vaidade vai ou fica

Vaidade desorganizada a minha. Tão acentuada! Resultou num certo desleixo, descuido, ‘vamos ver como fica’ – assunto interessante: a vaidade… Como ela se aloja, quando beira ao ridículo, quando estimula, quando pode ser decadência de quem se esqueceu dela… E como funciona positiva ou negativa. O passado é uma vaidade. Funciona. Uma foto, uma omissão, uma anedota (historinha), ou as raízes, o outro (marido, pai, filho, neto, namorados), pois é, tantos potes de vaidade, crescem como massa de bolo, ou… Quando a vaidade sobe e desarruma um bom escritor, um bom cineastra, um bom pintor. Um ator…, tô aqui a pensar, quando a vaidade azeda?! E como a pessoa sem vaidade nenhuma, acertiva, mas sem cuidado. Aonde está o bom limite. Um pouquinho de maldade, um pouco de covardia, um pouco de vilania, de descaso, falta de escrúpulo não, roubo também não, assassinatos não, violência não. Vaidade, um pouquinho, por que seria não. Excesso de bondade, de sorrisos, de verdades, gentilezas também não. O bom meio termo. Sinceridade sim, nem sempre possível… Estas virtudes enfileiradas…Difícel pensar. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2023 – Torres

Uma vez você disse que qualquer pessoa é capaz de qualquer fraqueza nas circunstâncias certas!” (p.319) Robert Musil O HOMEM SEM QUALIDADES

tempestades espirituais

“[…] tempestades espirituais, horas ainda mais loucas que transtornam um homem e uma mulher antes da tempestade, e horas de esgotamento, que gastaram toda a paixão e jazem como prados depois da chuva, no puro ar da amizade.

[…] Clarisse não conseguia mais distinguir direito aquele anos e meses há tanto passados, mas afinal era indiferente em que época acontecera uma coisa ou outra; depois da hesitante aproximação com Walter, viera um tempo romântico, com passeios, confissões e posse espiritual, ao mesmo tempo repleto daqueles incontáveis, pequenos, infinitamente torturantes excessos que arrebatam dois apaixonados, aos quais falta a coragem para se decidirem, mas já se afastaram da castidade. Era como se Meingast tivesse deixado para eles seus pecados, para os experimentarem novamente num sentido mais sublime, e levá-los ao ápice do esgotamento; assim pensavam” (p.315) Robert Musil O HOMEM SEM QUALIDADES – tradução de Lya Luft e Carlos Abbenseth – Nova Fronteira – 1989

todas as horas são inglesas, francesas e mexicanas – e, estamos a catar experimentar e acertar, chatice mesmo, envelhecer em qualquer hora, mas, sigo as migalhas do amor, que se esparrama na mesa do chá com bolo, sugestão da amiga, sem culpa. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2023 – Torres querendo ver o ciclone passar…dentro do livro, ah! leitura de 864 páginas que leio sem terminar, pois é.

isso

Não penso nisso nunca mais, posso dizer que isso me “saiu da cabeça” da cabeça completamente. E um dia, eis que me ocorre de novo… Quase inacreditável… Como é possível que eu tenha passado por isso há tão pouco tempo, mal faz um ano que elas chegavam, introduziam-se em mim, ocupavam-me inteiramente… “minhas idéias”, que eu era a única a ter, que viravam tudo de cabeça para baixo, eu me sentia, (p.109) Nathalie Sarraute INFÂNCIA / Tradução de Luiz Carlos de Brito Rezende / Editora Nova Fronteira / 1985

abraço de palavras

Palavras se soltam deslocadas, achadas, banais… Algumas dizem, outras fazem, outras sentem. Ou nem fazem, nem dizem, escrevem. O tempo não escorrega, abraça. Num recorte a imagem: ordenada beleza. Gosto das tuas palavras. E da imagem. E deste abraço em /de palavras. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2023 – Torres

descola desgruda desarruma, com certeza

Estranhezas do tempo descascam, desenrolam, desempacotam lembranças; reviram alicerces. A vulnerabilidade surge com raízes robustas e floresce… Enfileiradas lembranças, ramagens coloridas: conversas interiores, anteriores. Assombram e aquecem este gelado dia de junho, os pares se apertam, mas, assim mesmo, gelado…

Este danado envelhecer que se quer justo, alegre, ou guloso, mas se avizinha suspirando, gemendo. É o frio poderoso escondido no sol! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2023 – Torres

desordem

…vou limpar e organizar: começo a empilhar o passado nos armários da garagem. Ufa! parece que está tudo no lugar agora, desapeguei / organizei, maravilha! aspirador, pano, escovas, louça brilhando. Fiz.

quando estes eventos? esperando o André? fantástico dia de limpar?

hoje resolvi verificar o passado nos armários dos guardados: acertei o tempo: uma ‘montanha’ de papel, de caixas e caixinhas e surpresas e vontade nova. revirei a lembrança e acertei a memória…

Ah! este calor adocicado da chuva e o do frio.

Carpinejar na Zero Hora deste domingo: ‘as minhas raízes são as minhas asas’. com certeza certíssimo O sotoque do coração: o coração tem sotaque, e a vida se remexe. Ontem em pilhas, hoje pela sala, esparramo este eu aprisionado no armário da garagem. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2023 – Torres

entusiasmo tímido

As histórias estão enfiadas, embutidas, escondidas umas dentro das outras: nada que se possa contar tem clareza, ou certeza, um emaranhado de cores e traços, e linhas e becos. A lucidez, a transparência faz o efeito múltiplo… Tem / ou possui/ sabe/ conhece tantas possibilidades! / – histórias soltas dentro / fora das pessoas, nos livros, nos filmes… Plural mágico que evapora e volta como chuva, tempestade, dia de sol, ou ventania…

Aquela memória esperta que sente o cheiro da sopa e atravessa a sala saltitante para se sentar / ou deitar no tapete da sala a se regalar com as chamas do fogo. Ou acompanhar os derramados e desesperados soluços dos nós de pinho. No entusiasmo de uma pergunta tímida que está presa na curiosidade boa de entender a história que veio antes / a semente daquele jardim, o colorido, a tragédia das feridas. Basta uma palavra…ou aquele silêncio inesperado, enorme. Elizabeth M.B.Mattos – junho de 2023 -Torres