Um nome pode ser mágico -, como ele assumiu a magia toda? Eu o desenhei um milhão, não, mas cem vezes -, enchi uma folha de caderno, outra do bloco…
“Talvez”, pensara eu, enquanto suas palavras ainda pairavam no ar entre nós, como a fumaça de um cigarro – um pensamento fadado a esvanecer-se e sumir como fumaça, sem deixar rastro -, ” talvez todos os nossos amores sejam apenas sinais e símbolos; palavras soltas rabiscadas nos mourões e calçadas ao longo da árdua estrada que outros palmilharam antes de nós; talvez eu e você sejamos símbolos também, e essa tristeza que às vezes surge entre nós nasça de uma desilusão em nossa busca, com nós dois forcejando um vislumbre da sombra que sempre desaparece ao dobrar a esquina um ou dois passos adiante de nós.” (p.277) Evelyn Waugh Memórias de Brideshead
Símbolos / fetiches / pedacinhos preciosos que montam parte do quebra-cabeça… Eu acho, sem certeza, eu imagino que seja assim… Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2024 – Torres
Histórias amarradas na desistência: maio 1995 / pode ser tão passado assim?, não. Foi ontem que te amei. Tanto!
Na nossa idade F., nós não temos mais o direito de ser cruel ou mentiroso. Na nossa idade F., não esperamos pedidos de casamento mas a idoneidade e a seriedade, importam. No meu limite. Teu jogo aberto e eu quis acreditar que podia ganhar… A gente sempre quer ganhar. Eu me apaixonei por um beijo. (risos) Carente e solitária Sem forjar, sem mentir! (eu acho! as mentiras se escondem dentro das dobras). Poucas histórias para contar, poucas para esconder. Não sou herói nem mártir. Sou / estou apaixonada. Idiotamente apaixonada. Um beijo para acalmar minha ira (sabias), o infantil. Dou um basta, esta desordem interna quebra o meu melhor… Vou sentir saudades tuas. Sempre sinto saudades tuas. Oxalá eu volte tranquila ao silêncio. Ao silêncio da tua voz, ao silêncio de teu toque. Esquecer rosto, mão e sexo. Eu me joguei nos teus braços, e tu me seguraste. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2024 – Ainda Torres.
“Nas diferentes partes do mundo os homens encaram os acontecimentos pelos próprios padrões duramente adquiridos, e os julgam, teimosos e confiantes, unicamente pelas suas próprias escalas de valores e nunca pelas dos outros.
E apesar de não existirem muitas diferentes escalas de valores nesse mundo, temos porém algumas: uma para avaliar os acontecimentos próximos e uma outra para os acontecimentos distantes; as sociedades mais antigas têm uma, e as sociedades jovens têm outra; pessoas mal sucedidas têm uma, e pessoas bem sucedidas, outra diferente. As escalas de valores divergentes se esganiçam em tons discordantes, deixando-nos aturdidos e confusos e, para não sentirmos dor, afastamo-nos de todos os outros valores, como se faz quando se encontra a loucura e a ilusão e, confiantes, julgamos o mundo inteiro pelos nossos próprios padrões domésticos. Por isso consideramos maior, mais dolorosa e menos tolerável não a catástrofe que realmente é maior, mais dolorosa e menos tolerável, mas aquela que nos afeta mais de perto.” (p.44-45) Alexander Solzhenitsyn Uma palavra de verdade…
O que é verdade, o que, de fato, move minha vida e meus sentimentos? Já não sei mais… quando menina, quando jovem eu tinha tantas certezas! O que não acontecia, certamente, era apenas uma espera, aconteceria. O mundo estava em boas mãos: seria decidido o certo. Em japonês, holandês ou francês, português desejávamos apenas, A P E N A S (penas?) fazer o certo, o correto… Ou estou imaginando?
Céu cinzento / frio gelado, silêncio assustado. Aonde quero estar? Eleições importam. Mas a gente quer mesmo saber o que vai acontecer? Tenho uma ideia precisa do que aconteceu? Ou apenas meu quintal, minha sacada, meus vasos de flores, minha voz, meu passeio… M E U e ponto. Ponto final depois do possessivo. Pensar dá uma exaustão! E tentar entender o pensar mais difícil ainda. As imagens se alteram, e as vozes se misturam. Teremos eleições. Eu penso? Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2024 – Torres (por aqui cinzento e atrapalhado)
Dia de inverno / inverno das horas de menina… Tempo do tempo de imaginar sonho e comer doces e gordas laranjas . Lareiras crepitando… Ponta dos dedos gelados e o piano enchendo a sala. Aquecida por teu sorriso e pelo teu abraço. Mantas coloridas espalhadas pela casa: hora do livro, e teclar… Poderia / deveria ser a Hemington! Poderia ser sem rugas. Apenas inverno. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2024 – Torres
Dizem que os velhos adoçam, eu criei espinhos – envelhecer veio como ponto errado do doce…
Estou lenta . Máquina e desgaste. Majestoso cansaço. A percepção, o sentimento… Falta o motivo, a voz. Escrever ficou arrastado e… Nunca a palavra cansado foi tão misteriosa e poderosa. Estou desmotivada. Acordo e já o corpo reclama. Mas eu dormi. A preguiça não desgruda: canta canta canta. É devagar este adeus. Perco o evidente. A xícara do pires. A tal alegria da risada. Ficou pesado. A desconexão! Sem desafios. Sem livros a serem lidos. Sem memória. Um enjoo. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2024 – Torres
Quando a força desaparece, e nenhum porquê se apresenta parece que não faz mais sentido estar aqui. A rede vira adorno e a necessidade se reduz. Assim mesmo eu tenho um obscuro lado, uma incompleta história que poderia ser dita. Amanhã estou pegando um ônibus e vou até Porto Alegre. Preciso respirar uma inercia inferente e preciso caminhar pelo possível, sentir a hora que eu sou sem ser absolutamente nada Começo a fazer a mala para ordenar e encorajar a saída, o respiro. e Voltar a escrever para fazer girar a máquina, empurrar o corpo. Elizabeth M.B.Mattos -julho de 2924
Querer mais / talvez seja a pressa que choramingue pelo caminho, ou felicidade complacente, sem exigências… Quieta, meio adormecida esta alegria. Ninguém explica o feliz / felicidade: pode ser uma caixa de bombons, pássaro acordando, ou ideias atropeladas. E tempo. É preciso um espaço vago na agenda pra borboletear ou bordar, ou escutar música… A música precisa ser eu contigo, tu com ela. intimidade confessional. A depressão imobiliza. Começo a ser apenas sombra, sonâmbula… Logo teu chamado: acorda! Gosto de estares tão perto! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2024 – Torres – faz muito muito muito frio /um amanhecer gelado claro, céu azul, azul, azul.
Multiplicar ou repetir? O mistério / a resposta está na matemática. Aquela história de repetir o mesmo, ou se repetir. E concluir. O que é mesmo renovar? Trocar os estofados, mudar o rótulo. As plantas se renovam e a poda vitaliza – exigem tanto da pessoa! Ser gente no meio de gente: reconhecer, identificar, mas seguir o mesmo… Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2024 – Torres (o bom mesmo é se reconhecer)
Eu aceito. Aceito o carinho, estendo a mão e tu me levas. Vamos juntos. Por um momento eu compreendo tudo. Tão bom! Encosto minha cabeça no teu ombro. Vou te contar, bem baixinho. Hoje esqueci o dia da semana, depois, desajeita, não encontrei o bom casaco. Não imaginas como faz frio! Eu era boa em não sentir frio, deixei de ser. Depois, vou até gostar do calor! Estranhezas! Eu encontro o caderno, perco o lápis, depois vou atrás da minha caneta. E já estou a me distrair com discos… Coloco na vitrola para voltar. Voltar a ser a de sempre. Lembro de outros tempo! Tão bom namorar! Não me olhes deste jeito. Se eu não puder te dizer que graça terá lembrar? Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2024 – Torres