do outro apartamento

Do outro apartamento eu via o mar, do outro apartamento sentia o mar maresia. A voz vinha e ia, eu abria e fechava venezianas… A enceradeira tocava música. sim, o que já foi vivido não volta: o tempo empacota a sensação, e passa uma fita colorida. Tudo que eu possa querer agora está longe. Então, aquela vontade de voltar, voltar para Porto Alegre numa mágica de acolhida. Tentar outro trabalho. Cuidar da saúde. Acreditar na Volta / o permanente?

Dormi dormi e dormi com o som domingo pendurado: novos inquilinos movimentam o prédio. Depois o silêncio do calor. Faz muito calor. A lagoa é um espelho, mas eu tinha o mar. Sinto saudade da Ônix. Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2025 – Torres

conexão

Iberê Camargo

Robert Musil

Leitura / espaço interno: pensamento e caminhada. Mãos entrelaçadas. Não resisti. Primeiro transcrevi a carta escrita naquele verão de trabalhar no Bazar Praiano / depois, voltei pra Robert Musil O Melro (coletânea de textos publicados em jornais e revistas) – neste descreve a mosca: agonia inteira. Percepção. Olhar. Descrever é pintar escrevendo. Agitar pincéis vem da luz. Das cores e das coisas todas que vemos na tela / quadro. Escrever, como explicar? Distraída ou atenta. Costuro / penso Iberê Camargo. O seu pequeno, importante, livro de contos. Estive com os manuscritos nas mãos. E lembro do desejo que ele tinha de passar para o papel a fácil / ou intensa segurança com que manejava os pincéis, os escuros e os claros, tempestuosos sentimentos da vida. Assim foi publicado em 1988 No andar do tempo. 9 contos e um esboço autobiográfico. Não sei se apressado / urgente ou… Ou sei lá. A vida com suas urgências estranguladoras. Robert Musil – 1913 envolvido com manuscritos e obra gigantesca escreve para revistas, jornais. Textos paralelos. Leio com avidez O papel mata-moscas, O rato, Pensão ‘Nunca mais’. Penso Iberê Camargo – O mosquito. Robert Musil – a mosca. Ambos escreveram um conto/texto O rato. O divertido seria lermos juntos. As conexões podiam ou não podiam acontecer. Ler e desfiar é como estar no carrossel, precisamente, no parque de diversões. Praia / leitura / sede e fome dentro dos livros. Queria estar ao teu lado, meu querido. Elizabeth M. B. Mattos

verão de 2001

M. minha amiga, admiro cada vez mais teu jeito de dizer as coisas, de pensar e fazer/acontecer a tua vida. Ansiedade terminou, é isso aí, minha amiga, encontraste o caminho. Pessoas carecem de pessoas, amigos. Vida a se desdobrar… Não apenas sexo e encontros amorosos. Muito, muito mais o viver. Experiência curiosa e interessante, teu comentário. Compreendo a tua amiga. Valores estratificados e comportamento regular. É assim mesmo. Ela conseguiu ficar em casa / no poder, sem complicações / acolheu… Valores adquiridos. Eu admiro. É corajoso. Força de vontade, garra. Sou mais fluída. Pego muito leve quanto ao socialmente correto. Minha alegria pessoal, meu motor. A experiência do / no Bazar Praiano: porta que se abre. Estou gostando de minha atividade. O comércio pode ser um bom / novo caminho. Gosto de atender, deste contato com o público: o painel, o laboratório, a fantasia, a observação. Olho, faço. Estou dentro do ritmo quente das vendas: compras compulsivas, outras induzidas. Respiro as pessoas, troca cúmplice de olhares. Todos de férias. Tudo solto. Vagar e calor no meio das pastas de dentes, colheres, bandejas, revistas, café expresso, enlatados, pão de queijo, roupas, chapéus, cestas grandes e pequenas. Brinquedos e redes. Necessidades ou futilidades. Cartõezinhos, livros e o que hoje chamam de decoração: vela, potinho, enfeite, pratos, vasos. Tudo o que possas imaginar. Gosto deste contato com o público: fantasia. Observação. Estou integrada. Não é engraçado? De repente, dou-me conta de que tudo é possível. Ana e João chegaram ao Rio de Janeiro. A casa em Miguel Pereira é muito linda, fresca: estão bem instalados. Ela vai fotografar e escrever. Sinto saudade deles. Não é uma tolice? Saudade de tudo. Uma retomada no tempo. Necessidade de inserir o passado dentro do agora. Quantos sonhos! Não cabem no papel. Estou agitada, fervendo por dentro. Planos. Se possível viro a mesa. Não volto para a Ulbra. O terrível é que engordei: estou lá em cima! Enorme para todos os lados. Rever alimentação e amor próprio. Estou louca para sentar, tomar café preto e conversar contigo. Será muito bom. Assim mesmo amiga compreendo a tua posição. Também tenho saudades da Beth de antes, da minha juventude, do meu fôlego e das minhas certezas, do luxo e da coluna social. Sei que que isso tudo terminou. Não corri. Achei que a vida daria tudo sempre tudo e mais, sem esforço. Mudei. Enfim, cá estou diante de uma porta aberta, colorida, engraçada. Vou entrando… com carinho e saudade. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro – 2001 – Torres

Foto: Pedro Moog

amorar

quem desespera no /com o eco das vozes? eu, decerto sou eu mesma. preparo a reclamação aos gritos… é preciso acomodar / ceder e dar passagem para a gentileza. preciso te ver / sentir / acolher / recolher teus beijos espalhados. “superações exigem muito e algumas deixam vestígios, alguns duradouros, outros permanentes. Não se pode evitar.” não me consolam tuas palavras. perco a fantasia. poder de te imaginar a chegar. ou pensando, ou livre… amarras / grilhões assustam / afastam, sinto tua ausência. o exercício de viver deixa o corpo dolorido. tempo aperta. envelhecer exige administrar. eu tento. Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2025 – Torres

Ônix – 2024 – Torres

ainda o beijo

Longe estás do beijo, e, da voz e do amor e das palavras. Sombra ou presença – meu querido, perdas / espaços / lembras quando nós nos preocupamos com o lugar da poltrona? O perfeito. Aquele em que, finalmente, sentarias para passar tuas longas tardes. Intermináveis, não. Completarias as leituras inacabadas. Terias os teus a tua volta. Respirarias. Escrevo para reafirmar: penso em ti. Nossos pais ainda conversam: escuto vozes de respeito, admiração. O tempo alcançou tua mão. Quem desespera no eco das vozes. Estamos preparados para reclamar: mundo colorido e morno. Borboletas e pipas voam, mas não estás lá… Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2025 – Torres

anjo a partir do estado

Sorrindo, apanhou da estante um livro em que se encontrava uma marca de leitura, e precedeu as próprias palavras das seguintes palavras alheias ‘ Embora o céu, como a Terra, esteja submetido a uma sequência de acontecimentos diversos, os anjos não tem a menor noção ou ideia de espaço e tempo. Lá também os fenômenos se sucedem uns aos outros, em perfeita conformidade com o mundo, mas, mesmo assim, eles não sabem o que significa o tempo, pois no céu não há anos e dias. vigoram apenas modificações de estados. Como os anjos, ao contrário dos homens, não tem nenhuma ideia de tempo, lhes falta também sua determinação; eles nem mesmo conhecem a divisão em anos, meses, semanas, horas, em amanhã, ontem e hoje. Quando ouvem um ser humano falar a respeito – e Deus sempre fez anjos acompanharem os homens -, entendem estados e determinações de estado. O homem pensa a partir do tempo, o anjo a partir do estado; assim, o que nos homens é ideia natural, se transforma nos anjos em ideia espiritual. No mundo espiritual, todos os fenômenos de movimento se realizam através de modificações de estado. Como isso me preocupava, fui alçado à esfera celeste e à consciência dos anjos, e conduzido Deus através dos reinos do céu até os astros do Universo, em espírito, entende-se, enquanto meu corpo ficava no mesmo lugar. Todos os anjos se movem dessa maneira de um local para outro, razão pela qual não existem distâncias para eles, e por conseguinte, também não existe longitude, mas apenas estados e modificações de estados; toda aproximação é uma semelhança de estados interiores, todo afastamento uma diversidade; os espaços no céu nada mais são que estados externos que correspondem aos internos. No mundo espiritual, qualquer um fica visível para o outro assim que sente um desejo premente de sua presença, pois então se coloca em seu estado; existindo repulsa, ele, pelo contrário, se afasta. Da mesma forma, alguém que muda de paradeiro em seu meio, em átrios ou jardins, chega mais depressa quando anseia por isso, e mais devagar quando o anseio é menor, o que observei frequentemente e sempre me causou espanto. E como os anjos não podem conceber o tempo, a ideia que eles fazem da eternidade da eternidade é diferente da dos homens ; eles entendem terrenos; eles entendem por eternidade um estado infinito e não um tempo finito.’

Ulrich encontra essa passagem por acaso, ao folhear alguns dias antes uma edição das obras escolhidas de Swedenborg, que possuía, mas nunca chegara a ler direito; e se a transcrevera tão extensamente, comprimindo-a um pouco, era porque apreciava ouvir esse velho metafísico, esse engenheiro erudito – que , aliás, causara impressão nada desprezível sobre Goethe, e até mesmo Kant – falar do céu e dos anjos com tanta segurança como se se tratasse de Estocolmo e seus habitantes. Isso condizia tão bem com sua própria ocupação, que a diferença restante, também ela nada desprezível, se destacava com enorme nitidez. Sentia grande prazer em insistir nessa diferença e em recriar aquelas afirmações de um vidente, de certo secas e despidas de sonho em sua precoce convicção, mas nem por isso menos extravagantes, partindo dos conceitos formulados com maior cautela por um século ulterior.

E escreveu assim o que pensara. (p.858-859) Robert Musil O Homem Sem Qualidades – tradução Lya Luft e Carlos Abbenseth – Editora Nova Fronteira, 1989 – Rio de Janeiro

olhar é pintar

Não usei pincéis, não sei bem do prazer de pintar / colorir ou desenhar / projetar. Sonhar com objetividade / plano. Andei meio ao acaso, desviando. Nunca a projetar / organizar. Lápis coloridos, macios. Um risco de delícia. Gamas e gamas de colorido esparramado. Ah! Amanhã vou comprar frutas e pincéis e me aventurar… Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2025 – Torres