vontade

quebrar rotina, abrir a porta, fazer bobagem. fazer acontecer não se pode, eu sei. já fiz assim, aliás, faço sempre, mas como sou como sou, céus! não quero arrastar/ser motivo, então ‘piso em ovos’, claro vou quebrando dúzias pelo caminho: a terra agradece, fertiliza, mas não consigo bater as claras, nem assar o bolo… DROGA! acho que a idade limita / trava. começar tudo outra vez / de novo!? medo f…, ué?! faz parte, pois é! gosto de ousar, depois recuo, coisas de Beth Mattos (ir, voltar, afirmar, negar, oscilar) – junho de 2021 Fiz a mala, desfiz: guardei tudo outra vez, reconsiderei, e se vier a Terceira Onda? não será a de Alvin Toffler.

debruçada…

não fiques a me olhar assim,

depois dos meus esforços, voltas e cuidados,

eu me surpreendo, e tu te surpreendes

escolhi a tua mão…

a história de morrer, e do pecado…

existem ausências “profundas” e afogadas

na verdade não são ausências:

curiosos desvios, permanente olhar.

memórias inquietas / encontros,

beijo, abraço e perfume,

não desaparecem,

tens razão: a Gabriela do Jorge Amado: sexo desejo e colorido:

todos na mesma orgia, no mesmo prazer

ninguém controla…

ser livre pode ser mais uma batalha de guerra permanente.

a fidelidade, genuína,

tudo o mais, apenas um jogo. Beth Mattos

gaal

coisas de amar / se apaixonar, ser inteira, amar outra vez, esquecer, guardar, descrever. Ser metade, ciumenta. Amados amores voltam, não maiores, nem menores, mas amor, coisa doce de prazer. E aqueles intensos nunca mencionados, escondidos. Porquê o não feito, nem acontecido, presumido também arde. Tenho a sensação que nunca apreendemos o suficiente, não tem lição tem sentir, então o olhar carregado de desejo ou de pejo (para rimar), amor amando andando, espicaçando…, revirando. E volta tudo…, liquidifica. E agora tem mais, tanto mais que o tempo voa, ou se aquieta…Há de voltar o passado embaralhado e há de ser hoje e agora diferente, outro…Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2021 – ainda Torres

sem restrições medievais

Então, assim, neste momento, embora não esteja completamente focada ou decidida; escrever preciso ‘viajar’ acerto. Fumar um cigarro. Beber um whisky e dizer com mais certeza. Solução ou fantasia viajar numa memória qualquer, grudar num nome que significou, mais ou menos, ou naqueles que serviram de escudo quando o amor/paixão tira tudo do lugar… A desordem não deve ser salutar, vamos logo encontrar bons biombos, e ajardinando tudo e organizando, deixar tudo adequado. Tudo é mesmo uma palavra reducionista covarde -, não existe tudo. Cada fatia de vida, novo vigor, poder! E aconteceu no susto. Se alojou nas pernas, não consigo caminhar… Não importa, ainda falo, escrevo, e penso. Não é assim que vivemos? Temos ancoras, e as ancoras firmam o navio: há que entender que estou em Amsterdã, não no Chile, nem cheguei a Noruega. Embora tenha passado meia dúzia de horas dentro de um avião, e rodado outras tantas horas, sentido o mar e tanto mar, está tudo igual. Cada bilhete uma bomba. Hoje abri um abacate verde! Que horror! Comi igual. Sou teimosa, mas se misturou nele um gosto estranho. Que o dia termine imediatamente, num clic de paz, e amanhã de manhã, vou caminhar sem cansar, e se não for bem cedo os balões não estarão no céu, (vou me revirar na cama) e Ônix não terá medo. Ler jornal é ótimo, mas tem um cheiro peculiar, enjoo. Tudo bem. Eu vou superar o meu desajuste. E pacificar. Ridícula adolescente que se expande… Há que ser séria minha amiga. Há que ser razoável.

– amar-se significa viver como quer, ser feliz, restrições medievais, nunca. Olhar e se perceber, ver / enxergar como se deseja ser vista…

– estou sem roupa, a passear pelo tempo, estranhando curvas, em excesso, certo menos, gostando de outros mais, e depois, eu me enfio nas cobertas. Sesta longa pesada, perfumada e dolorida (lençóis impecáveis, sempre). Dores pelo corpo, parece injustiça este doer desarrumado, escondo o jeito, acomodo. Esqueço. (risos) e como as frutas secas…

– este teu amigo que transa conversas de curvas, sexo, nudez ecoa de alegria pelos sinais de despertar a mulher adormecida que sempre existiu e parecia desistir de si mesma.(risos)

desistir. Céus! Eu desisto todos os dias, encolho o tempo, volto para o passado, fico farejando recompensa, escuto rádio, depois separo discos de vinil e os consertos de piano, ou de violino saem pelas janelas, troco as flores de lugar, e me tranco no teu abraço apertado, nos teus beijos encabulados, e me submeto…

vou devagar e me preencho nos sonhos. Apago o passado, fecho a porta do futuro e fico quieta, deliciada com o presente / este agora estremecido, mereço, olha como este mar parece infinito e lindo e grande, e completo…

– A propósito, tu e este teu secreto amigo devem transar qualquer dia. Vocês merecem!”

Ora, ora! Hora! Nossos segredos chaveados, engavetados, tantas risadas contidas, perto juntos e longe. Apagam – se as luzes e as sombras caminham, impossível controlar. Sim, vou anotar os detalhes, este vírus tirou/arrancou a memória do corpo tanta febre! Já amanhã… Ora, ora, hora, o que pensa que fazemos? Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2021 – Torres com o céu coberto de balões – os namorados voando e aos beijos

margaridas, as mesmas

excesso de perfume, lavei três vezes o cabelo, cortei um pouco mais…escondi os chinelos, deixei o sol entrar, sem vento, apenas azul. e me atirei a te pensar…pensar, estar contigo, imaginar tuas mãos, sentir o teu olhar. Começou a ventar na minha cama, vou deixar a ventania varrer a casa. Beth Mattos

narrativa

narrativa incontável, ou, incontável narrativa, a verdadeira trajetória. palavra e voz, pronto, e logo alguma coisa não soa bem, ou escorrega em excesso. amor e amizade + convivência, mas amigos gostam de firmar o palavreado: esvaziamento incontrolável. atropelam os amigos com isto e aquilo, aquele e aquela…, depois? depois são eles com eles mesmos, sem história, apenas estórias… e o susto. Elizabeth Mattos – junho de 2021 – Torres

cuidar de mim

hoje fui cuidar de mim… Estou a pensar no que posso fazer de melhor / arrancar o melhor lá de dentro. Plantar carinho, e me alimentar – de repente, comer bem e certo e com cuidado = amar certo, bem e com cuidado. Arrancar o tóxico… Livrar-se dos enlatados e caminhar, pés descalços pelo gramado… Vou trazer flores amanhã de manhã, vou acordar colorida. Beth Mattos – junho de 2021 – Torres

cruzo as leituras

os desenhos da jornada,

sempre intenso o caminho -, este livro me impressionou, reencontro durante a limpeza da estante. Nas reviradas da memória escuto o violão, e me emociono. Sacudida. E penso: às vezes não perdoamos( incapacidade), e nunca perdoaremos, esquecemos das rezas contritas do som de pecado e perdão. No lugar que escolheste para esconder nossas vozes era o inferno da não aceitação, o monastério prisão, não libertação. A liberdade é livre, será evidente isso? Sem amarras emocionais, e não se esconde do outro, podemos ambos nos esconder do mundo para nos salvarmos, mas um do outro, nunca. Eu não e perdoo. O amor tem destes desvios, assim, ‘pisar em ovos’, acautelar – se é amar. Esconder, fugir. Acovardar – se. Beth Mattos junho 2021 – Torres

engasga o medo

sei lá, abri o livro e lá estava na margem teu nome… reli o sublinhado, acertei ponteiros da memória vestida, sortilégio. Possibilidades. E me dei conta dos anos / anos de esperar…

coisa bem esquisita o tempo, e o de repente / repente como ele diria, num repente… escreves no fluxo do ritmo, danças. Vais indo embalado a dizer sem interromper, despejando… E estás lá, no meio do livro. Ao acaso estás por ali olhando / espiando, contemporâneo de Jorge Amado e da sua Gabriela. Coisas de ser semente. E chega o gozo. Hoje pisas nas minhas margaridas, sinto o estremecimento, e eu me aborreço porque…, por quê? estas coisas de sentimento, de amor não amado, passando passado como vento, e se soltando no ar feito pipa/pandorga…voando!

A calçada da lagoa está toda desmoronando, se a chuva não ficasse sol, como ficou/ficaram…, as árvores do lado de cá amanhã afogadas / tudo terminado/terminado. As árvores nativas e as plantadas mergulhadas, um pouco mais…

Estou sonolenta, meio do outro lado, não quero pensar, mas voar. E não quero tropeçar. Tenho tantos livros pra voltar, tenho tanto pra sentir, não quero escorregar, tropeçar, nem vou chegar, não vou/não posso/não quero, e desejo tanto! Deixar lágrimas escorrerem como chuva boa, doce… eu te pergunto: o que queres exatamente que eu faça? E o que queres que não faça, não diga? Eu te esperei naquela tarde na rodoviária… olhei para todos os lados, quase perdi o ônibus, o último… Três anos, ou quatro, ou foi antes? depois? coisa de vida inteira a te esperar…, corajosa, e tu apenas me deixaste passar! Hoje tenho medo. Nenhuma palavra tira meu medo, nada. Elizabeth M.B. Mattos junho de 2021

Queria entender do medo e da coragem, a do galã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder. O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gene está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe!

Sendo isto. Ao dôido, doideiras digo. Mas o senhor é homem sobrevindo, sensato, fiel como papel, o senhor me ouve, pensa e repensa, e rediz, então me ajuda. Assim, é como conto. Antes conto as coisas que formaram passado para mim com mais pertença. Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas – e só estas poucas veredas, veredazinhas. O que muito lhe agradeço é a sua fineza de atenção.”(p.140) João Guimarães Rosa Grande Sertão: Veredas

A calçada da lagoa está toda desmoronando, se a chuva não ficasse sol, como ficou/ficaram…, as árvores do lado de cá amanhã afogadas / tudo terminado/terminado… As árvores nativas e as plantadas mergulhadas, um pouco mais…

Depois lhe conto; tudo tem o tempo.

Nós dois a brincar de amar e fazer amor sem pensar, e tudo tem o tal tempo/ medida. O nosso, espicaçado ardido: no pão esfarelado que jogamos/espalhamos pela grama enquanto comemos um sanduiche de atum, e bebemos suco de uva. E rimos. Entramos na garagem para buscar os livros encaixotados, as possibilidades perdidas dentro desta vontade azeda de ser outro, sendo tu, aceitas revirar aqui e ali. Não. Não queres mudar. Não, eu não quero mudar. Apenas desejamos brincar… e, rimos a nos devorar. Olhar e depois a rir no olhar.

“Depois lhe conto; tudo tem o tempo. Mas o mal de mim, doendo e vindo, é que eu tive de compensar, numa mão e noutra, amor com amor. Se pode? Vem horas, digo: se um aquele amor veio de Deus, como veio, então – o outro?… Todo tormento. Comigo as coisas não tem hoje e ant’ôntem amanhã: é sempre. Tormentos. Sei que tenho culpas em aberto. Mas quando foi que minha culpa começou? O senhor por hora mal me entende, se é que no fim me entenderá. Mas a vida não é entendível.” (p.188) João Guimarães Rosa Grande sertão: Veredas

Sei lá se vais entender, ou ler o que escrevo. Fica misturado com o explicado, o sonhado, e o a ser, como nos dizemos, viver – já vivido… Pego um avião e desapareço. Depois volto. Tomo um ônibus e vou, a caminhar…, e, o tempo, o tempo, engolimos, tu e eu. E digerimos devagar, devagar. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2021 – Torres AMANHÃ teremos luz e sol. Te cuida.