acordo magra, e logo, gorda outra vez

Acordo magra, e duas horas depois estou, outra vez, gorda. Detesto isso. E também não posso olhar os braços, o corpo. Eu me deprimo. De repente o rosto, bem …, não parece tão horrível assim …, talvez a boca. Os olhos cansados, quase desmaiados. Os cabelos, já me acostumei. Indisposição…, resfriado, gripe, sei lá o quê, … estes pruridos enjoados antes da eleição, ou antes do verão, ou antes de encontrar. Ou um livro terminado e o outro, a se arrastar. Eu sou meio perdida. Amigos amigas queridos amadas filhos netos, eu sei. Estou perto e absurdamente, longe. Os advérbios devem ser/estar entre vírgulas? Tudo entre vírgulas. O que desejo me escapa. Ora se fosse hora de amar eu entenderia, mas passou. Tem uma qualquer coisa de ridículo. É a danada da sedução eterna, enroscada, altiva a me seduzir. Não vais acreditar! Todo desencontro tem um sabor de desejo ardente, enamoramento, paixão obscura, presente neste permanente hoje do momento que foi/é o teu encontro. (Ihhiii! Ficou enorme esta coisa que escrevi …, um parágrafo numa frase, não, numa oração!ah! que horror!) Estás comigo entrelaçado nesta confusão de ser sem existir. És pura imaginação! Como se eu pudesse calçar aqueles sapatos com saltos altos, e cruzar as pernas, uma sobre a outra sem ser displicente. Sendo tão distraída e avoada, mas elegante. E o vestido fosse impecável, as costuras lisas, a bainha com aquele peso no caimento, e o confortável colar de pérolas misturado com as correntes. Sem maquiagem, com brincos e o cabelo fora do lugar. Paradoxalmente gosto tanto deste meu eu que veste jeans e camisetas puídas, o mesmo lenço no pescoço para socorrer os cabelos fora do lugar, e o desavisado tênis …, e um desleixo com as roupas. Gosto desta negligência. Armário reduzido, camisolas e pijamas. Duas gavetas do que se chama roupa e calças pretas de todos os tamanhos, porque, invariavelmente eu acordo magra, mas depois de duas horas já estou gorda. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2018 – Torres

intrigado

Sentou na poltrona em frente a janela …, ficou a me olhar intrigado: não era quem esperava que fosse, afinal, era apenas eu. Estendi o livro de Pamuk, O Livro Negro. Abriu aleatoriamente, … e eu lhe disse: “O amor é uma procura”. Página 109. Nem te amo nem deixo de te amar. Estamos a pensar e a procurar, e … no meio deste caminho, igual, preciso do teu beijo abraço, e tu precisas do meu beijo abraço. E sussurrando continuei: tu vais me perdoar, eu apenas me apaixonei, e é tão tarde! ElizaBeth Liza Eliza Liz  Elizabeth M.B.Mattos – outubro de 2018 – Torres

jasminssssssssssssssssssssssssssss

Francisco Brennand

A leitura de Salman Rushdie me manteve amarrada a Turquia por mais de mês. Liberta, desta memória, do reencontro com Paul Auster,  J. M. Coetzee, volto a Francisco Brennand. Retomo o Volume I do Diário. O presente atrapalha qualquer tempo verbal, atropela na urgência: respirar fazer e sentir. O escrever, secundário. Suponho que a leitura atravessa o tempo deste desencontro turbulento da conversa / desejo e silencio. Como se não tivesse face, ou a mesma o tempo inteiro até se misturar ao passado, que será, imediatamente, classificado. Estas leituras absorvem meu imaginário. Prazer rarefeito, num tempo passado,  súbito é o presente: estou com Francisco. Volta a imagem que guardei dele: …, voz gesto (com tremor essencial, explica) e os passos. Estou em Recife com a minha Luiza.  Oficina Brennand, – pura magia. (p.33-58)

“É como se o desenho existisse na natureza das coisas e não fosse apenas inventado.”

” A vida não é literatura. É algo bem mais violento e irreparável.”

“Nesta manhã, o azul é mais profundo, a brisa mais fresca, o céu mais claro, e as esperanças diante do desconhecido bem mais acentuadas do que durante aquelas angustiadas viagens de uma prisão para outra.”

Sempre me pareceu muito curiosa a minha incapacidade de anotar qualquer acontecimento presente, como se o presente não tivesse nenhuma face, como se fosse algo que apenas se preparasse para uma diluição ou esquecimento e em seguida o pretexto de recomeçar uma história, desta feita, no passado e propícia ao devaneio, aos devidos ajustes, todos na dimensão de nossa desatenta compreensão. O passado como fiel da balança. “

“Embora a história não se repita, os homens através dos tempos – com uma imaginação limitada – não fazem senão repetir – se.”

“Só se vence batalhas, pelejando, só se domestica um cavalo, montando. Jamais realizei nenhuma dessas proezas. […] sou um neófito, ávido de iniciações […]

As coisas deixam de ser provisórias para de repente assumir ares de realidade a ser vivida e resolvida. ”

[…] “ beber um Château Mouton Rothschild. Não sei com segurança como definir um vinho ‘encorpado’, desde que não sou nenhum enólogo. Em todo o caso, me vêm à mente a consistência, o aroma, o paladar como se a boca estivesse cheia de alguma substância incorpórea, que ao mesmo tempo liberasse e sufocasse algo quase enlouquecedor. Não passei de uma taça e, sem terminar o meu jantar, me retirei para o camarote. ”

“Esta palavra ‘ destino’ teve um efeito negativo no meu espírito, pois me soou como uma espécie de condenação”

“Pasmosa solidão, entremeada pelo ruído cadenciado e veloz que em parte impedia de olhar a paisagem, nem que fosse por segundos. ”

Assim são as nossas emoções, sempre baseadas no pressuposto de que temos o tempo e a vida como aliados, quando, na realidade, acontece exatamente o contrário.”

Francisco Brennand – Diário

a cesta de praia

Festiva majestade praiana. Completo existir / ser, poderosa. Amigos a cercam com gentileza e sorriso. O lugar onde estica a toalha de praia, enorme (aquela que Marco trouxe: marrom bege e branco), e abre o guarda-sol se transforma. Eu me aproximo insegura, mas logo sigo a caminhada até a beira do rio, passo pelas canchas, e vou molhando meus pés na beira do mar. As frutas, a garrafa com suco, com água gelada, o guardanapo azul e branco que protege biscoitos e o bolo de laranja fatiado. Sanduíches de queijo. E aquele ficar na praia se estende alegre. A cesta arredonda, ela mesma única. Festim perfumado ilumina minha lembrança. Desta irmã chegam sorrisos, pessoas, histórias e encantamento. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2018 – Torres

a melhor foto dos peixesssssssssssssssss.jpg

o amor não bastava

“Talvez ele não quisesse que ela o visse velho. Talvez ele não quisesse vê – la velha. Talvez a lembrança do que ele não tivera a coragem de agarrar fosse esmagadora demais. Talvez ele a tivesse enterrado fundo demais e não conseguisse mais exumá – la, e o horror de estar com a condessa Olenska e não sentir mais o que sentira fosse demais para ele suportar. […]  Ela estava imobilizada como Newland Archer ficara imobilizado, a passagem dos anos a havia bloqueado, e, muito embora uma expressão de amor tomasse conta de seu rosto cada vez que o nome dele era mencionado, ela não conseguia agir sobre o que sentia. Para ela era mais real sem ele do que ele voltasse. Então ela nunca respondeu às suas cartas, nunca telefonou para ele e nunca o viu nos dezesseis anos que lhe restaram. […].  Às vezes, o amor não bastava. ” (p.548-549) Salman Rushdie  Memórias

Envelhecer: desânimo estarrecedor. Obstáculo agressivo. O mistério na intimidade das pessoas ou a incompreensível sobrevivência do amor no coração da ausência nunca será esclarecido se não houver confronto. Hoje a sensação, ou certeza de derrota … Uma pergunta sem resposta. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2018

identifico

  1. Bastante vento, e uma coisa ruim no ar. Não sei por que você veio olhar para mim, falar comigo, cutucar e desaparecer como se fosse rei do mundo; isso me aborrece. Identifico tua dor e problemas, particulares. eu sei. Mas, não compreendo. Amanhã…, sempre existe outro tempo outra hora outro momento. Que seja! Elizabeth M.B. Mattos outubro de 2018 – eu me aborreço.