a visita

Fazia parte da rotina ver/procurar casa, pequena, nem tanto e algumas eram grandes, com gramado, , sem cerca, ou com muros altos. Varandas, sacadas, espaços abertos floridos… Depois o chá com fatia grossa de bolo, ou biscoitos, e nenhuma pressa. Rotina amiga. Nestes velhos encontros novos, a vida. Conversa praiana se desvia pelas costuras e pela pintura caseira, o desenho. Uma exposição. A meia volta traz o sorriso do amado. Os livros a serem relidos em pilhas. Depois os velhos e importantes filmes, um jeito de voltar estando, afinal aqui, juntos. Encontro tardio com aquele ano desaparecido. Vendaval de lágrimas chuvosas. Ah! Como seria bom teu abraço mais apertado, e tua voz. Queres saber dos amores amado? Ou do ponto final. Antes não importa, quero tua voz. Loucura não te procurar, por que te esconder? Tu me contaste, dedilhaste teus amores ferventes.

Como tu, ninguém mais. Fechei os olhos de prazer. Voltei a buscar aquela luz. Os amados se remexem vivos dentro de mim, sou eu. A lembrança se espreguiçou pra voltar, preguiça. Amar agora, lustrar, polir, trazer as pratas e os cristais, estender a toalha e somos nós dois, povoados com o passado, então felizes. Adolescemos na felicidade do encontro. Obrigada por teres vindo…

Um prato de madeira com bergamotas, tangerinas e limões e o vento ventando uma voz pequena no sono. Acordei. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres

eu me envolvo

https://www.youtube.com/watch?v=q-6F4JFbZ0g

Baby, Can I Hold You?

Sorry
Is all that you can’t say?
Years gone by and still
Words don’t come easily
Like sorry
Like sorry

Forgive me
Is all that you can’t say?
Years gone by and still
Words don’t come easily
Like forgive me
Forgive me

But you can say: Baby
Baby, can I hold you tonight?
Maybe if I told you the right words
At the right time
You’d be mine

I love you
Is all that you can’t say?
Years gone by and still
Words don’t come easily
Like I love you
I love you

But you can say: Baby
Baby, can I hold you tonight?
Maybe if I told you the right words
At the right time
You’d be mine

Baby, can I hold you tonight?
Maybe if I told you the right words
At the right time
You’d be mine
You’d be mine
You’d be mine

Querido, Posso Te Abraçar?

Desculpa
É tudo o que você não pode dizer?
Os anos passaram e mesmo assim
As palavras não vêm tão facilmente
Como desculpa
Como desculpa

Me perdoe
É tudo o que você não pode dizer?
Os anos passaram e mesmo assim
Palavras não vem tão facilmente
Como um me perdoe
Me perdoe

Mas você pode dizer: Querido
Querido, posso te abraçar essa noite?
Talvez se eu tivesse dito as palavras certas
Na hora certa
Você seria meu

Eu te amo
É tudo o que você não pode dizer?
Os anos passaram e mesmo assim
As palavras não vêm tão facilmente
Como um eu te amo
Eu te amo

Mas você pode dizer: Querido
Querido, posso te abraçar essa noite?
Talvez se eu tivesse dito as palavras certas
Na hora certa
Você seria meu

Querido, posso te abraçar essa noite?
Talvez se eu tivesse dito as palavras certas
Na hora certa
Você seria meu
Você seria meu
Você seria meu

 

amores secretos

Amores secretos, alguns indiscretos, outros terríveis… Verdade. Liz Taylor se casava com cada secreto e apaixonado amor. Grace escolheu ser princesa… Abandonou o cinema por amor. Por amor ao homem ou por amor a realeza? Quem sabe a verdade? Escolhas. Terríveis e doces escolhas. De quem é a culpa?Da vida, por ser apenas uma? A cada escolha um rumo tão absolutamente diferente! Todas escolhas interferem, alteram, definem… As profissionais, e também as amorosas. O parceiro “remexe” em tudo. Tira do lugar: a polir, para lavar, para conhecer, ou fazer ciúme, reconquistar, ou largar outra vez. Um jogo. Temos que escolher o tabuleiro, as peças, e as posições. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres.

Ne sois pas triste / Não fiques triste

 Ne sois pas triste.  Nous avons vécu un beau rêve. Vivemos um bom e bonito sonho. Eu me agitei. Sem certeza / com certeza. Seria/serei a pessoa descrita na tua carta? Ou projeção mal resolvida. Tão estupendo, mágico! Pensar que estarias em Torres… Não era/é possível voltar no tempo. A vida em carrossel, mimos aos meus olhos. Li e reli tantas vezes tua carta!

Escreves/descreves tua/teu personagem sublinhando o excepcional: quero colar tua imagem/ideia/descrição com a possibilidade de ser eu. Não sou embora possa desejar querer, profundamente, ser pedaço vivo da tua descrição e abraçar/ ser a mulher excepcional. Sabes bem destas coisas sonhadas / destas metas traçadas com o rigor do bom desenho: alcançar o topo, tocar naquele infinito impossível do sonho… Quando imagino, lembro, e te busco nas conversas, lá está o sonhador / o sedutor, e  também o guerreiro. Tens o teu pote de ouro, cheio de moedas: teu jardim florido, e tua primavera particular. E nunca estás sozinho. Seduzida por tuas palavras desejo eu mesma voltar ao Amoras pelos teus olhos, e colorir com rigor e beleza. Tirar os vestígios mal resolvidos de uma solidão que grita mesmo estando povoada.

Com certeza despida. Aos teus olhos, nua. Sem pudor ou vergonha. Apenas eu. Entregue ao desejo de ser acolhida / compreendida. Para chegar à mulher passaste pela juventude da beleza soterrada, assim mesmo por inteiro exposta. Uma geração. Não apenas eu. Tantas jovens foram aos mesmos e privados jardins. Ironia? Eu tinha por natural a vida, respirar / ser / e aqueles mimos não foram sublinhados… Eu me deixei atingir na primeira curva. Nenhuma convicção da beleza. Aqui tu me aprisionas, tu me tocas, tu me seduzes como pessoa. Chegas na fragilidade da minha pequena vaidade, no meu desejo mais acirrado e forte: escrever. Escrever. Escrever. Este jogo com as palavras, ou a descoberta de provocar tocando…, e aproximar e estar, imediatamente, confundida com o outro no texto. Céus! Luxúria. Prazer Vitalidade. Comunhão. Numa frase. Ah! Como é bom estar contigo e te escutar, imaginar que somos feitos um para o outro posto que podes me compreender e me sentir como eu me imagino ser e te descobrir como pessoa, eu começo a querer te definir, invadir, também possuir. Estarrecedor! Gosto da palavra merci /obrigada: descrevo/sinto como o prazer da tua leitura. E deste gosto, ao fechar o livro, de intimidade. Eu te agradeço a visita. Eu digo obriga para teus gestos, teu carinho. Eu me sinto lisonjeada, uso a palavra LISONJEADA. Confusão.

Depois de ler tanto e tanto Anaïs e Henry Miller, apaixonada de amor pelo amor deles fiz questão de indo a França conhecer Rocamadour. Estas vontades gordas abraçam e nos motivam. Como eu te compreendo. E me sinto triste e culpada por ter sentido tanto medo. Medo da ElizaBeth que ias encontrar, distante daquela que imaginas existir. E aqui todas as considerações possíveis seriam/serão descrever minha pequena e insignificante vida torrense. Acompanhei tua caminhada. Estou contigo, ao teu lado, seguindo teu caminho que tanto me impressiona! Produtivo, inquieto. Teus projetos fervilham…

Descreves com beleza e com poesia teu lugar de confinamento. Lugar de conhecer a alma. Teu jardim / tua casa / teu tempo de aujourd’hui. Tua voz ecoa no meu pequeno estar. O sonho sonhado era / seria amoroso, não podia ser uma peregrinação de lugares a ser visitados, mas de intimidade. Talvez nem sequer desejada. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres

históriassss

História comovente. História de amor. No começo, no meio. Por todos os ângulos pinga  a boa e generosa alegria. Qualquer fresta ventila o coração. Cinema, poema, ou…

Já estou lá, e deixo lágrima. Ou  a boa lembrança. Ou a esperança de que voltes para mim. Histórias de amor comovem. Pode ser imaginação, ou a ideia mesmo do amor… Reféns do perigo, do medo. Querido, eu te amo. Estás demorando a escrever/responder. Sei lá por onde te perdes e não chegas! Tuas cartas eram longas e tímidas, e eras tu, e era eu a te esperar… Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres

luiza

o outro

…sim, a conversa importa, mas tem um muro.

Alguém tem que querer mesmo, passar pela epidemia e dizer oi! Posso ir a Torres  te visitar? Vamos brincar de fazer livro, poema e olhar o mar? Ou vamos só cozinhar juntos? Dormir juntos? Silêncio, não sei. E se somos infectados? Tu cuidas de mim? Eu cuido de ti. E se me apaixono? Uauuuu! Não é idade/já passou. Vai! Pensa um pouco. Diz oi… Vou compra pastéis, , sonhos, bobagens e coca-cola. Diz logo o que vais gostar de fazer. Vai ser divertido! Traz frutas e chocolates. Uma garrafa de vinho. Pode acontecer de ficares preso para sempre, isso assusta. Pensa! Ah! E um pijama. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres

ferocidade preguiçosa

Eu deveria levar a vida/ o tempo com mais seriedade/empenho. Encarar/olhar/fazer o trabalho. Aceitar a seriedade das horas, e não me deixar levar assim, nauseada pela preguiça deste nada voluntarioso. E fico a conversar/dizer/cavoucar/ pensar nos livros lidos. Mastigar a sopa. Isso. Ou seja, não fazer nada, sequer um projeto. Eu não me levo a sério, mas apenas me identifico… Estes dias mencionei Henry Miller / ora, ora como gosto! Não da pornografia, nem do excesso, mas da coragem, daquele desenfreado modo de escrever. Um voluntarioso  fazer como explica / diz  Georges Perec no seu livro de memórias: W ou a memória da infância (p.54) “Não sei se não tenho nada a dizer, sei que não digo nada; não sei se o que teria a dizer não é dito por ser indizível (o indizível não está escondido na escrita, é aquilo que muito antes a desencadeou); sei que o que digo é branco, é neutro, é signo de uma vez por todas um aniquilamento de uma vez por todas.”

Pronto! Já foi escrito. Ou dito. Este branco passa batido se preparando para ser preenchido por um desenho qualquer, de uma janela qualquer, ou de uma porta, ou mesmo da água do mar/ da lagoa / rio em movimento. Onda, areia! Céus! O desenho com a cor do vento, ou da ventania, se avermelhando e acastanhando, fervendo no amarelo, nos arroxeados da paixão. E estou outra vez lânguida e entregue. Sigo aquele ruído brejeiro que as teclas me proporcionam: o teclado do piano, o som das cordas. E pronto. Escrevi. Pois é, eu não ia mencionar Perec, coisas do acaso. Ao acaso este livro voltou às minhas mãos. Preguiçosa abri o livro:a preguiça já agarrei/tomei emprestada do Miller, verás. E lá estava escrito:

É isso o que digo, é isso o que escrevo e é somente isso o que se encontra nas palavras que traço e nas linhas que  essas palavras desenham e nos brancos que o intervalo dessas linhas deixa aparecer: por mais que eu persiga meus lapsos ou passe duas horas matutando sobre o comprimento do capote de meu pai ou busque em minhas frases, para evidentemente logo encontrar as ressonâncias miúdas do Édipo ou da castração, sempre irei encontrar, em minha própria repetição, apenas o último reflexo de uma fala ausente na escrita, o escândalo do silêncio deles e do meu silêncio; não escrevo para dizer que não direi nada, não escrevo para dizer que não tenho nada a dizer. “[…] da mesma citada página 54, do livro mencionado. Folheando ao caso, voltando ao que assinalei, relendo anotações daquela específica leitura / daquele ano. Eu me vejo, idiotamente, repetindo, misturado o mesmo, com o mesmo. É como contar uma mentira tantas, e tantas vezes, que ela respira, sai andando com autonomia. E assumi o teu lugar. Ali naquele discurso, nestas palavras, neste vazio de não conseguir ir adiante. Claro! George Perec segue, consegue/ escreve / vai adiante: tem obra, plano e trabalho. Uma artimanha, armadilha este texto. Pausa. Dos que tem muito a dizer e contestam, escandalizam, afrontam, reclamam, descrevem e retratam, desenham, pintam o tempo de desenhar. E tudo começou com o livro do Henry Miller: Dias de Chichy uma Noite em Newhaven. Ele escreve / descreve / sente e se derrama maravilhosamente / escandalosamente bem. Em Miller as palavras são coloridas, não há espaço, mas suor, tensão, tesão e envolvimento. Como o Henry Miller dos Trópicos (leitura necessária) para não citar o trem inteiro, ficar apenas na locomotiva.

Conversávamos muito sobre coisa nenhuma. Ela nunca dizia nada que se aproveitasse. Não tinha aspirações, sonhos, desejos. Era alegre como uma vaca, obediente como uma escreva, encantadora como uma boneca. Não era estúpida – era burra. […] Nys, ao contrário, não era nada burra. Preguiçosa sim. Preguiçosa como o pecado.Tudo o que Nys dizia era interessante, mesmo quando sobre coisa alguma. Saber falar bem sobre coisa alguma é uma qualidade talvez superior a falar pouco com grande inteligência. Na verdade, essa habilidade parece – me de primeira ordem. Contribui para a alegria da vida, enquanto que a conversa extremamente culta contribui para diminuir a nossa força de enfrentar a vida, tornando estéril, fútil sem sentido prático aquilo que é simples.” (p.43) Edição da LPM

Eu me apaixono pela irreverencia, pelo esforço. Capacidade de pulsar a vida. Coisas de confissão. Escândalo por estar o tempo todo despido, teclando, em volta de mulheres a pensar sexo, e assim mesmo escrevendo, teclando com ferocidade, bebendo também, e se desesperando quando a máquina de escrever acaba penhorada. Escrever é vício. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres