gosto dos dois

Inverno. Eu gosto. Um pouco de sol que mais é luz do que calor. Domingo cheio de vozes a esquentar o que dizemos ser amor. Uma receita do que é bom: uma caipira toda iluminada. Filés na manteiga com alho e cebola. Farofa também na manteiga, certo. Aipim macio, frito ou sem ser frito, delícia: gosto dos dois. Mexi tudo com alegria. Revira. Sente o cheiro e o gosto. Delícia. É domingo. Estou estupidamente feliz. A música é o rádio …, que fala e conta coisas que às vezes escuto outras não. E danço. Adoro dançar. Que venha esta alegria toda a transbordar.  Elizabeth M.B. Mattos e vou ao Rio e para São Paulo, Recife também. Muito bom ser eu alegre mãe, e mulher. Junho de 2018

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viáveis

Sabes o que eu acho? Que ainda temos um tempo razoável, largo e bom para sermos um do outro. Posso cuidar de nós dois. Posso te mimar. Posso brincar e te fazer rir. Podemos dormir abraçados, tomar banho de mar, ou nos enfiarmos no mato fazendo pequenas caminhadas com os cães. Tu podes ficar horas e horas sentado olhando para o lago que eu te alcançarei todos os sorrisos e os carinhos que precisas para esticar este tempo de estar vivo. Sabes mesmo o que eu acho? Que seríamos tolos insanos se não pudéssemos agora resgatar estes cinquenta anos que não passamos juntos. Não precisamos nos arrepender de nada porque testamos os limites …, daremos boas risadas. Sensualidade sexualidade se misturam e a conversa silenciosa e mansa e pacífica nos dará de volta a alegria que desejamos. Amoroso como tu és amoroso, poderemos os dois usufruir daquilo que mais valorizamos, a vida. Sensível atento perspicaz corajoso. Elizabeth M. B. Mattos feliz, muito, bastante feliz por ter te encontrado. Somos viáveis em todos os aspectos porque assim nos foi dado o sonho de viver juntos, hoje, agora. Junho de 2018

A trégua

Posso repetir como  Mario Benedetti: “Agora, o sexo  é (para mim, pelo menos) menos importante, menos vital; muito mais importantes, mais vitais, são nossas conversas, nossas afinidades.” (p.131) A trégua.

E eu penso que não passamos impunes pela vida de ninguém. Há sempre a tentativa de ficar. É sempre mais fácil  falarmos pela voz de outro, por isso eu me sirvo dos livros, vozes que não revidam, e passivamente, escutam. Beth Mattos

“[…] com tantos problemas de comunicação nas minhas relações com meus filhos, com o pudor defensivo que sempre resguardou minha vida privada da malícia do escritório, com minha higiênicas aproximações com mulheres sempre novas, nunca repetidas, é evidente que eu me havia desacostumado a sinceridade. Inclusive, é provável que só de forma esporádica eu a praticasse comigo mesmo. Digo isso porque certas vezes, nestes diálogos francos (que tivemos nestes últimos meses), eu me vi pronunciando palavras que pareciam mais sinceras do que meus pensamentos. É possível isso? Então me assombro com a saudade que sinto de ti.” (p. 127) Mario Benedetti  A trégua

amarrados

Vida e fantasia. Nós dois a sonhar amarrados  no avesso do dia, aquele em que nós dois não estamos. Na fantasia da fantasia nos debruçamos. Sinto trepidar o que antes chamei de amor ou paixão. Não somos nada que possa ser desenhado por um modelo daquilo que já vivemos. Estamos a brincar. Do outro lado a vida comum, lisa, arranha estreitos conceitos de cotidiano. Posso cantar …, ou dedilhar o piano. Quero que dances comigo corpo colado no corpo. Transpor a barreira, o avesso.  Eu te toco,  sou a menina de treze anos. Feitiçaria e mágica nestes gestos repetidos. Lembranças: o cheiro da casa, cantos escondidos de brincar. Digo do amontoado da alma. Selo diabólico e insano desejo de ser aquela que decodifica, desarruma a casa.

Será a convivência a contínua dor dos casais? O que de fato angustia e agita? O que nos faz permanecer imóveis? Enquanto dormes solto e pesado escrevo ansiosa. Eu te quero tanto! Neste caminho os pés não sangram. Morno acarinhar que tanto necessitamos! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2018 – Torres

 

liberdade cigana

Quando olho caixa de dentifrício sabonete vejo o trem apitando: do papelão janelas rodinhas portas e até chaminé. Se coleciono vidros de perfume, potes de cremes ah! É a loja de quinquilharias. Quanto aos livros livraria de alugar. Cafeteria confeitaria ou bar. Brinco de fazer. Ócio esquisito de vida parada. Atropelo. Carruagem de abóbora: reconstrução emocional. Pago a prenda, e me liberto do convencional. Do desastre de perder noivo. Liberdade cigana. Catecismo gaúcho desaparece. Da ideia de convento o casamento. Da ruptura a liberdade.

Caminho pelo verde. Flores cheiros: mar música risada carioca. Limite da tristeza. O sangue muda a química interna de menina, acordo mulher. Aceito confissão e amor. E a fada traz o homem com quem eu viria a ter filhos. Conversas até o dia amanhecer naquele Rio de Janeiro de 1966 -1967. Ditadura acalma calçada. Silêncio na cidade. Automóvel janela aberta estacionado na beira mar. Cheiro de terror e amor. Ditadura militar anos de ferro: arranca liberdade assassina gente jovem, escandaliza e emporcalha quartéis. Palco da liberdade. Eu não volto para casa. Neste Rio de Janeiro caminho pela noite e me deixo ficar. Se o medo no Brasil se alastra, o meu desaparece. Na maresia música salina coloco emplastro na ferida. Calor de agosto, amoleço o amanhecer que entra na pele. Já em dezembro, noiva outra vez, reconstruo a estrada de Petrópolis em passeios. Novos amigos saias mais curtas mínimos biquínis. O Balaio o Sacha´s para dançar. Bistrôs ruas de Copacabana. Ipanema jantar com velas. Memória de festa flor permanência e encantamento. Anestesiada vivo o primeiro conto de fadas carioca. Tudo devido e permitido, inclusive o prazer. Nenhuma regra nenhum poder. Experimentar sem passado. Na cidade luz mar e amor do Brasil, no Rio de Janeiro. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2018 – Torres