semelhanças

De tantas semelhanças, ou desejos certos de repetir, aprimorar a ideia escava-se / aprofunda-se o gosto amargo de despedida / desprender / largar. Poderia ser sem angustia, liso forte, sem sofrimento, nunca é…a cada encontro, a cada chamada uma certeza dividida. Talvez o dia devesse ser organizado e pensar não fosso conflito. E temos fatalidades… preciso concordar com a dieta e com a beleza. Vou agilizar…algumas feridas doem. Qualquer conceito se escondendo. A força, a energia, o fazer sempre , sem se assombrar, a doçura. Estou perdendo o nomear e a graça, vou aos fatos desenhados. E.M.B. Mattos – julho 2023 -Torres

liberdade na pauta

Em nossa época, a ideia de liberdade intelectual está sob ataque de duas direções. De um lado, estão seus inimigos teóricos, os apologistas do totalitarismo – hoje se poderia dizer fanatismo – e do outro seus inimigos práticos imediatos, o monopólio e a burocracia. No passado […] a ideia de rebelião e a ideia de integridade intelectual estavam misturadas. Um herege – em política, moral, religião ou estética – era alguém que se recusava a ultrajar a própria consciência.

(Hoje em dia) a proposição perigosa [é] que a liberdade seja indesejável e que a honestidade intelectual seja uma forma de egoísmo antissocial.

Os inimigos da liberdade intelectual sempre tentam apresentar sua tese como uma proposição da disciplina contra o individualismo. O escritor que recusa vender suas opiniões é sempre marcado como mero egoísta. Ele é acusado, isso sim, ou de querer encerrar-se em uma torre de marfim, ou de exibicionismo da própria personalidade, ou de resistir à inevitável corrente de história em uma tentativa de apegar-se a privilégios injustificáveis. [Mas] para escrever em linguagem simples é preciso pensar sem medo e se alguém pensa sem medo não pode ser politicamente ortodoxo. George Orwell – 1945

E as evidências voltam e se contorcem, estranhamente, por mais inventiva esperta alerta e inteligente a pessoa se repete, e repete o outro, e o sempre, o sempre se revira numa tentativa de ser único, especial… Mas se repete. Assim eu vou desdobrando este diário, amorando sem cor, muitas vezes, apenas, namorando. E estás tão distante, tão oculto, tão perdido até da minha memória, das conversas, dos beijos, das carícias e da saudade. Distante da saudade que sinto de ti, e que sei lá, talvez, não tenhas de mim saudade nenhuma. Hoje eu me revirei esquisita assim a te pensar sem te escrever, sem choramingar a me tocar, tocando em ti, meu amado querido. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2023 – Torres

Salman Rushdie

Cruze esta Linha Salman Rushdie: Excesso de publicações e excesso de publicidade criam deficiência de leitura.(p.78) Em defesa do romance, mais uma vez

Como eu vou explicar que a leitura… sei lá, quando desdobro, quando eu me entrego, o meu tudo se contamina, eu transcrevo, não escrevo. Fico tão mínima no meu mínimo que desapareço dentro do livro, mal respiro. Como este calor estranho dentro do inverno, como… qualquer analogia, ridículo. Ah! É verdade, conversar pode ser desdobrar e o silêncio um discurso importante. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2023 – Torres

calçada

Calçada que não termina, caminha nos pés. Solução. Sufoco e não sei o porquê, ou não ouso confessar, não quero me convencer. Já não sou eu, mas a outra que resvala, coloca o pé na poça…

Escrever dói a cada palavra, ou dói o não explicado. O tema de amar o amor se esvaziou, desarrumou na tua ausência. As cartas não se envelopam, mudou o jeito, e lembrar não resolve, se espalha um tédio triste, este verão no inverno, ou o inverno desistindo, não sei… Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2023 – Torres

embaralhado demais

Cartas embaralhadas, gosto de jogar, aceito. Mas eu me perco confusa com o tempo, com a hora, ou foi o filme? O cinzento implacável. O feitiço. Roupas torcidas, alguma coisa me confunde / os aniversários dos filhos se misturam… Com certeza minha irmã acerta: as pessoas precisam umas das outras. Que nos cerquem e movimentem as horas, interfiram. Ou sou eu a me isolar, e, nesta quietude afundar estranhada. Ontem a roda gigante, o carrossel, e hoje o silencio. As horas de sono erradas, misturas com as certas. A fome, talvez seja apenas fome. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2023 – Torres

nervos

outra quebradeira / outra vez pó vezes pó e ruídos e estresses a serem testados, a loucura das reformas… dar novas formas, embelezar, otimizar deve ser isso. Eu me remexo por dentro por fora e não “tiro férias” do lugar, da beira da lagos, do tempo… acho que as pessoas normais fazem isso, se locomovem… eu me pergunto ‘aonde coloquei esta minha normalidade’ insisto em ficar inamovível. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2023 – Torres

gripe / ranço da impaciência

como se fosse uma coceira / qualquer coisa epidêmica, curiosa, a impaciência pacífica se transforma numa belicosa disposição: um bom sono pode resolver, ou papos de anjos mesmo açucarados, ou suco de amora, ou de morango, uma manga aberta e suculenta! estranhas relações com o prazer, ou o prazer ele mesmo quando me abraças inquieto e desejoso, derramando tristezas…esta vida tão instigante no viver, e o desenrolado mel esparramado a nos açucarar! a ideia de estar ao teu lado me agita! coisas de ser feliz…Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2023 – Torres depois de tanto sol, até calor, um cinzento se chama amanhecer.

contamina

certas contrariedades se esticam, e ao se esticarem resvalam, e levam com elas tantas boas risadas, se contaminam…

de todos os caminhos possíveis, recomeçar

temo o peso do fracasso já na saída.

no lançamento, o gosto azedo se mistura, e os soluços pesados trancam na garganta.

tudo é possível, nada mudou, afinal, todos, mansamente, esperavam o bom desfecho, suponho

sinto o descabelado sonho amoroso se desfazer e vejo um negócio, no acerto de contas bem cômodo, enfim… previsível.

o mar está chocolate e enroscado, vai e vem ritmado

o gosto de fel / o cheiro de mel não me salvam…

nem te alertam.

que o dia termine / uma fato.

que o sol, ou a chuva, ou os ventos, ou…

eu espero, sempre espero, espero… Elizabeth M.B.Mattos – julho de 2023 – Torres – talvez a doçura te abrace!

o cão eu e os livros

não pode ser razoável, nem perfeito, sou eu nesta escolha, jeito. importância enviesada, esquisitices assumidas.

a comida, a minha.

festividade com a xícara do café, garganta dolorida, massacrada de tanto falar e dizer quando a voz alcança… dorme numa hora, revira na outra. calçada no meio da noite, janela escancarada, leite e resfriado.

pode não ser a gripe, nem a droga deste adoecer inquieto, confissão:

envelhecer neste costume, jeito de ser um, uma…

cheia de medo, envelhecer.

talvez eu termine de arrumar, tirar o aspirador da sala, os panos do sofá. receber uma visita, talvez, possa ser acontecimento com chá e biscoitos. agora, hoje, não tenho cadeira para oferecer. alguém chega, fico errada: camisola, pés descalços, cabelo esvoaçado, louça empilhada na pia. camas desfeitas. ocupo os dois quartos, na madrugada vou assistir televisão na cama grande ou esparrar uma leitura engrenada, beber um chá. não exatamente selvagem, nem antissocial, mas esquisita vida de uma escolha certa: sou uma. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2023 – Torres / RS

se pudéssemos

“Se pudéssemos, o que desejaríamos, sem dúvida alguma, seria suprimir o mal. Mas o desejo de suprimir teve por efeito apenas (o gênio permane obstinadamente pessoal) a expressão do desejo.[…]

Todos os homens‘, disse Blake, ‘são semelhantes pelo gênio poético‘ E Lautréamont: ‘A poesia deve ser feita por todos, não por um.‘ Quero, de verdade, que se tente, honestamente, como for possível, dar consequências a essas intenções: mas a poesia alguma vez deixou de ser o feito de alguns poucos que o gênio visita?” (p.193) Georges Bataille A experiência interior seguida de Método de Meditação e Postscriptum 1953

Inverno ilumina com cores, dá luz de verão às bergamotas. Desejo, gosto, usufruo… Elizabeth M.B. Mattos julho 2023 – Torres