almas

Os livros / o corpo cheio de letras com boas e péssimas histórias… Alguns tentativas, outros fracassos, outros -, a rir, nem compreendem ou cabem no próprio sucesso. Os livros e suas almas… Será que a gente / nós pessoas, eu Beth, entendo de alma? Teria acreditado em converter / professar, ou viver e desejo se confundem? Alma e corpo – escrever e ler, tocar é mesmo sentir? E o gozo atravessa o corpo ou se faz escorregadio, ou existe antes ou depois… na minha incompreensão? Divagações. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2024 – Torres no meio do dia, ainda na Lagoa do Violão

em gotassss

Em gotas o sono, com passeios curtos ao jardim, uma mensagem solta na noite. Um soluço da Ônix ou uma saudade perdida… Eu cato saudades para medir o tanto e o quanto a vida se desdobra…Hoje comprei um piano. Contra tudo e contra todos. Chega nesta semana. Sempre desejei ter um piano ao alcance dos meus dedos. Mão pequena, sem oitavas, é certo, mas o som, a possibilidade me faz soluçar de feliz! Com minha pequena biblioteca, o meu pequeno e majestoso piano! Nunca sonhei obedecer, nem ser limitada, nem muito cortejada (no limite), cortejada no limite da extravagância, então, tua risada displicente, ao acaso, me conquistou. Então eu te amo e em gotas nos amamos. Temos o pequeno paraíso das certezas, e agora, o meu piano… obrigada. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2024 – Torres

MORTE

“A morte após uma longa doença é algo que podemos aceitar com resignação. Mesmo a morte acidental podemos atribuir ao destino. Mas um homem morrer sem nenhuma causa aparente, um homem morrer porque é um homem, nos leva para tão perto da fronteira invisível entre a vida e a morte que não sabemos mais de que lado estamos. A vida se transforma em morte e é como se essa morte tivesse possuído essa vida o tempo todo. Morte sem aviso. Em outras palavras: a vida pára. E pode parar a qualquer momento!” (p.11) Paul Auster A invenção da solidão

Faço uma caça ao amor / ao estado de viver, respirar… Eu me volto para o solto, o possível, talvez o inesperado. Aquele que estende a mão, e sorri: delícia do momento… Difícil explicar. O vício de espiar, de sentir chuva no respingo: catar palavra, prestar atenção! Não. O mundo não era meu, para mim, mas existia: o olhar apreende… Agora, tudo é meu. Amo no outro o invisível… Afinal, amo aquilo que imagino ser fantástico: olhos azuis, gentileza, as mãos que sabem acariciar, a disponibilidade, aquela aventura, tua voz que chega de tão longe! No final, amo a minha solidão, o meu jeito de ser, o narciso na Lagoa do Violão. A tal solidão… A tal quietude! O tempo necessário para dançar a música que apenas eu escuto: o texto / o verso, o pecado, o meu. Representar o que por tantos e tantos anos ensaiei ser. A beleza brota. Constatar o prazer e o gozo, agarrar o sorriso, então, o tudo – sou feliz. Alívio! Esta quietude interna transborda. A leveza causa estranheza… A inteligência do agora salta e se instala, e eu sou eu, agora, neste tempo que prendo / agarro / tenho nas minhas mãos: o melhor. O outro, o passante, o que existiu se reduz no beijo, na memória do gesto, das gentilezas, e, num susto…Já não é mais. Não tenho certeza do tamanho do amor. Nem da paixão. Ficou o gozo… A verdade. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2024 – com lua e tudo muito quieto, muito quieto dentro deste calor que se despede (dizem que o temporal chega e o frio – será?), vem mesmo a tempestade Ainda não chegou, mas vem outro amor, também atrasado, mas vem /chega com a certeza. Teu olhar castanho que me envolve… Tua ternura. Obrigada. Torres

Uma coisa complicada de aceitar apesar de todas as tentativas lógicas e facilidades dos tempos é envelhecer / uma pílula, a cada dia, ufa! Junto um abraço e a tua voz -, mas te confesso, é uma droga!

de manhã

…de manhã.

Sim, uma manhã precisa mesmo ser um dia inteiro… Depois do almoço vem a tal da pressa de encerrar/fechar/ acabar isso, aquilo, terminar de fazer / limpar, recolher, preparar para a outra manhã: os verbos se empilham para chegar na hora da leitura, antes de dormir… De manhã tem que ser escrever / ordenar e ser feliz. Ler e pensar, antes de dormir pensar o sonho. Ah! O sonho que vai ser amanhã de manhã… Elizabeth M. B. Mattos – março de 2024 – Torres

Foto: Pedro Moog

nada original

não somos originais – salvo quando vou até até a beira do mar e o mar está verde água claro limpo e… este meu amor mar

depois é o mesmo, fazer a comida, limpar / lavar a louça, descascar as frutas, levar o sol para os lençóis, abrir todas as janelas e receber o vento.

“Quando papai traz para casa o salário da primeira semana, mamãe fica contente porque pode pagar o italiano bondoso da mercearia e pode levantar a cabeça com orgulho, porque não tem nada pior no mundo do que estar em débito com alguém. Limpa a cozinha lava as canecas e os pratos, tira os farelos de pão e comida de cima da mesa, lava a caixa de isopor e encomenda um bloco de gelo fresco de outro italiano […] Ferve água no fogão e passa o dia inteiro lavando nossas camisas e meias, fraldas dos gêmeos, nossos dois lençóis, nossas três toalhas, numa bacia enorme. pendura tudo no varal atrás do prédio de apartamentos e a gente pode ficar olhando a roupa dançarem no vento e sol. Ela diz que não quer que os vizinhos fiquem sabendo que roupa se tem para lavar, mas não tem nada mais gostoso do que o aroma de roupas secas ao sol.

Quando o papai traz para casa o salário da primeira numa sexta-feira à noite, sabemos que o fim de semana será maravilhoso. No sábado à noite, mamãe ferve a água no fogão e nos dá banho numa bacia grande e papai nos seca.” (p.21) Frank MacCourt AS CINZAS DE ÂNGELA Memória

E nossas memórias encaixadas nas páginas de um livro se sacodem alegres, não serão esquecidas e estão cheias de mãos que acariciam, lavam, arrumam, e vejo o fogo nas lareiras, as flores nos vasos, e sinto o cheiro do cigarro… E sinto os perfumes da casa. E a casa tem uma majestade que me acompanha… Elizabeth M.B. Mattos – março de 2024 – Torres

escorregadio

Contar / dizer, de alguma forma, a verdade daquele momento, daquele momento que foi o teu passado / resgatar, parece impossível. Resvala, escorrega, derrapa nas inconsistências… Toco no proibido, transformo em árvores natalina o possível. Nada é verdade. Estou a descascar uma possibilidade possível: infelicidade coroada. Quando, quando eu posso me nomear feliz? Se entendo de liberdade, de ir e vir, sem comandos, sem esquerda ou direta, ou ladeira, sem lago nem piscina, sem aperto e abraço e carícia esquisita… Sim, lá está um paraíso vislumbrado, mas… inominável, tudo seria galopar aqui e ali.

Urbana, reclusa, e alegre. As esquisitices empacotei na alegria das bonecas de papel, nas pedras polidas coloridas ( os azulejos das reformas ) eram transformados em reis e rainhas. Aquela flor “boca de leão” brincava. Fazê-la falar, reviver depois de colhida (coitada!), ficava nas caixas de sapato com janelas e portas… mansões. Os gramados eram as florestas, as formigas, os monstros, dia com inverno e verão, ventanias imaginadas, e chuva de mangueira. Assim as memórias se enfeiram na narrativa da criança, do jovem, do jovem adulto, e do velho. A realidade ela mesma é impossível, está sempre paramentada. O gosto do teu abraço se desfaz na possibilidade daquele abraço perfeito. Como poderemos ajustar? Criar um departamento de vigilância. Alguém julgará a verdade da mentira. Haverá punição. Vamos recolher aquele livro, retirar o vídeo da televisão, calar o jornalista, multar a emissora.

O tempo que morei na fazenda, parcos cinco ou seis anos, registram o melhor período das crianças e dos cavalos, das ovelhas, dos gansos e dos cães. Com luz elétrica e telefonia, sem luz, sem telefone. Com açudes abastecendo, com água faltando e sol queimando a plantação. Segui acordando na madrugada, enfileirei as crianças e as escolas estaduais e particulares (eram tantos!) recebiam a tropa… ah! Saudosa Santa Cruz do Sul que agora (estranhamente) proíbe leituras / recolhe livros distribuídos, vai pro palco num arremedo de censura, uauuuuu! Não pode ser verdade que eu não posso andar sem calcinhas por aí, ou que preciso de maiô para tomar banho na minha piscina particular?Ufa! estou cansada! Até de dizer a verdade! Elizabeth M. B. Mattos- março de 2024 – Torres