Já disse isso / já escrevi sobre isso… Às vezes, paternidade, maternidade se atravessam no amor de um homem por uma mulher, de uma mulher por um homem… E vira guerra, os tais sentimentos, patetas eles, distraídos se atropelam. Casamento tem estas armadilhas. E o fruto, os filhos, ficam ali, no meio, sem entenderem nada… Crescer tem muito desta solidão de estar no mundo sem saber bem o motivo: sem ter voz, apenas brotar, feito feijão ou ervilha, num campo ou num jardim… Se vingar dá bom! O negócio é vingar e dar frutos. E pegar o mundo… Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2024 – Torres
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da morte: morrer
Até ficaram doentes, mas morreram, os dois, no mesmo ano, três meses de diferença, ou três anos?! (As mortes se misturam nas perdas). Um galope esta vida (nem nos damos conta / estavas ali, ao meu lado, eu nem percebi). Mistério do tempo. O pai, bem, o pai -, filho único, – o pai chorou bastante, o suficiente. Depois casou -, casou pra agarrar o que chamou de vida, agarrou outro jeito de viver, outro jeito de viver a tal solidão… Aquela mesma que tu, eu, todos nós fugimos. Agarrou outro jeito de viver, um jeito de sair de casa. Dá um enorme e custoso trabalho sair da infância, da casa paterna. Largar as crianças que somos. Perdas. Perdas evidentes que sacodem… Coisas de amor que chegam, coisas de amor que desaparecem. Perdas evidentes. Duras como pedras. Quando os intervalos são curtos, e a guerra segue, fica-se na batalha! Estamos com espingardas nas mãos, na luta, sem entender muito bem o que acontece. Estes espaços tão curtos adoecem a gente por dentro. Despedaçamos por dentro: isso é o tal amor que sentíamos… Despedaçados tanto e tanto, quase vamos juntos no desespero sem lágrima, desespero valente, corajoso, seco. E vamos assustados, ou vamos a correr a procurar margaridas… Vamos a correr para o outro lado. Qual lado? A sofrência / essa dor não se explica, dói. Explode. Como as bombas em campo minado, era campo com margaridas, mas explode. E o medo se planta, brota no nosso coração. Sofrer não se explica. Elizabeth M. B. Mattos – maio de 2024 – Torres com bastante chuva.

sem voz, pego emprestado…

Sem voz. Sem conseguir expressar o que sinto. Sem poder te abraçar e beijar como seria abraçar e beijar. Sem floreios, nem sínteses. Resolvendo um café da manhã cheio das delícias do almoço. Eu usufruo desta chuva verdadeira, chuva que não interrompe nem mesmo o vento: forte e com raios… Chuva, agora maio outonal…” Pode-se dizer que entre homem e mulher existe algo mais importante que o amor? Direi que é possível ver outra pessoa como a si mesmo: permitir-lhe todos os gestos e os movimentos permitidos a si mesmo, ter prazer quando ela os faz como se goza quando nós mesmos os fazemos, não se sentir privado de algo que ela faça com outros como nós não nos sentimos tolhidos de algo que fazemos com outros – quer dizer: amar nosso próximo como a nós mesmos. Este amor se chama caridade. Mas se a outra pessoa desaparece? Podemos nos amar, mesmo desaparecidos? Seria preciso crer que ninguém jamais desaparece. Que a morte não existe. Morrerá e tu ficarás sozinho como um cão. Mas como podes aceitar a morte para ti, pois queres negar ao outro aceitá-la por si? É caridade ainda. Podes chegar ao nada, mas não ao ressentimento. Não ao ódio. Lembra sempre que nada te é devido. O que realmente mereces? Quando nasceste, por acaso a vida te era devida?” (p.307-308) Cesare Pavese O OFICIO de VIVER

Assim esperneio diante de coisas aborrecidas: da poeira da casa, da louça que preciso lavar, das plantas a serem molhadas, da comida a ser feita, das camas a serem arejadas, sacudidas, do chá, das conversas / falas necessárias com a família, do alô aos vizinhos… Das chamadas telefônicas a serem respondidas. Não das cartas a serem respondidas, nem das saudosas idas ao correio, nem do trabalho… Ou ao que chamo trabalho / a produção. O envolvimento com o meu fazer que me completa. Mas, contudo, tudo o mais é uma corrente a ser arrastada… Não dimensiona nem o teu beijo, nem teu abraço, nem teu olhar, nem o meu prazer… Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2024 – Torres com muita muita muita chuva neste Rio Grande do Sul enquanto o Brasil se esquenta e ferve num verão estranho.


Ao buscar a verdade, esteja pronto para o inesperado, pois é difícil de achar e, quando a encontramos, nos deixa perplexos. Heráclito

Epígrafe do livro A Invenção da Solidão de PAUL AUSTER
“Num dia, há vida. Um homem, por exemplo, em perfeita saúde, nem sequer é velho, sem nenhuma histórico de doenças. Tudo é como era, e sempre será. Ele segue de um dia para o outro, cuidando das suas coisas, sonhando apenas com a vida que se estende à sua frente. E então, de repetente, […]. (p.11) Paul Auster A invenção da Solidão
” É impossível, compreendo, penetrar na solidão de outra pessoa. Se é verdade que sempre podemos vir a conhecer outro ser humano, ainda que em grau pequeno, isso só acontece na medida em que o outro quiser se fazer conhecido.”

conscientes, os velhos
Memórias empilhadas, entre afetivas e aborrecidas. Cheios de histórias aventurosas, e preconceituosas, também. Fortes e insistentes… Eles, nós, os velhos, iluminamos os caminhos com a juventude saliente da felicidade e feito tratores, derrubamos preconceitos e equívocos (para nós mínimos) – temos convicções e galhardia, afinal, fomos nós que vivemos os sessenta, setenta e oitenta anos… E estamos cheios de ideias. Ainda terei horta em Portugal, talvez um floreira em Lisboa… Afinal, meu avô era português, porque não posso ver os mares do lado de lá? Pressa! Tenho pressa para voltar a ser portuguesa de avental! Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2024 – Torres, em tempo atravessando os mares em caravelas.











Torres
Torres dos nossos verões – nosso imaginário.
Um verão / um período / uma liberdade um sonho.
sonho / vida a nossa – apenas nosso sonho e nós / se transformou num sentir, incorporou nosso imaginário = somos Torres – somos nós os verões. Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2024 – Torres e nosso imaginário real – o pequeno Farol francês / as gincanas e nossa meninice pelos corredores da SAPT da Tatuíra e do Marisco. Incorporamos. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2024 – Torres
Outro mar, outra areia – outro mundo, outras crianças : nós
viajar
Eu não sou de viagem / não sou de ir e ir e mudar e ver paisagem, estar na estrada. Não sei , fico azeda, sem paciência com o deslumbramento deste gosto efervescente que as pessoas sentem ao viajar de viajar ou v i a j a r nas viagens dos outros… Fico a pensar, pendurar-se num avião e ou nas estradas neste ir e vir. Parece (pra mim) que as pessoas estão a se esconder dos humores / dos espelhos! E vou e venho a visitar os filhos -, pois é. Ia. Sou eufórica vendo cartões postais… Sei lá! Azedume meu / afinal, não sair de dentro do seu quintal pode ser também esquisitice! Vai entender! Mas depender de viajar para ser feliz, não entendo. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2024 – Torres / viajando na poltrona da casa! (risos)

(risos) Se a poltrona estiver desocupada – caso contrário, não há viagem mesmo!
pois é

o tempo invisível tão visível e impressionante, o tempo do sono, de respirar e de estar / ficar, por quanto tempo a chuva? ou o vento? ou este sol? o frio e o quente. por quanto tempo a vida? Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2024 – Torres
vamos agarrar o riso das lágrimas, vamos caminhar, e ainda tomar banho de mar…
lerda e acomodada
dois adjetivos de mãos dadas resultaram numa pessoa também desorganizada, desfocada…
o entusiasmo se esparrama, deixa o papel cheio de cores e riscas, desconexos, mas o começo. começo e entusiasmo, positivo – como explicar tudo / toda ou alguma coisa? desarrumada a cabeça. como pode ser assim? lerda, acomodada e agitada? agitado motor que faz a carcaça de mexer. um segundo / ou menos ainda de pensamento o dia se arrumaria fluído e eficiente.
esta perturbação que sai pelos poros a transformar a paz em tormento, ou para desorganizar tudo e tanto! Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2024 – Torres com um calor estranho voltando? agarrado no dia… que coisa! teremos inverno? talvez este outono se atire numa primavera. será bom?

sempre uma bic por perto…
coisas de Kafka
“Se ela fosse escrever sobre a vida, anotaria apenas pequenas coisas, pois o fato maior, acredita ela, é a felicidade, quando as coisas são mínimas, quando ele amarra os sapatos, quando dorme, quando acaricia o cabelo dela.” Frank Kafka , Diários (1921)
Pode-se muito bem imaginar que o esplendor da vida rodeie tudo, sempre em toda a sua plenitude, mas velado, nas profundezas, invisível, muito distante. No entanto, está lá, sem hostilidade, sem relutância nem surdez. Se o invocarmos com a palavra certa, pelo nome correto, ele atende. Essa é a essência da magia que não cria, mas invoca.
Michael Kumpfmüller – romance – O esplendor da vida – O último amor de Kafka