doce voo

Não se trata de um sonho, mas de um arremesso do ser.

“Diante do sol nascente, a primeira sensação do nietzchiano é a sensação íntima de querer, a sensação de decidir e, movendo-se, de se promover numa vida nova, longe dos remorsos da deliberação, visto que toda deliberação é uma luta contra obscuros pesares, contra remorsos mais ou menos recalcados.” (p.157) Gaston Bachelard O ar e os sonhos – Nietzche e o psiquismo ascensional

Observações ou pensamentos que viajam dentro de mim num ir e vir. Escorregam na memória. Atenção! Saem das/nas conversas longas e íntimas com os filhos. Elas e inclinam, me estremecem. Registro temerosa de cavoucar, ou não dizer ou revelar só no dolorido remorso. Obscuro pesar. Recolho as palavras. Quero acertar sem machucar. Dizer sem espetar. Nunca ferir ou fazer doer ou machucar. Apenas liberar o incômodo da memória. Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2024 – Torres quente, mas não tanto.

portão azul

Meu querido, da inquietude salta minha saudade. E as nossas conversas travadas engasgam o tempo. Uma voz desta tarde indefinida me fez te escrever. Escrever depressa. Conta com o teu tempo entre o café e os pincéis, a pausa. Estou envolvida nas histórias que não se definem… Quero te contar, talvez enredar tuas observações. A tarde se arrasta. Um bule de café, e bolinhos fritos. O proibido da alegria! Ficaram delícia! A preguiça não me ajuda, e, as xícaras, os pratos, as toalhas, nem os copos se movem… Estranho os desejos não se realizarem, eles se arrastam… Estou entre os livros, fechados, os lápis apontados, cadernos encapados, a colegial não se despede, e percebo meus hábitos juvenis presos nos dela. Esquisito. Crescer é se despedir, fechar portas, fazer movimentos bruscos… Eu calculo cada passo, e penso se vais aprovar. Estou travada. Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2024 – Portão Azul

mulher e chocolate: divagação

Deve ser um velho texto, de personagem desenhada… Reflexão de escrever / tentar. Eu escrevia escrevia com febre de escrever: o tempo todo, todo tempo… Releio o impresso… reescrevo / transcrevo, não resisto.

Mulheres da idade dela, entre vinte e cinco, trinta, ou trinta e cinco anos não querem filhos um atrás do outro, feito coelhos, mas trabalham, e fazem, sonham com viagens, férias lazer, férias de ano inteiro, ou teatro, cinema, musicais, espetáculos!

A palavra mãe está um pouco enlouquecida ela mesma. Ser mãe é perder referencias internas importantes. Como mulher eu sou eu, como mãe, sei lá, desdobrar. Desdobrar, quer queira, quer não queira… Embalar. Ser mãe é misturar sentimentos, cair em abismos, acordar no susto, perder identidade. Ser mãe é fazer o filho sofrer enquanto de prazer ele te cobre. Misturar agrados com punições. Palavras com gestos desastrados. Ou desastrados gestos com palavras pesadas. Digo o estranho, o errado, na hora imprópria. Eu me torno mulher, num repente, fêmea, quando deveria ser apenas braços para acalentar e cabeça razoável para aconselhar. Uso a roupa da moda: os homens olham e gostam. Mãe não deveria estar na mesma calçada, na mesma mesa, na mesma cama, casa. Talvez engarrafada com o gênio Aladim: um grito e ela chegaria solícita e pronta, transparente, silenciosa e possível. Palavras. Sim, palavras: mulher, mãe, discurso, palavras complicada, simplificada. Justo ou justo? Como mãe a gente sempre avança… Eu avanço na linguagem e volto a pensar nas brincadeiras de criança. Mamãe posso ir? Quantos passos? Virávamos as costas e depois corríamos… Como era mesmo a brincadeira? Quem chega primeiro ganha. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2024- Torres

da janela

Alguém empurra as venezianas e abre a janela. Grita, grita um nome bem feio, um nome bem grande e bem feio… Espanto.

Depois ela se aproxima e abre a porta. Pede um café sorri, depois, começa a falar, e conta e conta e conta um monte de coisas feias, vagas, tolas e feias. Coisa de tanto tempo ruim! Remexe naquele poço. Os fantasmas saem… uns vivos, outros mortos, sem força… Por que ela traz aqueles todos fantasmas? Pessoas? Histórias… São todas histórias feias.

Ela sai. Aquele lixo fica todo ali no meio da minha sala… braços, pernas, vozes, risadas e o sentido solto, escorre, escorre dele um fel, um líquido bem escuro, escorre pelo sofá… Amanhã jogo tudo fora. Amanhã. Hoje estou tão cansada destas coisas todas, destas pessoas todos… Elizabeth M. B. Mattos – março de 2024 – Torres

trança de sobrinhas / meninas

Tranças bonitas e coloridas / práticas e significativas… No retrato / na foto, as cores dos cabelos sobressaem ao brilho… Por entre os fios palavras amorosas, outras levianas e perigosas. O trançado firma longos cabelos castanhos, dourados e escuros… Para a velha tia, no final da manhã, depois de ir e vir, voltar e puxar a exaustão se completa. Para as sobrinhas viajantes e cheias de pacotes, as voltas encontros se misturam em vozes atentas, ouvidos interessados como se aquilo tudo se nomeasse histórias de família / de amor e segredos, e todas as leviandades que o contar daqui e dali produz excita. As vozes, as histórias escorrem misturadas ao lixo das calçadas, as folhas caídas, uma flor aqui, uma verdade ali e um amontoado de mentiras picantes estremecem as lembranças… Um suspiro, uma risada, então a vida fica toda pendurada naquela trança que fizeram… Elizabeth M. B. Mattos – março de 2024 – Torres

olhos castanhos ternos e doces

Quando ela disse dos olhos, que eram bonitos, e, se demorou na cor dourada / acastanhada: conversa amorosa de mais de meia hora: brilho, gratidão, uma coisa iluminada pairou no amor. Eu já queria que os cabelos estivessem assim ou arrumados, ou tratados, que a barba fosse mais rala… Coisas de ser eu, modificando, pincelando, retocando… Nunca o perfeito do momento. (Esquisita pessoa eu sou, a alegria gorda cheia completa me afoga!)E era exatamente, o perfeito do momento, a beleza dele, e a beleza dela…Aquele fim de manhã – rio sossegado, beleza completa. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2024 – Torres na beira do rio Mambibituba com sol e gentilezas.

mar oferecido

Uauuu! Que mar, que luxo de frescor, que tanto ficar que não deveria terminar! Que delícia! Ontem… Inexplicável! Agradecer a filha e ao neto, o luxo de estar a beira do Mampituba costurando a memória e a delicias: frutos do mar, depois de tanto mergulhos! Elizabeth M. B. Mattos – março de 2024 – Tores

voracidade

Aquela boa e feliz voracidade…Desapareceu também? Eu nunca achei que o sonho da padaria, o pastel da praia, ou as batatas fritas em montanhas… O pão quente, a manteiga, café com leite em caneco, ou todas as latas de leite condensado viradas brigadeiros/negrinhos ou branquinhos deveriam ser vetados ou limitados! Ah! Este prazer! Como impedir alguém de abraçar alguém, beijar alguém no meio do desejo apenas ou porque / porque é preciso não fazer, parar, por ser o correto. Explicar para a criança que brincar ela pode, mas não sujar nem rasgar, nem suar na roupa. Olhar o mar mas não entrar. Ver as flores, mas não colher…Voracidade / vontade / desejo também desaparecem… A droga de envelhecer é assim. O amor termina, a paixão é ligeira, o desejo desconfiado. Estou aqui pensando no livro escrito, feito, impresso, o meu bebê! E depois? O que vou fazer com todo este empenho sem parceiros? Lerei e voltarei a ler os mesmos textos… O empenho do verbo fazer. Faz, termina, não interrompe é o que aconselho a todos. Não deixa de fazer. Descansa, faz a pausa, mas continua, faz, todos os dias um pouco. Termina o quadro, o vestido, o bordado, a vontade, o livro, a reza. Faz o bolo, estica o lençol, toca a empresa. Compra o perfume. Espera. Compra. Verbos bem gordos e poderosos. E no meio da voracidade eu posso me engasgar com o pão, sujar as mãos com geleia e me lambuzar no mel. Comer o feijão com arroz. Correr ou caminhar, para me exercitar. Sim. O dever de casa feito. O livro impresso. Afinal pronto. E quem vai mesmo ler o meu livro? O livro que eu escrevi? E agora, faço o quê com ele? Distribuir aos amigos? Doar nas praças? Deixar no balcão da padaria? Não posso. Ler em voz alta na calçada? Presentear no Natal e na Páscoa? O que vou fazer com o livro que escrevi, preparei, editei. Ah! Os amigos… Se eu pensar bem os amigos já leram, os pobres! Deram retorno. Alguns não, mas comentaram as fotos. Bom que coloquei fotos! Assim descomprometo do texto. Eles abriram o livro… E a minha voracidade tem um fim. Elizabeth M. B. Mattos – março de 2024 – Torres graças! sem aquele calorão fervente… Só estou com expectativa, pequena, de que me escrevas! Ainda sou voraz quando penso em ti.

crocodilo ou lagarto

Não se pode olhar de muito perto, estranhezas… Lupas definem. Definem? Temos tantas possiblidades! As estranhezas do nosso olhar…Eu me surpreendo. Não enxergar, entre tantas perdas, pode ser a pior perda… Eu não sei. Perder é uma chatice, não importa, tenho certa dificuldade. Há quem não tenha. Jogar… Talvez cartas, golfe ou tênis, ou futebol, vôlei. Jogar implica em perder. Perder é tão importante quanto ganhar. Particularmente acho perder uma chatice. Que horror! Bom, mas o foco é pensar em crocodilo ou lagarto… A pele vai ficando assim, transforma-se… Crocodilo e lagarto nasceram com este aspecto geográfico nosso…Enfim! Vamos comer chocolate. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2024 – Torres