gentileza de filho

o filho com sessenta e cinco, de certo, a se sentir o cara poderoso! está de carro novo (caminhonetão), deu uma boa ré de onde estava e se colocou na frente do prédio a minha curiosidade de velha estacionou na janela, e, fiquei estarrecida com o que eu vi. o pai, com seus noventa e quatro, se aproxima apoiado numa bengala, e na dignidade abre a porta do carro, acomada a bengala e começa a entrar, claro, a altura dificulta um pouco, eu vejo o esforço, mas, o filho nada… De repente deve ter se impacientado com a demora, então, resolve ir ajudar, claro! com meus aplausos ao idoso, ao chegar do outro lado, o pai já estava sentado, então, fecha a porta e arranca… Jesus! eu não queria isso. e a história deve seguir. a gente / pessoa não deseja isso, no final, envelhecer e nos surpreender com a palavra impaciência versus idosos, quase intolerância, e, no caso, o pai. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2023 – Torres

desapreendeu o amor. sei lá, amor passa por atenção, não só obrigação, mas tem que ser natural. este filho é, naturalmente, desligado. desatento, suponho, vive no desamor.

mapa de caminho errado

Este mapa ilustra / define o melhor: o novo caminho. O lugar que serei eu mesma, sem pressão externa. Vencer barreiras passar fronteira e lá estou eu, completa, melhor.

Não pode o essencial ser engolido pelo superficial: vida de vitrine, lisa, transparente, evidente. A nobreza desaparece, digo nobreza como sinônimo de educação. Educação transmitida de geração à geração: não o dinheiro que corrompe e deteriora, mas a cultura e o trato, a beleza do detalhe. O sorriso. Desaparece a pessoa, fica o carro, o excesso. Abafa o ser humano que não se permite saborear ou pensar, nem sorrir. Esquece o valor, a educação, a geração. Esquecido do sentido borboleteia inquieto. Sem origem, não sabe de onde veio, nem para onde vai… Borboleteia. O espírito se inquieta, as aranhas tecem, os valores desaparecem. Torres, depois de uma chuva abençoada que lavou… Elizabeth Menna Barreto Mattos – 10 de julho de 2023

alonga

o dia pode ser maior / enorme / comprido e complicado se/quando faços coisas demais: limpar, ordenar, empilhar e…,também, quando as conversas são longas / densas / complicadas / concentradas. o passado. um/o passado debruçado no que nos restou de ser gente / pessoa. a jornada ou a visão de momentos dobrados / fabricados para conviver. viver como tarefa… neste viver com se inclui desencontros / mágoas e o peso de responsabilidades descartáveis. este alinhamento massacra / exige / aborrece, arranca pedaços que importam. e a lembrança / a memória do sofrimento / da gentileza e das danadas e cruéis sacudidas: 1985 1968 1970 ou 1972 ou 1999 e as datas gritam: foi sempre muito muito muito muito muito muito muito. apenas sentir e lembrar? Elizabeth M.B. Mattos julho de 2023

julho de 2023 Parque Ibirapuera São Paulo Pedro Moog

fogueira / fogo

“Como se vê, nas mais variadas circunstâncias, o apelo da fogueira continua a ser um tema poético fundamental. Na vida moderna já não corresponde a nenhuma observação positiva. Mas ainda assim comove-nos. Desde Victor Hugo até Henri de Régnier, que a fogueira de Hércules continua, como um símbolo natural, a revelar-nos o destino dos homens. Aquilo que é puramente fictício para o conhecimento objetivo permanece portanto profundamente real e ativo em relação aos devaneios insconscientes. O SONHO É MAIS FORTE DO QUE A EXPERIÊNCIA.” (p.43) Gaston Bachelard A psicanálise do fogo

Em todas as minhas pequenas experiências desastrosas com o fogo ficou a sensação de ousar, ou gritar, ou transformar… Há um pensamento de criança que chama e quer, uma vontade perigosa de fazer acontecer e transformar… Queimo panelas, canecas, panos de prato, tapete e vontades, a sopa de ervilha, o frango no forno, queimo as distrações e o passado, as luzes… não sei interpretar nem mudar aquele alerta e concentração… Dizem que temos que reler os bons livros e relendo haverá mutação, temos que descartar os livros ruins / confusos pensamentos, tirar o oco, o vazio das estantes… As descobertas saltam! Sou feliz, pois é, sou de natureza feliz, oxalá eu possa arrastar comigo esta energia até o final. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2023 – Torres um dia de calor, vou caminhar na praia e descobrir que a mágica está neste quente e no frio / na tua palavra misturada com a minha palavra, num beijo que esquece: estamos velhos etão fortes e tão tomados!

Nesta Hora

Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda

Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo

Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exílio

E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade

Meia verdade é como habitar meio quarto

Ganhar meio salário

Como só ter direito

A metade da vida

O demagoggo diz da verdade a metade

E o resto joga com habilidade

Porque pensa que o povo só pensa metade

Porque pensa que o povo não percebe nem sabe

A verdade não é uma especialidade

Para especializados clérigos letrados

Não basta girar o povo é preciso expor

Partir do olhar da mão e da razão

Partir da limpidez elementar

Como quem parte do sol do mar do ar

Para construir o canto terrestre

—Sob o ausente olhar saliente de atenção—

Para construir a festa do terrestre

Na nudez de alegria que nos veste

20 de maio de 1974

(p. 270-271) Sophia de Mello Breyner Andresen [ coral e outros poemas] Companhia das Letras – Primeira Edição – São Paulo – 2018

sair do lugar / fazer acontecer

comover / ver como / com sentimento

e

é preciso mover-se para se comover

neste dito inverno bem verde e laranja

e

amarelo das frutas cítricas e limões e

ilusões / aiiii!

pois é, doeu, mas vai passar! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2023 sem poesia, juro! quero texto e sem rimas… (risos)

tempo alternado

inverso e… tenso, depois manso

encontrei as palavras:

“Com certeza o que existe de melhor na vida é o movimento, porque caminhando com uma velocidade igual à do tempo, no-lo faz esquecer. Um comboio em marcha é uma máquina de devorar instantes – por isso a coisa mais bela que os homens inventaram.

Viajar é viver o movimento. Mas, ao cabo de pouco viajarmos, a mesma sensação da monotonia terrestre nos assalta, bocejantemente nos assalta. Por toda a banda o mesmo cenário, os mesmos acessórios: montanhas ou planícies, mares ou pradarias e florestas – as mesmas cores: azul, verde e sépia – e, nas regiões polares, a brancura cegante, ilimitada expressão-última da monotonia. Eu tive um amigo que se suicidou por lhe ser impossível conhecer outras cores, outras paisagens, além das que existem. E eu, no seu caso teria feito o mesmo.

Sorri, ironicamente observando:

  • Não o fez contudo…
  • Ah!, mas por quem me toma?…Eu conheço outras cores, conheço outros panoramas. Eu conheço o que quero! Eu tenho o que quero.

Fulguravam-lhe os estranhos olhos azuis; chegou-se mais para mim e gritou:

  • Eu não sou como os outros. Eu sou feliz, entenda bem, sou feliz!”(p.152) Mário de Sá-Carneiro Antologia – Organização, apresentação e ensaios de Cleonice Berardelli – Rio de Janeiro 2015

mapa

se tenho o mapa e um tesouro, estou no caminho

outras vezes não tenho nada: sento na areia e não gosto: prefiro entrar no mar gelado

verdade, cansei de pensar, cansei de procurar, de explicar e cansei de dar explicações

o desenho não me parece impressionante, as conquistas pequenas

não ter dinheuro, uma droga / uma droga muito grande / o bom é trabalhar, trabalhar e trabalhar o fazer mas pessoas da minha idade…

inventam

as flores no lugar, os pratos na mesa. E, as certezas doentes, pequenas, exaustas…

não tenho boas soluções, talvez parar seja uma boa ideia! Elizabeth Menna Barreto Mattos – junho de 2023 – Torres

dfglkmwjisso

não importa o que possa escrever, não diz / não traduz / não importa que eu possa limpar / aspirar /, não resolve.

não importa que eu compreenda, não explico, não curo, não embalo, não abraço, sou mesmo uma pedra de gelo que não descongela, pode ser pior do que isso? uma rigidez permanente / intrasponível?

vou lavar as mãos, deixar os pés de molho em água morna, esfregar o corpo devagar, limpar, perfumar, lavar, esfregar… quem sabe consigo explicar…Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2023 – Torres