mudar a vida

mudar a vida significa, exatamente, o quê? caleidoscópio / girar um pouco mais devagar, olhar /olhar e olhar… e agarrar o recorte, porque estou na mesma casa, sentada na mesma cadeira, cozinho nas mesmas panelas, aceito os mesmos medos, e sonho, sonho os mesmos sonhos… o que não consigo segurar / agarrar?

o tempo

o tempo que foi ontem. nem muito o de hoje que me deixa mareada, insone. tropeço rumo para a noite. a noite anuncia o amanhã. ah! dormir e acordar… não é uma maravilha? Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2024 – Torres

JMZMC és tu?

Foto clássica: Pedro Moog

Pitangueira florida / exuberante. Outra triste… Um verão quente entre ensolarado e sombrio, mas quente. E os dias se empurram, ou se aquietam na esquisitice do dito temperamento… O que devo entender?

Recebi notícias tuas depois de bom silêncio, ou de pausa necessária, ou sei lá, algum motivo que não explica o sentimento, nem justificativa o espanto, nem o calor. Estes acidentes internos emocionais, suponho (não teus, mas meus) descrevem o envelhecimento, a rabugice e neurastenia do tempo de aceitar, escutar, silenciar e entender… E nunca esquecer. Entender exatamente o quê não sei explicar, então, não escrevo… Nem espero. O que acontece do outro lado importa, mas o fuxico do tempo por aqui atrapalha leitura, escrita, e… Pensar em ti, ou em mim, ou pensar na imaginação. Conversa com a paciência, o tempo. Interrompe a vida.

Estou sempre pensando que a pontuação é longa, chata, explicativa e destemperada. De repente (coisa de minuto, de agora) a realidade, o fato, ou a lógica com acento de preponderância… O que será que eu quero dizer com isso? Sou assim, enroscada em explicações esquisitas… O sentimento brota como erva daninha e ‘se agarra’ pra esconder ou pra ser arrancado… Podar, ou florear: um fato / um espanto preciso explode: medo. Ando com medo do passo seguinte, de dobrar a esquina, de falar o que não devo ou calar o que importa, usar os pincéis errados e as tintas sem misturas. Esquecer o importante. Estas coisas de amor e sentimento preguiçoso complica, ou reduz tanto o que importa quanto agiganta… Preguiça e urgência. As pessoas atendem / escutam as vozes próximas, tropeçam nos próprios sustos, e se alegram com margaridas, surpreendentemente. As flores que escolheste chegaram ontem com tua carta, bem como seria há vinte anos passados, atrás… Esconderam teus beijos, tua saudade, mas expuseram / escancararam / esbanjam / evidenciam o desejo, a volúpia de ser, por um momento, apenas tu e eu, curados da curiosidade amorosa, sem desafios e entregues a curiosidade do olhar desnudo. Afinal, viver é assim mesmo, surpreender. Se nos é dada a chance de sobreviver ao susto da paixão e mergulhar no real, por que não aceitar? Eu aceito. Tu brindas / ou brincas, e, por duas horas esquecemos as bordas lógicas da vida. Por que respiramos? Um beijo. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2024 – Torres

organizar “a bolha”

Pensar em ti todos os dias. Pensar em ti sem invadir a tua bolha: as bolhas soltas a se desejarem… Tudo imaginação – pedacinhos congelados de meninice, não somos nós como somos hoje, pessoas. Estamos na praia, jogando tênis na areia, enfrentando a caminhada e o sol manso daqueles tempos: vestidos de meninos espertos..

Não pensar em ti porque não faz sentido nenhum amontoar desordem e expectativa. Aliás, será o susto do susto se te encontrar ou ficar perto de acontecer… Fechar as janelas e portas: escrever desenfreada porque a tensão se acomoda nas vírgulas. Depois, enfiar a cabeça nos livros escolhidos com certa lógica, não brincar de página em página, ou sacudir os pés para não ter câimbras… Colocar um ponto final. Escutar todos os discos da pilha da esquerda. E não falar. Conversar parece ser o exercício do dia, esgotar as forças… Preciso estar revigorada para dizer bom dia, passar um café, comer uma maçã. Lembrei que colocas as maçãs no forno. Ficam gostosas e perfumam a casa. Casa da tua casa inventada. Das escadas que nunca terminam, dos livros ordenados, a maior biblioteca particular que conheço. Sofás que são camas, não são camas, mas tem nome e sobrenome, são sofás. E o violão importa. A música importa tanto que tudo o mais diminui atrás das cordas. O que estou fazendo? Não sei. Quem és? Não sei. Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2024 – Torres

bacia

Água, sabão em pó ou líquido, a roupa, os dedos a esfregar. Tempo e eficiência. Sol. Houve o tempo de quarar a roupa… E do anil. O hino, o tambor e a voz. Tempo fácil de fazer acontecer. De dar passos. Com a cascata tão forte não escuto as vozes, e até os pensamentos desaparecem… É o silêncio, ou voz distante… Peço socorro, ou dou socorro?! muito estranho. O danado do tempo leva a geografia para o espaço. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2024 – Torres

silêncio aquecido

Este encontro / este abraço apertado. Abraço e te beijo apertado, seguro minha boca na tua sem respirar. Preciso te dizer assim sem voz como importa o que sentes, o que dizer, o teu silêncio. O movimento de dor que te sacode me perturba, meu abraço segura teus braços, depois tua cabeça, teu corpo. Descrever o que sinto não importa, importa que eu receba esta dor inteira para que não te pese! Não posso te ver sofrer / nem te pensar sofrer, não posso saber… Nem mesmo compreender, querida, me perdoa. Perdoa se não sou eu a sofrer. Quero que durmas um pouco. Fecha teus olhos, se lágrimas escorrem, deixa seguirem estas lágrimas. Fecha teus olhos no meu abraço, minha querida. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2024 – Torres – todas as surpresas se espicaçam nas explicações.

Pedro Moog / São Paulo

sala de aula

Sala de aula, recreio, quermesse, gincana e a dança, namorar… trair. Esvaziado o sentido. A traição escancarada no deboche. Envolvida no jornal não sei a procedência… Posso dizer qualquer coisa = coisa nenhuma! O vento espalha a risada, a ironia, e a loucura! A insanidade engravatada, sem compostura, o impulso da vaidade! Estou estupefata! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2024 – Torres

Jon Fosse

Leitura radiografia / ou um espião dentro de mim… Então leio uma página e interrompo por uma semana. Eu disfarço, escondo a vontade, a descoberta, reorganizo o sentimento…

É como um pincel com vontade próprio que se mexe, não se interrompe embora o braço esteja cansado, a tinta terminando, a luz acabando, um frenético pincelar, assim Fosse escreve. Com ritmo, estou lendo uma tradução, não sei ler norueguês nem posso imaginar tanto frio, tanto escuro e depois tanto sol… E eu escuto uma sinfonia, uma música, um som, estou lendo, mas a música toma o livro inteiro. Então eu preciso esperar. São apenas cento e oito páginas – não sei como explicar – nem o que posso escrever / dizer – como se o feitiço entrasse pelo sangue…eu vou morrer / eu vou desaparecer, eu nunca mais vou pode voltar a escrever… Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2024 – Torres

[…] mas por que a escuridão veio tão de repente?, afinal já está quase escuro, não?, ele pensa e olha para o Fiorde e as ondas batem forte contra a Orla e ele ainda consegue ver as ondas, mas acima de tudo ele as ouve, ele pensa, e agora ele precisa voltar, voltar para casa, e por que não tem vontade?, será ela, o fato de que ela o espera, o fato de que ela parece estar iluminada na janela, será isso o que lhe tira a vontade de voltar para casa?, não não pode ser, mas ele está com um pouco de frio, e de qualquer modo já está quase escuro. de repete ficou tudo escuro, um escuro quase total, então o melhor seria voltar para casa, ele pensa […] -p.37- Jon Fosse É a Ales

É como um pincel com vontade próprio que se mexe, não se interrompe embora o braço esteja cansado, a tinta terminando, a luz acabando, um frenético pincelar, assim Fosse escreve. Com ritmo, estou lendo uma tradução, não sei ler norueguês nem posso imaginar tanto frio, tanto escuro e depois tanto sol… E eu escuto uma sinfonia, uma música, um som, estou lendo, mas a música toma o livro inteiro. Então eu preciso esperar. São apenas cento e oito páginas – não sei como explicar – nem o que posso escrever / dizer – como se o feitiço entrasse pelo sangue…eu vou morrer / eu vou desaparecer, eu nunca mais vou pode voltar a escrever… Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2024 – Torres

“,então ele não quer se virar, não quer olhar para ela, quer simplesmente dar um passeio pela Storevegen, hoje não é dia para ir ao Fiorde, está ventando muito e nem ao menos dá vontade agora que o dia está tão claro quando fica nesta nesta altura do ano,”

preparativo

[…] e por que aquela solução do Velásquez é uma coisa extraordinária, é uma coisa genial? Porque ele soube ver e soube captar a essencialidade do que viu. Aquela estrutura tão assim… Aquilo tão enxuto, e tão pouco, e que nos dá tudo, com duas, três palavras, o sujeito disse, fez um quadro fabuloso. Iberê Camargo – 1992

Soube ver e soube captar o essencial / em arte se trata disso sempre, a beleza é o essencial de um detalhe, uma específica nota de uma melodia transforma… diante do todo há que se descobrir o essencial. Iberê é gênio quando pinta, Iberê é gênio quando fala, quando se manifesta, foi gênio. E como homem também genial… o seu fazer tinha om motivo. Agarrados a lenda estarão seus homens sombras , amigos, mas todos e todas esticam os mantos para que ele passe, justificam, entendem ou não entendem, mas sempre será um detalhe, como o amor… Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2024 – Torres

Meu amigo querido Iberê Camargo -Maria Camargo. Soubemos ser os três… Elizabeth M.B. Mattos – Érico Veríssimo