sonhos transitam nestes caminhos e se penduram nos cinamomos floridos, pensam jacarandá e se desmancham nas margaridas, depois chegam no inferno da impossibilidade, no limite / na marca do que não está livre / bom ou apenas proibido. inválido. a pensar no que de fato é permitido… pétalas de rosas ou aquele gramado perfumado sem urtigas? o lugar certo para abraçar, beijar, rolar, rir, e até chorar de tanto amar? saudade. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2025 – Torres pensando Recife / mas será tão quente! mas povoado, com certeza povoado.
ir a Roma, depois Paris e também ficar na terra…
” ai, meu Deus! Como está tudo esquisito hoje! E ontem estava tudo tão normal. Será que eu mudei durante a noite? deixe ver: eu era a mesma quando me levantei hoje de manhã? Estou quase jurando que me sentia um pouquinho diferente. Mas se não sou a mesma, então que é que eu sou?” (p.48) Lewis Carrol Aventuras de Alice no país das maravilhas Através do espelho e o que Alice encontrou lá Ed. Fontana Summus – 1977

Afinal conviver tem mesmo estas questões / sou ou não sou, quando deveria ser e acertar? Todas as histórias / pessoas inventadas passam/questionam/ atropelam as poucas certezas / aliás, incertas… Estou a pincelar as tristezas / quase inventadas / para colorir minhas eternas alegrias… Não é uma esquisitice? E o tal medo que aperta o dia? Ah! Como está tudo esquisito! Venta, como sempre, venta muito em Torres. Encrespa ânimos e vontades. Deve ser coisas de viver estes sentires inquietos. O vento, como a chuva, renovam… Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2025 – ainda Torres


adoro estas florzinhas / adoro esta árvore / adoro cinamos
pensar não é razoável
pensar se tornou jeito fácil de se atordoar… as conexões enlouqueceram: mistura de cor riso alegre com riso nervoso. aos poucos desaprendo a historia (começo / meio e fim) / Carol, socorro? Preciso de ajuda. Lembras? Ordenar um livro, alinhavar um conteúdo, separar histórias de estórias, emoções de verdades. T/á confuso. política deixouou de significar, virou remexer talheres, acomodar empatias / que graça! afirmo que detesto mingau, talvez uma canja, ou quem sabe um sagu… quero meus velhos autores, aqueles que eu me envolvi de amor / de escando-o… fui visitar, estive na Noruega, viajei / atravessei os mares. agora esta coisa de roupas, as roupas? deveria arrumar o armário? limpar as louças e fazer comida? tá fácil comprar prato pronto. mas estou a engordar mesmo fazendo academia… estou arredondando. será bom? um chá me salvaria / uma tarde de silêncio / nenhum investimento, nem dever tanto dinheiro pro João / isso é caminho perigoso. / floresta/ dança/ canto desafinado. Tá tudo errado. Estou apavorada. Tenho que endireitar o tempo, as contas e as tardes. Mais sono, sono fora de lugar, sono de brincar não de dormir. Será que o mundo vai aceitar a paz / teremos paz e dignidade ou a guerra será em baixo / por baixo do tapete. brincadeirinha. Arrepiar / assustar a notícia. Vou me enfiar nos lençóis e ficar quieta / talvez acorde nova / diferente. aqueles bons milagres. quero escrever um texto / dizer que acredito e dizer, também, que vou me esforçar. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2025 Torres com sol / deveria dar certo pensar? e se não muda nada…flutuamos? vamos correr para o mar / de manhã e de tarde. viva o mar! vamos apenas descansar.
garota dourada
cabelos de luz, roupa cuidada, rosto iluminado, pés bonitos, passadas perfeitas. sorridente, colorida, gentil… assim és. tuas visitas agitam, alegram, e enfeitam toda a casa. amiga, das tuas sacolas, tira frutas, flores, mimos, não garrafas de vinho. sucos de laranja, de uva, águas minerais… bebam com gelo, limão e risadas. Nesta casa onde ninguém bebe álcool os bons presentes devem ser leves ou adocicados / sabes fazer bolo de chocolate ou de milho. sabes inventar gentilezas, não álcool. não concordas? sem placas, sem constrangimentos, apenas o ritmo da gentileza e da beleza. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2025 – Torres – o mar conhece as histórias do sol… que bom que és linda!
guerra quando? como? somos capazes? hoje, ainda, sempre – não podemos esquecer… o que é amor?
dúvida / dívida e pausa
não é exatamente o que conta mas como se conta / a maneira como um fato se encaixa no outro e pessoas / amigos / personagens se movem… os sentimentos seguem pegadas. pegadas de fatos / acontecimentos. se eu conseguir / se eu souber / se eu puder ao menos começar… suar e focar / sem hora sem interrupções. poderá ser / será o fato gritando / miando… assustado, entre linhas prisioneiro. acontecendo, o fato…este que eu quero desenhar. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2025 – Torres cinzento – sombrio e ventoso. Torres com mar agitado e lagoa crespa.
“para mim que tomo café passado até com água da lagoa…”
escrever / sem voltar / sem contar: como tu sugeriste, exatamente, tua voz / não te interrompes / dizes / sentes / assim é o tempo inteiro: máquina de poetar, argumentar, exigir. sei lá como escrever, eu apreendo, mas não completo, pois é… esqueço. não consigo anotar tudo: vassoura, puxão – sim agarrar e puxar, varrer. ou decidir, sem limpar (deixar fluir). amarrar, empurrar. eu nem aguento porque é muito mundo / muito sentir / muito aquietar e sussurrar. altas vozes, aos gritos… não, são sussurros, sussurros incertos e eles cantam todos os ritmos todos as músicas. difícil escrever no meio do sono, os sonhos…impacto. então eu aguento. amanhã eu escrevo. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2025 – Torres
lápis / papel / rabiscos verdes, vermelhos, rabiscos e guarda: verás… pai, mãe, minha tia Joana – a rua Vitor Hugo 229 – o bar Tupi, a lomba, o piano da dona Ondina – aulas aulas e teclado (não sei solfejar, nem dedilhar) / não resolveu o violão nem crescer. empaquei, mas posso te escutar horas, horas…

não, mas pode ser um sim
carrego teus sentimentos, teus terrores e medos embrulhados… quero resolver num abraço, no carinho possível, mas não consigo. traço planos, encaro o dia e a noite como aliados, mas não estou conseguindo. sozinha eu me perco no deserto do que penso entender, mas não compreendo…escorrego. aposto numa lógica estúpida e na dureza / rigidez do meu coração… não compreendo nada, então estou estatelada no escuro da minha ignorância. como posso afinal protegê-lo e abraçá-lo e ser doce ou boa: eu não sei nada. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2025 – Torres
ainda, meu querido
amado, perdido? não. sempre achado… na onda, na quietude, no inesperado de um bilhete, meu querido.
um belo dia a gente se muda? não sei. acho mesmo que o movimento dos solavancos são encontros / bons / definitivos, e, de repente, os mesmos e as tais idas / mudanças. explicar? o som do piano, a voz do vizinho… aquela insônia, o gosto da via/do rumo. a tua presença. ficar para sempre. uma risada… o teu silêncio e minhas decisões ruidosa. saudade.
o fato é que é fácil entender que há um motivo por trás do movimento, mas é mais difícil entender que haja algum também por trás da imobilidade. Mas isso é porque, aos poucos, nossa época foi conferindo cada vez mais valor à mudança, inclusive como fim em si mesma, a mudança é o que todos querem. Assim, não há o que fazer; no final, quem se move é corajoso, e quem permanece parado é medroso; quem muda é iluminado, e quem não muda é obtuso. É o que nossa época decidiu. Por isso, fico feliz que você tenha se dado conta (se é que entendi direito a sua carta) de que é preciso ter coragem e energia também para ficar parado. Penso em você. (p.280) Sandro Veronesi – O colibri
estou deixando o tal tempo passar: tua voz ecoar. estou esperando a memória desenhar, e… vou interpretar. antes, durante, depois. saudade apertada. um beijo. ah! pensei ainda… será mesmo de ti que sinto saudade ou do amor, da expectativa e das minhas próprias risadas? todos os dias digo / acerto / planejo contar / dizer como foi viver e ser feliz assim… Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2025 – Torres

imaginação
Ninhos e conchas. Habitar e proteger. Estou a imaginar / o lugar / a casa / o cuidado de morar – proteção. Como explicar? Passei o dia a limpar, ordenar e reorganizar. Descanso o olhar no que está arrumado, limpo. Penso: enquanto me abrigo, eu me protejo. Cobrir e se esconder alimenta a imaginação. A criança transforma os seus dedos em personagens… eu brinco. O claro escuro: dia e sol. O quente e o frio, aventura. A sombra também é habitação, explico. Teu olhar me encoraja. A rua Dario Pederneiras, a rua Vitor Hugo, sigo o mapa. Volto, devagar. Vejo a casa, os jacarandás. Referencias de amor. O coração de uma rocha. Senti saudade. Saudade de estar contigo. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2025 – Torres, mas poderia ser Porto Alegre, talvez o Rio de Janeiro, ou ainda Rio Pardo, Santa Cruz do Sul: plantei árvores e amei. Aonde, exatamente, estás?