íntimo

A música é cura / cura forte / feitiço contra qualquer mal. Entro noutra estória / enredo. Qualquer música, canção. MARAVILHA! Hoje João aniversariou / cortamos o bolo de manhã! Como saiu ontem de noite estava meio dormindo, meio acordado (risos). Estou em casa tentando arrumar este EXCESSO de discos / separar os que escuto / os que devem ser doados… passo pequeno para a ordem. Verdade, limpeza e ordem definem.

Empilho roupas e tudo vira confusão… ou dobro, seleciono. Higienizo armário… tudo isso me faz bem, muito bem. Ou escuto a música, ou penso, ou escrevo e sinto misturado num prazer de tempo que ‘se aflige’ / haverá tempo físico para ordenar esta desordem confusa? O que a vida é? Ou se faz? Tão intenso s sentimento que me imobiliza. Enlouquece e se espalha… enraíza e depois floresce, também vira mato, e inço, às vezes, violetas.

Este caminho não é o que eu procuro, assim mesmo escrevo, obcessivamente escrevo: excessivos decotes, sensualizados gestos. Nada disso procuro, busco algo mais calmo, mais íntimo, cativante e profundo. Não sei como expressar porque não estou dentro dos sentimentos. Passo o dia atordoada: limpo, esfrego, cozinho.

Deixo o tempo escorregar pelo ralo como se fosse uma torneira aberta / esquecida, abandonada, sem uso… a água sai rola escorrega. Quero outra vida. E penso retornar a Porto Alegre: escutar outros sentimentos.  Apenas movimento, afinal, altera muito pouco quem eu vou ser / o desenho rascunho escorrega do lápis. Estou nostálgica de ser eu, apenas eu mesma. Outra vez recomeçar. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro – 30 de dezembro de 2026 – Torres

a dor física

Existem momentos em que a passagem do tempo é percebida de forma aguçada, em especial quando se experimenta a dor. A enxaqueca, que surgiu sem mais nem menos quando eu tinha meus catorze anos, com a cólica, interrompeu minha vida cotidiana. Enquanto eu parava o que estava fazendo e aguentava a dor, cada gota de tempo que caía era uma conta feita de várias lâminas. […] Seguimos em frente na beira do precipício invisível que se renova minuto a minuto. Ao fim deste tempo que vivemos, damos um pequeno passo e, sem interferência ou hesitação, pisamos no ar com o outro pé. Não porque somos especialmente corajosos, mas sim porque não há outra alternativa. Nesse momento também, também sinto esse perigo. Caminho imprudentemente em direção ao tempo que ainda não vivi e ao livro que não escrevi.” (p.12) HAN Kang O livro branco – Editora Todavia São Paulo – 2023

dei a mão a olhar e transcrevi cada palavra para que eu pudesse, com ela sentar, na mesa de um bar e assim, como ela, pudesse escrever sem escrever / irmãs ficaríamos sentadas o tempo necessário. e eu, iludida, acredito que escreveria e contarei, chorarei, sairia mais forte e conseguirei, ou será que vou morrer antes porque está próximo, insônia amorosa, ruídos, cheiros, não sou eu, meu querido. Tua mulher, a legítima te acolhe, não podes ficar comigo /somos comprometidos noutro amor. escorrego para minha cama sem convicção. Tu não vieste. Elizabeth M. B. Mattos .- dezembro eu conto que trabalhar durante um ao na televisão me fez crescer. Escuta Lucas.

sou

Agitada, amorosa, ansiosa, egoísta? Assustada. Tenho mania de limpeza, obsessiva, compulsiva, agitada, pois é, inquieta. Depois, sonhadora, agarrada na vida, no suspiro, na saudade generalizada, na expectativa. Acredito no amigo, no trabalho, no jardim florindo, nos amigos e nos abraços, no beijo, na conversa madrugada entra, no whisky com gelo, sem gelo se for bom. Gosto de coca-cola, guaraná e água gelada. Batatas fritas. Balas de goma. Café com leite. Doces de ovos, goiabada com queijo. Amigos e amigas. Gosto de gostar. E leio leio muito, obsessiva se tenho um bom encontro, um autor amado, encontrado vira íntimo. Amanheço e adormeço no livro / com o livro: Leio devagar, releio capítulos, escrevo nas margens, sublinho. Volto no livros… Gosto de piano, dos clássicos, das canções em francês, dos autores japoneses, coreanos – pois é. Esquisita sou mesmo. Gosto da chuva, das trovoadas. Este ano senti frio, muito frio. Gosto do mar resmungando… De banhos, muitos, muitos. No chuveiro, na banheira, no chuveiro… tantos! Os cheiros, os cheiros são como desenhos. Tinta e expressão, cuidado e zelo. Cheiros são gulosos. Ah! Como são gulosos! E gosto do bom feijão, de arroz e batatas, guisado feito por mim, moído na hora. Gosto mais do que desgosto… As frutas me seduzem, todos Todas. Os sucos… os gramados, as margaridas, os amados amores. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2025 – Torres – gosto dos anos pares, redondos, de números. Gosto de gostar.

gosto de cartas, de mensagens, gosto da vida.

gosto de coisas bonitas, do amarelo, do vermelho, do verde e cinzentos, dos marrons, das cores, dos pincéis e dos lápis

gosto de cinamomo, violetas, rosas, flores e musgos

gosto de gostar, pois é

gosto de gostar, eu sei.

gosto do JAPÃO e do japonês.

delícia de lágrimas

quando o verão choraminga, derrama lágrima grossa protesta de tanto sol e calor, aproveito o frescor destes soluços. gosto. quando jovem, menina, as lágrimas desciam fáceis. tão bom! quando virava soluço, se resolvia num abraço, um beijo. boas lembranças! envelhecer tem a risada do passado! molecagem do tempo. a vida se derrama nesta boa memória. tintas excitadas se misturam na tela… pintar sem desenho, tão bom! pincéis, lápis numerados, canetas mágicas! escorregar no texto alegra. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2025 – Torres – calorão neste verão! despedida florida de um inverno rigoroso – as estações estão, aos gritos, se colocando nos seus lugares precisos…

ANAÏS NIN Journal

Journal 1934-1939

Tout le monde est jaloux. Certains l’admettent, d’autres non. C’est une perversité d’ être jaloux du passé parce que le passé est d’ordinaire fait de cendres. Mais avec l’artiste le passé survit sous une autre forme; et je comprends ceux qui sont jaloux du passé d’un artiste. Il devient un monument. Examinez le passé de la plupart des gens et vous trouverez un cimetière bien propre ou bien une urne avec des cendres. Examinez, par contre, le passé d’ un artiste et vous trouvez des monuments à sa pérennité, un livre, une statue, un tableau, une symphonie, un poème. (p.265) Anaïs Nin Journal 2 (1934-1939) Éditions Stock, 1970

queria escrever sobre esta coisa do ciúme e sobre o passado e o tempo de escrever e respirar isso tudo… tanto e tanto se agita ao mesmo tempo… e estamos na beirada dos festejos, das fitas… vou voltar ao assunto. agora, só o registro da Anaïs

conversa com o sol

Verão, sol e sol, finalmente, pés na areia. Praia. Que mar! …mar! Transparente. Onda certa. Praia cheia: o verão conversa entre biquinis e tanta luz bronzeada… Confraternização colorida.

Urca – Rio de Janeiro ( foto do Pedro )

Fico devendo as luzes de Torres, do mar da Prainha…

outra luz… nem da Lagoa do Violão tenho fotos! tenho que me dedicar! E fui ao mar, já duas vezes (risos)

caos calmo

caos se define? pois é. segundo Sandro Veronese surpreende… no exato momento em que a vida se remexe estranha e você se imagina isolado ou em surpresa, ou viabiliza uma liberdade… pois é, não é assim. a sua volta o mundo segue, e, a imobilidade se transforma na ilha pacífica do caos / da incredulidade. vulnerabilidade, afinal, benéfica. será assim?

“Acabei de constatar que há 2.180 sites que mencionam ‘quiet chaos’, na Internet. Tentei abrir alguns, mas eram pesados e o meu celular não conseguia. O único que consegui abrir foi este, e então tenho uma definição de caos calmo: uma caçada que não termina nunca, uma caçada em que, de um momento para outro, pode se transformar em presa. O que isso tem a ver com a minha vida? Pode ser interessante refletir sobre o assunto. Mas, antes, pode ser interessante refletir sobre como chegamos aqui.” (p.380) Sandro Veronese Caos Calmo / Editora Rocco 2007 – Rio de Janeiro

banalidade

asas pela casa: não são as minhas nem dos anjos mas cupins. a alma passeando separada do corpo: corriqueiro da poesia. fúria contida do amor: saudade. noite mal dormida, coceiras do verão e outro tanto de saudade. corpo desajustado com o verão: espirros e inquietude. te amo. um dia fui assim, loira. (risos) Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2025 – Torres