tão triste! desolado descaminho. tão triste! o peso da desesperança numa facilidade devastadora. e o sangue se mistura com o desamparo da dor. corredor cinzento em direção ao nada… este teu vazio preenchido e desolado. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2024 – Torres
Autor: amorasazuis
“A vulgaridade prevalecerá”
A era igualitária é um triunfo das mediocridades. É doloroso, mas é inevitável e é uma desforra do passado. Depois de haver-se organizado sobre a base das dessemelhanças individuais, organiza-se, agora, a humanidade sobre a base das semelhanças, e este princípio exclusivo é tão verdadeiro quanto o outro. A arte com isso perderá, mas a justiça ganhará. Não a lei da natureza, o nivelamento universal, e quando está no mesmo nível não está tudo acabado? Tende, pois, o mundo, com toda sua força, à destruição do que criou. A vida é a cega busca da sua própria negação; como se disse do malvado, também ela faz uma obra que a engana, trabalha para o que detesta, tece a sua mortalha e amontoa as pedras do seu túmulo. É muito natural que Deus nos perdoe, pois ‘Não sabemos o que fazemos.”
[…] não é impossível que a soma da força é sempre idêntica no universo material, e dela apresenta não uma diminuição ou um aumento, mas metamorfoses, não é impossível que a soma do bem seja em realidade sempre a mesma e que, por consequência, todo o progresso num ponto se compense em sentido inverso num outro ponto. Em tal caso, jamais deveríamos dizer que um tempo e um povo superam absolutamente um outro tempo e um outro povo, mas em que há superioridade. A grande diferença de homem para homem estaria então na arte de transpor de si mesmo o máximo de força mental disponível para a vida superior […] (p.247) Heri-Fréderic Amiel – Diário Íntimo

Estas conversas encadeadas que repetem os sentimentos e as impressões. Pensar escrever pensar / ir e voltar. Qual o espaço certo entre viajar e ver / olhar paisagens, perfeições e extraordinário viver a contrapor com a mesmice de sermos nós. Se sabemos quem somos… Sim, de repente, eu me pergunto por que escolhi isso e não aquilo, porque amei os vermelhos quando os amarelos me perseguiam, quando conheci o verde e o azul. Misturei o tempo e os personagens, encobri aquele encontro, escancarei o teu olhar, amei e depois, eu me afastei… Por quê? À esquerda do passo, ou sempre a direita? O aconchego de ser ou a turbulência de todos? Este acerto na negativa da luz: a fotografia. Houve um tempo de fixar / reter e a estranheza do beijo. Enquanto não acerto o calor neste inverno, vou testando a saudade. E nem sei bem do que sinto saudade, se és a sombra, não és o vinho, nem o gosto, mas a possiblidade. Elizabeth M.B. Mattos – julho – dia 12 neste gelado praiano, gelado – 2024

livros que ainda poderei ler
“Gosto de saber que existem livros que ainda poderei ler – ela diz, certa de que à força de seu desejo devem corresponder objetos existentes, concretos, mesmo que ainda desconhecidos. Como acompanhar o passo dessa mulher, que sempre lê outro livro além daquele que tem diante dos olhos, um livro que ainda não existe, mas que, dado que ela o deseja, não pode deixar de existir?
O professor está ali a sua escrivaninha; suas mãos suspensas emergem no cone de luz de uma lâmpada de mesa, ora suspensas, ora pousadas de leve sobre o volume fechado, como numa carícia triste.” Li tua carta com ansiedade e certa tristeza porque ela não era escrita para mim, não estabelecia nenhuma intimidade, nada era teu ou meu: circunstâncias gerais, o exercício do tempo enfiado, comprimido numa carta. Assim mesmo o prazer do teu nome, o teu enviado modifica tudo. O dia fica inquieto dentro de mim. E eu vou depressa me olhar no espelho, e me aperto um pouco mais na blusão azul, passo batom e verifico se o cabelo está arrumado, as unhas irregulares… Suspiro enquanto coloco um pouco de perfume e me preparo para uma caminhada curta, mesmo no chuvisco. Ônix se entusiasma com os preparativos. Olho pela janela e vejo uma chuva miúda num dia cinzento. E eu confirmo: vamos. Quando voltar vou reler e reler para ler alguma coisa presa entre vírgulas que seja o meu beijo, o teu gosto.
“Ler – ele diz – é sempre isto: existe uma coisa que está ali, uma coisa feita de escrita, um objeto sólido, material, que não pode ser mudado; e por meio dele nos defrontamos com algo que está presente, algo que faz parte do mundo imaterial, invisível, porque é apenas concebível, imaginável, ou porque existiu e não existe mais, porque é passado, perdido, inalcançável, na terra dos mortos… – Ou talvez algo que não está presente porque não existe ainda, algo de desejado, temido, possível ou impossível – diz Ludmilla. – Ler é ir ao encontro de algo que está para ser e ninguém sabe que ainda será…-Pronto, agora você vê a leitora debruçada e perscruta além da margem da página impressa o despontar no horizonte de navios vindos para salvar ou para invadir, as tempestades… – O livro que eu gostaria de ler agora é um romance em que se narre uma história ainda por vir, como um trovão ainda confuso, a história da verdade que se misture ao destino das pessoas, um romance que dê o sentido de estar vivendo um choque que ainda não tem nome nem forma.” (p.78-79) Italo Calvino Se um viajante numa noite de inverno –São Paulo- Companhia das Letras, 1999
Esta data – 1999. Por onde anda este ano e estas pinturas, os desenhos e as tintas. Aonde escondi minha vontade e a lucidez? Releio tua carta. Lúcida. Precisa. Nenhum erro. Impessoal. Ou sou eu mesma que me perco na pieguice do romance como se todos os dias tu pudesses pensar que poderia ter sido. O mundo, este danado mundo que não muda nada…, não se reinventa embora o inverno esteja mais frio e os verões mais escaldantes, e as pessoas mais inquietas. Queria te dizer, parecemos passarinhos, uma gritaria num momento de falar todos ao mesmo tempo, uma correria, e um ninho feito no capricho, para poucos. O que eu espero destes dias arrastados? Aventura? Descoberta? Beijo? Risadinha e liberdade? Um café na rodoviária: redescoberta dos restaurantes do Mercado Público? A liberdade? Embora o tempo não esteja a nos esperar, eu visto a coragem e saio a caminhar pela rua Vitor Hugo em direção, em direção ao teu acaso. A minha relação com a vida é feita de coisas não levadas a cabo e meio esquecidas, daí o mal – estar que acaba por me fazer fugir. A diferença, hoje: o acaso é uma risada perdida… Eu desenho as casas, as flores pequenas, uso todos os lápis coloridos, e depois, passo o dedo para espalhar a cera… as cores se misturam, e desenho outra flor no borrão, outra casa e defino um caminho. Talvez, talvez o teu próximo bilhete tenha apenas o meu nome em cima, um beijo e o teu nome. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2024 – Torres – os selos comemorativos do tio Clóvis chegaram.


ciúme
A memória atropela o presente: uma esquisitice da vida: o hoje, o agora, o amor presente, ciúmes do amor passado do ontem. É uma dinâmica esquisita. A exclusividade, o sempre M E U, rastreou o mundo… O que pode ser repartido? Ou exclusivamente, meu. Propriedade privada, sem coletivo. O coletivo é uma invenção? Uma evolução? Ainda não temos certeza… Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2024 – Torres

talvez talvez talvez
Um nome pode ser mágico -, como ele assumiu a magia toda? Eu o desenhei um milhão, não, mas cem vezes -, enchi uma folha de caderno, outra do bloco…
“Talvez”, pensara eu, enquanto suas palavras ainda pairavam no ar entre nós, como a fumaça de um cigarro – um pensamento fadado a esvanecer-se e sumir como fumaça, sem deixar rastro -, ” talvez todos os nossos amores sejam apenas sinais e símbolos; palavras soltas rabiscadas nos mourões e calçadas ao longo da árdua estrada que outros palmilharam antes de nós; talvez eu e você sejamos símbolos também, e essa tristeza que às vezes surge entre nós nasça de uma desilusão em nossa busca, com nós dois forcejando um vislumbre da sombra que sempre desaparece ao dobrar a esquina um ou dois passos adiante de nós.” (p.277) Evelyn Waugh Memórias de Brideshead
Símbolos / fetiches / pedacinhos preciosos que montam parte do quebra-cabeça… Eu acho, sem certeza, eu imagino que seja assim… Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2024 – Torres

o gelado está escondido…
Histórias amarradas na desistência: maio 1995 / pode ser tão passado assim?, não. Foi ontem que te amei. Tanto!
Na nossa idade F., nós não temos mais o direito de ser cruel ou mentiroso. Na nossa idade F., não esperamos pedidos de casamento mas a idoneidade e a seriedade, importam. No meu limite. Teu jogo aberto e eu quis acreditar que podia ganhar… A gente sempre quer ganhar. Eu me apaixonei por um beijo. (risos) Carente e solitária Sem forjar, sem mentir! (eu acho! as mentiras se escondem dentro das dobras). Poucas histórias para contar, poucas para esconder. Não sou herói nem mártir. Sou / estou apaixonada. Idiotamente apaixonada. Um beijo para acalmar minha ira (sabias), o infantil. Dou um basta, esta desordem interna quebra o meu melhor… Vou sentir saudades tuas. Sempre sinto saudades tuas. Oxalá eu volte tranquila ao silêncio. Ao silêncio da tua voz, ao silêncio de teu toque. Esquecer rosto, mão e sexo. Eu me joguei nos teus braços, e tu me seguraste. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2024 – Ainda Torres.
tremor
não posso soltar a corda / uma hecatombe? sei lá…esquisita sensação de impotência.
escala de valor
“Nas diferentes partes do mundo os homens encaram os acontecimentos pelos próprios padrões duramente adquiridos, e os julgam, teimosos e confiantes, unicamente pelas suas próprias escalas de valores e nunca pelas dos outros.
E apesar de não existirem muitas diferentes escalas de valores nesse mundo, temos porém algumas: uma para avaliar os acontecimentos próximos e uma outra para os acontecimentos distantes; as sociedades mais antigas têm uma, e as sociedades jovens têm outra; pessoas mal sucedidas têm uma, e pessoas bem sucedidas, outra diferente. As escalas de valores divergentes se esganiçam em tons discordantes, deixando-nos aturdidos e confusos e, para não sentirmos dor, afastamo-nos de todos os outros valores, como se faz quando se encontra a loucura e a ilusão e, confiantes, julgamos o mundo inteiro pelos nossos próprios padrões domésticos. Por isso consideramos maior, mais dolorosa e menos tolerável não a catástrofe que realmente é maior, mais dolorosa e menos tolerável, mas aquela que nos afeta mais de perto.” (p.44-45) Alexander Solzhenitsyn Uma palavra de verdade…
O que é verdade, o que, de fato, move minha vida e meus sentimentos? Já não sei mais… quando menina, quando jovem eu tinha tantas certezas! O que não acontecia, certamente, era apenas uma espera, aconteceria. O mundo estava em boas mãos: seria decidido o certo. Em japonês, holandês ou francês, português desejávamos apenas, A P E N A S (penas?) fazer o certo, o correto… Ou estou imaginando?
Céu cinzento / frio gelado, silêncio assustado. Aonde quero estar? Eleições importam. Mas a gente quer mesmo saber o que vai acontecer? Tenho uma ideia precisa do que aconteceu? Ou apenas meu quintal, minha sacada, meus vasos de flores, minha voz, meu passeio… M E U e ponto. Ponto final depois do possessivo. Pensar dá uma exaustão! E tentar entender o pensar mais difícil ainda. As imagens se alteram, e as vozes se misturam. Teremos eleições. Eu penso? Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2024 – Torres (por aqui cinzento e atrapalhado)


perfume de saudade
Dia de inverno / inverno das horas de menina… Tempo do tempo de imaginar sonho e comer doces e gordas laranjas . Lareiras crepitando… Ponta dos dedos gelados e o piano enchendo a sala. Aquecida por teu sorriso e pelo teu abraço. Mantas coloridas espalhadas pela casa: hora do livro, e teclar… Poderia / deveria ser a Hemington! Poderia ser sem rugas. Apenas inverno. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2024 – Torres
Dizem que os velhos adoçam, eu criei espinhos – envelhecer veio como ponto errado do doce…

lenta para entender
Estou lenta . Máquina e desgaste. Majestoso cansaço. A percepção, o sentimento… Falta o motivo, a voz. Escrever ficou arrastado e… Nunca a palavra cansado foi tão misteriosa e poderosa. Estou desmotivada. Acordo e já o corpo reclama. Mas eu dormi. A preguiça não desgruda: canta canta canta. É devagar este adeus. Perco o evidente. A xícara do pires. A tal alegria da risada. Ficou pesado. A desconexão! Sem desafios. Sem livros a serem lidos. Sem memória. Um enjoo. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2024 – Torres