sonho derramado

vou / caminho / sigo a rotina da memória e do dia bem costurado… importa rotina / o modelo certo do fazer e do descanso e a paz da boa rotina. exigência pequena / condicionada, e resultado, quase sempre, previsível. escovar os dentes após as refeições / todas elas, se os queremos sadios. não se trata de hálito, mas de escovação. escovar os cabelos longos e fartos. sempre. precisam ser escovados para ter brilho e imponência. banhos atentos, eu, os demorados. ah! que saudade sinto da banheira! fora de moda, alguns consideram até pouco higiênica, sei lá… exalta – se a modernidade do chuveiro, americanidade – eu mergulho na languidez da água morna de uma banheira. de certo as bacias generosas passadas assombram meu imaginário. (risos) água perfumada com pétalas de rosas… delicadezas da História. cansaço bom de lembrar. rotina? não se deve esquecer, eu acho. bom lembrar a vida, apertar, enfiar este fazer / ser / voltar no mesmo no cotidiano de hoje. acredito que amanhã é o sempre. sempre. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2024 – Torres – já com pés neste pacote colorido de 2025. quase dezembro, quase tanta coisa. e a revoada de cupins já escreve verão, calor e bichinhos no ar… não gosto de insetos. tolero.

olhar olhar olhar e depois, olhar

quando o dia acorda bem humorado a surpresa do novo… vou reler tua carta, vou estender a mão e voltar a escrever sobre estranhezas. todos os sentimentos importam e todas as lembranças se levantam com uma graça nova. estas respostas da vida ajudam no silêncio bom. percebo que juntos diremos muito mais, juntos, acrescentaremos sabor / eu te confesso que as panelas voltam a me interessar e aquela febre das estantes também volta. adoro repassar os livros na escovada e fazer a nova seleção / a casa se modifica com estas minhas investidas… e te escrever arco-íris. recortei o jornal guardando as boas crônicas e espero o momento de ler contigo o relevante. estou feliz. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2024 – Torres

excesso de luz excesso

excesso de música / de festa / tanta dança tanto abraço tanta e tanta risada que o cansaço, ele mesmo, desaparece. carrega o tédio. o pátio cheio de novidades e propósitos + uma eternidade forte / nada pode terminar quando estamos / temos este estado de espírito. que magia das boas ser feliz!

amanhã arrumo estes papéis / e limpo eu mesma a casa até o perfume se espalhar / assumo a nova alimentação / os exercícios e vou me envolver no novo amor como cura. depois sento ao teu lado e fico quieta escutando o teu sorriso. estou tão estupidamente jovem. e vou aproveitar. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2024 – Torres

revirada virada

remexida, uma virada, revirada na vida: não tempestade, mas tão novidade! será que não estou de cabeça pra baixo? vontade de casa e quintal, sem este entra e sai dos vizinhos / que agito! ou é bom? Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2024 – Torres antes da chuva

o mundo que eu conheço

minhas filhas moraram em países diferentes / foram, ficaram, e estudaram, trabalharam, casaram, viveram, enriqueceram quando fotografam o tempo, o sol, nuvens, areia, ideia, e som. fotografaram o mundo. acordaram do outro lado, telefonaram… acho que também choraram. um ano, dois ou três anos. se contar a história de uma da outra e ainda outra, serão dez anos no estrangeiro, pelo mundo: alemão, italiano, inglês e aprenderam a viver, meu filho já viajou o mundo. eles se deslocam com facilidade. eu? eu viajei as viagens deles, todas, viajei os sonhos deles todos. foi assim quando meu neto foi pro Japão – eu fui, e comecei a ler os japonês. Tóquio ficou fetiche. vi as cerejeiras floridas, e caminhei os passeios, de trem eu me desloquei. festa na festa do neto. Inglaterra também. festa. netos e filhos foram pelo mundo / fui junto / sempre junto. resolvemos sonhos. eu vi / fiz a conta desta matemática. foi assim que eu viajei… nestes sonhos deles, eles viveram, eu sonhei. e deste jeito conheço o mundo,

eu viajei muito, eu morei fora do país, eu nasci em Porto Alegre, mas sou, genuinamente, carioca. ou de Santa Cruz do Sul – tão eu, ou Rio Pardo, ou será Torres. Montevidéu…ou foi em Buenos Aires… Belo Horizonte. O que o amor faz? milagre. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2024 – Torres

ciúme

querido:

não me julgo ciumenta, sempre me considerei resolvida. receita pronta. se não gosta de mim, deixo de gostar dele. se não foi como esperava… (a resposta). frieza arrumada. nada de emoções convertidas em lágrimas ou languidez, ou saudade espichada, ou noites mal dormidas, ou confidências lamuriosas ou… (respostas). um quadro desenhado com tranquilidade. ergo a cabeça e caminho.

muito sol, fecho as cortinas, muita conversa inútil, desligo o telefone. desmarco o chá a caminhada, durmo fora de hora. acordo de madrugada para ler um livro. resolvi. resolvo. não escrevo mais. assim eu arrumo meu coração. nada de pensar nos beijos, pensar tua voz, rever as fotos. ou mesmo sentar na praia e imaginar que estás ali. não tem praia, não tem voz, não tem reler, não tem beijo que me acorde.

então, escreves. tremo um pouco porque tenho notícias, atropelo a leitura. nem compreendo certo, leio na corrida… depois, eu me digo / eu me dou respostas: o beijo é formal, a conversa universal, não é exatamente ele, mas um ele escrevendo para… não acredito na minha cabeça: estou tendo um ataque de ciúmes. e o ciúme está a me atacar com tal ferocidade que (não posso te dizer). por que estou a contar isso? porque tens que me ajudar a reavaliar. o relacionamento tem frestas e multiplicidade… o amor e o envolvimento, o travesseiro dividido, o cheiro. o mesmo… de amor. cuida de meu tempo meu querido. eu te amo. FGJMGJCXFF Elizabeth M.B. Mattos novembro de 2024 Torres – confissão

cansaço e sono

estranho! cansaço e sono se atrapalharam na hora do chá. o corpo tá cansado reclamando, puxando, mas o sono…, pois é, o sono fica acordado, não se entrega. a vigília dos músculos impede a entrega. uaiii! guerrilhas a serem apaziguadas… Elizabeth Mattos – novembro de 2024 – Torres

p a s s o silencioso

eleição, a banda passando e o silencioso passo do espanto. Preço de respirar… sim, cuidado para seguir em frente. não posso desistir. dormir a sesta, acordar na madrugada e escutar música: ser feliz e amar. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2024 – Torres

efervescente

pequenos sentimentos / efervescentes sentimentos. presos, agarrados / presos no corpo a saírem pelos poros / depois, depois, depois não acham / encontram nem veem portas nem janelas, nem frestas, e não saem… se amontoam. esquisito isso. sem explicação deixo de fazer coisas comuns e rotineiras: visitar os irmãos, tomar chá com as amigas, sentar na escada do edifício e conversar com a vizinha, dar risadas com o vizinho que numa extrema gentileza ofereceu bolo naquela tarde. o que era fácil se transforma em monstro. as cartas não se escrevem mais, nem tristes, nem coloridas, não se escrevem… estas mudanças estranhas assustam. serão permanentes ou é doença / peso / retomada, um susto mesmo? Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2024 – Torres dia já lavado da chuva, cinzento e claro…

café e pão com manteiga

Escuro ainda, a passarinhada conversa. O sono caminhou para o bom esconderijo. Resolvi te escrever sem pressa. Amanheço com o amanhecer. Os planos de um recortado verão se desenham, mas sem convicção. O ano se atravessou em surpresas exigentes. Eu me atrapalhei. Ousar e assumir e fazer acontecer o que está ao lado, ao lado, não em ti, parece impossível. Gloria! Há / existem pessoas que trançam, executam e ajudam. Ao se inclinaram, resolvem o desencontro. Invejo. Não é fácil. Idiomas diferentes / escorrego nas semelhanças e diferenças. O pensamento do outro, cravejado de certezas e o meu aos trancos, oscilo. As informações se amontoam grotescamente. O desenho não se define, sempre mais um esboço inseguro… Os lápis macios e a vontade de riscar e riscar o papel se retorce no prazer: cores, linhas, recortes imaginários, mas inseguros. Sou eu isolada no sonho de sonhar e tu, atravessas a música. Tua energia se embala em sons. Aquela alegria de chega pelos ouvidos e transporta o mundo certo e harmônico. O bom caminho da leveza e do embalo. Como eu te compreendo! E tudo amolecido, fluido, fica tão mais fácil. Estás certo. Esta batalha nervosa parece inútil mesmo, tens razão meu querido. Acomodar-se ao mundo louco, desvairado da competição sem ponto de chegada… Circular o mundo. Nada basta. Estão a nos exigir mais e mais e mais e sem respostas. Para agradar o outro, ou chegar dentro de mim? O lobo solitário. Julgado. E de repente ser pessoa é ruim. Não sei. Triste. Inútil. As vitórias ou são retumbantes e ricas, ou vazias. O outro não está satisfeito. Espeta. Julga. Machuca. Afasta. E então, és tu, eu, absolutamente isolados e solitários. O que importa? Eu te amo. Eu te amo e tu me amas. Mas nos sentimos vazios. Qual o caminho? Estender a mão… Amanheceu e a passarinhada começa a riscar o dia com voos. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2024 – Torres