Voaria se pudesse

Se eu pudesse, verdadeiramente, me libertar do medo eu voaria. Não como Ícaro, acreditando em asas… Eu voaria pelos sentimentos, atravessaria os beijos e os abraços. Seria Eu na minha máxima potencialidade. Talvez, de volta a rua Vitor Hugo, 229 – e o gramado, jacarandás e ciprestes devolveriam minha alegria. Todos nós reunidos, meninas e meninos preocupados em dançar e flertar. Das memórias a vida real. Ontem imaginei que poderia voltar para casa, o apartamento da Avenida Independência e recriar o que chamaria minha vida, meu espaço. Ainda sinto uma dor enorme por ter perdido a minha peludinha Ônix como um aperto de culpa, de negligência, inconveniência da minha parte. EU responsável, ela tirana, mas dependente. Outra vez culpa e castigo como a literatura tantas vezes explicita. A vida contada como deve ser, em detalhes ou sopros, nunca real. Escrever tem este alívio, exala a particularidade da vida, ao mesmo tempo toda a artificialidade do esforço. Viver deveria ser natural. O bebê grita, e estranha. O útero, o conforto e o abrigo certo… Não podemos voltar. É preciso enfrentar. Cultivar a vida, ou o jardim importa. Sozinhos ou acompanhados. Os sons, as vozes, o movimento das calçadas, as bicicletas. Árvores. Pássaros e a água importam. Como seria entre quatro paredes com o vislumbre do céu, sem céu.

Lavar a roupa. Pendurar a roupa. Estar Em Paris, na Normandia, a França, o francês. As janelas. O entusiasmo. Sim, tens razão, viver é apenas um punhado de entusiasmo necessário, e saúde. Escuto o piano – a música responde. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2025 – Torres entre nublado e sol, sem chuva, sem calor, apenas o silêncio da Lagoa do Violão.

Gabo: Gabriel García Márquez

“[…] sua conversa era fluida e agradável, mas ela se sentia um pouco perdida, pois parecia falar não tanto para dizer, e sim para ocultar.” (p.87)

“Nem tão perto quanto você gostaria, nem tão longe.” (p.104)

“[…] tropeçou por acaso no olhar do homem.” (p.106) Gabriel García Márquez – Em agosto nos vemos

detalhe

no detalhe a beleza

Fotos da Ana Moog

Privilégio – olhou clicou… Detalhe e encanto. Quente / chuva e delícia de janeiro / da conversa – encontro, alegria: viva! E, por que não? Feliz. Saudade da Ônix, muita, muita, muita. Vou ter que apreender tudo outra vez… Ter animais é delícia. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2025 – Torres

Natal de 2024 e a visita

Esta sou eu, a mãe. Gostei: foto, destaque… Livros, o velho tapete, a imobilidade, a pose para o filho fotografar.

Natal desenhado. Escrevo devagar, saio da tristeza da despedida. Reencontro uma volta… O mar transparente e meu. Escolha de tantos anos! Quero contar esta história. E vou. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2025 – ainda Torres

Quando Pernambuco se aproxima, e estou com a Luiza.

Ana Maria e João se divertem para pousar… Esta alegria é boa.

Where is a will, there is a way

Máxima de Hudson: Onde há uma vontade, há um caminho.

A vontade brinca e sofre, ela nos dá tarefas e dificuldades, devaneios de heroísmo e de medos. Mas, por mais diversa que seja em seus impulsos e em suas façanhas, vemos que ela se anima a partir de imagens espantosamente simples e vivas. (p.185) Gaston Bachelard A Terra e os Devaneios do Repouso

Devaneio / vontade de repouso, terra: paz. Espirito estufado de encanto, de vontades e labirintos. Uauuu! Importa estar vivo e o amor brota dentro de uma visita amiga / de um sonho de estar sempre junto, este nunca ir (já tendo ido) -, este voltar e verificar. Beijar, abraçar, e sonhar numa conversa comprida, sem hora e cheia de expectativa… Coisas da vida de um verão quente! De uma noite bonita e dias alegres. É isso respirar! Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2024 – Torres (expectativas) Um feliz aniversário, balões e vontades coloridas, eu desejo, meu querido. Ainda em tempo, arrastando o tempo, antecipando. Um beijo.

TEMPOS MODERNOS

A travessia foi longa. Ninguém indaga de onde veio. Mal sabe os nomes do pai e da mãe. A história individual é uma mancha inexpressiva na paisagem do cotidiano. Somos todos narcisos. Vestidos de jeans, de camisetas que trazem inscrições estrangeiras. Cada qual um deus banal com andrajos, a pregar beleza e exigir aplausos. O mundo é o nosso espelho d’água. Refletidos na poça de lama, excedemo-nos na avaliação dos nossos méritos e perguntamos:

– Afinal, espelho meu, quem é mais belo do que eu?

A cada dia há que dar provas de engenho. Ao amanhecer livramo-nos dos farrapos, a que a vida nos condena, sem esmorecer. Ando pelas ruas com o coração em sobressaltos. Em busca daqueles arranjos humanos que denunciam o esforço feito e vencido. Para isso dispenso a tirania da estética, da absorção de modelos oriundos de uma visão fetichista dos objetos. Entrego-me modestamente ao difícil paraíso da emoção. [p.106] Nélida Piñon o pão de cada dia fragmentos

coisas ditas e pensadas / reconhecimento, encontro. paz de certeza

COMO ENSINAR É NÃO ENSINAR

Viver é ter consciência sem regras ou condicionamentos, nem deverias ou não deverias.

Escrevo apressada, mas envolvida. Prendo os cabelos com dois grampos. Molho as plantas no fresco da manhã. Entreabro as persianas. Dou uma espiadinha no mar… Gosto de estar em Torres e ter vida própria. A cerâmica vermelha encerada, o cheiro bom de limpeza. O gosto… Difícil entender as regras, condicionamento e pensamento que se interpõe entre um EU e um TU, entre um Eu e um Eu Mesmo. As coisas variam / mudam de lugar para lugar, de tempo para tempo. Romper elos, sujeita a cair em outra cilada. Reagir a convenção é ainda estar ligado a ela. Passando de uma opinião para outra, ainda estou no emaranhado: volto ao ‘deveria’, ‘não deveria.’ Consciência de ter, de fato opinião, é consciência: resultado do ato convencional, mas esquecido, de pensar. Atenção! Se tenho uma opinião fechada a respeito disso, estou, de novo, ainda presa, sem consciência ‘a música está alta e está me cansando’. Não é opinião, mas observação. Quero dançar abraçada, agarrada, colada em ti. É apenas uma ideia. Pensar é transitar entre ideias, opiniões: ouvir, ponderar, assimilar, vomitar, devolver a ideia fermentada, fazer nascer outra. É estranho! Viver com os fatos é mutável – viver com ilusão se torna monótono, repetitivo e tolo, confortável. Perder a ilusão é estar na realidade. Estranho! Viver com ilusão na esperança, na expectativa de que em algum momento, no futuro, amanhã não sinta mais tanto tédio. Outro caminho. Não está no mapa, e não pode ser colocado em mapa nenhum. O mapa é um caminho errado, caminho antigo. Pois é, não sei o que te digo. Queria tanto explicar! E conseguir chegar mais perto. O que importa? O lugar aonde seremos nós mesmos, sem pressões externas… Assim, venço barreiras, passo fronteiras, sem excesso, apenas sendo eu mesma.

Livros abertos ao acaso. Leitura vício. Não o que me adormece, mas o que me desperta… Através do teu olhar, troquei o excesso dos vestidos, pelo sapato. O essencial engolido pelo superficial: vida de vitrine, sem cheiro, sem suor: limpa e lisa. O problema é que o valor máximo, o dinheiro, corrompe e deteriora. Abafa. Não permite saborear ou pensar, ou ter ou entender o que significa o interior. Eu te amo. E constatar o amor muda tudo. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2024 – Torres se despedindo.

sonho

aquele sonho? sonho muitas vezes o mesmo. pequena história enrolada no desejo. faço a noite e arrumo o dia tomada de ternura. não estás aqui, mas vieste… vieste e vi teus olhos verdes serem azuis. amar foi natural. ser amada… desconfiada. sim. sempre um pouco desconfiada das palavras, das promessas, assim mesmo viajei no teu sonho, no meu. tanta felicidade! transborda para este magro hoje confuso, atordoado. alguém pergunta por ti…não sei aonde estás. estás. eu ainda te espero para o chá. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2024 – Torres

será que me esqueceste? segues sedutor, eu sei. saudade

quanto tempo!