TER ou não TER

“E não poderia mesmo ter ido ao enterro. Mas as pessoas não compreendem isso. Não sabem como nos sentimos por dentro. Porque os homens bons são raros. As outras, talvez, tenham tido um assim. Ninguém sabe como a gente se sente, porque não sabem nada sobre como são as coisas nesse caso. Eu sei. Eu sei muito bem. E se eu ainda viver vinte anos, que irei fazer? Ninguém me dirá o que devo fazer e nada existe a fazer todo o dia e apenas começar imediatamente a fazer alguma coisa. Isso é o que eu preciso fazer. fazer e nada existe a fazer, senão aceitar as coisas como aconteceram. Ernest Hemingway TER OU NÂO TER (p.258)

O terrível das leituras é esquecer os detalhes, até mesmo o enredo, a história inteira esquecemos…

canção

“[…] nos mistura bem dentro ti / cuida bem de nós / mistura dentro de ti porque ninguém vai dormir nossos sonhos”

Depois de tanto trabalho, de esvaziar tudo, coloco Gimo Cupim (batalha inútil, a guerra não termina). Vou me intoxicar: e a pequena Ônix… Ardem as mãos, os pés, a imaginação. Por dois dias isolei um quarto. Encontro livros extraviados, cadernos misteriosos, cartas. Tenho ideias, sinto sono, vontade de que… Limpo os tapetes, escolho os lençóis, perfumo a casa, estou a te esperar. As flores morreram enfeitiçadas, estou disputando/lutando. Alguém te puxa, será que te quer? Eu cedo. Choramingo. Escondida? No café da esquina, sou eu lenta e covarde, na doceira da praça do quiosque, Lenta e covarde. Fecho as janelas. Deixamos de sair. Será que estás m Torres? Vai dar cedo. Conhecemos todos, fazemos a festa. Covardes. Estremeço. Beth Mattos – estou dormindo.

afeto

…pode ser inexplicável o nó (aquela coisa apertada no meio da corda), o que vira laço e segura. Uma coisa / uma ideia/ depois, uma estranheza e um susto: assim eu te sinto. Pessoas viram correntes. O susto te obriga a seguir, sobreviver, ali / nesse momento / a hora de esquecer… O último amor? Ou seria o primeiro? Como posso classificar? Preciso ler uma, duas vezes, três vezes tuas cartas. É tanto a me dizer/ explicar (um grito para que eu me salve!) / eu corro em tua direção, exatamente na tua direção. Quero completar, não consigo. Existe o específico de cada um, uma resposta traz tantas perguntas! Eu me confundo quando fazes o elogio, talvez eu não me sinta pronta, no caminho, nem suficientemente… Tanto a ser lido, ou pensado, ou dividido! As possibilidades se espremem / ou se apertam e a urgência se derrama… Podíamos tanto / podemos, mas vamos encolhendo. O que acontece no mundo ilustra este jeito de diminuir. Então eu espero/aguardo notícias, imagino, esqueço, depois volto. Voltar parece perfeito. Interferir não. Tenho vontade de voltar ao começo… Falar ou escrever, chegar perto, tocar pode ser assim difícil… Existe um ponto. E eu nunca quero chegar nele. Pintar /desenhar pode ser maior, mais definitivo do que escrever… OU não, quantos pintaram a mesma / na mesma tela cem mil vezes. Rasparam, recomeçaram. Diluíram… Tudo é mesmo inacabado. “Como a tempestade que despedaça o céu.” escreve Bachelard tentando descrever Simon Segal: “Ele sabe que sobre uma paisagem tranquila pode soprar uma tempestade. É preciso então que a paisagem tranquila possua reservas de dureza; é preciso que a paisagem tranquila conserve o traço de uma primitividade selvagem.” (p.32) O Direito de Sonhar Gaston Bachelard / ainda não disse o que quero te dizer, amanhã. Beth Mattos – abril de 2021 – Torres

intenso

Dia de cansaço e de trabalho: bom perfume. Limpeza e dever. Musica, acerto, e a surpresa. A vida não se repete. Sentimos intenso, A voz se equilibra. Tenho certeza, o melhor beijo, a melhor festa, a melhor temporada, com ou sem poemas. O caminho, a escolha me pertence. Avanço para depois descansar: prazeres naturais se fecham com flores… Estou na beleza do lugar certo. Sempre estive no melhor lugar: o lugar certo. É onde estou. A mágica funcionou enquanto eu estava lá do teu lado… Extensão. A mágica se desdobrou gentil e boa… Aqui eu agarro o sol com a mão direita, seguro a chuva com a esquerda, e faço acontecer a dança na madrugada…Tanta é a beleza, tanta é a magia! Elizabeth M.B. Mattos – abril – Torres – 2021

a resposta

Não existe resposta. Perguntas se amontoam / não param. Mais perguntas, nenhuma resposta. Sossego zero, inquietude a transbordar. Respostas empilhadas, engavetadas, misturas. Perguntas / interrogações inúteis. Pausa e silêncio tropeçam nesta ventania. Corrida desabalada. Insano pensar. Não existe resposta. São tantas! Mudam a todo instante, elas se agitam estas respostas, ou se esquivam.

Eu me confundo com vírgulas, pausas, verbos complicados / difíceis de conjugar. Cuido o passo / vou devagar, mas eu me apresso, não adianta… Não sei se me parece trágico ou muito engraçado. Coisas de envelhecer. Envelhecer significa se aproximar. O novo, um novo velho conhecido, aquele passado que volta vez que outra. Ou sentir confuso… Arrepiar a alma, perder o sono, dormir demais.

O mar estava chocolate hoje. Pois é, justo hoje. Cada dia eternidade de superação. O mundo acelera confuso: imagens falantes / narrativas de tanto e tudo. Mal respiro. Recomeço a pisotear, cavar e umedecer, única forma de florir. Concentração de beleza / de técnica. Verdade e tragédia. Tudo… E qualquer pequena ilusão, palavra, ou aceno ou abraço se transforma em narrativa / romance ardente. Leitura / filme / confidencia, conversa. Tudo demais / muito / excesso / maior. Até a lágrima se transforma em temporal. Um sorriso transborda em felicidade! Excesso… Cuidado! Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2021 – Torres com vento / ventania outra vez.

O Homem sem QUALIDADE

A gente pode fazer o que quiser”, disse o homem sem qualidades para si mesmo, dando de ombros, ” que isso não tem a menor importância nesse emaranhado de forças!” depois afastou-se, como uma pessoa que aprendeu a renunciar, quase mesmo como um enfermo que teme qualquer contato forte; e quando atravessando o quarto de vestir anexo, passou por um punching ball ali pendurado, deu -lhe um soco rápido e forte, que não é propriamente comum em momentos de resignação ou estados de fraqueza. Robert Musil O Homem sem Qualidade (p.12)

Paulo Hecker Filho

O INSONE

Que coisa estranha, possuo um corpo.

A alma é fácil, sou eu; já o corpo é seu.

Tem ímpetos, cansaços, anda, chega,

tem as venturas de comer, livrar-se,

sabe de cor respirar,

pronto ao que eu quiser deliberar.

Com uma velha exceção, não quer dormir.

Há duas horas espicho-o na cama,

o encolho, desencolho,

me volto, revolto, apaziguo,

faço a alma calar,

não penso, não sinto, não reclamo,

e não dorme.

Ao que, ó noite, ele estará reclamando? P.H.F.

Gosto / perfeitos poemas. Aliás, tudo o que escreve: crônicas, teatro, novelas, o crítico. Artista completo.

Georges Simenon

Resolvi começar do começo: limpar, encerrar obsessão. Trocar móveis de lugar, desfazer / doar isso ou aquilo, e limpar. Principalmente, limpar a preguiça e a indolência, a cabeça deste pensar, pensar (inútil) e…

Tua ausência desarrumou o tempo: ventania, excesso de chuva, excesso de sol, excesso de ansiedade, de calor, excesso de palavra, depois, excesso de silêncio.

Leio o último Simenon da estante : La main, céus! Livros me agitam… Literatura perfeita – ação e ‘pensasão’ (excesso de pensar), nada de reprimir e ou reconsiderar. Tritura a lógica: fazer/fazer acontecer. Furar os olhos. Ufa! Que alívio. No ato / ação elimina /mata. Assassina liberta. Este suspense maluco. Sou /somos perigosos. Estrangular sem força, mentalmente. Acertar o alvo com os olhos, sufocar com os braços no abraço. Sentimento corporificado. lizabeth M.B. Mattos – abril de 2021 – Torres

Duva Tavares

Tua natureza é viva / há uma taça de vinho / do Pôrto nela / doce e quente / Suave mente

Tua natureza é bela / Nela há um livro aberto / como tu / cheio de páginas / Imenso

Em cima da mesa extá a tua / Vida / Preparada e servida / Assim vejo / Assim penso

Tua natureza é viva / Tu não és ninha / Tu és uma gracinha / tão lisa e… / béte

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Naureza não Morta / Pequeno poema para ficares / calma

Duva Tavares

O que eu amava

Segunda-feira silenciosa e morna. Ondulam, visivelmente, temperatura e humores. Remexo nas caixas, nas fotos. Procuro pinhas de duas cores e tamanhos diferentes, e outras coisas mais esquisitas, um coelho. Coisas indefinidas, escondidas. Procuro o sentimento fantasia. Esperança de ser/ter tempo. Transcrevo sonho e vontade. Pacote selado dias especiais, festejos. Cotidiano interiorano. Minhas caixas. A saudade não é visível. Não guardei versos nem prosa sobre lareira medieval de pedras rosadas e talhadas. Não lembro do vento verde de mato horizonte, nem das minhas árvores floridas entre jasmins. Esqueço a escada. Corro patamares da casa da Vitor Hugo. Estou em Petrópolis. Escuto o piano, vejo as teclas. Os dois cães pretos espiam esparramados de preguiça na vigília da manhã. Estou lá, não mais aqui querendo sol na babilônia dos meus vasos aquecidos / esquecidos depois da chuva.  Pinhas diz o poeta, pensa saudade. Pinhas catadas, viajadas, esparramadas… Segredos pequenos, fechados em buil zipper: segredos presos nos sacos com zipper, clipes, grampos, sacos feitos na medida: vida empacotada que andou do campo pro mar, do mar pra cidade, pra cidade pras caixas ventiladas por venezianas, espremidas, construídas.

Volto ao livro da Siri Hustvedt O que eu amava, detenho-me na capa que traz uma tela Jean-Siméon Chardin (1699-1799): estou nos museus que nunca estive. Estudo arte, escrevo, sofro, construo instalações: caixas e portas, pinhas e livros. Movimento as dores, as cores, e as pessoas, toco em feridas abertas. Fecho a porta do meu quarto, o silêncio não vem. O silêncio, eu perdi…

Não escrevo, penosamente transcrevo:  “Eu não quero que as palavras cheguem nuas, como chegam pelo computador. Quero que cheguem cobertas por um envelope que você vai ter que rasgar para poder tirá-las de lá. Quero que exista um tempo de espera – um intervalo entre o momento da escrita e o momento da leitura. Quero que a gente tenha cuidado com o que diz um para o outro. Quero que os quilômetros que nos separam sejam longos, reais. Essa vai ser a nossa lei – vamos escrever sobre o nosso dia-a-dia e sobre a nossa dor com muito, muito cuidado. Nas cartas, eu apenas conto a você sobre o meu desespero, não é o desespero em si que vai à carta. E eu estou enlouquecida. As cartas não podem berrar. Os telefones sim. […] Toda a correspondência é crivada de perfurações invisíveis, pequenos buracos deixados pelo que não foi escrito, mas foi pensado.” (p.213-214) Siri Hustvedt

Agora, meu amigo amado, escrevo ansiosa, fora do palco. É preciso secar o pânico, a tristeza do desânimo, a síndrome escolhida. Reler tuas cartas: os rótulos e padrões são destruidores. A beleza não termina, muda de forma. […] Tuas palavras são de quem ama […], uma explosão de desejo, […] a única trilha que mereces. É a alavanca de mudar o mundo […] mundano jeito de viver. Louca / distraída / apaixonada / perdida ou achada, eu te quero. Todos os dias o medo terrível que abras a porta. Tens a chave. Abras a porta numa hora desavisada em que a camisola não esteja perfumada, que o tapete possa estar tomado de álbuns de fotografia, caixas e sapatos, e a mesa entulhada, e a pia cheia de louça e copos, as camas desfeitas, a música alta demais… E eu grite de susto, não do toque. Depois enlouqueço no teu beijo. Quantos beijos necessários, como posso recolher os perdidos? Acabei de reler tua carta. Um encontro físico agora, não precisamos, enquanto isso… Todo o ‘fazer bem’ substitui qualquer dúvida. Faz bem! Não pensar! Fazer! Ler, ouvir, fazer silêncio – menos gritar – nunca discutir – são antídotos que arrepiam deliciosamente. Aproveita! Não questiona! A adolescência empurra para a maturidade, como é bom sentir os puxões rumo a adolescência

Tudo lento como se estivesse curvada, às vezes acocorada, usando meus bifocais a catar ensimesmada tuas palavras, teu sentir, teus arrepios. A carta aberta com cuidado por ti, com certeza rindo de mim. Saltará uma boneca de papel com as roupas, um desejo, um beijo materializado. Coisas esquisitas, no fundo uma perdida manhã de carnaval, ou uma segunda-feira de sol. A chuva empacotei também. Amigo-conhecido, desconhecido: fecho a caixa, posto saudade indefinida, queimo pinhas no fogo aceso da lareira, bebo o vinho. Como te amava, como me amaste eu vou te amar…Elizabeth M.B. Mattos – março de 2021 – Torres