Não consigo esquecer, nem perdoar. Pequenas coisas que bateram feias… Estes detalhes malvados tecem o caráter. Desavisada, entregue a nostalgia da tristeza, volta o sentimento ruim de ser traída. O dia volta com aquela alegria desavisada tão solta, a minha. Conversas, risadas… Tão bom! E fizemos o jantar. Convidamos os amigos, preparamos, programamos. Foi a pedra que colocaste na possibilidade. Culpa minha, tua? Não sei. Era uma terça-feira. Enquanto escrevo penso que, neste momento, deposito em ti minha incapacidade de conquistar. De ter amarrado o sentimento. Afinal, era teu amigo, não meu. Tua casa, não a minha, teus planos, não os meus. Quem sabe um dia esqueço e escrevo o outro lado da história. Dos meus namorados, não os teus. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2024 – E sinto saudade da vida em Santa Cruz do Sul – longe de tudo e perto da construção de ser apenas eu, comigo, sem trilha. O novo.
Uncategorized
mínimo direito
Necessidade de estar só, de não ouvir ninguém pedindo nada, que não me levem junto… Esse horror de que tenham o mínimo direito sobre eu pessoa, de que me façam sentir isso… Essa evidente falta de jeito dos outros, de esperar alguma coisa. Eu me torno logo incapaz, eu me anulo: resolvo fazer o que não tenho vontade. Escrever pode ser um caminho seguro. Não sei. Desconfio.
Jardim com crisântemos, íris e pessegueiros floridos… Atravesso pelo caminho de pedras. Pedras escolhidas, eu posso dizer seixos? Não sei. Cabelos espichados, sem movimento, como chorosas lágrimas escorridas na cabeça. Pele escura. Olhar sombrio e castanho. A voz caminha pelas escadas do segundo andar.
Não gosto de ser vigilante, atenta, acompanhar o dia e a noite, insone. Quero o sono de todas as horas, aquele que sonha. No entanto, o jardim, a terra coberta de pedras encanta. Árvores se movimentam dentro da história colorida. Ou seria a cor do pincel? Troncos finos, outros maduros e grossos. Na tela estes espichados senhores do tempo, os trocos. Não. As palavras não conseguem entender a visão, nem explicar o som do dia, súbito, a vontade de voltar a dormir. Esta coisa de usar o sono como borracha, goma de esquecer. Questiono os detalhes. Tenho a certeza que no detalhe traiçoeiro se esconde o principal. A porta bateu, ou fechou bem devagar? Eles não queriam que eu acordasse, ou não iam me convidar para passear. Foram todos para o jardim no momento em que entrei correndo na sala cheia de novidades! Levaram os cães… Ou apenas as vozes. Quero olhos azuis, cabelo aloirado crespo, colorido e em movimento. Quero ser a outra, e ter voz mansa, fala arrastada (sensual), reticente. Estou cansada da leitura: arrastada, incompreensiva porque repetitiva. Será que todos pensam a mesma coisa numa variante de dia e noite e idioma, o mesmo. É deste mesmo escorregadio que eu me escondo: escondida, revelo. Todas as cores numa cor. Nenhuma cor: todas. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres
é proibido
Exatamente. O peixe saiu surpreendido no fio de linha! Direto para a panela. É sobrevivência. Então, “É proibido pescar” não importa muito… Tiro fotos, esquisitas, não sei otimizar. Depois eu me sinto uma idiota / há placas, viaturas passam… É assim. Sem regras mesmo. A lagoa recebe estas visitas, estes se hospedam num horror aqui mesmo. E as pessoas não se importam, ninguém se importa, ainda não entraram no cercado do seu jardim, então… Um domingo mal humorado este. Não deveria ser, mas este azedume explica a invasão do verão… o excesso. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres
limite
O limite do tempo que consigo ficar enfiada na emoção começa a diminuir. Cabeça, braços e pés se metem a tremer, e o que sinto não é mais pensamento, mas exige movimento físico. Então é preciso interromper a emoção e a cadeia de sentimentos e recorrer ao artificio. Fazer um chá, abrir uma coca-cola, dar uma caminhada. Os sentimentos não se escondem, eles te engolem. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres
do tédio
Mergulho no dia de qualquer jeito… O jeito bom de ficar na cama revirando e preguiçando não vem! Credo! Então vou folhear um livro, limpar outra vez a casa, resolver a poeira como se fosse uma questão filosófica. O cinzento dos dias, estas chuvaradas refrescantes lembram os bons verões, pois é, meu amigo querido, sempre voltamos para Torres porque os verões eram mágicos. Escreveste muito bem. Voltamos sempre ao lugar da felicidade / da alegria. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres
W.B. YEATS
coisa esquisita
Esta coisa de esquecer anotação e esquecer até de esquecer o que deveria. Lembrança deslocada, esquisita… Atrapalha o dia e não vai embora… Então não sei se ainda é quarta-feira ou já sexta-feira. Droga! Ainda estamos na quinta – feira, o jornal chega amanhã… Memória ruim das que secaram… Dos ferros de passar roupa que desaparecem, do espaço que eu tinha e deixei de ter… Das manchas pingadas na minha blusa cor de laranja. Um ressentimento apertado. Os números telefônicos de antes, os de agora, importantes, esquecidos! Ah! memória atrapalhada, memória lascada. E aquela esquisita… A gaveta com roupas que não me servem mais… Apertados estes ombros…. A saber que vamos fazer um efeito lúdico festa / e seremos bons amigos! Bom! Alguma coisa importa. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres
sem surpresa
constatar e alegrar


Valentina e o tempo. Uma luz de encanto, a certeza de que o certo é ser como o mundo: iluminado. Um rastro de atitude… Perdi umas fotos, encontrei outras.
Perdi o texto (joguei no lixo) -, importa a ideia… Gavetas sem atrativo. A tal alegria espontânea ou exibida desaparece. Estou a procurar. Ela me faz uma falta danada! Comidas da fome! Abrir um vinho importante: mesa completa.
A chuva e o cinza, a calçada vazia. O tal silencio importante! Café preto com bifes salvam! (risos) Tomates, é claro. Gosto. Espírito. Igual sinto saudade daquela Beth animada, festiva sem festa. Estou procurando. Notícias gastas, e misturas ao tédio. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres

Janeiro de 2024 – Pedro Moog – Rio de Janeiro
Gaston Bachelard
“Escrever é ocultar-se. O escritor, apenas pela beleza de uma imagem, acredita ter acesso a uma vida nova”
Viver é um arrastar-se nas horas a serem vencidas, entreolhar, desejar sem precisão, e desperdiçar… Acho que assisto uma comédia trágica quando me debruço no entardecer, ou quando as horas não passam, mas se arrastam. Escrever é preciso, único jeito de navegar nesta terra escaldante. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres
excesso e pânico
adjetivos contraditórios e se completam na velhice e antes do completo amadurecimento… Pensei – dois períodos em que não medimos a fronteira. Vai terminar mesmo, no galope do tempo com palmas ou vaias, e na adolescência, temos certeza da chance / da conquista. Tropeçar, fazer errado ou muito bem, igual, vai continuar está para começar o período de ouro da vida / envelhecer, vamos fechar as janelas e a porta. Nada de sentir medo, mas pânico. Eu ainda não domino as possibilidades…não posso esquecer os filhos, as irmãs, os netos. Sou eu mesma, mas tem toda uma circunstâncias. Tantas amarras… Tem solução? Ou seremos sempre tão contraditórios?! Alguém lê o que escrevo? Vamos nos reunir para podermos rir também. Preciso parar de costurar. Tem um ponto. Um ponto solto, errado, refazer? Elizabeth M.B. Mattos janeiro de 2024 – Torres.
