…,outro tempo, tanto tempo!

Torres,19/03/99 00:46:28

Tenho certeza da emoção deste momento: saudade do pai e da mãe: do jeito que deram para a vida que não levaram, (há uma potencialidade grande / tão grande!/enorme na vida, não damos conta, eu acho. Fica- se a querer mais e mais, eles podiam seguir, eu gostaria tanto!) – deixaram passar – como estou fazendo agora… Estou? Não sei se sei. De repente entro pela noite pensando nos alunos: o jeito de fazer crescer, botar água, um pouco acreditar… No que, lá no fundo, morto já está, sem saída, amarrado, esquecido. Mas não digo isso. Tenho alunos / boa dádiva. Desdobro a conversa: grito, faço teatro, nem respiro. Chego cansada – perdida. Volto a pensar no tempo em que F.T. estava/ficava aqui, e eu podia discutir, convencer, recuar, aceitar, e brigar para depois escutar, continuar a pensar. Abro Saudades de Voltaire, este livro me agrada tanto! Começo pelo começo, volto para recolher pedaços. Obrigada pelos volumes que mandaste. Chegaram a/em tempo. Estão a ler em grupo, em casa também O caráter de Jesus e Juventude. Eu já te digo que muitos olham aflitos, e me perguntam se é só ler e depois?! Ainda não cheguei no depois.  Começo, na madrugada, o trabalho pela leitura do teu Voltaire, Rio Grande. Bobona!! Agora há que se dizer e ter escolaridade nesta leitura. Ler, ler, apenas ler?! Como explicar/incitar/ fazer trabalhar e desdobrar a leitura. Cada turma um livro diferente. Com Paulo Hecker Filho. Quero botar uma inteira vida na panela do feijão.“Esse apego, a seguir, busca se apoiar nas doçuras do campo, que não são poucas (nem as amarguras), dando vez a um bairrismo que inclui uma falsa imagem de autonomia e dignidade. ” Donde sai este gaúcho descrito como é / ou pensa ser. Ou sou eu a ler o que escreves como reza de catecismo certo? Bem, eu morei na fazenda, em Rio Pardo, lá onde a Luiza nasceu, senti as coisas do verde, das curvas de nível, das porteiras. Tomei do ar e, na intuição escrevi sobre exclusão. Encaminho no final. Parte da minha narrativa perdida…  A reacionária gaúcha sem nunca querer ser gaúcha, renegar, bater pé e fugir. Ignorância no assunto dos sem-terra, na luta pelos excluído e incluídos. Gaúcha a se pensar carioca, mas sempre gaúcha

“[] há um vestido por ano,

        há sexo de todas as maneiras,

        ou não há, nunca se fala disso.”

 Leio, releio e vou em frente, penso e não digo, escrevo. Vontade de conversar. Já sei, nada de café. Nem água. Muito menos cerveja ou destilados.

“Vá que a ideia de afrontar qualquer poder é antes romântica e conduz à imoral tentativa de submeter os outros. Mas acresce a pessoa a noção de resistir sem reclamar, de enfrentar por si o adverso, de buscar se respeitar enquanto homem. ”

Volto ao tema/tempo: sinto saudades de pai e de mãe, de colo e do mundo que era deles, nunca meu, – sou espelho. Resvalo na literatura citada pelo / no teu livro. Simões Lopes Neto, O Continente com Ana Terra (mulher) Antônio Chimango, Fronteira Agreste. Agarrada no Érico, triste. Quero voltar para o colo a repassar encontros com a Mafalda, fofocas e mel com fel. Conversas que dizes explicas em EU GOSTO. Passo a poesia, mas fico nos versos, procuro tua prosa. Choramingo a beleza, e me incluo: “Mas o povo não gosta de poesia. É gênero difícil, que exige iniciação, exige familiaridade com o sentimento e o êxtase. E quem tem sentimento? Quem tem êxtase? Bem poucos, Deus me perdoe.”(p.24) E lá estou eu entre os que não leem a poesia nem sentem o gosto deste todo que pode ter – preconceito – dificuldade, abandono de que pedaço? Nas prateleiras os poetas não lidos. Não gosto. E gosto dos teus poemas, todos que leio, e então eu me sinto em casa. Fernando Pessoa é claro, tudo, inteiro. Alguns outros. Poucos. O que eu fiz do meu tempo por que não posso escrever “sou antes da casa e, em particular, da cadeira em que leio...” Suspiro inquieta. Fico outra vez querendo te dizer, contar, resmungar no teu ouvido e querer saber se todas as coisas inacabadas. Minha cura da doença deste silêncio deste viver no faz de conta em que vivo. E gosto. Da gente toda que eu toco na lembrança, por telefone, num encontro casual…  Muitos colados na Anita de Athayde Mattos, no Roberto Menna Barreto Mattos. Fantasmas que caminham na memória. O que a Nídia fez, e disse, é coisa dela… E os nomes significam, quase todos.  A revista Crucial (tem alguns volumes perdidos aqui…), Vera Mogilka Josué Guimarães segurando a mão da mãe no hospital, entre a vida e morte de uma morte que houve, nós sabemos. José Otávio, Tânia Faillace e sua primeira edição apadrinha por Érico (isso é o que dizia) …. Luiz Fernando Veríssimo humor e genialidade com um Pedro Veríssimo, e eu com um Pedro Vianna Moog. Encontros de conversas silenciosas e gordas. De Antônio Carlos Resende para quem não voltei a encontrar, por quê? Podia insistir, telefonar, escrever. Silenciei. Tão querido! E tu ficaste aí plantado deste lado de lá como parte, já te disse, da família do lado de cá. Coisa estranha! Medo feio destas coisas que não sei, não se acabam. Ficam. Por quê? O Ruas que hoje caminha na sala da Nídia, antes, veio a Torres palestrar, conversou com o Flávio, autografou o livro e se calou. Disse pouco. A prima Martha Medeiros, antes de Medeiros vem o Mattos. Conversas em Torres, nas frestas do verão. Curiosidades! Digo que se gasta em jornal, não acrescenta. O Moacyr Scliar que morou na Vitor Hugo 229, surpreso com a surpresa coincidência me deixa ir / voltar a entrar na casa que hoje pertence ao cunhado. Lembro dele, e parece que tudo aquilo é a mesma radiografia… Lembras da casa? E Walter Galvani. O Walter publicou na íntegra a entrevista que fiz com o Xico Stockinger (meu começo na Revista Globo) na íntegra, no jornal Folha da Tarde: por simpatia, galanteio, como flores, eu sei. Vaidosa, como gostei?!!!! Sérgio Jockymannn e o Celso Gutfreind, citas. Claro, eu gosto. Tagore está na lista preferida. Liliam Lemmertz! Vejo mais uma vez, de novo lá em casa. Lineu Dias – eu sei. E a correspondência embrionária de tudo. Seiva da minha tese como as cartas de Iberê. Enfim! No final é pobre. Pobre! Tudo pobre e coincidente?!!! Que doença é esta que me toma quando eu te leio? O que é isso que tenho amolecido, sem forma, apenas quero pedaço do que já foi porque o fazer não se faz, acontece. E fico lenta, quieta, espreitando a noite. Quero carinho, aconchego, sinto saudade e arrependimento. Tristeza grande, outras vezes pequena, e uma solidão, engraçada, tumultuada pela fantasia louca daquele passeio entre tecidos que são os quadros, tu sabes. Os quadros daquela pequena galeria da Coronel Bordini. Longe da minha vida de agora a lembrança e segurando um tempo esquisito de esquecer, duvidar e nada ter. O que eu quero eu não sei. Agora, eu queria poder te escutar, ouvir…não. Eu preciso continuar a ler e preparar a aula do novo milênio que repassará o gosto de ler, escrever… Estudar, continuar. Não parar. É isso.

Segue o texto escrito sobre aventurar – se no outro mundo a inteligência for desperta para o puro prazer do prazer.

Quem são os excluídos do prazer? (título e texto, provisório)

O prazer, a libido dentro do homem, o nosso prazer sexual, cultivado; não segue apenas o instinto. Desenvolvemos a sexualidade como desenvolvemos a intelectualidade e todos os nossos potenciais. O uso da inteligência nos qualifica e o uso da sexualidade nos amplia, nos potencializa como seres humanos completos.

Desenvolver a sexualidade, usar a sexualidade, saber o prazer depende da possibilidade intelectual de cada pessoa, da complexidade do homem, da interioridade do homem, para não radicalizar afirmando: depende da nossa inteligência. Os menos favorecidos socialmente terminam por ser os excluídos do prazer pois abandonam muito cedo as potencialidades do próprio corpo. Desenvolvem uma sexualidade limitada na própria necessidade de sobreviver e não viver. Menos preocupados com os limites do eu e do corpo se abandonam. Esquecem quem são eles e o que poderiam vir a ser. Não há, assim, completitude, mas deformação.

As pessoas que não desenvolvem potencialmente a inteligência terminam por abandonar a sexualidade. Abandonam a preocupação com o corpo, com os limites do corpo, abandonam o conhecimento interior.  Preservar a sexualidade, desenvolvê-la é preservar a completitude da vida: alimentá-la, usufruir não como um alívio de tensão, não como órgão de função mecânica. O gozo não se concretiza apenas nas fezes se compararmos com alívio premente. O gozo sexual transforma o homem pois atravessa a inteligência e aguça a sensibilidade. O sexo não é paliativo como o álcool, o cigarro, mas parte de enriquecimento (o requinte) do ser humano; trabalhar com a inteligência – o pensar – então o homem se conhecendo, sentindo, cresce.

O homem do campo, o operário comum não desenvolve este tipo de libido, não da mesma forma. Está bloqueado pelas necessidades primárias da sobrevivência. Não possui conhecimento do seu corpo e nem o explora. A inteligência fica bloqueada no trabalho mecânico do não pensar, não agir além do limite, apenas aceitar.  Trabalham surdos as próprias vozes e preocupados com o barulho do mundo, dos outros. Se estamos surdos ao olfato, ao gosto, a nossa voz, perdemos, também, a sexualidade.  Surda está a nossa sexualidade e estamos assim apenas metade de nós mesmos. O sexo se esconde dele mesmo, assim como olhamos sem ver, choramos sem sentir, comemos sem fome nem gosto falamos por falar, vivemos por viver, fazemos sexo por fazer.

O ócio, o não fazer nada com as mãos e com o corpo, a despreocupação diante do trabalho-fazer, olho-fazer pode ser parceria com o prazer, com o sexo, somente, quando a inteligência aflorou e desenvolveu no homem o sensitivo: sentir, ter percepção completa. O sexo pensa o sexo, o olhar pensa o ver, o nariz pensa o cheiro, a boca pensa o gosto, o corpo pensa o corpo, o homem se pensa. Pois que o ócio pode ser ópio, mas também a contemplação, a meditação. Seres especiais convivem e sabem do ócio, do corpo e da alma. A sensibilidade precisa ser aguçada e trabalhada em parceria com a inteligência.

O ofício, a ação mesma do homem, pode ser apenas a fuga. A igualdade entre operário e patrão, mas o excesso de trabalho termina no poder. O que é externo ao ser é pernicioso. Este poder pode ser entendido como o resultado do trabalho. Não o poder sobre si próprio, sua vontade: é um poder vazio, projeção dos outros. Assim, o excesso de trabalho, a contínua agitação física é a fuga. As grandes cidades e suas parafernálias são as caixas dos desesperados, solitários operadores: solitários porque esquecidos deles mesmos. Agitam-se meio as massas e jogam-se uns contra os outros nos brinquedos do barulho; desconhecem suas interioridades, limites. Os que possuem a sensibilidade criadora de se fazer homem encontram o prazer. Possuem o conhecimento essencial para a explosão da sexualidade e longevidade. O homem do campo, reconfortado com a natureza do mundo, com o ar, com o verde, e com outros animais encontra diferente paz, diferente prazer… (Pretendo ampliar e explicar um pouco mais, depois te encaminho o definitivo.) Trabalham a sobrevivência, apenas sobrevivência, esquecem a sexualidade. Abafam inquietudes interiores no trabalho físico, exaustivo. Abafam a própria potencialidade da inteligência. Não mais pensam, apenas são conduzidos por necessidades evidentes.

O sexo banalizou-se como o consumo das drogas, das fugas. Descarregam a libido por outros meios, a cada um, uma saída. O sexo banalizou-se através do olhar e das urgências, sem tempo, sem hora, sem vagar não pode haver sexo.

Barbarela, a máquina de fazer amor que pode ser a televisão, o computador, o cinema, o livro, os jornais, as ruas, mas nunca duas pessoas. Solitários, esquecidos do sexo, da cama e dos murmúrios do orgasmo afundam: morrem em vida. Elizabeth M.B. Mattos.  Torres, 24/10/1997 19:03:17.

P.S. Os homens esquecem a medicina do sexo. Fugindo do prazer, fugimos da própria vida, fugimos do nosso corpo e de nós mesmos; e nós nos entregamos à doença da sobrevivência. Estar vivo não é evidente, nem igual. A energia corre nas veias. Como são eles, estes outros? Como são eles?

Enquanto procuro um texto perdido nesta desordem do meu computador, encontro a velha carta para Paulo Hecker Filho. O encontro o outro, textos das cartas/ nas cartas trocadas. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres: tentando organizar o passado dos escritos.

 

2019-06-23 12.50.57

 

 

de olhar

Vendo (de olhar ou de vender?), ou deixo passar a vida por efêmero sonho. Indefinido sonho de criança. Velha, recolho sobras do tempo: tu e eu. O que fazes aí tão longe da tua vida de menino, de reencontro? O que faço eu nesta cidade senão borboletear! Brinco entre o café, o chá e o chimarrão. Esperar, sonhar, abafar, sai pesadelo… Impotência ausente, escuto tua voz. Cartas, malditas cartas que rasgam e espicaçam a vida amorosa… Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres

da madrugada

(…, coisa da madrugada)

Por que te escrevo? Porque estás a ler, e preciso de ti. Mas não choramingo. Não, não quero te pedir nada, nem que olhes nos meus olhos, passou tanto tempo desde o primeiro dia que nos encontramos! Já sei o que sentes. Estás acomodado/ instalado na vida, – e lembranças disparatadas te assombram. Já tens o gosto acomodado na memória organizada do reencontro generoso, e do pequeno prazer de ser tu contigo. Eu atrapalho. Mas repito, preciso de ti. Lembro como és envolvido, abarrotado de tarefas e exigências. Não quero te pedir nada. Mas não vou esquecer de nós dois. Então eu te conto como sou, porque não sabes, não podes saber tudo. Ainda não sabes (sorrindo). Mais ou menos agitada dispersiva quieta inquieta curando apalpando esquecendo. Mãos na terra cavoucando, mãos nas nuvens. Apago equívoco para te gostar do jeito certo de gostar. Escrevo a lápis, e vou e volto com a borracha. Espalho anotações. Amontoo prazer para te entregar, desordenado, mas nosso. Pega agarra. Sou desorganizada, tu não imaginas o quanto! Ficarias logo aborrecido comigo se eu te perguntasse dos óculos. E a xícara, o casaco (sorrindo) espero que não brigues comigo. Lembras quando deixei queimar a panela Creuset (maravilhosa!), e tiveste uma inundação em casa, um cano com problema num dos banheiros…  Estávamos juntos naquela confusão. Fogo e água. Aquela febre que não cedia, ardia. Perguntas inquietas, paciência. Teu sorriso. Estico o braço para tocar no abraço, depois vou recuando, não virás, não irei. Posso esperar. Não vais acreditar na vontade grande que tenho de te olhar quieto, retraído, tu também esperando. Outras vezes te sinto feliz, esparramado na cama. E sei que sentas para ler, escrever, vagamos pela nuvem virtual, estamos viciados. Vejo pouco televisão, saio pouco, e gosto de andar de camisola pela casa. Faço chá de madrugada, escuto música e respiro. Abro as janelas. Gosto do vento fresco da noite, e acho uma droga que envelhecemos/ envelheço…, afasto este desgosto e penso nas noites ao relento, respiro. Devem existir outras vidas, outras formas de prolongar /esticar porque não damos conta de tanto fazer e tanto sonho! A menina se apressa dentro de mim, espia e aguarda, dá gargalhadas quando me impaciento. Então espero ela adormecer para sossegar o espírito e agradecer. Afinal estás aí do outro lado, mesmo se choro, se suspiro, eu te tenho / penso, e sou feliz para poder derramar tudo no teu colo quando chegares.  E qualquer claustrofobia se desarruma quando me sinto feliz como agora. E volto para os objetos amontoados. O desfazer. Coisas me atrapalham, mas não consigo me livrar dos livros. Vou limpando uma estante depois a outra, decido que não lerei este nem aquele outro livro, jogo na caixa. Preciso separar os preteridos / esquecidos e dos que não me querem / rejeitam, dos amados, deste amanhã que ainda teremos. Fiz tantas mudanças ao logo do tempo! Estive a morar aqui e ali. Estes dias lembrei de Montevidéu, da casa e das tardes enormes, do leite do doce da boa comida, das bicicletas dos meninos em grupo com as mochilas nas costas, do fogo da lareira, do bom queijo ralado na massa, o bom vinho e a preguiça. Por que te conto estas histórias? Gosto que me escutas, gosto de te embalar. Enquanto digo/ alongo as palavras. Eu te beijo, e te aperto e assim mesmo fechas os olhos. Estamos um a pensar no outro. Cada um amolecido no próprio corpo. O meu falante, o teu silencioso e amoroso. Como os dias eram enormes, como viver tinha um tempo um tempo um tempo, como vou te explicar… E com tamanho de vida inteira. Sentia saudade das crianças, sempre senti saudade dos filhos, já te contei isso, na minha vida de ser gente grande, mulher, bem, antes dos dezessete anos eu queria apenas ficar gente grande e escrever, mas depois, – esqueci todo o resto. Comecei pelos bebês, pelas crianças. E agora quero te amar assim, devagar com os olhos, com o pensamento, com todas as estas coisas boas que guardamos um para o outro. Elizabeth M.B. Mattos março de 2018 / volto em junho de 2019 perdida no computador. Deves estar do outro lado a me esperar. Eu sigo em Torres, definitivamente.

sem data

Quisera ter amado mais, e não ver poeira na estrada, mas sentir o constante palpitar de saudade…  Ao ter teus braços no meu corpo estremecer. E o amor voltasse/fosse/continuasse. Oxalá não me sentisse vazia como agora. Quisera o beijo sem equívoco sem lamento. Não percebeste o particular encontro. Haja perdas! Tudo ficou menor. Jamais seremos Tristão e Isolda nem Abelardo e Heloísa. Jamais teremos o sabor da vitória ou da consciência: absurdo fardo carregas.

Assim, amar-te foi equívoco. Prosaica igualdade! Luta perdida, a tua, a nossa. Sempre haverá dignas diferenças e imundas lutas, vergonha, roubo! Que jeito sem jeito… Elizabeth M.B. Mattos (sem data)

 

 

morte norte

Se eu pudesse dizer, se eu pudesse abrir aberto este desejo fechado… Estaria, ainda uma vez, solta e livre. Olhos frestados, adormeço.

Lenta, lentamente, desço as escadas do viaduto, ao lado da igreja. Embarco, sem bagagem, no último ônibus. Sigo / vou rumo ao mar, aquietada desta saudade doente. E não estarás lá. Não estarás. Então, como me pedes, esqueço, não penso, adormeço.

Escondida nas letras, possíveis palavras. Caminho no escuro, possibilidade impossível. O o tempo inquieto espera. Tu e eu não esperamos, inquietos no tempo, olhamos através/pelo aberto olhar triste… Já passou. Outra vez a fechadura arrombada. Larga memória de uma lágrima.

Quando eu te escuto a ler poemas pelo fio, eu te vejo nas palavras. Ouço pela metade, escuto o aperto da tua dor. Quando te escuto, ouço o feitiço. Tua voz agarrada ao passado fechado, sem presente, sem fita nem surpresa… Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2006

 

azul pode ser feio?

Uauuuu! Encontro casual entre elevador e a porta do prédio, entre a poeira (da obra), e o azul do dia: humor encasmurrado, feito cascão! Esta analogia eu fiz, cruel! Vida nos grilhões, arregaçada. Mulher encapsulada, arrogância sem voz… Não posso deixar sem registrar. Morar em condomínios tem espantos azulejadas, o jardim precisa de gramado e sorrisos. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres