caminho perdido

o olho que tudo vê transforma, o bloqueio se faz e a doença se desmancha pela terra. cai o avião e tudo o mais conversa com a morte /paralisa, depois tropeça. estas tristezas… o que sempre houve se minimiza porque a vontade de mudar /fazer e ter outra coisa que não eu mesma…uma filosofia ilusão e difusa. esquisito que perder as palavras… perder as palavras, sentir na garganta o esforço. os outros cavalgam dentro das nossas veias, não há repouso. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2024 – Torres

querido

Não sei como te responder quando perguntas do meu dia. O dia me assusta quando chega. Vou espiando, e aceito. Então, faço a tal caminhada curtinha… Passo o café – a hora do café preto com pão e manteiga. Hora de beber água, de pensar o dia. E fico a janela. Segue bonito aqui. Ônix também envelhece, envelhece muito e tanto… Penso no teu abraço, no teu olhar derramado. Teu jeito quieto. Lembras o quanto eu era agitada: falava atropelando. Um rádio apressado a despejar notícias. Com os olhos, rias de mim.

Hoje me dei conta do quanto sou dispersiva. Começo mil coisas ao mesmo tempo. Agora, vez que outra, esqueço de descascar o alho e já estou cortando a cebola… Depois pego o as borras de café pro jardim, e vou molhar os canteiros. Sento. Lembro do feijão. Do que pretendia dizer para a irmã. E me repreendo porque não arrumei a cama… Coloco roupas na máquina de levar…

Sento para te escrever. Estar contigo importa mais do que qualquer coisa. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2024 – Torres

mãos e o corpo inteiro, ora…

Rosto com rugas do tempo, mãos conversam… Voz define. O que estou a escrever? Não sei. Estico a palavra. e penso. Penso que eu, a tal ElizaBeth existe. Na memória de uma pessoa / um alguém que não esqueceu. Se me esqueceu, já não existo. A tal invisibilidade. Somos substituíveis. E aquele sorriso, aquele que eu penso, não o da fotografia, mas o que eu penso é que existe. Existe na minha / na tua imaginação. Contudo, todavia, assim mesmo, nada é exato /preciso ou completo. Faz sentido? A ideia, a possibilidade a leitura de quem eu sou está no outro… Faz sentido sim. A fotografia, o instantâneo congela o dia. A imagem se simplifica. Claro, temos o enredo do olhar. Não preciso mais descrever a cadeira, o copo, ou as flores, catar palavras, pensar na ortografia, na gramática. Fotografo com filtro, sem filtro. ou deixo de ver… Se escrevo e não coloco imagem, pronto… Não existo. Continuo / posso estar na minha pequena história inventada bem refestelada nas imagens / mas nas palavras? Acho que não. Não sou eu, mas a tecnologia. Então a mistura e o infinito ficam na imagem. Ontem vi os barcos / ou navios lá depois da Ilha dos Lobos… o mar? O mar, meu querido, estava lindo! E lembrei que tu também pensaste em morar em Torres, um dia. Mas sabes de uma coisa? O bom foi dançar em Torres. O bom foi aquele movimento todo que nós fazíamos pelos corredores da SAPT / os filmes que víamos nas cadeiras duras que se mexiam… E colecionar ingressos para votar em quem seria Rainha ou Princesa. A importância do voto. E depois dançar. Tinha idade certa para entrar na boate. Agora, querido, eu te confesso: o corredor e as espiadelas valem mais do que qualquer beijo ou abraço. Bom ter um namorado. Sempre foi bom namorar. Fui ver o mar numa volta e encontrei a nossa meninice. Pois é. Éramos meninos felizes. Então, tens razão, vamos celebrar a vida. Um brinde! Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2024 – Torres

Torres na nossa memória, como ainda vive: um balneário de veraneio. Atravessamos a estrada poeirenta, três balsas. E caixas abarrotadas de mantimentos. Era o verão… Éramos nós chegando para festejar. Nostalgia faz parte. Para JMCLTDFGJAK

ler relação intensa

a leitura pode ser promíscua / intensa, até dolorida. sim, se trata de paixão. não são leras, frases, mas paixão: a pessoa se entrega e revira a cada explosão de prazer. e fica diferente, mutação. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2024 – Torres como uma foto, o gosto, a somra, o claro escuro – tudo acontece na leitura

citação da citação

uma citação dentro da releitura J.M. Coetzee Mecanismos interno

Sándor Márai é o autor sobre quem Coetzee escreve, e no caso aqui cita: “Não nos limitamos a agir, falar, pensar e sonhar; também guardamos silêncio sobre algo. Passamos a vida toda sem falar sobre quem somos, aquilo que só nós sabemos e de que não podemos com mais ninguém. Ainda assim, sabemos quem somos, e aquilo que não podemos falar constitui a verdade. Somos aquilo a cujo respeito guardamos silêncio.” (Land,Land…,p.83)

p.126-127 J.M. Coetzee Mecanismos interno

A pensar / o dizer por mais que eu queria contar e dizer, ou me desnudar não consigo. Há o ponto, a questão, inominável. O segredo que não consigo mencionar porque, afinal, não passa de uma sensação, um prazer ou um olhar, o meu. E se explico, digo, acho ou penso, é a minha versão incompleta. E nela existe o detalhe que eu mesma desconheço. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2024 – Torres

não basta querer


Meu amigo: eu escrevia sempre e sempre e sempre. Os passarinhos, os verdes, as escolhas. Sobre a paciência, eu escrevia. Olhos lindos da Letícia. Um filho amigo. Uma casa com piscina. Teus livros. Teus escritos importam. A tua doçura. Não. Não a política. Penso tudo pelo viés / a pensar que de mim sempre viram/imaginam o lado certo / e eu, pela vertente atual, errada. O Brasil não nasceu. Eu desisti de tanta alegria miúda, boa e quente!, talvez por serem migalhas ou confetes / sei lá, o sapateado não faz sentido. Conversar importa, concluo para constatar o desastre, esta minha ilha, este cercado voluntário, e os espinhos me incomodam… Não sou mártir / nem tenho rezado. Choramingo, desespero meu amigo. Desculpa a carta. Os motivos são os mesmos, e ao mesmo tempo, são fatos, creio eu, velhice. Acho uma droga envelhecer. Não é a cara enrugando, os braços depenados, ou a falta de cabelos, mas a não perspectiva, a não crença, ou a crença certa: vai terminar. Este sol, esta chuva, o frio, o calor, as árvores cheias de pássaros, o olhar doce da Ônix. O gosto vai terminar. Estou a espernear para que não termine. Antecedo as noites com grandes / majestosas sestas que acordam no meio da noite e eu… E eu me pergunto, por que está noite? Estou sem sono. Claro. Dormi um amontoado de horas erradas / ou certas. O que importa? Importa que não tenho sono e quero o sono, quero a música, quero bolo e café, quero risadas e abraços. Mas não basta querer… Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2024 Torres

nostalgia rondando

31 de julho de 2024 Torres

Nostalgia da máquina de escrever! Eu me atrapalho com arquivos, detalhes, guardados do computador! Registros. A ciência da facilidade desapareceu, a pensar nunca esteve perto. Perdi a lógica, o fazer ficou tão incrível e potente! Tantas e tantas opções: o óbvio me escapa. Antes, num pedaço de papel, colava ideias. A máquina costurava palavras. O recorte pensava doçura, eu não me importava com excesso. Brincadeira.

Está difícil subir a escadas, pendurar os quadros, passar o café, sentar para ler um livro. O livro escapa, o autor se repete, a importância viaja e a lógica deste frio não me consola: ah! É inverno… Eram / foram / aconteceram tantos invernos longos: nós de pinho, madeira rachada / fogo crepitando, fogo queimando e dançando, colorido e quente – Ah! Óbvio se escreve assim. Eu não sentia frio. O frio festejava o meu poder de ser quentinha. As crianças são mornas e risonhas, aquela alegria saltitante aquece nas correrias pela casa, o movimento aquece, a imobilidade congela. A nostalgia é imóvel JMCLZM. Palavras / letras. Um brinquedo de amar o amor. Arma, desarma. E a tal nostalgia volta como palavra e tempo. Um beijo. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2024 – Torres (sussurros da Ônix, minha pretinha canina que envelhece, com nostalgia, ela também?)

gritoooooooooo

um grito preso. quero soltar… deixar sair inteiro, mas ele se encolhe encabulado, e aperta meu braço. converso manso, explico e peço para me soltar.

estou presa nele ou ele está preso dentro de mim? do braço passa para a garganta. sinto falta de ar. abro a janela. o sol! o sol! ainda sinto frio. não se trata de sol, nem de luz, nem de ar, nem de respostas. estou estrangulada. grito.

é o grito. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2024 – Torres