12 de outubro de 2023

Dia esquisito. Festeja-se como Dia da Criança, na verdade, dia de Nossa Senhora Aparecida. Memória: dia em que minha mãe morreu. Eu não estava em Porto Alegre / em Rio Pardo, eu acho, ou o que importa? Tanto tempo! A data, inusitada e significativa data/marco do tempo, as nossas: as tuas. O que de fato importam? Importam. Mais avança o tempo, a idade, a minha, a tua importam. Questiono o porquê, e como, e como será amanhã? Como estás meu querido? Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2023

O pai, guri. Eu com Ana Maria, Pedro e Joana, pequena. Érico Veríssimo, Rita Ruschel, a afilhada.

Luiza, a minha caçula gaúcha. Rio Pardo – Fazenda Santa Branca

caleidoscópio

segura a beleza. deforma, gira…

quero estar / sentir a brincadeira, meu querido, amado. como vou te contar a ausência destes dias? sem palavras, entre vírgulas?! ou sei lá, sem voz. gira o caleidoscópio e me verás, inteira, festiva. igual presa na saudade. escuto e escorrego. vício de te pensar, de chegar…

fez bonito, fez céu branco no azul. agora chove tanto e tão e tanto, gosto de ter meu mundo lavado, enxaguado.

e não me dizes nada, como no poema… pois é, como o poema que mandaste / escrevo no teu silêncio e imagino. lembro o beijo. desastrado beijo o meu, os livros me explicaram, tu não disseste nada, surpreso. coisa de menina. estávamos na tua biblioteca.

descemos as escadas, às pressas, surpresos, os dois: uma enxurrada de palavras… não lembro mais. sentamos no pequeno sofá e começaste a tocar violão, a música equilibrou a tarde. a música responde a toda e qualquer inquietação, a gente embala e esvazia o tempo.

vou beber água mineral e me distrair com a bolinhas… Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2023 – Porto Alegre

foto de Pedro Moog

como menina

Volto a estudar, estudar como menina: um certo enfado, uma surpresa. Pensava que sabia tudo, que nunca esqueceria ou que… Estudar e anotar, e repetir sem decorar. Como uma rajada de vento agitando os cabelos a surpresa me surpreende. Vou a me impressionar com a novidade… Mesclo, refaço, absorvo e logo, tão ao mesmo tempo, chega a incerteza: para que? por quê? A lógica. Interrompo. Talvez o livro de Georges Bataille, Ma mère, comece a fazer efeito… Detalhada e minuciosa leitura. Internalizo a emoção do autor, acordo a minha… Afinal a verdadeira leitura. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2023 – Porto Alegre

fragmento

O momento é um movimento de uma luz que não ilumina, mas aquece. Uma dor que caminha arrasta os pés. Desorientada, sem rumo.

As lágrimas descem. A urgência se encabula na incapacidade de fazer mais, mas a vontade entre festeira, e desanimada, oscila, arrasta o fragmento. Brinca. Beth M.B. Mattos – outubro de 2023 – Porto Alegre

energia e fresta

Agarro o tempo da coragem: energia, impulso de conseguir. Conseguir exatamente o quê? Viver.

Viver tem um querer escondido. Coragem para dizer não. Acomodar, equilibrar as frutas, trazer o verde com os pincéis carregados de marrom, e não sendo bem lavados, relaxadamente mergulhados no ponte, veio o amarelo lambuzado! Acerto o quadro, o desenho, as cores me confundem… A vida tem estes arrepios incertos! Noites mal dormidas e um punhado de energia… Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2023 – Porto Alegre assobiando

limões e bergamotas

As frutas, o presente. Todo o abraço de ser dois, de festejar o encontro de ser dois. Do amor não posso desistir. Então, eu te espero todos os dias, eu espero invadida por doçura meu querido. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2023 – Porto Alegre

coisa de ser santo

“Eu vi um santo que talvez estivesse parado sobre um poço. Para dizer a verdade, talvez não tenha visto nada, mas senti algo que teria de expressar assim. A água corria, e o que o santo fazia também vinha jorrando sobre a beirada, como se fosse um tanque mansamente transbordando para todos os lados. Acho que deveríamos ser assim, pois então sempre agiríamos direito, pois seria completamente indiferente o que fazemos.” (p.529) Robert Musil O Homem Sem Qualidades Editora Nova Fronteira

Talvez, uma incerteza inquieta e desanimadora. Dizer não significa encontrar o poço. Esta coisa de jorrar, de água a escorrer, pode ser desperdício. Abundância, certamente, indiferença. Transbordar enquanto se respira. Chorar por não conseguir dizer. E aperta por dentro. Não dizer pode ser omitir, deixar passar o abraço, o beijo, a certeza. Não te escutar quando queres mesmo receber, acertar. Num instante o vento, ou a trovoada querendo dizer… O bom são palavras boas, também desafio de ser reflexo do emaranhado, o nosso. Pedir perdão não basta. É preciso entender a loucura de não saber, não poder ajudar. Esfarelado momento. O que de fato eu posso fazer? Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2023 – Porto Alegre

vida: do que se trata?

sei lá?! sem receita. vou a esticar a corda com ânimo, ou desânimo, firme, ou nem tanto… acredito, ou espero, como posso dizer? a surpresa de um abraço, o olhar sorridente da calçada, o trabalho, o ciclista, o empenho… não tem receita, mas desafio. eu comigo mesma, solta e fixa num remoto desejo, ou vontade, ou coisa de nascer com a pessoa, vontade de viver… como bebê: do conforto encara a coisa de respirar, de sugar, e faz acontecer. sei lá. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2023 – Porto Alegre

talvez a vida seja o meio termo. não voltar ao passado. o sorriso da memória. um quase nada, a risada. não posso voltar a ser, sim, sou passagem…

Bela Vista

Acorda o sol. A noite se acalma. Ah! O desastre da chuva intensa. Silêncio agora.

As leituras se agitam, querem se aproximar, mas a rapidez e a labuta do dia impedem a quietude necessária / desloco o jeito de estar, sou outra. E os dias passam acelerados, posso dizer frenéticos? Fujo das palavras / das letras e vou derrubando o tempo com ansiedade. Preciso cozinhar, sentir o cheiro das frutas, comer o feijão e temperar o fazer, vês, não sei descrever o que sinto, não sinto, desisto.

As vitrines me encantam, mas lojas fechadas, tantas. Escasso movimento nas calçadas / assim mesmo um certo charme reage, segura o passado… Outros tempos! Reconheço, visito alguns lugares perdidos: a padaria, o restaurante heroico, o supermercado enorme (canso), aquela farmácia, lojas de móveis. E vou correndo os olhos: imagino.

Tenho que voltar a escrever, forçar o tempo, reagir. Reconhecer. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2023 – Porto Alegre

aventura

Passou o aniversário, aventura apenas começou… Evento / estória se entendem/conversam com a chuvarada do Rio Grande do Sul. As lavouras agradecem, talvez não. Exercício do cinzento… Haja espanto alagado e rua a transbordar. E susto querendo sol. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2023 – Porto Alegre se movimenta.