agosto para setembro

Ana Maria e o tempo / sou eu no tempo. A minha pequena atravessa a história e assume o leme. Eu, eu me sinto leve e feliz, ela está comigo / gosto bom de ter filhos. O começo. Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2025 – Torres

OBRIGADA filha

numerando a memória 1

1.

Então tem aquela ’coisa’ chamada infância que deve/precisa ser priorizada, escavada e pesquisada. Exaustivamente, lembrada: é preciso resgatar / cavoucar / recolher migalhas e instantâneos ou invenções desta memória infantil. De acordo com intelectuais, escritores ou memorialistas, desta preciosa memória/lembrança a verdade. Desenterrar sentimentos ali soterrados ou escondidos: entenderei quem sou como sou, e, mais ou menos, de onde eu vim / como cheguei no meu eu… se tenho raízes, ou fui mesmo colocada num vaso para enfeitar vidas chamadas pai e mãe, fui educada ou tive afagos perfumados. Instantânea esta vida? Ou tu, eu, nós trabalhamos, ombro a ombro e chegamos ao consciente. Uaiiiiii! Ai! Esta sou eu / pessoa / gente entre gente querendo seguir e ser e ter o abraço. Coisas de lembrar e, como escreve Simone de Beauvoir. Vontade de não parar de escrever / responder ao que dói aqui e ali no meu corpo. E até esquecer que o frio está voltando, se sacudindo inteiro. Acinzentando a lagoa, mudando o céu. Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2025 – Torres

autobiografia, história de ‘faz de conta’ ou sou eu mesma bocejando…

“Mes vingt premières années, il y a longtemps que je désirais me les raconter; je n’ai jamais oublié les appels que j’adressais, adolescente, à la femme qui allait me résorber en elle, corps et âme: il ne resterait rien de moi, pas même une pincée de cendres; je la conjurais de m’arracher un jour ce néant où ele m’aurait plongée.

Peut-être mes livres n’ont ils été que pour me permettre d’ exaucer cette ancienne prière. À cinquante ans, j’ai jugé que le moment est venu: j’ai prêté ma conscience à l’ enfant, à la jeune fille abandonnée au fond du temps perdu, et perdues avec lui. Je les ai fait exister en noir et blanc sur du papier.” (La force de l’âge, ed. Gallimard, coll. Follio Prologue p.11.) SIMONE de BEAUVOIR

Nesta lembrança picada de esquecimento, o desejo de contar/dizer o que, de fato, restou ou fez sentido, ou se destacou nesta vida arrastada / atropelada (estupidamente simultâneo). Esta memória me acorda e diz: estou/ estás viva menina. Ainda deves seguir, fazer. Tecer o tear… Fazer a manta, costurar as bordas e te aquecer. Será isso escrever memórias lembradas? Respira o caos em mim, espirro. Doer e dançar faz ser eu? Idade se mistura com consciência e segue seus próprios caminhos… Pode ser tão assustador como João e Maria perdidos na floresta. Era tudo proposital? Eles tinham pai e mãe? Seriam perseguidos ou morreriam de fome? Assim é crescer. E os tais fiapos importam apenas porque sobrevivi. Estou aqui nesta praia / balneário, cidade chamada Torres sem acento circunflexo, com menos falaisies, menos areia, mais tudo que qualifica cidade. Escola faculdade / lojas e vitrines, poucos veranistas, muitos muitos torrenses instalados, e outros a se chegarem para viver na mais bela praia do Rio Grande do Sul. De onde eu vim, por onde andei, por quais lados estremeci? …a recordar, eu estrei. Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2025 – Torres

Rio de Janeiro volta e me abraça – foto de Pedro MOOG

devagar bem bastante lento

envelhecer tem este cuidado. lento jeito de ser. ficar gente grande parece um rompante, e, a vida mais que corre, escorrega. sem freio no tempo. eu sigo, caminho, o envelhecer é lento. coragem ou espanto? escorrega, a vida… Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2025 – Torres abrindo a janela. o corpo dói, reclama, devagar.

Ecrire en tant que femme. J’en prens de plus en plus conscience. […] Moi-même, femme, ventre, avec des fenêtres grillagées, les yeux violés. Rues tortueuses, cellules secrètes. Labyrinthes et encore labyrientes. (p.286) Anaïs Nin – Journal 2 – 1934-1939

MARINA COLASANTI

Então a linda filha do rei atirou-se na água de braços abertos, estilhaçando o espelho em tantos cacos, tantas amigas que foram afundando com ela, sumindo nas pequenas ondas com que o lago arrumava sua superfície.” (p.47) Marina Colasanti Uma ideia toda azul

Então, eu tento revirar a memória pra lembrar onde e como eu era / eu fui, onde e qual lugar me tornei princesa, ou era a borralheira com a vassoura, quando eu me atrapalhei com / na memória? As perguntas se atropelam e confundem. As respostas tropeçam… Aonde coloquei as caixas com os papéis que me explicavam e definiam? Preciso dos documentos carimbados. Em qual caixa estão as fotos arrancadas, por que estão cortadas? Em que tempo eu deixei de ser eu, eu… a menina dos recortes, das revistas coloridas, da fantasia atrás da cadeira, do fogo da lareira, das calçadas? Eu tinha mãe e pai e tia e irmãs. Um mundo meu, de repente ficou tudo revirado e fui ficando marionete ou princesa. Que susto! Viver tem sobressaltos e pesadelos e o limbo. O tal limbo… Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2025- Torres – cinzento agora, frio depois do calor – será que vai chover amanhã?

vai ou racha

ou racha indo, sem olhar para trás, importa é fazer. tocar. dói o corpo todo, num puxado de pernas e braças e coragem… dói a alma também. vou testar a resistência deste aventura antes de contar anos de vida: perfumados os vintes anos, graciosos quinze anos, valentes os tais vinte e cinco. e depois? arco e flecha: penas, adornos, cara pintada, investirei e ganharei a luta; em frente guria. Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2025 – Torres

conceitosssss

O estilo é o princípio da decisão numa obra de arte, a assinatura da vontade do artista. E, como a vontade humana é capaz de um número indefinido de posições, existe um número indefinido de possíveis estilos para as obras de arte eu vou dizer sem explicar…

Pensei. Se eu consigo ser eu mesma, se eu sei quem sou / mesmo derretida de amor, ou seca sem água, sem sorriso, se sou eu a atravessar este deserto, concluo: eu = a meu estilo.

Devagar. Lentamente, ou inadvertidamente suspiro. Cheguei em casa, no meu estar perfeito. Comprei uma braçada de margaridas e começo a dançar. Gosto do embalo. Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2025 – Torres ensolarada, morna, e feliz.

agarra o vento

agarra o vento, espalha o pincel, segura este agora, nosso beijo, o abraço, o beijo meu querido. amar é assim mesmo, entre a ventania que não nos deixa ouvir nem falar, e o silêncio quente de acarinhar. é assim mesmo, querido, a coisa boa de ser feliz. Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2025 – Torres

observação: exercício

atrás do detalhe da memória estressada, um eu cansado. desavisada, descontraída estou a te pensar, meu querido. termino de limpar e de pensar. dores picadas atrapalham… elas se espalham pelo músculo, acho que se dobram… também elas cansam de ficar imóveis, quietas ou sentadas. já não pensam mais, mudam de lugar, e eu sinto com elas. dores se dobram… vou soltá-las ao vento. talvez conversem na calçada… pois é. enquanto limpo o cheiro se altera, os livros gritam… mas eu não me encorajo. limpá-los, escová-los ou mesmo organizá-los, preciso. esqueço o tempo. pois é, meu querido, esqueço de te escrever, não de te pensar. não de te pensar e amar devagar: tenho sonhos vivos, saem pulando da minha cama e se agitam pela casa a te procurar… eu preciso que voltes. um beijo. Elizabeth M.B. Mattos – agosto – 2025 – Torres

vou deixar a porta aberta…

prateleiras da memória

Arrumei a cozinha, inacreditável aquela louça crescendo e já montanha… Grandes panelas cansadas! Os vidros opacos, as vidraças cheias de nuvens! Apliquei energia, ginastica nos dedos, e coragem, muita coragem da prateleira… Costumo organizar as gavetas e também refazer a ordem das prateleiras: ânimo, vontade, coragem, entusiasmo, saudade, memória um, dois e três. JMCLA, JK, FHT esfarelado, franjas, agulhas amarradas…AAM, MBM, Mercedez Benz.

Uauuu! As histórias se soltaram e estão a dançar. Faz bem dançar. Empurrei o aborrecimento azedo e neurastênico. Sobreviver ao vento, cantar junto. E estou acordando… dia se espreguiçando. Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2025 – Torres – quase perfeito