os docinhos fiz de véspera, também o bolo em duas camadas, coberto com chocolate. sanduiches prensados e no gelo os refrigerantes. a música era com o Sérgio Bordini, colocava as caixas de música e selecionava os baiões e o que ouviríamos naquele entardecer… Nilton Lerrer, João Noronha, Beto Franciosi, , Moacir e Lucas, o Zé…Flores, flores e a decoração: éramos nós as meninas com nossos vestidos engomados a principal atração. Comprei vinte balões coloridos, enormes e fui prendendo nas portas e perto da lareira…. abri as duas portas quando chegou a hora. E de repente, um escapou e voou, o mais lindo balão… Caiu no canteiro das margaridas / depois fez um pirueta e voou… o meu balão. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2024 – Torres, mas poderia seria na rua Vitor Hugo 229 – Petrópolis – Porto Alegre
Autor: amorasazuis
Como às vezes a gente é feliz!
“[…] uma premissa principal da felicidade não é resolver contradições, mas fazê-las desaparecer, como se fecham as lacunas numa alameda comprida. E assim como por toda parte as relações visíveis se deslocam diante dos olhos produzindo uma imagem que eles possam dominar, em que o urgente e próximo parece grande e, ao longe, mesmo o imenso parece pequeno, uma imagem em que as lacunas se fecham e, por fim, tudo aparece numa redondez ordenada e lisa, assim também agem as relações invisíveis, de tal forma forma deslocadas pela pela razão e a emoção, que inconscientemente surge algo em que sentimos: quem manda aqui sou eu.” (p. 461) Robert Musil O Homem sem Qualidades Nova Fronteira – 1989 – tradução Lya Luft e Carlos Abbenseth
Alguns livros se atravessam na nossa vida e ficam… Estão enterrados tão fundo e sempre em ebulição. Este que eu cito – um tijolo dos grandes. Vou lendo aos pouco. Repasso, e volto, e anoto, e leio e releio e aprendo com personagens que semearam o que vivemos hoje.
Chuvisco feio. O tempo como sempre foi neste período. Acordava o verão com chuva. Eu me debruço na infância… As saudades dos verões se empilham. Tanta saudade de vida que nenhuma se sobressai: estão enoveladas… Saudades recortam, refazem, perfumam e assustam. Vida vivida. Gosto de respirar. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2024 – Torres
pensamento engasgado
Tem dia que atropela o pensamento / se é bom ou ruim… sei lá, o atropelado fica meio estropiado / surpreso. Pois, é. Pensamento atropelado se esfarrapa. E todas as respostas ficam mesmo engasgadas. Fim de outubro. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2024 – Torres
o novo
Já 29 de outubro de 2024 – terça-feira ensolarada – ou sem penumbra melhor dizer. E eu abrindo os olhos atrasada, mas em tempo para festejar o aniversário da Marina, ontem foi o da Suzana. Conversas matutinas, hoje espreguiçado dia. Quero pensar e escrever e dizer, ou fazer alguma coisa. Talvez faça panquecas ou sonhos! Sim, nós fazíamos aqueles açucarados! E as montanhas desapareciam com o café com leite! Que bom comer as fantasias! Bananas fritas com açúcar e canela! Estas gostosuras não eram interditadas e perfumavam as manhãs, também as tardes. Ainda estou devagar, ainda estou atordoada e sem orientação. E quero respirar. Quero caminhar. Quero estar. Hoje eu vou escrever um pouco, sobre nada. Escrever para chegar em mim. Aquela coisa de criança e de tempo, dos rabiscos. Aliás, vou usar todos os lápis de cor. Depois (pra não esquecer) arrumar as gavetas. Vontade de fantasiar a fantasia com camisetas novas, um vestido estampado solto, um colar de contas coloridas penduradas nas pérolas descascadas. Tem tantas velhas histórias penduradas no frescor da lembrança! Sim, hoje (pra não esquecer) vou limpar a casa e escrever pro meu amado. Tem mania de ficar longe / longe… Tudo mentirinha de esconder. Perto. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2024 – Torres
já 29 de outubro
De outubro enfeitado de coisa boa
Fico a pensar / ou quero assim, entrar na caixa como a Valentina, espiar pela janelinha, ou inventar um mundo dentro da caixa – caixas festas: grandes ou pequenas, festas. Esta coisa de 80 anos parece esquisitice imposta. Foi assim que Isabel resolveu não se ocupar mais da casa, das panelas e das podas, nem de roupas / qualquer roupa seria a boa. Enfiou uma calça bem larga, e ficou confortável, foi o que me disse sem susto. Resolvi o problema. Eu estava encolhida no canto, ainda tricotando, sem entusiasmo e pensando no tédio dos oitenta anos espichados. Precisava escutar o que ela dizia. Viajou para me dizer: trouxe flores, bolo e a lógica. Acertar os pontos. Sem comentar absolutamente nada de política. Sinto a cabeça rodopiando, um aperto no peito, as costelas se apertando, um sono ardido e complicado. Troco de cama. Sinto falta dos teus beijos que escaparam faz já uma semana.
Peguei as xicaras do chá / pinguei o leite. De fato, não sei que dizer pode ser acrescentar, colocar os pontos e as vírgulas, ou passar o pano… doem as contas, os olhos estão ardidos, a cabeça aperta. Um tumor, uma hora marcada para morrer, mas a droga disto tudo é que não quero morrer. Nem as fotos… quero é não morrer, mas, minhas decisões são insignificantes. Tenho rezado, mas rezar não altera, traz paz? Sei lá, ver / olhar pessoas. Uma pequena viagem para um hotel de repouso…talvez. Um hotel que tenha festa e dança. E eu dançarei com ssssssssssss sem pressa.
Preciso entender a janela, a porta fechada e as limitações / comer pão doce / um copo de leite com chocolate e um aconchego de vozes. Não vou descrever a sala, nem a estampa da minha blusa, nem as minhas sinistras intenções. Vou beber mais água / uma secura que pode ser diabete / ou um corpo novo no meu corpo assusta, estou com medo. O medo grita / fica sem voz, depois encolhe e logo quer se esparramar na maior cama…
Já 29 de outubro de 2024 – terça-feira ensolarada – ou sem penumbra melhor dizer. E eu abrindo os olhos atrasada, mas em tempo para festejar o aniversário da Marina, ontem foi o da Suzana. Conversas matutinas, hoje espreguiçado dia. Quero pensar e escrever e dizer, ou fazer alguma coisa. Talvez faça panquecas ou sonhos! Sim, nós fazíamos aqueles açucarados! E as montanhas desapareciam com o café com leite! Que bom comer as fantasias! Bananas fritas com açúcar e canela! Estas gostosuras não eram interditadas e perfumavam as manhãs, também as tardes. Ainda estou devagar, ainda estou atordoada e sem orientação. E quero respirar. Quero caminhar. Quero estar. Hoje eu vou escrever um pouco, sobre nada. Escrever para chegar em mim. Aquela coisa de criança e de tempo, dos rabiscos. Aliás, vou usar todos os lápis de cor. Depois (pra não esquecer) arrumar as gavetas. Vontade de fantasiar a fantasia com camisetas novas, um vestido estampado solto, um colar de contas coloridas penduradas nas pérolas descascadas. Tem tantas velhas histórias penduradas no frescor da lembrança! Sim, hoje (pra não esquecer) vou limpar a casa e escrever pro meu amado. Tem mania de ficar longe / longe… Tudo mentirinha de esconder. Perto. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2024 – Torres
a gente / nós / eu…
empurro a vida, ou deixo a vida acontecer e espero. a gente faz uma história? ou somos figurantes? de repente é seguir, seguir, e bordar, cozinhar, e plantar, pintar, dizer e escrever. como é mesmo que viver tem pressiona? ou força? atenção! não poço me deixar levar… tenho que fazer / temos que ser atores. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2024 – Torres
físico o cansaço / pesado emocional, medo?
A gente (ou sou eu?) desconhece o medo / ou sou eu que me esquivo do fácil, e complico? Fazer de conta / como no tempo das bonecas e da menina… Na luz do fogo da lareira o faz de conta da vida em chamas? Queimando? Não, claro que não. A chama ilumina e aquece. Devolve luz. A imobilidade do sonho vai dançar. Deve ser tudo coragem. A coragem se opõe ao medo. É como se contestam testamentos surpreendentes que não somam, mas subtraem. Existem estes ditos testamentos a proteger o óbvio? Algumas pessoas, muitas, se atravessam quando não tem outro recurso ou quando ganância pode ser qualquer coisa e também assim, como o ladrão não pensa no crime, pensa no momento, e entra pela janela aberta, pega o que pode e sai pela porta…Como nascem os testamentos… De histórias fabricadas. E a gente fica a pensar no certo e no errado. Na escolha e neste peso que somos submetidos… Abençoados advogados?! Sim, com eles contestamos. Podemos contestar e emperrar o processo. O mecânico decide se o carro vai ou não andar. Quem perde? Perde quem pensou errado. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2024 – Torres / não sei se faz frio ou calor / se a chuva veio para refrescar ou… se o calor…se a primavera venta ou sopra? Não sei mais nada.

barra de chocolate
Barra de chocolate / o bom conselho. O pote com bombons e a janela aberta. Comprei flores com talos pequenos, perfumadas: jasmim com margaridas e…
Eu me distraio. Olho inquietude. Passo as fronhas e os lençóis e imagino… O ideal seria fazer o esquema: as cabeças, as pernas e o volume do corpo. Inclinar o lápis. Comprei bons grafites. A mãe desenhava com firmeza, sabia usar cores. Era cenógrafa. Definia espaços com perfeição… Detalhes de beleza. Não adianta falar, dizer tanto. Há que respeitar a majestade do silêncio. A casa? Tapetes e cortinas, o bom cheiro da imaginação. Perfumada alquimia da cozinha. Quando penso a minha mãe lembro generosidade, nela, o gesto transbordava amoroso e cooperativo, nunca inútil. Inteligência é espelhar. No comando a luz sem medo, colorida a vida. Nunca preto e branca. Há que pulsar. Tá quieta a noite. Quieta. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2024 – Torres

entra no corpo
nenhum vento / nada se move. o corpo se agita imóvel… dor ou certeza. nada. o encontro vazio do nada. existe? Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2024 – Torres
pendurado no papel
Tem um risco visível pendurado no papel e uma urgência estacionada: inquieta e indecisa eu observo. Imobilizada pela dúvida. Escrevo três palavras, a quarta já se derrama… A Ônix quer explicar, não consigo entender. Vou desligar as luzes. Já é tarde. Amanhã penso na solução. Comprei lápis de cor e fiz desenhos na página do caderno e com os grafites macios eu brinquei. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2024 – Torres
Não organizei nada, nem comecei a escrever. Pensamentos emaranhados.