do passado

Do passado este presente da inquietude. Esquisitice agitada. Quanto espanto! Eu me perco de mim mesma, de repente volto a mim -, o que se rompe não sei. Cômico, triste, sempre extremamente ansioso este sentir. Um rastro antigo, ressequido, pulverizado, um rastro de mim mesma. No momento em que toco não consigo espantar nem agarrar, continua a me espiar ali, intoleravelmente forte e… Estas coisas do passado, presentes, agora, por quê? Estas ansiedades. Este medo que tenho que algo aconteça e eu já não posso fazer nada. Nem socorrer, nem sarar.

Os livros, as intermináveis leituras e releituras que se movem… as citações importam, sempre vão existir. São trilhas importantes.

” Sempre me alegro ao ver sua juventude, beleza e força, e depois a escuto dizer que não tem energia nenhuma! nossa época de qualquer modo transborda de energia. Não quer mais pensamentos, somente ações. Essa terrível energia nasce apenas do fato de não termos nada a fazer. Interiormente, quero dizer. Mas afinal, exteriormente, qualquer pessoa repete a vida inteira uma única ação: entra numa profissão e avança dentro dela Acho que chegamos novamente à pergunta que você me fez a pouco, lá fora. É tão simples ter energia e tão difícil procurar um sentido no emprego dela! Hoje, pouquíssimas pessoas percebem isso. Por isso, os homens de ação parecem jogadores de boliche, que, com gestos napoleônicos, conseguem derrubar nove pedaços de pau. Eu nem me admiraria se no fim caíssem violentamente uns por cima dos outros, apenas porque não entendem essa incompreensível verdade de que todas as ações do mundo não bastam!… […] Na verdade, não deveríamos exigir ações uns dos outros, mas primeiro criar pressupostos: é isso que eu sinto.” (p.527) Robert Musil O homem sem qualidades

Robert Musil 1880- 1942

Penso! Pensar importa embora seja um ciclo / não, não é um ciclo, mas o pensamento é ação, quando a gente se põe a observar, pensar ou ler, faz acontecer…

não, ela não se importa

na verdade ela não se importa com ele, com o destino, nem quer saber como e de que forma, definitivamente, poderia ajudar. atende as urgências, mas não consegue fazer com que seja prazer ou alegria, ou conquista… pesa como um castigo, uma dor, um fracasso.

estas medidas de fazer, de querer, de ser alguém para alguém atravessam mistérios de amor… algumas pessoas conseguem outras não.

o amor, o sentimento de pertencimento, de gratidão, de doar-se são caminhos pedregosos… e consomem o que a média das pessoas entende por boa vida: sem responsabilidades pesadas, bastante dinheiro, leveza, e ócio. beijos e abraços, muitos beijos… sucesso, beleza. como se definiria amor? como amar de verdade um alguém que deseja / precisa de amor e de entendimento de vida. e de quem o faça renascer. quanta confusão no que se entende por ser feliz. uma maratona de equívocos e ausências, engodo. e eu não sei explicar. qual foi meu caminho nesta vida… afinal, eu vejo a pedra rolar, eu vejo…, e não estou fazendo nada. não consigo sair do lugar. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2024 – Torres

amor novo

“Perguntem a alguns que é o amor e será nada mais do que uma brisa murmurando entre as rosas e se desvanecendo depois. Mas também é muitas vezes como um selo inviolável que dura a vida inteira, dura até a morte.” (p.120) Knut Hamsun – Vitória

Knut Hamsun (nome real Knut Pedersen), nasceu na no vale Gudbrand na Noruega, em 4 de agosto de 1859.

“Ah, que era o Amor? Uma brisa sussurrando nas rosas; não, uma fosforescência amarela no sangue. Amor era música quente como o inferno, que impele até os corações dos velhos a dançar. Era como a margarida que se abre à chegada da noite, e era como a anêmona que se fecha a um sopro e morre a um toque.” (p.41)

Anêmonas lembram meus dezoito, ou dezesseis, ou eram dezessete anos? Recebia flores e mimos, era fácil, alegre. Tão bom viver! Tão natural e doce. Margaridas me lembram de ti -, deste agora no sítio, com os cães, com teu jeito distraído de ir e vir. Das corridas do teu amor. De ti… Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2024- Torres

surpresa

Surpresa, susto! de repente! Dia de empacotar, passar as fitas, escrever bilhetes. Comer bolo de chocolate, gostosuras. Depois, depois me surpreender. A velhice é mesmo muito velha: esquisito constatar. Então, eu converso contigo! Tu me olhas sem surpresa e falas, e falas. Escutar o que dizes acalma o passado, organiza o dia. Eu te ofereço um cálice de vinho. Rimos os dois. Este agora é um presente cheio de guizos e com nossas expectativas de meninos. Quase Natal! Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2024 – Torres

amor possível

[…] o que será uma viagem à beira do possível, passando e talvez nem sempre apenas passando pelos perigos do impossível e ante natural, ‘um caso limite’ de validade limitada e especial, lembrando a liberdade com que a matemática, por vezes, se serve do absurdo para chegar a verdade. (p.541) Robert Musil – O homem sem qualidades

Assim eu posso ir ao teu encontro, esquecer que o tempo, o bom tempo passou, com ele a beleza, mas estamos vivos, tu e eu. Depois, amar tem mesmo a perda definitiva, passos silenciosos, e aquele vazio. O desejo saciado. A volta ao nada de ser apenas eu. Sim, estaríamos deitados, silenciosos e quentes. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2024 – Torres

Tudo isso estamos a viver, tu e eu…

cinza, amarelo e azul

Cores de amar. Da despedida. Amar é deixar ir… Depois lembrar: sentir. viver outra vez. Onda de ir e vir. Cinzenta, depois azul, verde e amarela também. Todos os pincéis se movimentam nas tintas a se misturarem. No sonho. Volta o ontem, tão agora! Tão presente! A saudade se despede devagar, lenta… Ela vai saindo do agora, tão presente no amor! Inteiro na lembrança boa, cinza. Eu vivi e foi tão bom! Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2024 – Torres

múltiplo

Descrições, conversas. Confissões, danças e segredos se misturam. Domingo quieto, enfeitiçado pela ordem, por este novo desejo de tudo limpar, perfumar. Domingueira da cumplicidade. Andei procurando nas caixas aquela Beth alegre, e confiante. Jesus! Depositei tanta energia em relações quebradas e surpreendentemente insignificantes. Poema mediocre, vaidade exacerbada. Quebrei uma imagem praiana que brilhava. Terminou. Talvez devesse ser mesmo assim… Findas, acabadas devem ser extirpadas. O encontro é sempre no hoje, no agora. Não conseguimos trazer as lembranças com vigor. Pálidas, desfiguradas ficam diante da expectativa de vida. A vida é hoje! Hoje é apenas um vento sacudindo os jasmins. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2024 – Torres

Ando / tenho / preciso reencontrar o vagar espaçoso e voltar a escrever corrido, escorregar pela memória para deixar escrito o sentimento. Não passam de sentimentos revisitados, sublinhados…Muito bom amar!

caça as bruxas

quem são as bruxas? aonde o feitiço? como dançamos o som destes tambores? o começo e o fim, aonde o meio?

de vez em quando esquecemos de ver e ouvir, e não conseguimos falar. mas exatamente nesses minutos, por instantes recuperamos a lucidez.

e penso que minha lucidez, minha atenção, meu tempo começa a se esticar desnorteado. corro para os livros e volto, imediatamente, para as citações que me fazem refletir, respirar e voltar:

“Durante esses dias estive particularmente inquieto. Ora me sentava um pouco, ora andava de um lado para outro pela casa. Era como um sofrimento, mas antes se deveria chamar doçura do que sofrimento, pois não havia aborrecimento naquilo, mas uma sensação singular e muito sobrenatural de bem-estar. Eu superava todas as minhas capacidades, chegando à obscura força. Então escutei sem som, vi sem luz. E meu coração se tornou algo sem fundo, meu espírito informe, minha natureza insubstancial.

Os dois acharam aquelas palavras semelhantes à inquietação que os impelia pela casa e pelo jardim, e Ágata ficou surpreendida por também os santos chamarem seu coração de algo sem fundo, e seu espírito de informe; mas Ulrich logo pareceu retomar sua ironia costumeira.

Os santos dizem: um dia estive encerrado e então fui arrancado de mim e mergulhado em Deus sem saber.” (p.534-535) Robert Musil O Homem sem Qualidades

assim tomo emprestado um texto, um momento, sigo, eu também, uma voz e recomeço a jornada que me encanta por conta das margaridas, do excesso de luz, e excesso de vento, e excesso de mar, e excesso de beleza… e dou a minha mão… Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2024 – Torres

picotada vontade

A vontade picotada, uma surpresa boa. Pera flambada, alegria descompromissada. A boa comida e a fidelidade. Felicidade certa. Fico a pensar que toda a certeza certa transborda. Coisas de boa memória. Se inventada ou real, alimenta. Pequenas descobertas: copos de vidro pintados à mão, delicadeza nunca esquecida. Assim entrei na vida carioca: saltitante, confiante. Embora minha juventude causasse certo estranhamento. E todas as certezas ficaram à descoberto, expostas. Temerária eu fui. A lua perto do Cristo Redentor, o sol quente entrando naquelas tardes ferventes. Para tudo a solução da juventude, uma certa aceitação natural, então felicidade. Não fiz escolha, fui fisgada, em todas as ocasiões fisgada. Sair parecia sempre mais fácil. Entrava, caia e depois conseguia sair… Recomeçar. Acho que não há tempo, idade para recomeçar. Sair pode ser o mais difícil porque exige a disposição de abrir a porta, fechar e sentir o temporal do jardim, do mar, das ruas alagadas. Uma aventura. Aventuras nas telas de cinema, na televisão, na vida real, medo. E a gente foge do medo. Olhar nos olhos do medo, um desafio. A gravidez é uma destas felicidades cegas. Um estranhamento. A paternidade, um susto! Escrever um livro, pintar um quadro, esculpir o sentimento. Tão difícil! As cores nos confundem, as linhas atrapalham… O que nos salva e define? O sentimento. O sentimento sentido, vivido. doído. Então eu vivo! Não é surpreendente? Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2024 – Torres

Dezembro majestoso, não quente / os dias se fecham para este ano estranhado por espantos. Tão surpresa, tão manso! Preciso ver o mar, outra vez o salgado das águas. Desatrelar o atropelo deste desejo engasgado de ser feliz. Preciso apenas existir na tua memória como tu existes na minha. Boa memória flambada de amor. O nosso.