GANCHOS

  1. saudade do sono – daquele sono possível em horas improváveis – do cansaço feliz / daquele muito fazer e tanto dizer, fazer acontecer e adormecer… dormir muito / bastante não assim aos solavancos.
  2. ilusão tenho de felicidade / alegria posta a cada refeição, lição feita, brincadeira acabada. livro lido, ordem na gaveta, caixas e caixas com papel – segredo, o colorido feliz.
  3. não é porque sou / tenho natureza feliz, nada disso. sou / era feliz porque a ilusão me dizia: depois do sono, tenho um dia, outro, mais outro, e anos, e tantos anos que na corrida do tempo a passar, o tempo a ser galgado e vencido é / seria maior. sem ponto. esquecer a pontuação é uma das loucuras de hoje, entre tantas as que cometo. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2024 – Torres outra vez com chuva, tanta chuva, que a calçada desaparece, e chove…chove…chove outra vez, tanto!

solução / descaminho

“Descida ou subida? Parece-me que eu ficava dia a dia mais jovem, há cada hábito adulto que eu adquiria. Vivera uma infância solitária e uma meninice restringida pela guerra e ensombrecida pelo luto; ao duro celibato da adolescência inglesa, à dignidade e à autoridade prematuras do sistema escolar, eu adicionara um traço triste e carrancudo. Agora, naquele período de verão com Sebastian, era como se me dessem uma breve temporada daquilo que nunca conhecera, uma infância feliz; e, embora seus brinquedos fossem camisas de seda, licores e charutos, e suas travessuras estivessem em proeminência no livro dos pecados graves, havia em nós algo de frescor de um quarto de criança, alguma coisa bem próxima da inocência.” (p.50-51) Evelyn Waugh Memórias de Brideshead

saber sentir / entrar na sensação por inteiro / o sentimento ,o altar. a importância respira pelas letras por ser possível / pele natural de um escritor deixando a memória amadurecer. delícia da leitura. a vivência dele suga a nossa vivência e o frescor de um quarto de criança se faz nosso espaço. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2024 – Torres

tema / todos juntos…

abro o jornal / todos escrevem e divagam sobre o mesmo. o coletivo está, definitivamente, dentro de cada um – a esquisitice dos sentimentos assim, um enfiado dentro do outro, sem solidão: está no outro longe, no outro separado. está. efeito chuva ao relento, com sol, sem sombra, sol e chuva dentro ou fora. ruidosa surdez coletiva. solidão estranha… sem poesia. povoada esta solidão. solidão sem vazio. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2024 no meio de bom verão de manhã, e bom inverno agora de tarde! De noite?! Que seja sono. espero.

ana maria fez o clic

as fotos são sombras… as sombras e as presenças estranho o tempo de desanimar quando a vida, bem , a vida era apenas viver. viver leve nos seus sustos / erros / naquelas lágrimas arrependidas, na corrida do dia se fechando dia. na Viúva Lacerda, Botafogo -, tinha lua no Corcovado. pela janela, tinha lua… estrela, e um sol quente todas as tardes, muito quente. Tudo isso faz muito, muito, muito tempo. presente. AINDA presente. Elizabeth M.B. Mattos noutro tempo, o mesmo. Aqui é tão bonito!

calor frio chatice e permanência

o que posso escolher? não sei. alguém corre no apartamento de cima… alguém abre e fecha janelas. alguém está. eu não estou. tu não estás. e tem esta coisa incômoda de morrer de adoecer, e despedir-se… chatice de viver. estou a cavar, estou a pensar, estou a remoer certos apertos apertados… e o que a gente não consegue perdoar, nem esquecer. conviver não se desmancha em gentilezas, mas esquisitices mesmos. calor ou frio? sei lá. enchente ou seca? a nossa vontade de permanência se derrama… o italiano esconde as mais belas canções de amor, as gentilezas completas, a beleza das pessoas, as risadas. idiomas são descobertas… eu amo o francês, inexplicável descuido. sei tão pouco de inglês, gostaria de ser alemã / ter olhos azuis e toda aquela germanidade heroica / mas sou eu, a cavar, cavar, e querer jasmins misturados com buganvílias e rosas, não cravos amassados. uma nostalgia esquisita que me dá coceiras, aperta os ossos… esquisito ter os ossos doendo. saudades de ti. pois é, de te beijar, de te sonhar, de ser inconsequente e amar assim, solto, ao caso, de caso sério. um beijo. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2024 – TORRES – morno

A última coca-cola.

“Como somos mesquinhos em nossas reminiscências, repudiando os sentimentos virtuosos de nossa juventude e recordando apenas a dissipação irrefletida dos longos dias de verão. Não há sinceridade numa história da adolescência que deixe de fora a saudade da pureza de um quarto de criança, os remorsos e as indecisões de emendar-se, as horas negras que, como o zero na mesa da roleta, surgem com regularidade quase previsível.” (p.65) Evelyn Waugh – Memórias de Brideshead –

Eu colo com farinha trigo e água as memórias do verão em Torres, e volto a tua narrativa que cavou na memória, colou histórias esquecidas e a Lucila voltou, Maria Virginia, Magda e Ana Helena espiou, Nadia se escondeu, Beatriz coroada. Eduardo Merlindo -Kitty linda, Eleonor – ou a lista se pendura pelas janelas…Alcides. OS prenssados, as panquecas de banana, os filés com fritas, e os jogos de carta. Dançar, eu sempre queria dançar. as conversas no Morro do Farol que Nelson e eu prolongavam. Faz sentido mencionar… eram as preciosas lembranças…eu colo com cola de farinha de trigo. Elizabeth M.B, Matttttttos. Torres 2024

nas costas / mundo

Mundo desmaiado nas dores do corpo / não horríveis, dores incômodo – deve ser vazio / ausência, desencanto ou saudade, eu sinto falta. Claro, faço a durona, aguento, empurro o balde, molho as plantas, esfrego os suspiros. Vejo jasmins – florescerão, eu sei. E agarro o livro! A história é boa, o autor ótimo, a descoberta esperta, ah! Surpresa das estantes. Não sei porque as conversas ficam desencaixadas…, sou eu a esquisita. Elizabeth M. B. Mattos – junho 2024 – Torres

beijo chegando

“Um beijo pra ti. Estive lendo um pouco tuas amoras psicodelicamente azuis de todas as cores. Uma viagem por um mundo tão teu que grita, constantemente, para se esfumar na poesia em que vivemos a cada instante. Que coisa ! Nos teus textos, na tua escritura, um constante vislumbre do mistério que és, do que somos. Uma escritura que, às vezes, celebra a ausência como plenitude, a intimidade que intima.” C

Psicodelicamente as palavras voaram por aqui. O dia a brilhar – alegria nossa… Obrigada?! Não… Tudo nosso, de direito, natural neste desencontro achado, apressado.

Devagar, lento o passar do tempo das cartas guardadas: alfabeto se apresenta apressado e fico encabulada. O K e ZM e JOCKC -, as fantasias escondidas no Francisco. Adoro a letra F. Adoro o colorido de flores desarrumadas, amando. Janelas escancaradas e risadas. O violão, canções e desencontros. Fico estremecida, sinto dores no corpo e desconfio. Noites iluminadas, ruidosas lembranças -, mas não durmo de manhã. Conversas desalinhavadas. Sintonia dos segredos. Depois eu me consolo, os segredos nunca soluçam, são segredos. Beijo tímido, encabulado mesmo… Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2024 com sol e colorido – Torres

certo ou errado

às vezes eu acho que está tudo certo, no melhor dos mundos possíveis, depois eu me sinto perdida, solta, impossível fazer sentido.

uma balança de loucura, não razoável: posso te telefonar e tu virias a Torres para me fazer uma visita, conversar tudo o que deixamos nas entrelinhas é o correto. Sim sim, é preciso querer e fazer. Optei em ser livre, e falar contigo, quero que venhas. Elizabeth M. B. Mattos