sem sol

Torres, amanhece sombrio e lento, lento e esquisito como pode ser esquisito o tempo de epidemias e medos e inquietudes. Onde o bom senso e a lógica? Em círculos, enfeitiçados pelo medo… E o príncipe não chega, nem a rainha acorda, o ditador dormiu, a luz se escondeu, o sacerdote boceja. Feiticeiros gargalham… E o povo acorda, dorme e se reproduz como se a vida fosse mesmo comer, beber e copular. Esqueci a música. Voz e tempo se diluem: mais cedo termina o dia, mais depressa adormeço. E acordo estupefata. Por que outro dia? Quero outro mundo, outro caminho para ser eterna.

Impaciência e cansaço crônico. Zero vontade para limite. Cercas me aborrecem. Cercadinhos gramados, floridos irritam. Conversas fúteis e adocicadas da/na mesmice. Ah! Se a raiva explodisse a solução! Gritos com pernas, braços decidem o que fazer. Não tenho paciência para disputas amorosas, desencontros esquerdos. Quero o amor pacífico e silencioso do prazer intenso e da beleza transparente, líquida. Tintas coloridas assumem o mundo: pinceladas esquerdas, ou contínuas, interrompidas ou desenhadas e lá está…Elizabeth M.B. Mattos (10/01/2021 06:29:31)

casamento

Porto Alegre, 9 de fevereiro de 1968

Tenho desenfreada paixão pelo dia 9. Talvez por ter nascido no dia 9 de setembro (9) morado na casa 229 da Vitor Hugo, e o telefone era 32479 e o pai também tinha uma numerologia que recai no número 9… Curiosidades estranhas da memória. Em 1999…, vou contar a história outro dia.

atordoada trovoada

Atordoada! Trovoadas e voltas / perdida naquela/nesta curva, assustada. Desculpas se espalham. Esta palavra não quer dizer luz decodificada: sem cor, linha, significado. Recomeço / eu recomeço. A festa engole a voz. Foguetes, eles ensurdecem… Tanto tanto tanto calor! Sufoco. Que venham as noites, e soluções. Quietos os sonhos, vou recomeçar, devagar. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2021 – Torres

Praia de Bombinhas – Santa Catarina – 2021

REVISTA do GLOBO em caixas…

Numa caixa que deveria desaparecer, quando amontoamos este mar de papel e cansados vamos nos desfazendo….e, por que isso assim tão atabalhoado? Coisas de gente desorganizada. Não sei. As mudanças de lá para cá: escrever e ler e anotar ordenar desorganizando… Prioridades? Pode ser. Não sei. E já janeiro de 2021 e o Capitólio foi invadido por vândalos nos Estados Unidos. E o mundo se remexe revoltado por isso ou aquilo, facas e tiros, morte e gritos, assim voltou a ser viver. Beth Mattos – Torres – janeiro de 2021

01 de janeiro de 2021

“Propriedade Santos Cosme e Damião – 01 de janeiro – 11 h da manhã – quarta-feira

Aceitei o conselho do grande Dylan Thomas: Não entres docilmente nessa noite serena / porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia; / odeia, odeia a luz que começa a morrer.

Volto a escrever na primeira pessoa. Apesar de todas as implicações de tolice. quando se fala no “eu”, a pessoa acredita existir…Acredita ser diversa. Não prometo, mas me esforçarei para ser menos elusivo, embora tenha por princípio que nada tem se repetindo ou explicado. Como Hamlet, sou naturalmente camaleônico veio – me a tendência do berço ou das entranhas de algum ancestral desconhecido ou mesmo fictício, como o príncipe da Dinamarca – e, na realidade, também “um permanente comediante”, na opinião de Nonato.

Ela chegou fora da hora combinada. De algum modo, deve ser parte do estratagema das mulheres jovens e belas, isto é, fazer – se sempre esperar. Não atino com a razão que me fez lembrar a semelhança do seu corpo perfeito […]” Diário de Francisco Brennand O NOME DO LIVRO Volume III – 1990 – 1999 (p.227)

30 de dezembro de 2020

Torres – 01 de janeiro de 2021 – outro ano, outro jeito de dizer eu fiz / eu pensei / eu não fiz / eu deveria ter feito, cuidado… Não sei o que importa mais ou menos, ou ter dezoito anos, vinte anos, sessenta ou setenta anos e cavar no passado. Contagem regressiva = viver / respirar e, claro, amar parecido com muito. Pouco? Igual recomeço e te espero. Amanhã não será como foi, entrares com flores, e alegria. A que merecemos. Volta logo. Não importa: não vai ser nunca como imaginamos e desenhamos quando estamos longe. Somos / sou esta imaginação gorda! Elizabeth M.B. Mattos – Torres – 2021 um pedacinho de Diário cansado, persistente. Água.

palavra e doação

O corpo tem uma ‘fala’ única e ele nos representa no silêncio. Quando o movimento interno e dinâmico dos sentimentos e da inteligência nos remexem/violentam ou acalmam, o corpo nos protege O corpo transborda e encolhe. Resolve o que não podemos dizer. Não é o corpo sozinho que ama ( ele arranca, dos que gostariam de viver apenas dele, gestos de ternura que vão além), ele é nós e não é nós, ele faz tudo e não faz nada. Nem fim nem meio, está sempre envolvido em empreendimentos que o ultrapassam, sempre cioso de sua autonomia, bastante poderoso para se opor a todo fim que seja apenas deliberado, ele não tem nenhum fim a nos propor e nos voltamos para ele e o consultamos. às vezes, e é então que temos a impressão de sermos nós mesmos, ele se presta verdadeiramente ao que queremos, deixa – se animar, aceita uma vida que não é somente a sua, então, ele é feliz e espontâneo, e também o somos. Neste jogo de compreensão / aceitação / neste risco tatuado de significação, pode – se compreender o todo. Ninguém comando, ninguém obedece, ao falarmos ou ao escrevermos, não nos referimos a a algo a dizer que esteja diante de nós, diferente/distinto de toda a fala, o que temos a dizer não é senão o excesso do que vivemos sobre o que já foi dito.

O que vivemos e o que dizemos, transborda no excesso. 2020 nos amordaçou, amarrou, adulterou. Cansados de respirar, mas não desistimos. 2021 chega sem festa/ silencioso e manso, consciente… eu espero que seja para libertar. devolva alegria, certeza e confiança, não o tempo…,não o tempo, eu sei, mas posso acelerar: acordar mais cedo, falar mais, caminhar mais, acreditar mais e beijar, abraçar, beijar outra vez. Segurei todos os gestos, segurei o corpo, e nesta tensão acabei quebrando sentimentos perfeitos! Ah! Que 2021 devolva o canto e as minhas certezas pequenas. Devolva a paz remexida, leve o medo e a angústia aflita. Quero me sentar sem hora e conversar…Elizabeth M.B. Mattos – 2020 – dezembro – Torres

Várias vezes contestamos que a linguagem estivesse ligada ao que ela significa apenas pelo hábito e pela convenção: essa ligação é muito mais próxima e muito mais distante. Num certo sentido, ela vira as costas à significação, não se preocupa com ela.”[…]

Num certo sentido, a linguagem jamais se ocupa senão de si mesma, tanto no monólogo interior como no diálogo não há ‘pensamento’: trata-se de palavras suscitadas por palavras, e, na medida mesmo em que ‘pensamos’ mais plenamente, as palavras preenchem tão exatamente nosso espírito que nele não deixam um canto vazio para pensamentos puros e para significações que não sejam de linguagem.” (p.147) Marurice Merlau-Ponty A Prosa do Mundo

agora, agora

Palavra / significação: dizer/colorir/sentir. Ficar, assim mesmo, dentro / entregue a esta agitação interior revirada. Acomodada nas paredes frágeis a ruir, ou a me proteger… O dito já está esparramado nas estantes. Que seja! “A última coisa que aprendemos sobre nós mesmos é o efeito que provocamos.” (p.15) O efeito descoberto, imóvel.

Sinto-me infinitamente triste ao pensar em todo esse tempo diluindo-se cada vez mais e mais longe de mim à medida que fico mais velha. Agora, agora é o tempo perfeito da minha vida… Às vezes tento me colocar no lugar de outra pessoa, e fico amedrontada quando vejo que estou quase conseguindo. Como é horrível ser qualquer pessoa que não eu mesma. Tenho um egoísmo terrível. Amo a minha carne, meu rosto. Meus membros com uma devoção arrebatadora.” (p.36) Anne Stevenson Amarga Fama uma biografia de SYLVIA PLATH

Acreditar em si mesma não é uma questão de acreditar numa versão ideal? Beth Mattos /dezembro de 2020

lavar as mãos

Tenho sido autoconfiante até a tristeza. Pergunto-me quando foi que adquiri o hábito de lavar as mãos depois de cada raspão com a humanidade, para não ser contaminado. As pessoas diagnosticam esse hábito como uma meticulosidade exagerada. (p.129)

A velhice é uma doença apropriada tanto para o espírito como para o corpo, e o fato de que a velhice é uma doença incurável significa que a existência é uma doença incurável. (p.187)

A memória é como um espelho-fantasma. Às vezes mostra coisas distantes demais para serem vistas; outras vezes as mostra como se estivessem aqui. (p.210) Yukio Mishima Mar da Fertilidade – Vol.4 – A Queda do Anjo

Último volume da tetralogia MAR DA FERTILIDADE, A Queda do Anjo finaliza com brilho este monumento da moderna literatura japonesa. Mais do que isso: são os últimos escritos de Yukio Mishima, este verdadeiro samurai do século XX, escritor genial e dos mais lidos no Ocidente.

“O Mar da Fertilidade se lê como uma vertigem. A artistificação da vida, o esteticismo exacerbado e quase paranoico de Mishima vão aí até as raias da pura genialidade.” Paulo Leminski

Nada nunca para sempre fica do mesmo jeito que pretendemos. E a aspereza do que é ascético não conflita com o agradável enfiar os dedos no mel que é a sobremesa da vida. O mel tem disto. As mãos não ficam aptas para um cumprimento mas desejamos lamber, sugar, sorver tudo que é prazeroso. Seria egoístico? Talvez. Lembro-me da infância jogado na lama sob a chuva displicente em frente de casa com minha irmã e meus amiguinhos e amiguinhas. Nossos pais atentos mas permitindo o enlamear sabedores da beleza que é a infância suja na inocência. Melhor assim. Crescemos adultos limpos já sem o viço da ignorância das consequências. Quero-me limpo e quero-me sujo. Contaminado com saúde. Despreocupado e humano. Desatento mas cheio dos protocolos. A criança em mim sorri, lá no fundo, sabedora que é mais sábia do que meus atos comedidos. Afinal tenho que ser adulto. Comportado. E, de repente, saliente…. um sorriso entredentes se esmera para brilhar dentro da máscara. Quem me conhece sabe que meus olhos traem este brilho oculto pelos pés-de-galinha assanhados. Fernando José Valente de Senna Júnior: