buracos

Sem glorificações, mas alguns buracos. Pode ser qualificado, mas de qualquer modo é estranho. Longos e preciosos silêncios fantasiados de cotidiano, ou a vida que vai… E vai mesmo. Aos tropeços, esquisita, desbotando. Hora de abrir todas as gavetas, dobrar as roupas com cuidado, eliminar isso ou aquilo, segundo minha tia Joana o que não foi usado durante x tempo (esqueci o tempo) devemos nos desfazer. Ou renovar. Minha tia querida! As vidas longevas são misteriosas, e as curtas parecem hoje tristes! Vivemos mais… Vivemos tanto! E me parece tão bom o sentimento de vida! Mas a doença, o pedaço danificado me dá consciência. A inconsciência pode ser um bom remédio? Sei lá. Os buracos são escuros. Eu caminhava pela casa no escuro desde pequena. Ah! Desde pequena!

“E pela força do hábito, sentia-se arrasado se ficasse um único dia sem ler ao menos uma única página. Por isso, houvesse o que houvesse, sempre procurava dar um jeito de manter a intimidade com as letras impressas. Às vezes, tinha a impressão de que seu único e verdadeiro talento era o de leitor.” (p.192) Natsume Soseki E depois

roteiro

O bom roteiro é a intuição que salva do vento, das chuvaradas, e dos cheiros… Todas as manhãs a surpresa, depois o sorriso, o cheiro do café. A certeza de que não estou sozinha, mas com o sol, e a tua voz. É dia alto quando acordo. Bom dizer obrigada, estalar um beijo vespertino. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2024 – um ano par / acompanhada e cheia de certezas

felicidade

Felicidade? aquele gosto misturado de vinho e alegria e boa comida… claro, sempre o bom sono respirando nas noites e nas tardes mornas. As vozes? Elas chegam… e as canções poema. Bom mesmo é estar viva! Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres

e depois

O que importa se eu estou ou não equivocada?

Eu preciso de você na minha vida. Preciso muito. E foi para lhe dizer isso que pedi para que você viesse aqui hoje. Eu te pedi tantas coisas! Algumas insignificantes, outras contraditórias e muitas, muitas complicadas, eu sei. Enquanto digo você e não uso o tu… pois é, volto para casa. Eu também estou pedindo para voltar a ser eu -, eu como eu era, carioca. E depois… Depois, não sei. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres

abrir a porta

As portas são os desafios / qualquer porta, todas as portas. Na retrospectiva e no tempo: passei abrindo portas e sempre, naturalmente, na expectativa – o outro lado, e depois? Portas que se fecham com o vento, ou são chaveadas, ou ficam escancaradas, todas elas desafios. E tem / chega e agarra, o medo. O espelho das narrativas. E chega esta danada angustia que obscurece a visão… O recado? Caminhar, seguir abrindo portas, aos tropeços, abrir. Se o vento fechar a porta, não culpa o vento. Abro outra vez. Uma pedra segura a porta… Ou uso a chave. Eu perco as chaves, se tornou um problema procurar chaves. Procuro as chaves, o controle da televisão, o livro que estou a ler. Eu me perco das coisas. Tenho medo desta memória assustada. Deste tempo apressado. Não estou adolescendo, estou envelhecendo. Não é para ser radical, mas estou atrás daquela lista de vantagens, daquele arrazoado de vantagens… Acho / sem grande máxima / que encontrar as palavras, digitar a voz, derramar a chuva nos canteiros pode ser bom (risos). Tenho que voltar a escrever todos os dias, não importa o ânimo. Não desanimar e abrir a porta. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres

faz frio neste janeiro

Faz frio neste janeiro de 2024 – as cobertas precisam voltar… Chove uma chuva de escutar a batida, e venta, um pouco. Dormimos tão cedo! Dormimos tanto! É o sono de um cansaço espalhado no corpo. Suponho que preciso de ordem, cuidado. A limpeza se impõe. Talvez seja isso, estou cansada de limpar. Vou colocar as meias. Terminar o livro. Sim, é preciso terminar o que comecei. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres

Faz frio tenho que planejar diferente…

dente por dente

Olho por olho, gota por gota, palavra do avesso, história da Bossa Nova. O novo usado e medroso dos jovens num período de medo, do proibido. O proibido e o medo se arrastam, os jovens se encolhem… A música é maior, os pincéis por todos os lados, as cores se multiplicaram, os teclados não usam o piano. O cinema rasgou o tabu, tirou a vergonha. Somos outros / se eu pudesse dizer somos/estamos velhos, não posso. Meu querido: teu silêncio adoeceu o jardim. Eu estou presa naquela nostalgia inacabada. Tua visita desarrumou o tédio e levou o perfume da cozinha, sublinhou a lagoa. A chuva veio sensata. E o cinzento, bem, onde estará no meio das cores? Desmaiado, não é? Estou desmaiada de saudade. Por isso (por este motivo) não escrevi nestes dois dias. Para mim, como se fosse um mês de ausência. Ufa! Quebrei o silêncio, volto a me derramar teclando, teclando, teclando… Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2024 ( já estamos a girar o tempo na mudança do ano ) Torres

administrando saudade

administrando, monitorando a saudade.

+ presença + saudade.

Depois do abraço / o cheiro /o gosto. Mais de tocar, mais de apalpar… Transborda a danada da saudade: escuto a voz, a risada: isto é saudade.

Esquisitices de conviver, inexplicável. A presença de estar. Estar a olhar, ou tocar, não basta… Ah! Dolorida, doída saudade!

Volta logo meu querido! Tão querido este querer de ter perto! Saudade! Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2023 – Torres

ministério + um

Ministério gera ministro, poder, resoluções: soluções. Os cupins se empoderaram e já estão no cimento – dizem, a confirmar aqui, em pesquisa, é verdade, juro que é verdade. O pessoal não se antenou, mas além, muito além dos heróis, e da política, pra resolver a dança, desenvolver o passo e a ginga, abrir mais um Ministério, o Ministério da Angústia. Resolver, como Aldous Huxley, em Admirável Mundo Novo – reler, ler, reler, voltar porque não aprendei nada, utilizar o soma = solução. Importa resolver, ora: assim, portanto, é claro, criar/abrir mais um Ministério, mais um não faz diferença, para agilizar a pílula, distribuir a pílula da felicidade. Quem pode pode, quem não pode, se sacode. Ah! Não esquecer as tratativas de Fausto de Goethe, ou versões: envelhecer, jamais. Uma droga pior -, mas nada que um pacto com o diabo não resolva e assim a eterna juventude nos espera – gloriosa e onipotente. Elizabeth M. B. Mattos – ainda dezembro de 2023 – Torres

a mesma paixão

A mesma paixão levanta o tempo, mas estou cansada. Cansada de ser no meio deste apressado ruído de ficar. Registrar, mudar. Cansada desta danada confusão de interpretar. Por que não deixar correr? Apenas deixar correr, e ser…Há que eternizar secreto. Tenho medo de registrar: cruéis fotos espelho deste envelhecer danado. A paixão? A mesma. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2023 – Torres