separar / perder / mergulhar

A pessoa se separa de um companheiro, ou de uma amiga, daquele ser único, especial: o perfeito amor dos amores compreendidos. O melhor. Assim mesmo eu me separei, assim mesmo… Inúmeros motivos externos, internos. Turbulências, perdões ou confissões. Eu me separei, chorei, chorei, chorei tristeza de perda, tristeza de fracasso, de solidão compreendida. A gente se separa de um jeito tão ruim, tão faca enfiada… E os anos se multiplicam em vida, vive-se: outros sorrisos, outras graças com desgraças, sempre, mas tão outras e outras que já a transformação daquele barro, daquele lambuzado se faz história. Pois é, acordei para contar depressa, antes de dormir outra vez, a riqueza deste tempo, tempo de recompor, de voltar para ser a gente mesmo, é o precioso. Passa susto, passa passa passa e a pessoa começa a catar pedrinhas e brilhantes, florezinhas e surpresas, e o vazio fica precioso, colorido.

Não tenhas medo de te separar, e separando recomeçar, a alma, estes sentimentos de dentro, pulam e se refestelam e recomeçam a bombar energia, vitalidade, sonhos e novas vontades. Multiplica-se o que parecia marasmo de poça ou lago em mar aberto, ou praia rica de ondas, ondas salgadas quentes e geladas, perfeitas. Elizabeth Menna Barreto Mattos – novembro de 2023 – Torres – entre sono, bocejo, acordar e outro sono –

muito frio, a respiração fica branca

Faz frio, a respiração fica branca. Chove muito e tanto: os olhos cheio de lágrimas não me deixam ver. A boca soluça, tanto e muito! E aqueles passarinhos miúdos, em bando sobem na mesa e assumem o pote de arroz com alegria gulosa e voam e voltam. Alegria perfeita neste almoço corrido de meio de semana, o perfeito. Perfeita. Em casa a água racionada, a luz em tempo de conserto, o silêncio concentrado. Sem celular, sem vozes. A cantoria da chuva me fez dormir de tarde com aquela paz certa do dia perfeito. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2023 – Torres

(bom teres escrito, bom estares envolvido com as plantas e a terra, bom saber que a vida se arrasta mansa e coerente, a doçura chegou)

intransponível

tenho horários internos desencontrados, ou… exigentes. o sono, o cansaço suga, será o horário da infância, somado ao da juventude?! interno. vontade de descobrir..

o certo é que o solar, o real não me domina… vou deixando a órbita e no rascunho, no risco mal traçado, defino o sono, a vontade de dormir… vou descobrir como pode ser diferente, e por tempos indeterminados, e não consigo dominar agora. desmotivação? Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2023 – Torres – um pouco fora do lugar, pois é!

genial

” – Ultimamente, minha cabeça não funciona com clareza, tanto que, ao olhar a flor do girassol, acabo pensando na minha cabeça. Será que minha mente é bem organizada como aquela flor? Havia pouco, no trem, vinha pensando se não poderia mandar somente a cabeça para a lavanderia ou para o conserto. Cortar o pescoço seria um método rude demais, queria apenas removê-la do tronco e entregar ao hospital Universitário, como se faz com as roupas na lavanderia. Enquanto o hospital processa a lavagem do cérebro, ou conserta as partes estragadas, o corpo descansa em casa, dormindo profundamente por três dias, uma semana, o tempo que for necessário, sem se revirar no leito nem ter sonhos.” (p.39) Yasunari Kawabata O SOM DA MONTANHA

olhos azuis

Os olhos azuis não eram teus, o gosto do mimo não tinha nada com aquela situação de emergência. Tua corrida, teu zelo, não explica a morte, porque ele, o pintor, nem era teu amigo. A comédia da substituição… Farsa da notícia. A narrativa que se explica, ou nunca se esclarece. Os dados não são precisos porque a vida é mesmo assim, imprecisa e inconclusa. E tinhas uma linha, um determinado e preciso foco: serei / sendo herói. E a história, a nossa, alinhavamos… Com certeza, somos os heróis a farejar o possível do heroísmo, e chegamos ao impossível. Quanto equívoco se torna a verdade: foi amor, foi paixão, foi despedida, foi espera, e foi tão pouco…

O equívoco foi meu, a raiva é minha, a estória se tornou história, a minha, eu não sabia nada de nada. Rastejei na tua luz, vês?! Tinhas luz própria sim. Não precisavas da notícia, eras a notícia. Ah! Como esta memória me persegue! Por isso foste a Torres e levantaste minha vontade a uma potência de desafio. E escreveste minha estória de princesa -, estavas a fazer sessenta anos e eu… Treze anos, ou doze anos mais nova, menina brincando de bonecas na minha fantasia de sobreviver. Não. Não éramos adolescentes. O barulho do momento, meu fraquejar, ou fortaleza, sei lá! Pensei ser a Cinderela calçando o sapato de cristal definitivo. Tu eras / foste/ és o meu sapato de cristal. Desculpa, eras o meu Príncipe. E eu reclamo o direito de ser Princesa até hoje. Aonde estás? Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2023 – Torres

Nota no livro de Yasunari Kawabata O Som da Montanha:

Comemoração dos sessenta anos de vida, baseada na astrologia chinesa. O cruzamento do ciclo de doze anos do horóscopo com o ciclo de dez valores numéricos resulta em sessenta diferentes combinações. Considerando-se que completar sessenta anos representa o renascimento da pessoa.

segredo da alma

Para contar segredos da alma, para dizer daqueles deslizes e dos pecados é preciso inventar a história. Catar palavras que irão descrever, na narrativa, o vigor do pecado. O sentimento, a generosidade, aquela altivez necessária para continuar, apesar de… (como escreve Lispector) apesar de, continuo viva. Explicar dizer mencionar arde por fora e sufoca. Sinto o enfado, o esgotamento, o peso e a vontade despencando… Continuo. Se eu confessar que os livros pesam dentro do corpo, não exagero. Entendo o prazer do mar, da areia, do teu sorriso, do teu mergulho. Olhos arregalados para a vida. Teu abraço, tua disposição, teus ouvidos atentos, e o beijo. Afinal, existires no teu olhar azul, na estupefação do amor, resume a minha vida. Eu te amo. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2023 – Torres – obrigada

ainda são duas horas da tarde, e eu sigo te amando tanto, e tanto

Meu querido: o norte, o sul, o leste, e também, o oeste norteiam. Não sei o que te escrever, nem falar enquanto sinto. Eu sinto. Deixa eu ler em voz alta, deixa apoiar a cabeça no teu travesseiro, deixa eu te contar, sublinhar:

Não sei de melhor treino para um escritor do que passar alguns anos na profissão médica. Creio que pode aprender muito da natureza humana no escritório de um advogado; mas ali em geral temos de lidar com homens em pleno domínio de si mesmos. Mentem tanto como mentem para o médico, mas mentem com mais firmeza, e pode ser que para o advogado não seja tão necessário conhecer a verdade. Além disso, os interesses com que lida o advogado são geralmente de ordem material. Ele vê a natureza humana de um ponto de vista especializado. Mas o médico, principalmente o médico de hospital, a vê em toda a sua nudez. As reticências podem geralmente ser desmascaradas; geralmente não há nenhuma. Pois na maioria das vezes o medo destrói qualquer defesa; até mesmo a vaidade é solapada por ele. Grande parte das pessoas têm um furioso desejo de falar de si mesmas, e apenas são detidas pela pouca vontade dos outros em escutá-las. A reserva é uma qualidade artificial que se desenvolve em nós como resultado de inumeráveis contras. O médico é discreto. Seu ofício é escutar, e nenhum pormenor pode ser demasiado íntimo para os seus ouvidos.’ (p.71) Confissões W. Somerset Maughan

Aqui, meu querido, Somerset Maugham resume a nossa conversa penosa, mas nossa. Explica o que tu e eu já sabemos…Avança. Mas chego ao que não temos coragem de dizer, então, uso a citação, posto que me escutas, e me beijas enquanto leio.

‘Não gosto de passar muito tempo com as pessoas aborrecidas. Nem com as interessantes. Acho cansativo o convívio social. A maioria das pessoas, creio eu, ao mesmo se distraem e descansam com uma conversação; para mim isso foi sempre um esforço. Quando era jovem e gaguejava muito, cansava-me muito falar por muito tempo, e, mesmo agora que relativamente consegui curar-me, é um sacrifício. É um alívio para mim quando posso ficar sozinho e pegar um livro para ler.’ (p.72)

Estou a rir enquanto te escrevo. Lembro de um momento que reuni uma meia dúzia de livros que importavam (ao menos para mim) com a nítida ideia de passá-los para tuas mãos, ou para reler juntos, como agora, fatiados. E tu olhaste, com doçura, mas sério e justo e já afirmaste: não lerei nada disso, esquece, e foi um beijo de amor… Nunca chegaremos a dizer tudo, nunca faremos metade, ou acerto de qualquer tempo… Complicado trançados de amor! Maiores e definitivos… Histórias que eu te conto sapateado na alegria de ser apenas eu… Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2023 – Torres. Não te preocupa, nunca baterei na tua porta, nem mandarei flores…

dia anterior

No dia anterior, um vento úmido e extemporâneo havia rondado a vela das embarcações e, ao entardecer, o céu se cobrira de estranhas cores. Vagalhões galoparam a superfície do mar, um ronco soturno percorreu a praia, batatas d’água e tatuzinhos deram-se pressa em alcançar terras altas. Tangida por fortes ventos, a chuva começou a desabar no meio da noite, e sons que lembravam flautas e gritos ecoaram no céu e no mar.” (p.60) Yukio Mishima Mar Inquieto

Ecos e tormentos. Um ponto na dimensão de mancha. Incerteza certa (jogo de palavras) a dançar violência nas obviedades da reflexão, sempre oscilantes. Este mar de Mishima atravessa as calçadas e as ruas. E a lagoa se transforma em mar. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2023 – Torres

coisas de sentir explica Montherlant

Inès

Vous ne sentez plus rien!

Ferrante

Il y a les mots que l’on dit et les actes que l’on fait sans y croire. Il y a les erreurs que l’on commet, sachant qu’elles sont des erreurs. Et il y a jusqu’à l’obsession de ce qu’on ne désire pas. (p.133) Henry de Montherlant La reine morte

Assim mesmo, arrancado do contexto, a gente não sente mais nada, estamos / estou anestesiada com os fatos, a vontade de tantos e o rumo do barco, sem leme, ou…, não sei. A vida fica assim à deriva mesmo porque a vontade, o desejo, a tal chamada alegria, evapora, e a credibilidade junto.

Então, tem palavras que a gente diz e atos (coisas) que nós fazemos sem minimamente (por minha conta) acreditarmos. Os erros que a gente comete sabendo que são erros. ( no desatino de fazer e seguir em frente). E existe / e vamos até a obsessão de desejar o que de fato, de verdade, não desejamos. Que loucura isso! Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2023 – Torres

vaidade idade e velhice

Tópicos diferentes: vaidade não tem nada com o envelhecimento ou tem? Salvo se for mental, penso, se eu perco o controle não cometo nenhum pecado capital, começo a falhar geral. Pode ser controle quando a pessoa amadurece? Sei lá! Amadurecer não se emparelha com envelhecer, eu acho. Se assim fosse! Que bom seria! Vaidade tem começo e fim, não sei. Vaidade tem estágios, até na escolha da profissão interfere. Envelhecer, não dá pra fugir. Envelheço vaidosa? Cheguei a ser vaidosa? E logo associam com prepotência. Escorrego quando penso, não pensar pode ajudar? Dá pra ser melhor, mais gentil, mais acolhedor, talvez. Eu me tornei velha cheia de espinhos, azeda. Ou talvez eu ainda esteja adolescendo, apaixonada, esperançosa, e, visionária. Que seja temporário ou casamento com a doença conhecida ou desconhecida, falha no sistema da doçura e da compreensão. Conceitos ou ignorância? Estudar ou desligar-se afundada num bom livro, num enredo, numa outra pesquisa ou na matemática. Estudar a matemática, conhecer o abstrato da lógica. Terei tempo de somar com precisão, dividir e multiplicar, fracionar, resolver, problematizar. Uaiii! Credo! Que enrosco! Quero que chegues hoje, queria que tu tivesses vindo ontem, ou que hoje já fosse amanhã, e certo! Seríamos adolescentes ou nós juntos por um dia, dois dias, talvez uma semana. Estar apaixonado / apaixonada, muda tudo. Gosto de te saber assim, ocupado comigo! Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2023 – Torres

segredo

não compartilhar segredo pode ser a ideal conivência, e assim assimilar uma espécie de paz… aquela conversa que nunca acaba é um fio de novelo sem ser tricotado, não resulta em nada… um tricote de palavras comprometedoras. esquisitice da vida esta conversa solta. contraditório, a solidão do silêncio esmaga, exige treino, quase uma religião. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2023 – Torres