Domingo avança morno. Ruídos atravessam venezianas e vidraças fechadas e aborrecem…Ligo o rádio. Estranheza minha. De onde estou posso ver folhas verdes. O vidro da porta-janela está com respingos das novas folhagens, altas, esparramadas, volumosas, encondem as janelas do prédio ao lado. Ias gostar. Sexta-feira afundei-me na compra destes vasos: verdes e verdes para fazer o meu jardim no estreito corredor. Sábado fui ao cinema ver Dogville, excelente filme, talvez o melhor… Depois deitei e fiquei sonambulando no prazer de estar em casa. Nostálgica saudade que sabe ser diluída nas impossibilidades. O curto tempo dos nossos encontros. Diferentes. Não imaginei nenhuma relação homem versus mulher onde beijos e abraços importam. Aconteceu. Enamorados pela possibilidade, ela mesma, do enamoramento. Que vontade eu tive de me deixar acarinhar.
Calor, exaustão, mesmo o desencontro me fez feliz, os impulsos… Gostei do teu olhar. Penso no prazer de cada pedaço de corpo, não uma mulher inteira, mas um braço, um pescoço, um rosto, uma boca: ser possuída pelo desejo do outro. E o prazer caminha lento, manso e morno. Perfeito. Apalpei a vida.
Por que não fui ao teu encontro? Não tinha ceteza. De repente, indecente. Convocar ideias, longas conversas, outras viagens! Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2023 – papel solto. Porto Alegre
“Por que é que os antigos persas consideravam o mar como sagrado? Por que razão lhe atribuíram os gregos um deus especial, o pr´prio irmão de Júpiter Seguramente tudo isso tem um sentido. e mais profundo ainda é o significado do mito de Narciso, que por não poder agarrar a imagem suave e aatormentada que viu na fonte, mergulhou dentro dela e se afogou. Pois a mesma imagem vemos nós em todos os rios e oceanos. É a imagem do inacessível fantasma da vida; é aí que se encontra a chave para tudo.“(p.41)Herman Melville Moby Dick
silencioso e dolorido, sem lágrima, o tempo de morrer. sem vontade de ir, no desanimo do que dói, sem memória. eu choro, distante, impotente, eu choro… na calada da noite, sem ruido, como se o sono interrompido se desfizesse em pedacinhos… o ritual inteiro, completo, vai doendo como se fosse faca no peito. assisto a morte passando pela janela. sempre pela janela o tempo caminha… eu vejo, não faço nada. parou o vento, ficou gelado o frio, já tão frio deste inverno, desta noite da insônia acabrunhada, inquieta: sem saber o porque este ir da cama para o teclado, do teclado para a cama. eu escuto, não grito, eu me despeço, e choro. não entendo nada de morrer, eu sinto, e eles se despedem silenciosos… ah! o abraço que nos abraçou! Elizabeth M. B. Mattos – 18 de julho de 2023 – duas horas da manhã, ou antes, ainda antes – ele se despediu em Torres
A chuva desceu furiosa e grossa. Das secas? Das imundações? Do verão explodindo. No mar majestade, nostalgia: saudade. Esta é a terceira carta escrita, repensada na palpitação, inacabada. Vontade de dançar, emagrecer para não doer as pernas, voltar do tempo com fartos cabelos, quiças brancos. Não faz fresco nem quente. Volto da caminhada pelos Moinhos de Vento, jantar na Dinarte Ribeiro. Os jacarandás iluminam o imaginário florido. Porto Alegre verão urbano. Dou-me conta: relação amistosa entre homem e mulher, beijo e afagos, olhares bizarros, apertos, bizarro sentir… Preciosos momentos derramados na futilidade social da calçada e deste sopro noturno /ou boemio: rende ilusão. Tempo tomado do sonho. Precipitação. Amor escorregadio, soberbo amor. Desejo? Falso/ incompleto. Volto para as cartas ou João Paulo? Esta relação amistosa entre homem e mulher, beijos, afagos. Não. Cartas. Cartas eu posso completar com associações idiotas, outras boas, soturnas, alegres, mas catalisadora, verdade. Gosto disso. Das conversas. Do olhar e dos gestos, juntamos bebida fala e tempo, acrescento desperdício de tempo na euforia… pas des nuits blanches,mas exaustão, yeux cernés. Pateticamente, dor pelo corpo, noite mal dormida. E segue no dia seguinte, hoje.
Quero guardar este trepidante momento de mudança, chegada no meu lugar, chegada no silêncio entre leituras, cartas, fotos…e, as fotos estão pintando as portas, gosto. Se eu pudesse hibernar para chegar no tempo da pesca, mel, sol e quem sabe um namorico, verdadeiro: urso tem possibilidades. Não quero esvazear o momento. Posso me imaginar na França, entregue aos teus cuidados, ou no campo, ou perto do mar num tempo de recolher a vida dos pedaços espalhados… Tu te imaginas em Porto Alegre, urbano, solto, cheirando a fruta, ao sol dos trópicos. A fala preguiçosa da lingua estrangeira? Talvez tudo se faça na sonolência: noites mal dormidas, um trabalho idiota, a secura da vida, empurrões. Acreditei em histórias que se fecham: certeza dentro das incertezas. Foi assim com o marchand, viúvo, logo se engajou com amiga alemã, namorada poderosa. Apenas dividiu o tempo. Quebrou meu orgulho. Estou desgastada, sem sintonia, triste.Perdoa.
Escutar tua voz ao telefone foi bom. O som da remissão: tu me perdoavas. Assim, eu me aproximava, quieta, acalmada. Confidências entre mares? Nunca poderemos nos encontrar, nem na França, em lugar nenhum. Tempos cruzados por afazees: uma pedra sobre outra perda para reconstruir terra ancestral. Os princípios, disse Juliette. Eu não mandei os presentes…meus equívocos.
Vou te escrever mais. Esta carta ficou longa e confusa. Quero tuas palavras precisas. Sentir o carinho reconhecido no gesto – egoista eu sou. Rígida. O olhar, o toque. Correspondência ao sentimento interno de alma machucada, descrente, justo pela diferença. Quem é mais feliz? Homem ou mulher? Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2004 – Porto Alegre. – Foto Marina Pfeifer –
acordo tão cedo! durmo tão cedo! a cidade se movimenta bem cedo! faz frio, bastante frio…vou voltar para as cobertas. o café se acomodou feliz, a Ônix choraminga na calçada, está escuro, mas vamos as duas procurar a grama… acenderia o fogão à lenha distraída: o campo acordaria comigo se estivesse na fazenda! os homens fazem a roda do chimarrão, cavalos encilhados. Ficava eu com vergonha de voltar para cama, uma vergonha descabida / ridícula, mas meu desejo se atava na vontade de trabalhar, ou fazer, ou alguma coisa… a natureza de cada um no lugar possível de cada um… saudade.
os dedos estão gelados, assim mesmo insisto, sonolenta. fora do lugar,estão todos longe, os filhos / guerreiros, e perfeitos. os amados são perfeitos! e desejo o impossível! patético desejo: ter outra vez uma vida para acompanhar/crescer/conquistar/ conviver ao ritmo, na dor, a cada alegria deles, minhas também. …os netos! ora?! os netos seriam nossos holofotes, deles e meus. a passarinhada acordou e se comunicam aos gritinhos, a luz nascendo, vou voltar a dormir…Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2023 – Torres – inverno definido, gelado e
” Sempre que sinto na boca uma amargura crescente, sempe que há em minha alma um novembro úmido e chuvoso, sempre que dou comigo parado involuntariamente diante de empresas funerárias ou formando fila em qualquer enterro e, especialmente, sempre que a minha hipocondria me domina a tal ponto que necessito apelar para um forte princípio de moral a fim de não sair deliberadamente à rua e atirar ao chão, sistematicamente, os chapéus das pessoas que passam…então, calculo que é tempo de fazer-me ao mar, e o mais depressa possível.” (p.39) Herman Melville Moby Dick
“Por que é que os antigos persas consideravam o mar como sagrado? Por que razão lhe atribuíram os gregos um deus especial, o próprio irmão de Júpiter Seguramente, tudo isso tem um sentido. E mais profundo ainda é o significado do mito de narciso, que por não poder agarrar a imagem suave e atormentada que viu na fonte, mergulhou dentro dela e se afogou. Pois a mesma imagem vemos em todos os rios e oceanos. É a imagem do inacessível fantasma da vida; é aí que se encontra a chave para tudo.”(p41) Herman Melville Moby Dick
Como uma desgarrada, recolho o livro não lido e me proponho a avançar, simultaneamente, com o Robert Musil que avança no crime, no social, no perdoável, no amor lícito e também no ilícito e o dinheiro. O que eu fiz com o dinheiro, com o trabalho de galho em galho ousando. Já tracei, já senti raiva e aquele amontoado de alegrias necessárias. Festejei a minha relação com Jorge no período tumultuado,do Lalo, o amor adolescente de crianças adolescendo e tantas! Construir cercas, e açudes, e construir casas .ah! As casas! Misteriosas e falantes / são elas que sepultam aquelas alegrias inconfessáveis, as viagens de lá pra cá num baile com orquestra e beleza disfarçam a vida, como passageiros, turistas, vamos vendo os cartões postais, comendo de exóticas iguarias e reconhecendo um mundo, ah! um mundo plural / diferente / outro que não o nosso quintal . E tão nosso quando escolho a beira de uma praia, os mercados de iguarias, as aventuras no voo de Balão. Seja Itália, Turquia, França. Posso tudo e dentro deste olhar/ver/colorir, sou rei, sou rainha, sou dona, sou livre, sou pessoa realizada que posso ir e vir. Avanço / agarro o mundo. Isso basta para abastecer: volto para a cozinha, para a vassoura, para os números, para o marido, os filhos, A cama desfeita, a chefia, volto para o poder.
E deveria desenhar a cronologia / desenhar as curiosidades,por que não?Elizabeth M. B. Mattos julho de 2023 – Torres frio frio frio e frio
foi-se o ciclone, limpou / varreu por aqui… o esplendor do inverno chegou: higiênico, magnífico! desencotro e tristeza espicaçados, retomei / abracei o raio de força que passou junto. volto a escrever, a pensar. cozinhar, ficou delícia a carne picada, e o gosto das frutas, as minhas amarelas laranjas e bergamotas…afinal, sou feliz. Elizabeth Menna Barreto Mattos – julho de 2023 – Torres
PS resolvendo a cortina, que protestou e se “jogou” no chão! espanto e susto! as coisas se manifestam, mas não foi o ciclone, foi de velhice mesmo que ela caiu.
mistério de mar, deste ir… gosto de geléia, pão com manteiga, o café. notícias engraçadas…
leitura lenta, arrastada, e anotações.
arrumar, limpar, mas não muito. falta manutenção nesta subida.
começo a rir de mim mesma, desta vontade altiva, deste desarrumado de sobreviver.
encabulada, com medo das palavras, das decisões e… vou voltar a me obrigar, a exigir, palavra certa: exigir a exigência: isso pode?! e lá me fui a fotografar o galho atrás das florzinhas brotando…
danada ventania! pois é, eu podei / cortei… Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2023
As letras do alfabeto kazar levam nomes de iguarias salgadas, e os números levam os das diferentes espécies de sal; os kazares distinguem sete tipos de sal. Oskazares acreditam no envelhecimento pela ação do olhar, seja o nosso olhar que recai em nosso próprio corpo, seja o olhar dos outros, pois os olhares lavram e rasgam os corpos com as mais diversas armas e as mais mortíferas, criadas por suas paixões, ódios, intenções e desejos. Só o olhar salgado de Deus não faz envelhecer. Chorar é a maneira de rezar dos kazares, pois as lágrimas pertencem a Deus porque, como a concha abriga a pérola, as lágrimas encerram sempre um pouco de sal no fundo.
Os kazares tem igualmente o culto do sonho. Aceditam que quem perde seu sal não poderá mais dormir. Daí a atenção que se dá ao sono […] Os kazares acreditam que os que habitam no passado de um homem estão como que aprisionados ou condenados em sua memória não podem fazer nada diferente do que já fizeram, só podem encontrar com as pessoas que já encontraram, e nem mesmo podem envelhecer. A única liberdade concedida aos ancestrais, a povos inteiros de pais e mães desaparecidos e guardados na memória, é a trégua temporária dos sonhos. Ali, nos nossos sonhos, esses personagens da memória ganham de novo uma parcela de liberdade, agitam-se um pouco, encontram novos rostos, trocam de parceiros para a raiva e para o amor, voltando a assumir assim um lugar importante na religião kazar, pois o passado, a prisionado para sempre em si mesmo, ganha liberdade e possiblidades nos sonhos.(p.225-226) MILORAD PAVITCH – O DICIONÁRIO KAZAR – Romance Enciclopédia em 100000 palavras – edição feminina
“Só eu saberei se foi a falha necessária. Levantei-me enfim da mesa do café, essa mulher. Não ter naquele dia nenhuma empregada, iria me dar o tipo de atividade que que eu queria: o de arrumar. Sempre gostei de arrumar. Suponho que esta seja minha única vocação verdadeira. Ordenando as coisas, eu crio e entendo ao mesmo tempo. Mas tendo aos poucos, por meio de dinheiro, razoavelmente bem investido, enriquecido o suficiente, isso impediu-me de usar essa minha vocação: não pertencesse eu por dinheiro e por cultura à classe a que pertenço, e teria normalmente tido o emprego de arrumadeira numa grande casa de ricos, onde há muito o que arrumar. Arrumar é achar a melhor forma. Tivesse eu sido empregada-arrumadeira e nem teria precisado do amadorismo da escultura; se com as minhas mãos eu tivesse podido largamente arrumar. Arrumar a foma. O prazer sempre interdito de arrumar uma casa me era tão grande que, ainda quando sentada à mesa eu já começara a ter prazer no mero planejar… Olhara o apartamento, por onde começar?” (33) Clarice Lispector A PAIXÃO SEGUNDO G.H.
Livro lido muitas muitas muitas vezes, assimilado -, descobri Lispector quando trabalhei na TV Globo com Célia Ribeiro e era responsável por uma pequena coluna de livros. Encontros de amor prematuros e intensos são tatuagens…
Eu mergulhei nos livros / obra de Clarice! Mais tarde, eu a entrevistei. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2023 – Torres