coisas do colombiano GABRIEL GARCIA MARQUEZ

O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. (p.7)

As coisas tem vida própria – apregoava o cigano com áspero sotaque – tudo é questão de despertar a sua alma. (p.8)

[…] a ciência eliminou as distâncias, […] – (p.9)

Aquele ser prodigioso que dizia possuir as chaves de Nostradamus era um homem lúgubre, envolto numa aura triste, com um olhar asiático que parecia o outro lado das coisas. […] tinha um peso humano, uma condição terrestre que o mantinha atrapalhado com os minúsculos problemas da vida. (p.11)

Gabriel Garcia Marquez – Cem Anos de Solidão

reler livros excepcionais pode ser uma escolha – reviver – o tempo e reencontrar a alma, importa. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2024 – Torres

ilusão

Ilusão embalada: e esta lua gigante, clara, faz / abre caminho. Aquece um pouco mais o meu corpo, justifica o beijo, ilumina o gosto. O dia, ah! O dia traz sol desmaiado, realidade pintada, colorida, mas, estupidamente, real. Ilusões do equívoco de amar. Mas sei que estás perto amor amado e te festejo. Bom te pensar! Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2024 – Porto Alegre respira…

perfume na correspondência

jasmim rosa ou frutíferas da estação / sim, no tempo certo o perfume. a gente se entusiasma porque o depressa, o corrido, o outono ou era primavera? não lembro mais. cartas e cartas as minhas, semanais ou diárias… de repente, ele (era amado meu, eu não era amada dele) mudou o endereço, foi ser pessoa noutro lugar e esqueceu de me dizer. ironia de encantamento. tristeza da distância: equívoco. não, foi meu momento de gostar. encanto é a hora do desejo. gostar, olhar, dançar… distância cheia de equívocos: franceses, americanos e argentinos. boa memória a vida, viver… Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2024 – Porto Alegre e a correspondência – os poemas no papel azul, ou era verde?

tédio no bocejo

meu amigo:

domingo cinzento. frio, gelado. silencioso. coisas de domingo! a quietude do tédio abraça e o descanso boceja. já pensa no macarrão e no molho italiano. comidas, vinho possível e colorido. outra vez a preguiça. eu? eu luto com a máquina de lavar / isso existe (risos) / os velhos se reencontram, se readaptam… (risos)

uma mão, outra mão, a ternura e o gosto de viver ansioso. ansiedade é palavra da moda, faz parte da calçada, e da casa. ah! como vou te contar de mim se pressentes e sabes. coisas de domingo, meu amigo. e os domingos são longos… os sustos e as surpresas chegarão na segunda-feira, acelerados. reagir. Elizabeth M.B. Mattos – setembro – 2024 – Porto Alegre / os portugueses desembarcaram felizes, os alemães arregaçaram as mangas e os italianos plantaram as uvas, eu acho.

amado, afeto

Volto ao meu velho hábito de te pensar a cada página e cada volta de um dia completo e corrido. Procuro o sossego de amar devagar, mas a velocidade dos carros, a pressa de respirar sufoca as pessoas, e este chegar parece desespero de adormecer. Quero dizer, dormir sem hora marcada. Marcar o tempo no compasso do teu coração e das palavras. Sim, o gosto de conversar pode ser café com leite e uma torrada com manteiga. Maçã preciosa! Cheirosa. Preciso cuidar do que escolho para comer… Estou menos avestruz. Não macrobiótica como te agradaria. Sem leitura definida, numa pausa maior do que gostaria, eu me inquieto. Belisco a correspondência de Anïs com Miller. Ela escreve: “Je poétise New York jusqu’à la folie.”

Eu te digo: Porto Alegre esconde seus jacarandás, a cidade reclama atenção! As vitrines me encantam, o olhar se veste das novas tendências. Prefiro mesas e cadeiras aos vestidos, mas me interesso pelos sapatos, e outros acessórios. Já sinto calor no meio deste frio gelado. Já espero comer menos sanduiches, mais japonês. Mas pausar as leituras me inquieta. E Pedro não tem telefonado -, o hábito das vozes! Escuto a Luiza. Ana Maria, embora longe, cuida de mim, como sempre cuidou. Valentina desdobra o talento e Joana se encanta. Eis as notícias. Pensa no que escreve Anïs: “Je crois que ça fait m’a fait du bien de m’ éloigner de toi. Ça a réveillé mon activité. Tiens moi au courant des livres ‘clandestins’ dès que possible. Je ne peux rien faire sans livres. […] Mes démarches pour la danse se sont soldées par une nouvelle propositon à me mettre au lit. Il en sera sans doute de même pour Hollywood. Au moins, tout cela reste en suspens pour le moment. […] Merveilleuse idée que de m’envoyer quelques exemplaires de mon Lawrence. Délicate pensé. […] E sigo envolvida / misturada com tua lembrança e teu gosto, teu apressado jeito / todos os você disse, você contou, você esteve lá desapareceram / o Rio Grande do Sul engoliu o Rio de Janeiro. Seguirei sendo a carioca mais gaúcha, ou a torrense mais porto-alegrense, ou uma mulher sem nacionalidade que te ama. “Chaque fois que un rocher, il est bon d’aller à sa rencontre. C’est l’aventure. Le mouvement, avec toutes les émotions qui vous assaillent au moment, au moment de trouver à la fois le désastre et la felicité. Le mouvement. Le mouvement et l’humour sont mes deux obsessions.” (p.384-385) Anaïs Nin Henry Miller Correspondance passionnée

Valentina Nefer – Rio de Janeiro 2024

Escrever escrever / pensar pensar / voltar para ficar / e te espiar. Descubro que te amar… Sabes, você sabe ser/é selva e jardim, saudade de tua palavra, do azul dos teus olhos, ou verde? São castanhos estes olhos. Gosto de brincar neste amor. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2024 – Porto Alegre

surpresa ou estupefação

memória surpreende e sacode. traz lembrança e carrega pra longe / longe… o longe! aquele lugar que não existe segundo / lembrando Richard Bach no livro Longe é um lugar que não existe

eu cá contraponho na vida real: longe da memória a lembrança esquecida ou estremecida sacode e venta e escurece e assusta. poeticamente não existe, talvez, na vida ‘como ela é’ não apenas existe, como também assusta.

a cidade se movimenta e se agita, na madrugada silencia também, então, a conversa fica distraída e adormece. Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2024 – Porto Alegre conectando o Rio de Janeiro

Atenas, em 411 e 404

“Em Atenas, em 411 e 404, o partido antidemocrático desarmou tanto os pobres quanto a classe média para impor seu jogo. Crítias dependia de uma guarnição de tropas de ocupação espartanas, seus epikouroi.Era para pagar estes soldados que Crítias expropriava os bens de estrangeiros ricos, como Leão de Salamina. O objetivo da casta militar na República de Platão, tal como no Egito, era manter o povo desarmado e incapaz de oferecer resistência a seus senhores.” (p.174) I.F. Stone O julgamento de SÓCRATES – Companhia das Letras – 1988

Esta ideia sobrevive na Carta de Direitos da constituição americana, que assegura o direito do cidadão de portar armas. Hoje em dia esta ideia é destorcida pelo lobby das armas […] mas na época era reflexo de uma experiência que ainda estava muito viva na memória dos homens que fizeram a Revolução. Foi graças à posse individual de armas que os colonos americanos puderam desafiar a coroa britânica. (nota de rodapé)

Platão /Sócrates a história se multiplica e sei tão pouco do que é necessário saber para pensar / escolher e votar. ” Teria havido uma caça às bruxas em Atenas? Teria Sócrates sido vítima de autoritarismo? Como explicar o súbito e incongruente surto de autoritarismo na terra natal da democracia? Ler é um ato investigativo, com certeza. Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2024

correspondência / correspondance passionnée

/Clichy/

Dimanche [18 juin 1933]

[Anaïs]

Ce n’est que lorsque j’ ai reçu le télégramme que j’ai pris conscience que tu partais vraiment. Telegramas, chegadas, partidas e saudades: o tempo amoroso de amorar. Je me suis assis dans un café à la Fourche, en proie à d’étranges émotions. Reler / ler correspondências amorosas devolvem o sentimento alerta do amor. Quand je vois des mots comme je parts, au revoir, etc., ça me transperce comme une lame d’acier. Je sais que ce n’est pas pour longtemps, mais, quand quelqu’un part en voyage, cela pose la question d’autres voyages – de derniers voyages. Cela rend immensément et magnifiquement triste. Estas coisas de partir / de chegar / de fazer uma viagem / aquele deslocamento importante que remexe / ativa todas as emoções escondidas. Sim. Eu conheço este ir e vir do outro, e os meus caminhos… Aqueles lugares de amor. ” isso é / se torna imensamente e magnificamente triste” […] Ces conversations avec ton père! Dis-m’en le plus possible, ou plutôt tout ce que tu te sens autorisée à dire à divulguer. Tu te souviens quand je suis parti pour Dijon? Et, comment, aussitôt, nous avons entamé une correspondance, c’était alors Proust et Dostoïevsky? Eh bien, nous y voilá de nouveau.(p.278 279) Anaïs Nin / Henry Miller Correspondance passionée – Cosmopolite Stock – Traduzido do inglês (Estados Unidos) por Béatrice Commengé . Aquelas cartas lidas, relidas. Conversas longas / cortadas e plenas, perto do mar, longe do mar. Perto do amor. Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2024 – Porto Alegre

ensolarada e gelada

Porto Alegre avança gelada e hoje ensolarada. Eu gosto / sonho, desejo o urbano. No minuto seguinte, recuo / penso no mar e nas montanhas. Volto ao silêncio quieto de do meu sempre. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2024 – Porto Alegre