ilusão de ser inteira! sou fatiada mesmo, e cheia de encaixes a ser pensados, ou usados, ou… uaiiii! e tem esta danada preguiça arejada pelo vento, pousada, a me estranhar! a vida assombra!
histórias fantasias. projeto de viver, o susto executa.
…e as risadas ?! as risadas se dividem… Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2023 – Torres
Princesa nasce princesa. No borralho, no jardim. Mulher e princesa. Surpresa no jeito de sorrir, no passo descuidado e surpreendentemente apressado, mas preciso… Caminha na direção iluminada do bom caminho, pelas veredas, sem medo, a princesa. Gentileza todos os dias, dorme esgotada de sonhos e obrigações. Ocupada princesa. Carinho generoso, natural. Princesa nasce princesa.
O príncipe reconhece pelo olhar, não importa aonde ela esteja… Ele virá atento e saberá festejar, salvar. Segurar o trabalho inteiro de ser feliz. Reconhece a luz da princesa, e, com enxada, espada protege o reino dos girassóis e dos trevos naquele gramado perfumado. Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2023 – Torres
Nada se adequaria às suas medidas, a não ser algo como um queimador de incenso fantastasticamente grande, ou uma quinquilharia absolutamente colossal. Mas o Templo Dourado perdera inteiramente essas coisas; havia, de repente, despido sua essência e agora e agora exibia uma estrutura estranhamente vazia. O mais peculiar era que todas as várias ocasiões em que o Templo Dourado me mostrara sua beleza tão consistente – uma beleza que transcendia minha própria imagem, que transcendia todo o mundo da realidade, uma beleza que não tenha relação com qualquer forma de esvaecimento! Nunca antes sua beleza refulgia assim, rejeitando qualquer espécie de significado.” (63) Yukio Mishima O templo do Pavilhão Dourado – Editora Rocco, 1988
Fantasticamente o cheiro, o gosto, o abraço / todo / tudo se agita na gratidão e no susto por ser um moment único passado 50 anos… e o geste de pisotear uma jovem carregou todas as simbologias da maldade, e o bem se esparrama como margaridas num canteiro adubado. As certezas se apertam. O novo se debruça no Morro do Farol fatiado, com casas que se espicham…modestas e preciosas porque no meio da mata…o susto das picadas! A beleza! A novidade de ser eu a conhecer e dar o primeiro sorriso, perder a primeira lágrima. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2023 – T0RRES -os pernambucano chegaram… Foto de Joana Moog – beira do Rio Mampituba
Perdemos um alguém, matamos / aniquilamos todos os outros alguéns: a sofrência arranca todos ao mesmo tempo. Aquele vazio precipício grande ou não sei explicar. O amor enlouquece um pouco / ou muito / mas não pode ser assim por muito / todo o tempo, há de não ser. Não deve ser. Coisa nenhuma, sentimento nenhum pode ser espichado assim… Tem que se reagir ou dar um jeito. Regar outra coisa, exceder por outro lado. Conversa mole, sem sentido. A história é dura / séria / única. Depositamos todas as moedas no mesmo saco e na cavalgada desaparecem. Digamos que não devemos ser tão intensos assim, nem tão exclusivos, nem tão… Vou usar todos os advérbios e dizeres com o mesmo sentido. Não devemos, mas somos. Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2023 – Torres
Pedaços serão, num repente, inteiro, o todo que se precisa, em algum momento, o inteiro.
Pode ser passado, mas também hoje, agora feito / refeito sentimento de voltar a te querer. Na calçada dos jacarandás… Fantasia deste não foi / sendo / acontecendo de tão forte, ah! Danado desejo! Os nomes saltam, depois se escondem um atrás do outro envergonhados. Dizer / compartilhar estas mesmices que a gente vive, e vive, e volta, retoma, choraminga, quase dor. Muda de casa / de jeito / de amigos, de voz a gente também muda. Divaga vagar. O que será que agarra a pessoa, renova a terra, mas não arranca raiz e fica… O que será que resiste? Romântico pântano , atravessamos. As palavras tropeçam. Querem se prender / ficar nos galhos, mas também elas escorregam. A verdade e a mentira, a memória de tanto esquecer… Estes atropelos de viver! Limpo, limpo outra vez, reviro a casa, troco as mesas de lugar, as cadeiras se perguntam o que vai haver? As frestas se abrem e ilumino os quartos, espero. Esperar dá uma ansiedade curiosa: repasso os discos de vinil: Trenet, Aznavour, Jacques Brel, Françoise Hardy, uma gritaria dentro de mim… Elizabeth Mattos – setembro de 2023 – Torres
“Quando não se é intelectual, a inconsistência e a pobreza das ideias faz temer que todo o escrito (exceto um poema, talvez um conto) resulte inútil e ridículo. Ideias, ou seja, estabelecimento de relações, cabeças-de-pontes, pontes. Cercado de livros, inclino-me sobre uma flor que deixaram na minha mesa. Ela me olha com a sua pupila cega e translúcida; acho que se me olhasse de verdade, não me veria.” (p.10) Julio Cortázar Diário de Andrés Fava
“Na esfera das obrigações, do trabalho, não me sinto mal por estar obrigado a ganhar um salário (nunca dizer, nem por distração: ‘ganhar a vida’); a canseira desse trabalho impessoal me lança com mais vontade às conferências, a um concerto, a uma perseguição ardente. O que verdadeiramente me frustra (homenzinho, funguinho, medroso) é o trabalho do amor, dos carinhos, dos laços com a minha gente. Não perco a liberdade porque trabalho, mas trabalho para conservar o círculo, a family reunion, o prazer das amizades. Não sei romper os laços; e o que é pior, vejo claramente que deveria rompê-los (ou ter pelo menos a certeza de que posso fazê-lo esta noite ou na semana que vem); vislumbro em mim a semente dos que devem estar sozinhos para poder dar algo, mas permaneço em Buenos Aires, cercado de pessoas que me querem bem – e assim, quando o carinho não escolheu ninguém, isso significa…
[…] Mas o que importa é verificar diariamente como o círculo impõe sua lei, provoca reações, dá polimento às arestas, contagia os vocabulários, corrói as pontas, unifica os credos; como aquilo que se chama ‘o grupo’, ‘a turma’ ou nossa equipe […] e isto faculta deslizes amáveis na vida (anda, vai ver fulano para que te façam o desconto na Albion House) e encaminha toscos destinos em grilhões bem burifados (tens que ler Greene; é necessário ir ao Cine Club; convém que seja você o autor da nota sobre o livro de Monona..) e mamãe, tão doente, e o seguoa da Previdência, e ” (p.77-78) Júlio Cortázar Diário de Andrés Fava – José Olympio Editora – 1997
Quando a gente não sabe fazer a conversa toda, nem convencer ninguém, nem conversar sobre isso ou aquilo porque as pontes foram detonadas, ou nunca existiram, e alguém não entende o porquê de usar reticências, enfim, como fica cansativo explicar, explicar… Ou pensar sem saída. Se eu vejo e tu não enxergas nada, por onde eu começo? Se escutas, mas não queres ouvir.
Cortázar tem razão: “Diante de algumas pessoas é imperioso fingir-se de idiota para que não nos tomem por idiota.” (p.79)
E às vezes é assim mesmo, ” o amor olhando por dentro de uma pequena xícara de café” (p.18) ou ” Há coisas que a gente ama na lembrança, mas já não pode atualizar, tolerar a presença.” (p.108). e isso me lembra as conversas com FT / e as cartas / os encontros, e as minhas cartas que o tal Eduardo H. segurou a pedido do Iberê Camargo? Que ridículas cartas seriam? E os retalhos ficam maiores do que a colcha. Gosto de me rir quando penso nestas coisas extraviadas, a vida de viver, e os encontros que nunca existiram, e aquelas confissões todas. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2023 – Torres
P.S. Paulo Sérgio seria/teria sido uma guinada, uma decisão, mas eu tive muito medo, e rasguei a carta, aos pedacinhos bem pequenos, nunca te contei isso. Do medo não brota nada. Não penses que és apenas um parágrafo, claro que não. Eu sempre irei/iria/vou para São Paulo.
Chegando ou saindo, coisa de acontecer no Rio Grande do Sul: os cinco a se encontrarem: a mãe e os filhos. O colorido da história. Das estórias remexidas, as nossas! E vai acontecer outra vez. Os cinco. Estremeço e já sinto. Antecipo. Sem combinação, ao acaso. Uma decisão puxou a outra e arrastou Rio de Janeiro, Recife e São Paulo. A explodir! Não acredito, digo, não importa, festejo.
O calor de cada fresta deixa entrar imaginação. Real / de realidade / mundo, de totalidade, verdade difusa, confusa. As obras / o fazer / o jogo. Escondidos a modificar um fato / o esquisito movimento… Notícia da vida / picotes, remendos. Antes, num tempo de cinquenta anos, ou sessenta ou quarenta, ou sei lá, eu não tinha tempo de escrever. Atropelada pela urgência, amores encontros e os tais desencontros, a correria de subir e descer, os filhos. Assim mesmo eu escrevia todos os dias /muito muito muito. Pensava acelerado e cristalizava sonho e vontade. Agora o esforço. E este tempo encerado, lustrado, enorme a me encarar. Sem preguiça, alerta, grande e vazio.
Ah! Existe a mordaça. Cristal / invenção e vontade eu dançava todos os dias, hoje a dança me embala, cuido a música. E não pensava… Acho que os fatos me antecipam, e o viver, a vida me carrega, faz acontecer o momento, ou apaga tudo… Foi assim quando Gustavo morreu, foi assim quando cheguei a Pernambuco, foi assim que eu visitei o Francisco Brennand. Foram assim os três dias de chorar e dormir que inundou a minha vontade. E plantou margaridas e trevos no jardim. Acordei feliz. Inundada em tempestade sem raios nem trovões, nas curvas do Capibaribe… Sei lá quantos anos se passaram, passaram, devem ter voado também. Lembro das comidas, dos passeios, do sono, das risadas da Luiza, dos sonhos, das cartas que escrevi, dos amigos alagados nos meus prantos a me fazerem rir. Lembro do meu sono. Embalada nas palavras, e no teu ritmo, nas histórias que me contas, eu te escrevo com saudades de ti. Agora, meu querido, temos a Lagoa do Violão e o mar, bem, o mar está algumas quadras a nos esperar… da janela temos a Serra do Mar. Temos Torres, meu querido. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2023
“Não é exagero dizer que o primeiro problema real que enfrentei na vida foi o da beleza. Papai era apenas um simples sacerdote rural, de vocabulário parco, e ensinou-me que ‘não existe na terra coisa mais bonita que o Templo Dourado’. Eu não conseguia deixar de sentir uma certa irritação à ideia de que aquela beleza já estava no mundo antes que eu soubesse dela. Se a beleza realmente existia ali, isso significava que minha própria existência era uma coisa afastada da beleza.’
Ansiedade desarrumada como duas palavras estranhas e esticadas. Estou querendo uma paz pequena que me estrangule, mas resistirei. Vou dormir todas as frestas, vou escutar música fora o lugar, desarrumar as gavetas e cantar. O prazer do meu canto /manto define; fomos ver as baleias, vou para Porto Alegre , depois São Paulo se me espera, acertar o passado com a graça do atraso…resgatar Paulo Sérgio e as conversas serão empilhadas, empacotadas, as nossas. Gustavo morreu, ainda não morreu, estamos juntos tecendo formas… o tempo se estica. Como demais. Vou guardar os doces para os merinos pensar = mudanças com eles e o devaneio se perfuma. Elizabeth M.B, Mattos – agosto de 2023 – Torres
Descrição, o interior da tua palavra / carta, faz eco aqui neste lado. Teu escrever desorganiza o meu dia. As cores modificam a luz, o tom, o quadro… Os pincéis se agitam para contar da pitangueira florida, amoreira e doce de goiaba… Escuto tua voz, inclino minha alegria doméstica e sonho com teu poder poderoso. Eu? Sou eu derramada no que escreves / encho de flores a casa e preparo o encanto para te receber. Acompanho teus passos lentos com prazer. Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2023 – Torres com a janela ensolarada e o sono.