“Seguramente, porém, tudo está menos triste doque ontem, muito mais leve, muito menos embaraçante, e de repente me parece que entendo o porquê dessa evolução: ontem ainda havia o passado na frente desse homem, empacotando e amordaçando, que o atormentava com seus horrendos ganidos: agora, ao contrário, há o futuro, e eis de qual grande máquina os carregadores trabalhando eram as engrenagens: do futuro, precisamente, do seu futuro. Um futuro que expulsa cada cansaço dos seus olhos escuros, porque contém o retorno à casa depois de trinta e seis anos, a velhice ao lado da irmã que lhe mandava garrafas de Frascati, os fenomenais molhos de tomate preparados com o segredo aprendido na escola de culinária, o acido da viuvez que se dilui na língua da infância (disse doutor: já a reencontrou), e a serena aceitação de todas as outras coisas que virão, assim como virão,
escrever, eu acho…
eu acho que escrever é costurar pequenas memórias, esticar e fazer o tal enredo, cheio de bilhetes, cartas, áudios, fotos com cheiro de passado ou enfeitando, como árvore de Natal planejada, o futuro. Natal! pois é… logo é dezembro, logo o calendário se mexe, mas eu? eu fico enraizada aqui. Gosto da minha casa, meu canta e das buganvílias… estão a enfeitar o terceiro andar cheia de cachos floridos, não podei aquele lado… / mas elas responderam florindo… ah! a jardinagem! Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2025 – Torres


coisas q voltam…
meu querido: sei lá por onde / aonde andas…, ou caminhas, ou estacionas. se os aviões voam… estás perdido na ladeira? espreguiças, tomas uma sopa sem sal, ou batatas cozidas? bananas maduras, pedaços de maçã, bebes chá / água, muita água. pois é, quando faço sopa de ervilhas lembro de ti / dos detalhes / não liquidificar, não fazer torradinhas na manteiga / não esquentar demais… depois lembro os legumes / as frutas… e dos biscoitos e bobagens que deixei de comer. das tuas leituras, tua alegria sem risadas, do fax / e das tuas saudades guardadas nas prateiras / teus roteiros, tua vida dentro das malas. agora, hoje, deves estar estacionado, querendo salvar o planeta, eu sei. sem esta loucura das conexões, assim mesmo perdido nelas. protestas. coisas de lembranças, lembranças são saudades picadas / amor de pedaços, porque tu amas, eu amo, amamos outras coisas, outras pessoas…obsessivos? não. encaminhados… Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2025 – Torres

je vous aime d’ amour
Leo FERRE toujours / ainda / encore AVEC le temps tout s’ en va
pouquinho
não é muito para recomeçar: uma taça de café, coragem, abrir as janelas e limpar a casa / ordenar devagar. importa dividir o tempo, assumir os espirros e a garganta. voltejar neste novembro / nesta época do ano começava o veraneio em Torres. / vínhamos contando as lagoas, escapando da poeira: carro cheio de mantimentos, cheirando mudança. as férias eram plantadas pro verão/ a boa rotina da vida. o encontro certo com os amigos, os banhos de mar curadores, as caminhadas na areia e a folga das férias / para nós um evento que incluía dançar, jogar cartas, comer pastéis e empadinhas de siri ou camarão, pedir sucos, encontrar sorvetes e ver filmes. Na SAPT cada noite um filme novo, arrastávamos as cadeiras para nos acomodar. E nos daremos as mãos, melhor, os dedos, disfarçados e tímidos. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2025 – Torres / com saudade e plenitude / a vida espremida nesta memória ardente de te gostar
quando tudo dá errado fica igual a hoje… simples assim
surra / maldade e violência
dói a alma, claro, os olhos, o cabelo, os pés. o corpo moído, dolorido, dobrado, não estica, dói. o pescoço foi torcido com se faz com os das galinhas / os dedos doem, não é deitado que descana, nem sentado, nem não sei…falta água, falta paz, falta ar…estou doente. resfriada, gripada, as canelas não obedecem…Elizeth M. B. Mattos – outubro de 2025 -Torres – a cada espirro sacode o martírio…sou um fiasco, um ai ai ai ai…
João Vianna Moog / João FONSECA / Pedro Moog
João Fonseca JOÃO Fonseca João FONSECA João Vianna MOOG Brentano. José Maria Francisco Antônio Pedro Menna Barreto Vianna Moog André Ricardo Roberto João Fonseca João Fonseca ADOLFO João Fonseca Zé Maria. Marcos Gabriel Vianna Moog João Fonseca João Fonseca OLAVO José Maria Lucas João Pedro Guilherme João FONSECA campeão Moog Lucas Moog João Moog
meu querido
meu querido: sim eu te envio / escrevo uma palavra, e, junto um sopro incerto. não vou desistir, mas tenho vontade de desistir antes da vida me desistir… estarei a frente sempre?! não vou desistir /eu te confesso o estranho de não ter mais quinze anos, ou treze ou aqueles vinte corajosos anos… chorava bastante, tanto e muito mas segui em frente / o dia seguinte era/parecia tão fácil! tão sem tragédia. verdade foi sim um drama ou equívoco, um loucura estranha no meio das epidemias, outras incertezas… já te contei. e a gente se repete, conta mil vezes a mesma história e o mesmo espanto volta. quero um piano para tocar, uma força diferente, quero todos os pincéis e as tintas na paleta misturadas, novas, inventadas… quero escrever escrever escrever e acertar. planejar o enredo, ter personagens, mexer as teclas o sentido, subir e descer nos ímpetos e dormir saber dormir com paz e tempo… voltar ao cansaço de criança ao gosto do silencio e… claro, do piano, do teclado, da velocidade da música / aprender a viajar / gostar de ir e vir de um lugar ao outro não necessidade mas vontade colorida de viajar… quero tantas coisas travadas, talvez querer/imaginar seja mesmo viver. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2025 – Torres bem sombrio depois de uma chuva tímida.

Pedro Moog

filhas de amigos: bonitas
fui lá espiar esta e aquela / pelo nome conhecidíssimas de pai e mãe / bem… entrei e fui espiar / sim. escolhi uma: fotos da própria linda / lindíssima, da filhota também / estas coisas de hoje fui espiar, procurar uma referência, pequena que fosse…ZERO, nada nadica, como se tivesse nascido num pé de couve… e tivesse, aleatoriamente, dois nomes familiares… pensei, pensei: muita personalidade / espontaneidade narcisa (é muito linda) ou independência completa sem adotar um nome /pseudônimo ou fantasia, sei lá / sim, tem profissão. talvez não misturar o profissional com o familiar / PERFEITO, sim, colou a filha por acidente (?) / marido ou pai da menina, nada. claro, imediatamente, uma história na minha cabeça / acertaria na imaginada fantasia? sei lá… registro o fato. deram um nome bonito pra esta linda moça, fizeram mesmo uma filha lindíssima e rica / bem, já é uma herança / sei que os dois (mãe e pai) vivem suas vidas refeitas (separam, como a maioria dos brasileiros) / voltaram a casar, não sei. a discrição de ser rico / feliz /suponho/e orgulhosos… fico a imaginar… coisas de rede social. quem são estes ou aqueles / podem ser apenas invenção? Elizabeth M. B. Mattos / outubro de 2025 / Torres
O QUE EU QUIS DIZER? as mulheres bonitas perderam a identidade, elas se parecem entre elas de tal modo que não se pode definir quem é quem / ficaram todas bonitas ou bonitinhas…muito estranho isto.