do tédio

Mergulho no dia de qualquer jeito… O jeito bom de ficar na cama revirando e preguiçando não vem! Credo! Então vou folhear um livro, limpar outra vez a casa, resolver a poeira como se fosse uma questão filosófica. O cinzento dos dias, estas chuvaradas refrescantes lembram os bons verões, pois é, meu amigo querido, sempre voltamos para Torres porque os verões eram mágicos. Escreveste muito bem. Voltamos sempre ao lugar da felicidade / da alegria. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres

coisa esquisita

Esta coisa de esquecer anotação e esquecer até de esquecer o que deveria. Lembrança deslocada, esquisita… Atrapalha o dia e não vai embora… Então não sei se ainda é quarta-feira ou já sexta-feira. Droga! Ainda estamos na quinta – feira, o jornal chega amanhã… Memória ruim das que secaram… Dos ferros de passar roupa que desaparecem, do espaço que eu tinha e deixei de ter… Das manchas pingadas na minha blusa cor de laranja. Um ressentimento apertado. Os números telefônicos de antes, os de agora, importantes, esquecidos! Ah! memória atrapalhada, memória lascada. E aquela esquisita… A gaveta com roupas que não me servem mais… Apertados estes ombros…. A saber que vamos fazer um efeito lúdico festa / e seremos bons amigos! Bom! Alguma coisa importa. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres

sem surpresa

constatar e alegrar

Valentina e o tempo. Uma luz de encanto, a certeza de que o certo é ser como o mundo: iluminado. Um rastro de atitude… Perdi umas fotos, encontrei outras.

Perdi o texto (joguei no lixo) -, importa a ideia… Gavetas sem atrativo. A tal alegria espontânea ou exibida desaparece. Estou a procurar. Ela me faz uma falta danada! Comidas da fome! Abrir um vinho importante: mesa completa.

A chuva e o cinza, a calçada vazia. O tal silencio importante! Café preto com bifes salvam! (risos) Tomates, é claro. Gosto. Espírito. Igual sinto saudade daquela Beth animada, festiva sem festa. Estou procurando. Notícias gastas, e misturas ao tédio. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres

Janeiro de 2024 – Pedro Moog – Rio de Janeiro

Gaston Bachelard

“Escrever é ocultar-se. O escritor, apenas pela beleza de uma imagem, acredita ter acesso a uma vida nova”

Viver é um arrastar-se nas horas a serem vencidas, entreolhar, desejar sem precisão, e desperdiçar… Acho que assisto uma comédia trágica quando me debruço no entardecer, ou quando as horas não passam, mas se arrastam. Escrever é preciso, único jeito de navegar nesta terra escaldante. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres

excesso e pânico

adjetivos contraditórios e se completam na velhice e antes do completo amadurecimento… Pensei – dois períodos em que não medimos a fronteira. Vai terminar mesmo, no galope do tempo com palmas ou vaias, e na adolescência, temos certeza da chance / da conquista. Tropeçar, fazer errado ou muito bem, igual, vai continuar está para começar o período de ouro da vida / envelhecer, vamos fechar as janelas e a porta. Nada de sentir medo, mas pânico. Eu ainda não domino as possibilidades…não posso esquecer os filhos, as irmãs, os netos. Sou eu mesma, mas tem toda uma circunstâncias. Tantas amarras… Tem solução? Ou seremos sempre tão contraditórios?! Alguém lê o que escrevo? Vamos nos reunir para podermos rir também. Preciso parar de costurar. Tem um ponto. Um ponto solto, errado, refazer? Elizabeth M.B. Mattos janeiro de 2024 – Torres.

Henri-Frédéric Amiel

” O grande defeito da democracia é o de todos os déspotas: o fraco por seus aduladores e cortesãos, o favoritismo para com as incapacidades agradáveis, em outros termos, aversão aos capazes independentes. Entre nós, as superioridades insinuam-se ainda às vezes através das malhas da eleição, mas a maioria dos eleitos é já do grande monte, e até da pacotilha de última qualidade. […]

O que há de fastidioso neste mundo é que são os ignaros que dirigem os que sabem, e os ilusionados que arrastam em suas tolices os que não compartilham das suas ilusões. Sempre, e em toda a parte, a vontade supera de fato a inteligência, o que equivale a dizer que zomba a força da razão; e que o sentido fatal do movimento histórico está às avessas do bom senso.” (p. 331) Diário Íntimo Henri- Fréderic Amiel – Escrito entre 1847 e 1881 – ano da morte de seu autor – impresso no Brasil, maio de 2013 – Realizações Editora

ascender – ir além…

Para viver mais do que para morrer, existem motivos que não consigo explicar, eles ultrapassam a capacidade das palavras ou das minhas explicações… Parece meio maluco escrever sobre isso porque eu adoro estar viva, desmedidamente, adoro a vida e o prosaico da vida. Ou seja, o prazer de respirar, de rir ou chorar, tocar… Como vou explicar? Talvez eu querer dizer: eu amo. E minha incapacidade crônica fica margeando o sentimento. No entanto, o que eu faria, se coragem eu tivesse? Olhar nos teus olhos e dizer: eu te amo, eu te amo, eu te amo. Imobilizada, muda, alienada, ou sem responsabilidade, inútil, eu te amo. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres

desgosto

O grande desgosto ocupa o palco e arruma jeito / forma de estar na plateia, ou seja, se transforma na maior evidência e se consome, e me consome… Não se fala/pensa ou diz alguma coisa, pensa noutra coisa, apenas no desastre.

Amanheço pesada, atrapalhada, cinzenta. A chuva forte , o vento, a presença imposta, exige. Não posso resolver mais nada. Faço panquecas. Dobro a dose do café. Repasso as frutas. Escuto o mesmo disco, uma três vezes, não ligo a televisão. Respondo os recados no celular, e desligo conexões. Definitivos, os aborrecimentos. Eu não permito que cheguem à janela. Estão todos de castigo, abafados no quarto menor, no escuro. Eu me ponho também no castigo: intratável, apenas gulosa. Que ganhe dois quilos, não me importo, quem sabe quatro quilos? É um sentir em que o tato e todos os sentidos se reviram. Duas latas de leite consensado. Com três fazemos um banquete. Como é difícil brincar com a dor, abraçar a tristeza, sentir alguma coisa. Confesso que o pior desastre ainda é a completa indiferença, começar, aos poucos a desaparecer, diminuir, não comer, não falar, não fazer. O pior é quando o sono se deita na cama antes da pessoa, e não levanta. Paro de respirar. A chuva diminuiu. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres

doce / o gosto

Doçura do doce, acho que é assim… Não sei explicar, nem dividir, então, eu me derramo nas história perdida. Perdida? Todas elas vividas, vividas. Intensas. Encontradas na memória, no fiapo do tempo. Sim, foi mais vontade, foi loucura. Foi também acerto, acertei no intenso. Na loucura de ir. Como este vento! Arrancou o lugar do pacífico bom para transformar em revirado de restos. Os restos… A vida tem este contexto. O inverno rigoroso, o calor a maltratar, as tempestades previsíveis. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres entre o sombrio, o sol e a chuva.