transbordamento de vida

Visão imediata da vida não existe. Não está em um lugar /momento especial a coisa boa da vida, a tal felicidade. Não é pobre nem rara a felicidade, mas viçosa e até populosa… Não se conquista felicidade ela nem sabe chegar na pessoa, ela vive / está dentro da tal pessoa. Felicidade mora dentro da gente, e, às vezes, transborda… Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2023 – Torres

livro do Mishima

Um livro não deve ser intenso do começo ao fim, dá uma exaustão, um cansaço sem explicação: uma tonteira que não consigo dividir. Cada leitor é um leitor… O óbvio, somos tão únicos e diferentes na nossa patética igualdade! Adormecer o desejo de dividir e iluminar: ler é uma caverna solitária, a leitura não pode ser compartilhada. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2023 – Torres

urbana

Sou urbana, por isso escolho Porto Alegre. Outra vez, encore une fois, desta vez, eu comigo, na minha casa. Outra vez, a ideia se realiza. Sou urbana. as caixas se empilham, a vontade volta. Eu vou. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2023

às vezes

o ruim disto tudo é aquele vazio da solidão completa, o que importa é reagir, dar-se bem na vida, o parceiro, a parceira, a família… tudo muito confuso. quem eu olho, quem eu vejo, quem fala comigo, quem de verdade se importa? estou solto / solta e é assim, entregue a mim mesma / mesmo, catando lixo na lata do lixo, aquele pseudo amigo que dá uma risada e oferece um cigarro… tão o mesmo.

ás vezes a gente não quer viver, mas não é explícito, mas atravessado em / por maus hábitos e mau humor e displicência… o tal mal que nos ronda, ronda o bem.

eu queria ser cachorro, agora todos tem animais de estimação / latem miam, olham e tudo acontece. alguém se importa. esta coisa de se importar tá danado… ninguém se importa porque ninguém quer ceder o lugar em que está, o sonho que tem, a casa aonde mora, ou o desejo de acolher, cada um na sua ilha, e a ilha no arquipélago… pois é. é esquisito este pertencer (ironicamente) a lugar nenhum, a nós mesmos. reconheço que não me reconheço, então, então, então eu arrasto as correntes… esta coisa de estar preocupado (risos), preocupado com o quê, que eu respire? que eu beba o vinho, ou fume o cigarro, ou que eu vá até a praça e tome sol no rosto, nos braços…, nas pernas. com o que exatamente estamos (estás, estou) preocupados se não temos tempo sequer de ser /ter então, ficção. viver é uma piada. alguém perguntou se eu queria viver? Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2023 Torres – gosto de chocolate, isso, eu gosto.

Fotos Pedro Moog – 2023 – São Paulo

romance

excesso de juventude, excesso de romance, excesso de beleza, excesso de concorrência

todos querem imprimir a marca ao mesmo tempo e o dinheiro. O ouro, a prata, o poder, o centro. E a beleza, claro: A bela e a Fera. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2023 – Torres

lassidão e beleza

cheiro das frutas e a vontade se misturam,

e o gosto deste dia que chove sem chover, intenso

“- Eu tinha feito todos os preparativos e estava a um passo de agir – murmurei comigo mesmo. – Tendo fantasiado esse ato tão concretamente, tendo vivido essa fantasia tão completamente, será que é mesmo necessário executá-lo? Nesse estágio isso não seria inútil? Kashiwagi talvez estivesse certo ao dizer que o que muda o mundo não é a ação, mas o saber. E há também o tipo de conhecimento que tenta copiar a ação até o limite máximo. Meu conhecimento é assim. E é esse tipo de saber que invalida a ação. Então a razão de todos os meus cuidadosos preparativos está na constatação posterior de que eu não teria que agir a sério?

— Sim, é isto. A ação é agora simplesmente uma espécie de coisa supérflua. Ela saltou para fora da vida, para fora da minha própria vontade, e agora se posta a minha frente, como um mecanismo de aço frio esperando ser colocado em movimento. Como se não houvesse a menor ligação entre meu ato e eu. Até agora tem sido eu, de agora em diante não é mais. Como posso ousar deixar de ser eu mesmo?”(p.237-238) Yukio Mishima O Templo do Pavilhão Dourado

poeira de frutas douradas

poeira dos olhos

sempre

maçã no forno

Enquanto espero vou apenas esperar, não, não vou a nenhum lugar. Vou esperar. Nenhum lugar específico. Imagino conseguir e seguir o fantasma sonâmbulo ou a moja consciente, aquele sacrifício possível, não o necessário.

Pedro Moog – 2023 – olhar de São Paulo

O sacrifício possível, como o sono possível, nunca o de esquecer que transborda no sonho. Os sonhos, guardei na gaveta do armário. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2023 – Torres

Duas maçãs ao forno perfumam a casa e adocicam o tempo.

2 de novembro de 2023 chuva vento, mais chuva e limpeza. Casa limpa / vidros transparentes. Bom começo, bom fim de ano… Alegria transparente se soma a chuva, chuva, chuva. O incidente ficou agarrado na memória. Uma traição natural da amiga, atravessar-se na expectativa do outro. A gota do copo cheio: não consigo esquecer. Passado algum tempo, ou tanto tempo não consigo, não é possível acertar nada. Fica o engasgo. A pessoa vive remenda, repara, constrói e por vezes, às vezes, estraga a vida, a relação e a amizade. E me dou conta que o tempo / a passagem do tempo percebe, ou melhor, se ergue a partir dos acertos e erros e acasos, mas não é modificável. Não se trata de perdoar ou esquecer, passar por cima: o equívoco está alerta, aponta a defesa. A minha arma pessoal é não esquecer. Não quero ser atropelada duas vezes, três vezes pela mesma pessoa. Quando alguém emerge do passado e anuncia em tom comovido que deseja acertar ’tudo’ a seu modo singular, não se trata de acerto… Na vida não há meias soluções, alguma coisa teve início um dia, há muito tempo, no tempo das mães, da infância, das perdas, mas agora tem que se encerrar. Acabar. Acabar com ponto. O final. Outra história começa. Regar o jardim, revirar a terra. Respirar e caminhar. Outra direção. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2023 – Torres

alcance da mão

porque tenho livres ao alcance das mãos posso seguir pensando, dizendo, mesmo que seja por outra voz, outro falar, outra nova ou velha palavra. o repetido, os fatos, estranhamente, se assemelham… alguém quer a vitrine, a notoriedade, a luz, e consegue.

Então,

“Fugir a uma realização, por causa das concessões feitas, produz relacionamentos falsos e uma sociedade doente; o esforço de atingir a realização, no entanto, termina recorrentemente em tragédia: o indivíduo é destruído na tentativa de escapar do seu mundo parcial.”(p.132)

“Fantasmas!…Eu quase acredito que sejamos todos fantasmas. Pastor Manders. Não é apenas o que herdamos de pais e mães que passeia em nós. É todo o tipo de ideia inútil, velhas crenças sem vida, e assim por diante. Eles não estão vivos mas agarram-se a nós por tudo isso e não podemos jamais nos livrar deles. Sempre que leio um jornal, parece que vejo fantasmas movendo-se furtivamente por entre as linhas. Deve haver fantasmas espalhados por todo o país, tão numerosos quanto os grãos de areia do mar. E então somos, todos nós, tão desgraçadamente tomados pelo medo da luz.” (p.133) De herói a vítima – A feitura da tragédia liberal, para Ibsen e Miller. Raymond Williams Tragédia moderna – Cosac Naify

hannah arendt

[…] toda a esfera dos assuntos humanos é vista do ponto de vista de uma filosofia que pressupõe que mesmo aqueles que habitam a caverna dos problemas humanos são humanos, na medida apenas em que também querem ver, embora permaneçam iludidos por sombras e imagens.” (p.155)

Não é possível entender Platão sem ter em mente, ao mesmo tempo, sua repetida e enfática insistência na irrelevância filosófica desse domínio, acerca do qual sempre advertiu não se dever levá-lo demasiadamente a sério[…]

assunto e questões da política e do rumo…