta, inteira… Estou a pedir explicações pelo que sinto, como eu sinto. Parece cruel e ao mesmo tempo tão vago! Volto a citação numa costura necessária.” É como uma leve divisão da consciência. A gente se sente abraçado, rodeado, e invadido até o coração por uma agradável falta de personalidade e vontade própria; mas de outro lado permanecemos lúcidos e capazes de crítica, até prontos a brigar com essas pessoas e coisas tão empoeiradas e arrogantes. É como se houvesse duas camadas relativamente independentes em nós, que habitualmente se mantêm em profundo equilíbrio. E como falamos de destino, é como se tivéssemos dois destinos: um ágil e desimportante que se cumpre, outro importante que jamais descobrimos.” (p.514-515) Robert Musil –O homem sem qualidades – Editora Nova Fronteira

Tão confuso se tornou que eu me surpreendo aborrecida e no vazio, mas nada mudou, ou melhor, eu sigo a mesma, tento ser, apenas isso, respiro e sou. Elizabeth M. B. Mattos dezembro de 2024 – Torres

se se se se a voz

Se eu puder te dizer alguma coisa… seria, não desiste. Tudo começa com as sensações que temos do nosso próprio ser. O bebê apreende e sente o mundo a partir dele… E segue assim, eu acho. Vemos o mundo, o externo, o outro a partir do olhar que temos sobre nós mesmos. Assim, o amor que sentimos pelos detalhes da vida, são os detalhes do nosso corpo, do nosso estar no mundo… Quero escrever sobre isso. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2024 – Torres

INSTAGRAM e o poço

Justificar, olhar, acompanhar todas as postagens e movimentos significa estar atualizada, mas eu diria, completamente, desligada, perdida da vida ela mesma. Se vou ver/acompanhar todas as postagens. Pensar sobre todas as frases, e filósofos. Entender observações que ali flutuam, esqueço de pensar. Estaciono. E o dia termina numa flutuação indefinida. E me sinto uma idiota. Feia, é claro, desinformada, é claro, fora do mundo, claro, e transparente. Terei eu que fazer as tais chamadas, caprichar nas fotos e transformar meu feijão com arroz em assados e brindes? Que vida ridícula a minha! É o que devo pensar?! Todos, tudo brilha. Os melhores momentos saltam aos meus olhos, os momentos de uma montanha de gente bonita e feliz! Que maravilha! Que vida idiota a minha! É a conclusão? Escolhas erradas, caminho obscuro, sem alegria?! É exatamente esta a conclusão? Não deveria ter escrito um livro, poetado mais vezes. Encontrado o homem perfeito. Estourado champagne e festejado meus cursos e doutorados, o meu emprego maravilha!? Céus! Como estou atrasada! E o Instagram segue a me monitorar / eu filmo momentos / notícias / e especiais chamadas para dizer: eu existo, como é pouco! Estou aqui entre vocês! Mais linda do que nunca! E o ciclone bala nem sacudiu meus cabelos, nem alterou minha sólida e inconfundível beleza. Preciso esclarecer ao Instagram… Sou um brilho esquecido! É isso? E ficar mesmo, horas, horas a detectar este mundo que conversa ao mesmo tempo… Um mundo idealizado e colhido de melhores momentos e de beleza especial: fotos únicas. E eu? Quem sou? Uma vírgula sem texto. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2024 – Torres

importante

Sim, velhas, tu me dizes, mas seguimos bonitas. Eu penso. Ainda usando três pontinhos para solucionar o texto. Dás risadas. Dançamos no asfalto. Certo? Alegria não se compra na farmácia. O prazer do passado também desarruma meu armário… Dias e tardes arrumando. A questão do ‘experimentar’. Conhecer/ ter um apaixonado, um alguém, e experimentar / experimentar… Pessoas se apaixonam: o desgoverno. O luxo da entrega: prazer. E neste momento não existe barreira, certo ou errado. A paixão. Aquilo que algumas pessoas chamam de loucura. Estas loucuras já vivi, tantas! Nunca aventuras, mas loucuras consciente. Experimentos, brincadeiras, tudo interno ou na corrida, o momento e este continuado sentir… Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2024 – Torres

o perfeito

o perfeito do amor são as pequenas loucuras / enquanto falava ao telefone contigo e castigava minha garganta eu me perguntava, e o sentimento? amontoado num canto da conversa ele, pacientemente, esperou explodir. quando veio… porque chegou, fiquei exausta. limpei a casa, empilhei a vida ordenadamente e dormi a tarde inteira. Elizabeth M. B. Mattos – novembro – Torres

Susan Sontag

” Na arte reflexiva, a forma de arte está presente de uma maneira enfática.

Fazer com que o espectador tenha consciência da forma implica em prolongar ou retardar as emoções. Pois, na medida em que estamos conscientes da forma numa obra de arte, tornamo-nos de certo modo distantes; nossas emoções não respondem da mesma maneira que na vida real. A consciência da forma produz simultaneamente dois efeitos: proporciona um prazer sensorial independente do “conteúdo” e convida ao uso da inteligência. Pode se tratar de um nível de reflexão muito baixo, como a solicitada, por exemplo, pela forma narrativa (o entrelaçamento das quatro histórias separadas) de Intolerance (Intolerância) de Griffith. Não obstante, é reflexão. (p.210) Susan Sontag – Contra a interpretação – vontade de encontrar as vozes, o outro, os muitos, e poderíamos conversar sobre estas questões todas, eu cito, faço fatias, tiro do todo, não arrumo, não continua… no ar a vontade de conversar, e conversar e fazer uma palavra chamar outras tantas palavras. ” O que importa é recuperarmos nossos sentidos. Devemos aprender a ver mais, ouvir mais, sentir mais.” E não estamos fazendo isso por causa da pressa… ou por muitas coisas que nem conseguimos nominar. SOS vamos parar um pouco pensar um pouco, sentir um pouco. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2024 – Torres

a cada um

A cada um seu particular / um tempo. Cada pessoa vê um lado diferente… Era o mesmo? Não. Outro olhar / visão… O mar é / era o mesmo. Para um represento o quadrado, um dado, para o outro? Sou o sonho, a sentinela. Ou sou pesadelo, engasgo. E, ou ainda, o afago, o beijo. Ou sou as costas da boneca, da pessoa que nunca fica, apenas vai… Cada um tem uma experiência diferente (é claro!) / particular. Nas explicações, divagações: sou aquilo que imagino ser, a narrativa, sou também a parte do que poderia ser o inteiro… Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2024 – Torres

Divago sobre saudade, imagino. Sinto a mão, carinho. Existe finitude a cada decisão. A dor aguda faz parte do efêmero, nosso encontro. Vontade de correr, também de imobilizar. Depois alívio. Terminou. Não existes, no teu lugar, ponderações, eu? Sei lá se existo. Imobilização. O momento se cristalizou ou morreu, ou se resolveu, aquele momento. Nem sempre corajoso o meu abandono, nem sempre… coisas miúdas da saudade.

memória certa

Não sei qual memória enquadra melhor o sentimento. Eu me agarro numa lembrança de correria, noutra de ficar olhando as formigas trabalharem, infância com jacarandá, agito do mar. Se penso Rio de Janeiro encontro o fervor, alegria constante da idade. Seria a idade? Vinte anos explode. Não permite, não quer tristeza. A risada vem se arrastando, mas chega e desfaz o nó. A rua Viúva Lacerda é coração. Um dia foi a Vitor Hugo, outro tempo vibrante era feito das fitas do uniforme das cônegas. Indisciplinada comportada. Existe? Gostava de entrar no mato para colher as pitangas, de ler livro na hora de conversar. De correr ladeira acima pra não fazer as costuras daquelas aulas com bainhas e bordados. Era tanta coisa escondida e ao mesmo tempo comparada. Um capítulo longo este. Ambígua pessoa, escorregadia e pacífica. Será que os adjetivos se encaixam? Ajudar sempre, mas nada que segure por muito tempo, infernizar também. Relações fluídas, divertidas e tanta intimidade! Fico cavando e fazendo morrinhos ao longo da pesquisa. Uns se ajustam bem, outros viram castelos e vou atrás da minha amiga Ana Maria. Correta, séria, reclusa. Então eram as cartas usávamos para montar castelos / cresciam poderosos em baixo do piano – grande e suntuoso piano! E nossos reis e rainhas, protegidos. Nós imaginávamos / éramos reis e rainhas. Nós e todas as meninas. Outros dias, prosaicas. Um passeio pelo jardim, como mães de bonecas fui atacada pelo Jeff, o cão pastor amarelo, mesmo na corrente, saltou no meu braço e cravou os dentes. Estragou nosso espanto e nos assustou com sangue e correria. Não queríamos das travessuras. Por quê? Talvez devêssemos estar estudando e não brincando. Lavamos bem o braço e colocamos pasta de dente / não contamos, recorremos ao dentifrício. Imagino que era arteiro o que fazíamos. Tenho a cicatriz… Aquela infância vivida! A dela, com proibições. A gente guarda no corpo os boléus que levamos. Escondidos misteriosos, mágicos. É pensar na infância, na meninice, mais do que a adolescência a sacolejar. Das danças e correrias na calçada esta amiga nunca participou. Sempre esteve atrás dos portões e dos muros. Mas todas as outras amigas / amigos eram da correria, das árvores e do pingue-pongue. Campeonatos. Adorávamos. O Beto, era o campeão. E a turma suava nas disputas. Era verão? Inverno? Férias? Não sei. Éramos um agito. Isso eu lembro. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2024 – Torres