O que estamos escrevendo é sempre cego. Não podemos saber na hora se está ficando bom ( se depois, retornando-o, o julgaremos realizado ). Nós simplesmente o vivemos, e é claro que as astúcias, os expedientes que já empregamos, são outro estilo composto de antemão, estranho à substância do atual. Escrever é gastar os maus estilos, empregando -os. Voltar ao já escrito para corrigir é perigoso: seria justapor diferentes coisas. Então não há técnica? Há sim, mas o novo fruto que importa está um passo adiante da técnica que conhecíamos, a sua polpa é que aos poucos vai nascendo da pena, sem sabermos. Conhecermos um estilo significa termos desvendado parte do mistério. E que daqui por diante nós nos proibimos de escrever nesse estilo. Chegará o dia em que já teremos trazido à luz todo o nosso mistério e então já saberemos escrever, isto é, inventar o estilo.(133-134) Casare Pavese O Ofício de Viver
Autor: amorasazuis
O que faz o encanto desta existência tão despida e tão vazia aparentemente!
A liberdade. (p.216) Henri-Frédérique Amiel Diário Íntimo
…e ele segue maravilhosamente bem a descrever a mansarda e se deliciar escrevendo no diário. “É antes o que suspira e que desejaria mais e melhor. Mas o coração é um glutão insaciável – já se sabe – e, além disso, quem não suspira? É o nosso destino, aqui na terra. Somente, uns se atormentam à procura de satisfação, sem nada conseguirem; outros ao resultado se antecipam. e se resignam fazendo a economia de esforços estéreis e infrutíferos. Já que não podemos ser felizes, por que nos preocupar tato? Convém limitar-se ao estritamente necessário, viver de regime e abstinência. conter-se um pouco e dar valor somente à paz da consciência, ao sentimento do dever cumprido.” (p.216-217)
Um tanto pessimista pode ser, mas um tanto verdade escrita e saborosa de 1847. Reflexões lúcidas, não festivas. A vida é todos os dias tanto quanto nenhum dia. Beijos e abraços, mas tão fortes porque existe, é claro, a ausência, o contraponto.
E ainda diz / escreve:
Eis por que é tão fatigante viver. O eterno recomeço é fastidioso até o enfado.
Mas, penso, cá entre nós, este eterno recomeço e estas coisas todas, bem negativas, são iluminadas por uma alegria lá de dentro – plantada – porque viver é maravilhoso – as mágicas são diárias! Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2024 – Torres
excesso e incerteza
não sei usar o não vou / não faço / não gosto/ basta e pronto. decisões banais como quero bananas não maçãs / se me oferecem as duas, com ênfase / bá! / fico vermelha, aceito. não é timidez, como me disse um amigo, mas dúvidas mesmo. viver por inteiro o amor, a raiva, discutir o sim ou não, tomar posição… resolver. não consigo, vou pegando um atalho, escondo o braço, depois corro, e não enfrento. e se alguém sugere ou quer ajudar, debater, lá vou eu na corrida, de frente, raras vezes uma resposta. o sim dos casamentos… foram ditos, mas depois, o resolução / a saída, foi correr, não resolver. a decisão de sair correndo… (bom, de certo, esta basta) bem, pode ser positivo, sei lá… deve ser assustador conviver com uma pessoa como eu, tão bom escutar as certezas do outro…decisões que ‘chegaram’ do nada, se fizeram sozinhas… mas chegar a um acordo, por que tão difícil. credo! sou assim? transparente, não tenho imagem. medo de vencer, e medo da derrota. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2024 – Torres
banalidades idades banais
A vida ensina com fatos / com empurrões e beijos… Expectativas nos alegram… decepções estão acontecem dentro: golpes internos. Tentamos justificar e ou distanciar da coerência ou abraçar. Que exaustão!
Afeto e indiferença estão no picadeiro. Este circo conhecemos… Que canseira! Escrever e ler acontece fácil saber. Usar o S ou o C ou SC ou SS ou Ç ou ou ou… Difícil! Tudo mora nos detalhes, pois é. Pensar também se encolhe, estica ou se espreguiça, nos detalhes! Amigos e amados amores. Depois chegam os filhos e os netos e os bisnetos… A família se estica! Aquela coisa de saber de onde viemos, e, afinal, o fim, o destino… ARTE eterniza? AONDE está a eternidade? A dos sentimentos? A inquietude cresce. Estou a escrever um pouquinho. Lavar a louça, espanar, varrer, cozinhar. Abrir e fechar janelas, tão fácil! Esquisitices e banalidades, a essência. Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2024 – Torres dentro do frio e dentro da terça-feira sonolenta.
caminho perdido
o olho que tudo vê transforma, o bloqueio se faz e a doença se desmancha pela terra. cai o avião e tudo o mais conversa com a morte /paralisa, depois tropeça. estas tristezas… o que sempre houve se minimiza porque a vontade de mudar /fazer e ter outra coisa que não eu mesma…uma filosofia ilusão e difusa. esquisito que perder as palavras… perder as palavras, sentir na garganta o esforço. os outros cavalgam dentro das nossas veias, não há repouso. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2024 – Torres
amoras azuis amores
amados presentes e histórias
conversar o passado e tocar, gentilmente no hoje, sem conclusão…
Uma CONVERSA! Descobri que aquela LATERAL da janela não fecha como deveria. Esta fresta deixa ver fitas roxas e verdes, amarelas e brancas, as pretas e as cinzas… Elas se esparramam pelo assoalho. Conversas agregam cores. Qualquer embate me deixa exausta. Amanhã estarei outra. Hoje foi difícil! E.M.B. Mattos – agosto de 2024 – Torres
querido
Não sei como te responder quando perguntas do meu dia. O dia me assusta quando chega. Vou espiando, e aceito. Então, faço a tal caminhada curtinha… Passo o café – a hora do café preto com pão e manteiga. Hora de beber água, de pensar o dia. E fico a janela. Segue bonito aqui. Ônix também envelhece, envelhece muito e tanto… Penso no teu abraço, no teu olhar derramado. Teu jeito quieto. Lembras o quanto eu era agitada: falava atropelando. Um rádio apressado a despejar notícias. Com os olhos, rias de mim.
Hoje me dei conta do quanto sou dispersiva. Começo mil coisas ao mesmo tempo. Agora, vez que outra, esqueço de descascar o alho e já estou cortando a cebola… Depois pego o as borras de café pro jardim, e vou molhar os canteiros. Sento. Lembro do feijão. Do que pretendia dizer para a irmã. E me repreendo porque não arrumei a cama… Coloco roupas na máquina de levar…
Sento para te escrever. Estar contigo importa mais do que qualquer coisa. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2024 – Torres

mãos e o corpo inteiro, ora…
Rosto com rugas do tempo, mãos conversam… Voz define. O que estou a escrever? Não sei. Estico a palavra. e penso. Penso que eu, a tal ElizaBeth existe. Na memória de uma pessoa / um alguém que não esqueceu. Se me esqueceu, já não existo. A tal invisibilidade. Somos substituíveis. E aquele sorriso, aquele que eu penso, não o da fotografia, mas o que eu penso é que existe. Existe na minha / na tua imaginação. Contudo, todavia, assim mesmo, nada é exato /preciso ou completo. Faz sentido? A ideia, a possibilidade a leitura de quem eu sou está no outro… Faz sentido sim. A fotografia, o instantâneo congela o dia. A imagem se simplifica. Claro, temos o enredo do olhar. Não preciso mais descrever a cadeira, o copo, ou as flores, catar palavras, pensar na ortografia, na gramática. Fotografo com filtro, sem filtro. ou deixo de ver… Se escrevo e não coloco imagem, pronto… Não existo. Continuo / posso estar na minha pequena história inventada bem refestelada nas imagens / mas nas palavras? Acho que não. Não sou eu, mas a tecnologia. Então a mistura e o infinito ficam na imagem. Ontem vi os barcos / ou navios lá depois da Ilha dos Lobos… o mar? O mar, meu querido, estava lindo! E lembrei que tu também pensaste em morar em Torres, um dia. Mas sabes de uma coisa? O bom foi dançar em Torres. O bom foi aquele movimento todo que nós fazíamos pelos corredores da SAPT / os filmes que víamos nas cadeiras duras que se mexiam… E colecionar ingressos para votar em quem seria Rainha ou Princesa. A importância do voto. E depois dançar. Tinha idade certa para entrar na boate. Agora, querido, eu te confesso: o corredor e as espiadelas valem mais do que qualquer beijo ou abraço. Bom ter um namorado. Sempre foi bom namorar. Fui ver o mar numa volta e encontrei a nossa meninice. Pois é. Éramos meninos felizes. Então, tens razão, vamos celebrar a vida. Um brinde! Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2024 – Torres
Torres na nossa memória, como ainda vive: um balneário de veraneio. Atravessamos a estrada poeirenta, três balsas. E caixas abarrotadas de mantimentos. Era o verão… Éramos nós chegando para festejar. Nostalgia faz parte. Para JMCLTDFGJAK

ler relação intensa
a leitura pode ser promíscua / intensa, até dolorida. sim, se trata de paixão. não são leras, frases, mas paixão: a pessoa se entrega e revira a cada explosão de prazer. e fica diferente, mutação. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2024 – Torres como uma foto, o gosto, a somra, o claro escuro – tudo acontece na leitura