1940 menos, menos

1950 também menos pessoas menos animais domésticos. Menos com menos, pode ser mais… Educação (gentileza) mais e menos petróleo / menos plástico. Não tão apressado, não instantâneo. Menos estrelas, mais olhar e paciência. Menos ganância e mais, muito mais carinho. De solidão sempre se soube… É de dentro a grande solidão… Gentileza e doçura, também deve ser de dentro. Não sei. Quantos trambolhões! Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2024

olho no olho

Voz a dizer sem pejo. Esta tal camouflage do charme… É mesmo pelas beiradas. Sei lá o motivo – muitos anos cobrem os devaneios das conquistas – quando Torres tinha um pequeno campo de pouso e nós inebriados pelas férias e aquela liberdade inteira para usufruir, sem olhos vigilantes, usufruíamos apesar do olhar vigilante da Dona Carmem no fundo da boate Marisco. Nós usufruíamos. Nós dançávamos até meia-noite como a Cinderela, sem nos transformar em abóboras. Tu acreditavas / eu acreditava em olhares, intenções e futuro. Estas histórias ficaram. Transformadas em ‘gente grande’! Um monte de fatos nos atropelaram… Éramos tão estupidamente jovens! E amigos: e todas as nossas vontades amontoadas também almoçam no Club aos domingos, não lembro se jogavas golf / acho que não, nem cartas. Não lembro. Bebíamos coca-cola. E nos verões tínhamos Torres. Fomos caminhando… Chegamos não sei bem em qual cerca. O limite gritou. Nós paramos. A história seguiu – agarrou os filhos, definiu luas e infernos. E um dia (neste ano, ou fim do ano passado?) descobrimos a confissão do beijo. Mencionado /falado com naturalidade. Itália? Torres? Estranha surpresa! Todos nós sabíamos: o jogo era apenas sedução, ou parte, ou fantasia. Não era? Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2024 – Torres (ainda)

não dizer nem fazer

Acontece, silêncio grande, mas sem culpa… Apenas silêncio silencioso e quieto. Ela se foi deste jeito: entre obrigada, perdão, ou qualquer coisa… Era renascer / ou adeus definitivo, não sei explicar! O que eu imaginava / ou pensava? Imaginei tudo acertado -, tantas conquistas e risos e permissões, coroamentos. Estava com a vida no desvio. Às vezes, muitas vezes, apesar dos esforços, o sonho se desvia, sai do mar, se coloca de costas para a onda. E vai em direção a terra, sem viagem, apenas atraca naquele porto certo. Foi o que fiz. Fiz o que era preciso… Eu acho. Estas confissões estes acertos não são confessáveis. Todas as terapias do mundo não desvendam nem arrastam estes segredos, ou não seriam segredos. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2024 – Torres em capítulos

Roland Barthes

“Vejo fotos por toda a parte, como todo mundo hoje em dia; elas vêm do mundo para mim, sem que eu peça; não passam de ‘imagens’, e seu modo de aparição é o tudo-o-que-vier (vou-tudo-o-que-for). Todavia, entre as que foram escolhidas, avaliadas, apreciadas, reunidas em álbuns ou revistas, e que assim passaram pelo filtro da cultura, eu constatava que algumas provocavam em mim pequenos júbilos, como se estas remetessem a um centro silenciado, um bem erótico ou dilacerante enterrado em mim mesmo […] e que outras, me eram de tal modo indiferentes, que a força de vê-las se multiplicarem, como erva daninha, eu sentia, em relação a elas uma espécie de aversão, de irritação mesmo; (p.31-32)” Roland Barthes A Câmara Clara

Fotos intrigam… Viagem longa e cheia de percalços! Bom seria a lucidez, mas ninguém tem clareza. Oscilamos e nos surpreendemos… Busca -se a tal beleza, o tal momento, a tal memória, o passado. Ou um instantâneo feliz… talvez trágico? Um rótulo. E hoje, mesmo as fotos, são raios de luz efêmeros. Olhamos no mesmo momento e a imagem saturada de sugestões se dilui… Ah! as milhões e milhões de caixas se tivessem nascido para existir, mas são um jogo que acende e apaga alucinada fugacidade… O que são fotografias? Elizabeth M. B. Mattos – maio de 2024- Torres

leal inofensivo

Tudo misturado: cólera, amor, desprezo, nobreza e grosseria. Sentimento machucado. Em todos os lados, motivos. É tão forte! Não há como explicar o sentimento, ao caminhar eu espalho pelas calçadas, no gramado, no asfalto… O que exatamente? Como posso explicar ou responder ao carinho, entender. Escutar a voz. Não vejo o sorriso… Volto desanimada para o esconderijo, espio pela fresta. As frestas definem tanto!

Escutei tua voz. Reli tua carta. Eu me emocionei. Chorar não resolve. Endurece ainda mais? Estender a mão e aceitar teu socorro. Agradecer a dedicação… E tu não desistes de mim. Porque te amo não poderia desistir. E depois o dia estava cheio de sol, o sol do inverno, aquela luz que traduz… Estou assim, travada, trágica. Como eu reagi? Comecei a limpar a casa, encontrar o perdido, lavar a roupa, esticar os lençóis, e pensar no dia seguinte, existe este amanhã – o dia seguinte mais gentil. A tal gentileza que deixei escorregar, vou correr e agarrar, segurar melhor para poder olhar nos teus olhos e dizer, obrigada. Obrigada. Elizabeth M. B. Mattos – maio – 2024 – Torres – um beijo

treme

de tempos em tempos a terra treme / e /não se sabe o significado nem do que dizemos: todos falam e gritam ao mesmo tempo… somos a estrela no fundo num poço / o brilho da terra. nem sempre se pode ver. eu corro, mentalmente, ao teu encontro. estico minha mão… ah! estes amados amores! Elizabeth M.B. Mattos -maio de 2024 – Torres

vestígiosssssss

passados tantos anos, viramos vestígios do que um dia fomos / a gente até se reconhece na rua (às vezes) – mas a surpresa dos (nos) olhares dizem (falam), mostram que o reconhecimento é duvidoso. muitas vezes não temos certeza / afinal, se passaram, no mínimo, dez anos ou vinte anos… engraçado isso. comprado pão, eu apressada, como sempre (embora não tenha hora marcada, e ninguém a me esperar) ele com o pão já na sacola. um olhar surpresa, será? Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2024 – Torres

se quebra

Como se explica um poderoso sentimento – amor, uma forte relação, cheia de certezas, como pode, de repente, quebrar… Quebra pelo gasto, abuso, ou apenas termina. Sentimento pisoteado atravessa um desvio aqui, um empurrão ali, um esquecimento, uma deixa ver como fica… uma decepção. Um nada que a gente não explica. Se fosse água seria a última gota. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2024 – Torres