Nathaniel Hawthorne

” Quando se está em dificuldades, ou, de qualquer modo, prevenida contra o mundo, tem-se mais tolerância para o tratamento áspero e talvez mesmo a reação e essa aspereza torne as pessoas mais fortes; porém, assim que se percebe uma simpatia verdadeira, imediatamente perde-se o controle. […]

-, estes sentimentos não a atormentarão mais quando sua empresa estiver em meio. Neste momento, elas são inevitáveis e causados não só pela sua longa reclusão como também pela ideia que a senhora faz do mundo, povoado de formas horríveis. Bem cedo verá serem essas formas tão irreais como os gigantes e anões dos contos da carochinha. Uma das coisas mais singulares, a meu ver, é o fato de tudo perder a sua consistência no instante em que é agarrado. Assim acontecerá com o que a senhora está achando tão terrível.” (p.37) Nathaniel Hawthorne A Casa das Sete Torres

passado / passado claustrofóbico

por que nunca me livro do passado? ele cai sobre o presente como um cadáver de um gigante. como se um gigante moço fosse obrigado a carregar o corpo de um avô gigante que somente precisa ser enterrado decentemente. pensando um pouco acho que somos escravos do passado e da morte. desafio o equilíbrio… desafio o dia, a poeira, a ideia de seguir em frente, desafio a saúde e os afetos… e as histórias se encadeiam, a corrente é pesada, na verdade, não tem nenhuma importância o antes / ou o como foi, importa seguir…mas há um gosto esquisito, os erros cometidos podem ser remediados? mas como entender o erro se era o ar / a vida. a ação é saudável, fazer, fazer pelo prazer de fazer, miraculosa força da ignorância! há sempre uma enorme confusão quando o espírito foge do momento presente e se arrasta pelos porões querendo entender, entender, exatamente o quê? a alma precisa de ar: os solitários se apegam aos superficiais. a gente guarda um certo orgulho das deficiências como das qualidades. por quê? porque quero me justificar. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2023 – Torres

pela fresta / com a fresta

Pela fresta sai tanta informação! Duas frases ou duas observações cravadas na memória se espalham… Quem afirma que podem ser confiáveis? Estas histórias, como Hércules, seguram o mundo que guardo para me sustentar, evidencias ou não, são faíscas de vida. Os queridos, as queridas, os perigosos e também os malvados.

Foram frestas, um presente, uma vontade. Desencadeou todo um sentimento, uma curva, uma volta de exaustão. Será alerta? Os braços, as pernas, o pescoço, os dedos doem… A doença não tem nome, tem uma coisa que estica e puxa, depois o silêncio se impõe generoso. É verdade, estas revelações não importam mais, minimante. Preciso encher os vasos com rosas. Deixar o perfume das frutas se espalhar, entrar outra vez naquela narrativa usada de Natsume Soken. Por que desarrumar o tempo? Vou beber o leite e deitar outra vez. O jardim silencioso e manso já me devolveu a quietude. Outros sonhos virão, sem carência nem faltas, nem tumulto. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2023 – Torres – o passarinho, assustado, segue apertado contra o vidro – não sei se consegue sair…

cupim cupim e cupim

Sem dignidade, ou com autorização e personalidade, insistência, a revoada me atordoou: entrei no tal Gimo armada escandalizada! Marcas esparramadas na taboa corrida, com nódoas e desespero! Credo! Se alguém esteve comigo percebeu o transtorno da lógica invertida… Mato, arvoredo, bichinho: insetos ou natureza dentro da natureza, acabou, não quero. Urbana, das limpezas, de cheiros definidos por mim, higienizados. Esqueci até daquele mágico aroma de terra molhada… Ou cheiro de folhagem remexida pelo vento, ou jasmins sacudidos… Tudo isolado / apartado agora. Sem cupim! o compartimento poético fechado, blindado… O tal encontro com a revoada dos cupins! Mergulho de ponta cabeça na piscina do veneno, na loucura de higienizar… Pobres! E aquelas asinhas voam e as lombrigas se contorcem… Que assunto! Que nojo! Que pena! Que tumulto! Preciso me curar dos traumas e deixar de lado tanta violência! Detesto estes buchinhos… Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2023 – Torres

dormir no sono – sonhar bom

Sono completo exausto e satisfeito e o sonho intenso, perigoso, a se completar. Sucesso. O bom do amparo: a filha, o filho, a temperatura, a comida… Os festejos no lugar, e a voz do João, serena, pontual.

O gosto do teu beijo revirou meu corpo, acordei. estou mais jovem. Dois anos, os suficientes dois anos para rir contigo e poder, afinal, fugir os dois, o meu Francisco. Podemos ir… Não é fantástico? Voltamos ao desejo de tocar, rir. Saímos de mãos dadas em direção a nós mesmos no meio da risada.

Apenas tu e eu a nos revirar na pequena magia de abraçar, abraçar, dizer amor. Bebi um pouco, tu controlas. Sei que o mundo é nosso… Obrigada: existimos para sermos tu e eu. Conseguimos. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2023 – Torres

absurdo

absurdo escrever / dizer isso, mas…

ocorreu-me escrever:

não se sente tanto saudade de uma pessoa, de um alguém, mas, na verdade, meu amigo está certo quando escreve: ninguém pensa em alguém tanto quanto nós mesmos nos pensamos…

concluo que a saudade do amor / amado / ou seja lá de quem for, do amor que sentimos daquela pessoa querida, lembrada, não é tanto ela mesma, a pessoa perdida mas a saudade que sentimos de nós mesmos naquele determinado período, infância, adolescência, juventude ou maturidade…

transformamos a experiência, vivência, em saudade, e nominamos / chamamos pelo nome de mãe, pai, irmão, marido, mulher, tio, tia…

mas

o que desaparece não é pessoa,

desaparece o tempo de ser criança, filho/a.

desaparece um amigo /amiga

Maria, ou José, Madalena, Isabel ou Matilde ou Catarina.

eu desapareço, eu sou outra / e o outro não faz mais parte daquela história – fica/vira lembrança boa, ou ruim.

uma saudade de Marcelo, de Paulo ou de Lúcia

Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2023 – Torres –

às vezes ,o Flávio volta, mas também o Alberto, pode ser o João Carlos. outras vezes é a Sonia Maria, a Lucila, ou a Ana Helena, a Luiza Maria. Aonde estão estas pessoas? Na memória de um tempo… o meu tempo com elas / a Eliza Beth ou a Beth Eliza.

pingo

um pingo de coragem já transborda o copo de covardia / medidas complicadas da vida… resolvo pintar cada peça com uma cor diferente, e, ter os estofados com a mesma cor. manter os tapetes e… brincar! Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2023 – Torres natalina

fragilidade

existe fragilidade exposta / vez que outra se sacode e se derrama, espalha-se por tudo… e todo movimento, todo abraço ou beijo se transforma em dor, e não consigo gritar, nem expulsar… este arranjo se desorganizar e sinto dor, uma dor plantada em desconfiança… fratura exposta! ninguém resolve, eu resolvo se tiver coragem.

um dia de conversas ‘espichadas’ derramadas demais, machucadas. expor sim, às vezes, e com propósito, não como assunto, que não sendo meu, não existe… sacolejo. as palavras na ponta da língua, o gosto de fel, de arrependido mal estar: já bastam aquelas doenças da tosse e do espirro, da febre súbita, dos ossos a reclamarem… fragilidade. sim, uma noite mal dormida, os livros empilhados, expectativa. vai ser um dia melhor amanhã, depois de amanhã. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2023 – Torres