informação

A pessoa se atrapalha quando a vivência ou a vontade (de acreditar querendo) não agarre a história. A confidência é feita… Emoção choro, certo desespero mesmo, o outro consola. O tempo passa. Neste tempo o colorido da certeza certa desaparece. São as nossas / pessoais que ficam emaranhadas? Não. O emaranhado está nas dúvidas do espectador. Tudo se mistura e atrapalha, acinzenta a narrativa. as cartas, as versões / o documento / a voz… A verdade fica no emaranhado da história.

Quando Iberê morreu ( o meu amigo Iberê Camargo) as cartas eram alvo… Maria Camargo nunca pediu nem duvidou de nenhuma linha / mas, mas mas há herdeiros, embora não tivessem filhos de ideias ou intrigas… As mariposas. O telefone me surpreendeu, um amigo, de certo a minha voz selaria o assunto – perguntou direto sobre Iberê… Era o que eu não diria, ou não era? Achei que perguntaria de todos os amores / não. Apenas do ilustre pintor queria saber. Tive amados de amor ilustres / inesquecíveis, presentes e eternos. Iberê foi amigo, amigo das muitas cartas, nunca se confidencio, nem eu contei histórias. Pintor que conheci no Rio de Janeiro, na Aliança Francesa de Botafogo, amigo do meu sogro, preso em história complicadas que o afastaram de Porto Alegre, mas não era homem de namoradas… O francês. Se alguém quer saber segredos, pergunte em francês. Um idioma amado pode ser céu inferno e infinito. – um amigo ilustre como Carmélio Cruz, Glauco Rodrigues, Danúbio Gonçalves, Vitório Gheno, Jean Lehmans, claro, e Iberê Camargo – esqueci agora as letras, os afetos brotam, não são registros. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2024 – Torres

amoras azuis

amoras azuis, casa azul amorando. menino com os pés enfiados na areia. vai para o mar… mar das amoras, do azul de saudade, cheio de outono. marrom, amarelo: folhas espalhadas. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2024 Torres vestida de cinza.

tesouro este amor: o nosso

Não me perguntas nem o porquê, nem o como, nem o detalhe ou a evidência: enxugas minhas lágrimas, curas as feridas, resolves os atropelos, e abafas minhas inquietações. E a tragédia assustada se encolhe ridícula: tudo resolvido. Consigo dormir uma noite e um dia… Livre! Estou renovada e inteira. Isso não é bom? Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2024 – Torres

querido

meu querido, querido:

Escrever para te contar das banalidades, ou não escrever? O nível das minhas inquietações paralisadas assustam… Comprei chinelos, sim, no plural pantufas quentinhas. No espelho eu me acho ótima, na saudade também. Ao te amar deste amor completo, também… Uma travessa cheia de ideias alegres. Estou a limpar, limpar e desarrumar (risos). Resolves tudo, acertas os meus desacertos, organizas minha vida. Mostras o caminho, e manda flores. Ah! As margaridas! A noite cheia de sonhos lúdicos e a menina acorda! Conviver contigo! Poderia eu viver sem teu abraço? Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2024 – Torres

alguém me disse

Alguém me disse que lembrava de meus olhos azuis, eu pensei, lembra dos olhos que um dia eu quis ter: olhos azuis, cabelos loiros acinzentados. E o mesmo comigo, lembrei de um amigo, amigo de muito muito tempo amigo. A memória veio colorida, com cenário, e conversas deliciosas, jantares e dança, veio com olhos azuis, e ele sempre os teve castanhos. Rimos muito quando depois de 20 ou mesmo 30 anos estas confusões… Bem estes detalhes fossem citados com tanta imprevisão e intimidade. Então, Mauricio confirmou, os olhos azuis são da Virgínia! E o tempo se colocou sério no seu lugar de tempo e doces lembranças. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2024 – Torres – Por que Torres, por que na frente da Lagoa do Violão, namorando com olhos fixos na Serra o Mar… Por quê?

sensual sexual e angelical

comemos os morangos, tomamos o vinho

o doce aroma do tabaco fundia-se com os doces aromas estivais a nossa volta, e os vapores do doce e dourado vinho pareciam elevar-nos um dedo acima da relva, mantendo-nos suspensos.

– O lugar ideal para enterrar um pote de ouro – disse Sebastian. – Gostaria de enterrar alguma coisa preciosa em todos os lugares onde fui feliz e então, quando estivesse velho, feio e triste, voltar para desenterrá-la e recordar. (p.32) Evelyn Waugh Memórias de Brideshead – São Paulo – Companhia das Letras, 1991

transcrever Robert Musil

(risos) e é perfeito:

“Imagine-se que a bondade invisível e a distinção de uma pessoa surgissem de repente como um halo de santidade dourado e redondo atrás de sua nuca como nos velhos quadros devotos, embora essa pessoa ande simplesmente pela calçada ou coloque sanduíches no prato na hora do chá: sem dúvida seria uma experiência das mais estranhas e chocantes; e essa força de tornar visível o invisível, ou até o inexistente, é provada diariamente por uma peça de roupa bem-feita!” (p.375) Robert Musil O Homem sem Qualidades

A importância está em colocar, não no desnudar… Acrescentar, sempre. Difícil dizer / falar / ou contar a verdade: há que ser sempre enviesada ou recortada – “uma peça de roupa bem-feita” a verdade. Com certeza, alta costura. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2024 – Torres

reorganizou ou tomou posse?

álbuns de fotografia / textos e cadernos picotados… o bolo fatiado antes da festa, espaço invadido, loucura vida do outro / preencher espaço / desenhar, a seu modo e jeito, e agarrar. Inventar / engolir o que, afinal, não lhe pertence… verdade, sempre tivemos Torres. os verões cheios daquele sol. apartamentos de um sofisticado sem exibição. pão maravilhoso, mordomias derramadas. o viço de adolescer, casar / dar errado / enfileiras filhos, e, finalmente, estudar. e fotografar coisas empilhadas, livros lidos, textos reescritos e uma saudade sem explicação / não de volta, mas tipo visitação com data certa / tempo definido. Só uma confirmação. A Igreja sabe definir. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2024 – Torres com sol, bastante luz, poda das buganvílias feita e uma exaustão da agitação.