deveria ter sido

1.

As crianças estão bem. Ainda chovia quando saíram. Estiveram a se envolver com os cães. Acharam o Conde, agora Blake, trocamos o nome, lindo. Ele comeu banana na mão, sem susto, e se aproximou, mas segue extremamente arrisco, medroso. Deve ter sido bastante maltratado. J. e eu não conversamos. A casa fica menor quando há este constrangimento. O dia está feio. Arrumei e lavei louça. Dobrei as roupas. A casa precisando de ordem / arrumação e limpeza. Não veio o sol mas parou a chuva. Tenho vontade mesmo é de estar diante do fogo, quieta, lendo um livro. Quero alguém limpando, cozinhando, fazendo brilhar… Quero ser servida.

Nossa ida até Porto Alegre deveria ter sido festiva, aparentemente, foi completo: ao dentista, ao obstetra, e trouxemos o cachorro. Não decidimos sobre o parto, conversamos com seu pai. Visitamos a Lorena, querida, alegre e entusiasmada com ela mesma. Pessoas tranquilas. Sou eu que ando triste, não sei o porquê. Quero milagres. Preocupada com o dinheiro. Ontem confiante, hoje acabrunhada, sem vontade. O dia ficou mesmo branco e preto. que pena! Deveria estar na concentração para decidir o que vai acontecer com a greve. Nós professores neste impasse! Estou completamente desanimada. Um ano perdido! Deveria arrumar meu armário, encaixotar as coisas para a mudança, ou corrigir as provas / preparar as aulas. Pensar no francês, mas acho que vou interromper as aulas particulares também. Estes horários tardios irritam o J. (acha q não tenho tempo para nós). Eu penso nas saídas dele, nas decisões apressadas! Estou com frio. Acho que deitarei na cama do Pedro para olhar o pessegueiro…Vontade nenhuma de ir pro meu quarto, quero sumir, chorar, apequenar. Tudo está tão cinzento, desalentador hoje. (17:30) Elizabeth M.B. Mattos – maio de 1985 – Santa Cruz do Sul

André Gide

Abre o livro e verás! Lerás, não a inspiração de Paulo Coelho, mas Gide como ele é, e sempre foi! O melhor! E agora, mais, muito mais…

Conservei até o fim da noite a esperança de uma novidade de luz; agora não vejo ainda, mas espero; sei de que lado a alvorada surgirá.” (p.110) André Gide FRUTOS da TERRA / tradução de Sérgio Milliet

vai entender…

Era um frio de nevar logo de manhã bem cedo, mas, já às quinze horas, parece amornar tudo e o vento/um vento bem acomodado no devagar amenizou o dia. Ah! Temperatura que parece com as variantes de amor! Vai entender! Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – Torres

transbordar

A gente vai transbordando de jeitos diferentes segundo cada memória, cada encontro, e a tal da motivação…, amei/apaixonei/vibrei/ e mergulhei em vertiginosas solidões produtivas. Até escrevi com desenvoltura de ser/ter/construir uma história. Pois é, não sei…, escrevi textos inspirados. Mas hoje eu me enfiei nesta memória. Não sei o porquê, pode ser o frio danado, intenso, e, pode ser apenas saudade contrariando… Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – Torres

frio de maio

Ah!, meu querido, meu amado: o frio, o danado deste frio em maio! Estou a te pensar completamente fora de hora, como este gelado outono! Atolada numa ausência de tantos anos! Poderia ter esquecido teus olhos azuis e tua magreza, tua boca e todas as tuas chegadas! Não, num repente de susto, estou a te amar, sem pudor. Sem o gosto da sopa, sem cinema, sem amigos, sem mundo, era o nosso mundo! Imagino: tu também deves fazer uso desta saudade que engole! Apenas nós dois! Nós, e o suficiente! Tu sempre estiveste no plural dos plurais! Eu não me importava, transbordavas ao chegar! Estou assim hoje, a te amar, tão bom! Claro, como tu, eu também transbordo / transbordei e amei / amo, tu sabes! Jeito de ser Elizabeth, na Beth, na Liza e na Elisabeth, assunto ortográfico foi sempre preocupação! Eu te contaria outra vez! Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – Torres

enxurrada

“Buenos Aires, 17 de maio 199 Elizabeth, gorda amada: Estou perdido no mundo. Não sei sequer que horas são, meu relógio de pulso, sem pilhas, nome do norte do mundo. Estou sozinho no meu apartamento (no meu, não no nosso), sei que é tarde pela inflexão do sol. E que é muito tarde porque estou famélico e o frio aperta mostrando que estou sem me alimentar. Aqui estou desordenado. […] todas as outras cousas da casa foram para o novo apartamento da dona N. e escrevo-te na mesa da cozinha, no pouco que aqui restou intacto. Creio – creio – que eu também restei intacto.

Intacto, mas começo a sentir o tiroteio.

Ontem recebi uma enxurrada de cartas. O porteiro as havia guardado no nosso apartamento para m’ as dar em mãos… Por conta, isso atrasou-as em uns dez dias. Talvez tenha sido bom. Se as tivesse recebido antes, talvez não tivesse enviado tantos telegramas de amor e saudade. (Ou teria enviado adeus, sem saudades???)

Li cada uma delas. E por ordem cronológica, a partir do selo do envelope. O Problema é, saber com qual das cartas fico, a qual respondo? Agitei-me no início, com as duas primeiras cartas, quando me propões ou sugeres arrumar a mala, deixar tudo, e ir viver contigo aí algures ou alhures. No meu remoto e ignoto inconsciente, me vi chegando a Porto Alegre, logo a Torres, malas nas mãos e tu me recebendo com o sorriso que te faz melhor que tudo o que és, e é um muito. Li essas cartas-convite sentado junto ao bureau. Quando, em seguida, chegou a vez de outra carta, mudei de lugar. Fui direto ler na cama, onde ainda permanece teu cheiro, nosso cheiro, mas no fundo só o teu perfume. Li a carta de rompimento deitado para que o golpe do infarto fosse menor. Em poucos minutos passei da euforia de sermos definitivamente um do outro, a depressão de não mais te ter, não mais te ver, jamais voltar a te sentir. Esquizofrênico amor o nosso. Esquizofrênicas as tuas cartas, ou o conjunto delas. Em qual delas posso confiar? Na da mulher que me ama e que me induz ao amor total não só com seu jeito, seu corpo, seu sexo, sua boca, sua alma e sua fala, mas também com suas cartas de entrega e busca, de intimação ao amor total ao viver juntos? […]

Petrópolis / Rio de Janeiro

Búzios / Rio de Janeiro

O amor vai feito furacão: acorda o corpo. A palavra Eu, um detonador de sentimento sem arrazoado, a balançar… Ninguém consegue mudar o lugar em que fomos colocados. Outro país, outra casa, outro tempo passado/ voltado / revirado. E não importa. Há quem nos olhe, e há quem nunca nos viu, nem percebem que passamos e nos devoramos, meu amado! Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – Torres

Torres, 199 – datas – nesta foto a desordem do tempo – tanto tempo, e foi ontem

sem volta

Explicar o impossível: não quero de volta. Eu preciso, importa, então, com humildade forçada recomeço.

Dois dias a me propor levantar a poeira! Poeira do sol, do vento, desta alegria alheia a vontade! Fecho as malas, as caixas voltam a ser pilhas, e os segredos saltam… Coisas sem importância! Mais café, mais energia, mais laranjas, mais suculência! Desejo que voltes logo, já saudosa. Esta tua África, entre tanta areia e oásis! Vou brindar a nostalgia. Igual eu te beijo, assim, imaginando teu corpo. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – Torres

Foto – João Brentano – maio de 2022 –

passei três dias naquela casa, a porta fechada, passaram três anos, eu não sei, se o jardim atrás daquela porta tinha jasmins, hortênsias, espinhos ou eram apenas laranjeiras…

medo impossibilita a descoberta do amor, do amor de três anos, seis ou do para sempre

Hoje eu estaria sem roupa com todos os colares no pescoço. Ias me xingar e dizer que não tenho vinte nos, nem trinta e ainda não fiz as plásticas, sou eu cheia de colares e sem roupa. Não sei se sentirei vergonha, acho que vou te beijar e tirar a tua roupa bem depressa. E verás que estamos velhos os dois, enlouquecidos os dois, apaixonados os dois e saudosos os dois, A música vai tocar alto, as janelas escancaradas, os lençóis perfumados e o dia não terá fim e o sol, entrará pelo quarto inundando de luz o que deveria ser sombra é luz, somos nós. Querido: por que demoras tanto a chegar?1 Fico fera, fico louca, fio triste e eufórica, fico eu…depois vamos dar risadas enquanto vestimos nossos pijamas comportados. E nos debruçamos na janela para ver o céu! Que importa? Vieste!? Amanhã vamos passear pelos bananais e veremos o rio limpo e transparente e tomamos sol. Eu te amo! Acho que amas a uma velha porque em nós dois brota alegria música e prazer e gosto, sinto o cheiro do prazer e sentes o cheiro da alegria! Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – Torres

P.S. a última Coca-Cola da festa, nunca vou esquecer disto. Te amo.

vou dançar

quando a amorosidade fica toda erriçada as três imãs resolvem se visitar, no braço a cesta das benesses e dos carinhos, descolado, mas preparados: carinho e particularidades, um grande festivo piquenique porque somos um trio de poder…. Então, num repente todos os prazeres se colam no encontro assim sem data, apenas nosso. Neutro, e nem tão neutro assim porque recheado do confissões e de amor. EU me faço vestir gala e saltos altos quando um evento domestico se realiza do começo ao fim, escancarando sonhos….tiro os sapatos e vou, vou dançar.

O esdrúxulo, as minúcias: revistas, livros, excesso, poeira, desordem, encanto, memória tão espalhada. Deveria eu procurar uma aula de dança para sacudir esta alegria presa, depois caminhar olhando o céu, mas, daria as mãos para as irmãs e espelharíamos a que foi e a saudade miúda de um tempo passado de ser jovem e solta,.

Imagino que somos três. TRÊS a comerem a delícia, beber o bom, conversar o sol e durante três dias voltar a sermos nós escarafunchando a vida e os prazeres que eles nos deram.

Se falo com Susana acho que pode ser ontem, não amanhã a aventura, com Tânia uma semana inteira, e, os brilhos serão o suficiente, as estrelas perfeitas e as massagens, a dança a festa estará pronta. E tenho certeza que merecemos nos dar as mãos. Elizabeth M. M. Mattos – maio de 2022 Torres