reflexo

Em ti existe / permanece / acontece tanta luz! Reflexo / ou pó de ouro em teus cabelos! Aperto os olhos para poder te ver/enxergar/ olhar, quase me cegas! Abraço o teu brilho. No olhar, tua força. Ah! não imaginas a falta que me fazes! Teu beijo. Esta dor modula o dia na despedida. Eu ainda tenho tuas lágrimas… ElizaBeth M.B. Mattos – novembro de 2021

fisionomia

Sa physionomie annonçait son âme. Il avait le jugement assez droit, avec l ‘esprit le plus simples; c’ est, je crois, pour cette raison qu’on le nommait Candide!” (p.137) Voltaire Candide, ou L’ Optimisme / Romans et Contes

Voltaire, pseudônimo literário de François Marie Arouet, nasceu em Paris, França, no dia 21 de novembro de 1694. Descendente de família burguesa, entre 1704 e 1711, foi aluno do Collège Louis-le Grand, em Paris, uma das mais importantes instituições de ensino da França. Iniciou o curso de direito, porém não terminou. (Google)

trama da vida

Amigo querido! Quase perco tua carta e-mail entre as cartas eletrônicas, e, tanta agitação! A vida não veio para nos cobrir de fofuras (mimos), mas nos endurecer. O que escreves da mãe e do teu pai, enriquece tua história pessoal. Eles são assim mesmo, os pais, guardiões, e escrevem/ definem nossa história/vida do nascimento ao destino: parece um detalhe, foi definitivo interferir, e terminaste americano / terminaste francês / terminaste cidadão do mundo. O sonho, excesso de amor. Por excesso interferiu no serviço militar: excessivo. Vida excessiva no maltratar, raiva e covardia. Enfim! Acabaste americano maior: cheio de sonhos e projetos como os dela, cheio de doçura como teu pai. Longe de dos Pampas. Astros alinhados quando nós nos encontramos, mas teu destino já era o outro mundo / outro planeta. América. Detalhados sonhos sonhados ao longo de anos, mas sempre medrosos, paradoxal sentimento. Eu ‘quase’ fui te visitar, ‘quase’ fui ao Canadá…, cheguei a França altiva, mas, no final, pouco aventureira, presa pelos pés no certo incerto de viver em casa, perto da janela que se abre ao mar. Aqui. Escrever foi sempre um vício: a cada carta, um envole azul bordava nossa amizade: os detalhes.

Ah! Quero te escrever muito e mais. A vida na beira da Lagoa do Violão é boa, tranquila, quase perfeita. Os filhos entre Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco e Rio Grande do Sul. Eu viajo. Eu me agito entre estados. A carta se interrompe com chamadas telefônicas, mas, volto a te escrever ainda hoje. Beijo. E te cuida. Muito carinho. Nunca te desculpes pelo teu português, eu deveria me desculpar por não falar nem ler espanhol. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2021 – Torres

doar um pedaço/colorir

A vontade sufoca/engasga quando eu não te alcanço. Dia com sol / dia com vento / dia com música e flores / tantas flores! Dia de palavras, tantas muitas! Todas a se acotovelarem para chegarem mais depressa aos teus ouvidos. Vontade de tirar os livros todos da estante e fazer torre, castelo. E das janelas e portas deste castelo derramo estórias que descem como água, sobem como nuvens! Quero te ensinar tudo e te animar/amar com alegria. O tudo não é pretensão minha, sou professora, viciada em ensinar, cavar, e plantar e…, ensinar com palavras, com tintas, com lápis ou com a voz… Eu cantaria / eu dançaria / eu te abraçaria mais vezes para te ver sorrir! Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2021 – Torres

vou inventar

Mamão, laranja (apenas uma), bananas, morangos. Um livro, duas revistas. Sol, sol inteiro e quente. Avanço até a segunda metade, a estrutura e a narrativa bordam a ancestralidade, o tempo. Estabeleço paralelos: não conseguirei fechar um texto e assinar, assim vou afundando nas novas leituras. O corpo cansado, pensei / senti / comi demais. Carrego / levo o silêncio pesado; estou exausta. E todas as lágrimas me afogam… Não posso atravessar a invenção do amor, nem acreditar no possível. Apenas imaginação. Não posso emagrecer. Não posso mudar, não estou preparada para ser outra. Hoje inventei na cozinha, igual senti fome. Não. Vou arrastar a vontade de falar, vou perder o gosto, vou inventar outra história… Vou doer contigo. Vou sentir tua falta. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2021 – Torres

Marionetes

A obscenidade, atribuída a mente. Interpreta e usa os sentidos. Capta o pré-juízo de sua própria obscenidade. Ensaio? Ou o experimentado antes da apresentação.

Atropelo informações. Desenho lembranças nas raízes necessárias do florescer. A quaresmeira se debruça na janela; o jasmim se esconde no verde, perfuma a sala. Passa o susto: suor seco. O improviso do esperado encontro: converso a conversa, mentalmente.

A saia escorrega entre as pernas. O corpo se manifesta. Braços firmes, rosto esquálido. Iluminada pelo entusiasmo: inesperada, esperada visita. Elaboro / monto o estratégico palco, tomo posições, modulo a voz. E me entrego ao presumível. Decodifico médico e paciente, a doença e a cura.

Emaranhado de lã neste dia ruidoso. Aporto / chego em Porto alegre e seco. Escuto a história das moças perdidas e achadas nas rodoviárias das capitais: busca silenciosa de possíveis talentos. Cura – se com pão. arroz, feijão e leite. Retribuição no abraço amigo desta rede rentável. Nada me surpreende. Nenhum músculo se movimenta: confessor e pecador. O obsceno mundo do submundo aberto. Calçadas largas de capitais, êxodo lacrimejante de impotentes. As moças, e seus fazedores de talento. Como nos contos de fada: o príncipe e a princesa perdida. (?!) Encontrada,. Ambos garbosos, chegam ao palácio…. Naturalmente, serão foram felizes para sempre. Todos.

O cochilo atravessou a história. A voz inunda a ideia burguesa de brilho. Limitada ao frágil emocional. Grito de socorro interno. Velado, cheio de odores estranhos. Apreender um ofício se mistura ou se alterna com o aprendizado da sobrevivência. Etapas coloridas. Limpas? A pluralidade parece inverossímil, mas as máscaras legítimas se manifestam polidas / assombrosas para o encontro. Aprendo a ler os olhos. Sinto teu cheiro, sem olhar teu o corpo. Equívoco inequívoco: não há cheiro, tal qual o personagem de Patrick Süskind. Palavras serenas definem a irreverência. Sustento o tema, as histórias, também o seu olhar.        Como maçã picada, bebo no copo bojudo, água com gelo picado. As pás do ventilador se movimentam no meio da sala. Estes ventiladores de teto e pó! Sinto o cheiro do cigarro. O piano, a despedida e a guerra. O último lugar.  Não gosto de marionetes.

                                               2.

O narrador pode, contrafeito, abrir o caderno de receitas. Fazer um bolo, descobrir um mistério. O inconsciente dinâmico, produz conteúdo picante. Reagrupa os existentes. Trabalha numa relação compensatória e complementar com o consciente.  No inconsciente, o movimento, o pessoal. A busca consiste em conhecer a si mesma.  Em pesquisa, percebo que a psique trilha um objetivo: o encontro com o próprio centro, a unicidade. A Individuação, que não é um processo repentino. Retiro a máscara, retiro a projeção.  É doloroso, difícil voltar para dentro de nós mesmos: sair do círculo imaginário. A manipulação dos sentidos é obscena. O som em decibéis a rebentar os tímpanos para surdez iminente. Tocar o corpo, tocar o vento ou a água, tocar o desprazer de todos os sentidos pode ser obsceno. Manipular ou conduzir alguém ao inimaginável desvirtuando sentido natural de vida. Na revolta: a escola, obscena. a política, obscena. Jean Jacques Rousseau obsceno. A família pode ser obscena.

O sexo com o teu corpo ou com o corpo do outro, um processo de descoberta natural, não um manancial incorporado, pelo menos não no ocidente. Aqui nos propomos liberdade, fluidez e as habilidades não são religiosas.

Cansado cai, e aflito, no
relvado,
Fita os olhos nas nuvens, e
emudece.
Sem dormir, sem comer, fica
parado
Enquanto o sol três vezes
sobe e desce.
A dor aguda o deixa
exasperado
E tanto vai crescendo, que o
enlouquece.
Ao quarto dia, o furor dele
se apossa,
Couraça e malha em fúria
ele destroça.

 In Orlando furioso de Ludovico Ariosto

Nestes genuínos movimentos a criatura se movimenta dentro da vontade a partir do olhar. Justo no seu, pessoal e único campo de visão. No oceano despontamos como ilha  junto a outras tantas ilhas outras ilhas. Segundo Jung: “Existem tantos arquétipos quantas as situações típicas da vida. Uma repetição infinita gravou experiências em nossa constituição psíquica, não sob a forma de imagens saturadas de conteúdo, mas a princípio somente como formas sem conteúdo que representavam a possibilidade de um certo tipo de percepção e de ação.” Jung não aceita as insistências de Freud de que as causas dos conflitos psíquicos  são de natureza sexual. O que é o sexo? Todas as interrogações permitidas. Respostas adormecidas ou despertas dentro de cada um de nós. Como funciona este motor do homem?

Através de libido?  Libido igual a apetite,  instinto permanente de vida que se manifesta pela fome, sede, sexualidade, agressividade, necessidades e interesses diversos. Tudo compreendido no conceito de libido. A libido,  energia psíquica. Digamos que para o homem comum a vida perpassa a vontade. O ser humano transita na adaptação manipuladora de outros indivíduos, mas é recíproco  porque social. A manipulação de uma única via é obscena. O uso da máscara facilita a comunicação com o  mundo externo, com a sociedade, com os papéis exigidos.  Pela convivência, num processo que acompanha nossa natureza somos amestrados para sermos aceitos no grupo a que pertencemos. É obsceno? Ou é o passaporte para nos protegermos e nos sentirmos protegidos, únicos e previsíveis?  Passaporte que pode ser nefasto se perco a verdadeira natureza.  Os possuídos por sua persona tornam-se pessoas difíceis de conviver. Rígidos, exigem que  todos se comportem como ele.  Atravessar a ponte com cautela, olhos abertos. A pessoa que sofre a projeção carrega / leva um “gancho”. Esta história começa na concepção, passa pelo nascimento, portanto uma projeção da nascente, a mãe. Reeducar, educar para seu confronto pessoal não seria obsceno?

Estou perdida nestas elucubrações. Aperto as minhas mãos ansiosa. Ergo a cabeça. Interrompo meu discurso, que neste momento se perdeu…

– O movimento de corpo é nascente de combustão, não pode ser manipulado. A manipulação que é sempre externa será um ato de obscenidade, caso contrário, artificial. Sai de um jato só esta frase. Estupefato ele separa minhas mãos num gesto amigo. Olha firme para mim e diz:

– Preciso ir embora. Elizabeth M.B. Mattos / texto perdido / achado. A ser revisado. Novembro de 2021 / Torres / a ordem, o correto / o que já foi escrito / ficou, o que deve desaparecer… Não terei tempo, não terei tempo porque perdi tanto tempo! As despedidas, necessárias, as lacunas preenchidas. E tu precisas voltar.

Rosalba

Sonhos sem espinhos, roseiras de raízes perdidas nas terras adubadas, renascem. Leituras interrompidas, ansiedade presente. Teu vulto, tua voz, aqueles desejos achados, e a vida atravessada num ir e vir insistente, tumultuado, apaziguado, encantado. Tu és tu, sem desistir, enfrentar. Como te gosto! Lembro! Lembro! E tu voltas. Caminhamos pelo pensamento inquieto e ardente. E com todas as interdições aqui estás: entras. Eu me surpreendo encabulada porque não te esperava audaz, decidido, e, num/com sorriso mostro meu espanto. Eu me atrapalho com palavras. Esqueço as corretas, digo todas as impossíveis, enfeitiçada.

Agora, por favor, escuta a história: vou ler em voz alta para me aprenderes (apreenderes também) a ouvir, redesenharás nosso contorno. Enfeitiçarei tua fantasia, teu amor sorrateiro, tuas aventuras, elas , também, inquietas. E daremos um passo na nossa pequena história.

Em cima da escrivaninha estava a sacola mágica, que se alongara de maneira surpreendente. O príncipe aproximou-se, abriu -a e imaginem só que encontrou dentro?…uma linda e comprida espada de punho-de- ouro, gume afiado e bainha-de-veludo-escarlate, onde se viam pordadas as palavras: Rosalba para sempre!” (p.101) William Makepeace Thackeray O anel e a rosa

Ah! aposto na confusão: as primeiras palavras / Ops! A primeira leitura é mesmo tão confusa / insignificante, não diz nada, mas se misturares tudo e liquidificares, encontrarás outras estórias / lerás nas entrelinhas o que não consigo escrever nas linhas.

furtivo

Aliviada, queimaste cartas e fotos. Ardente lembrança tempestiva. Ao me desnudar estremeço, depois tremo no pudor. Bom que sabes arrancar o medo e me acordar. Guardo o colorido / festivo sentimento: amor que sinto por ti. Confesso ansioso amor. Releio mil vezes o que me escreves até comprimir o sentimento… O extravio na papelada do correio, mas nas caixas guardo nós dois, como se fôssemos pigmento. Misturo/ preparo e uso o pincel mais grosso para escorregar. Desenho na tela, esparramo as lembranças. Passo os dedos pela tela, loucura absoluta. Pelo tato, pelo cheiro sinto teu corpo. Uma página da tua carta (uma basta) aquela dos teus beijos no meu corpo, a das tuas promessas sussurradas: despejo vermelho, depois esparramo o castanhos, desenho teu rosto, aperto teus olhos, defino tua boca. Não és mais o garoto/menino da minha memória. Deixo uma palavra boa, a melhor, a flutuar pelo amarelo… Jogo a tinta branca respingar em / por cima de nós dois. A tinta demora a secar. O desejo se agita, grita: tempo indefinido. Uma semana, um mês inteiro. Queimo ansiedade em longas caminhadas. História boa / beleza certa, tu és mestre. Obrigada por destruir vestígios, sim. Sem rastro. Se estivéssemos, hoje/agora juntos nem fotos, nem bilhetes, nem tempo existiria, apenas tu e o meu delírio. Hoje cavoucarei a terra até os dedos sangrarem. Alguns artistas pintaram com sangue, a loucura da imaginação / transgressão. Karin Lambrecht. Não sei,… os museus, as galerias te interessam? Tenho tanto para apreender contigo… O mundano da beleza se remexe…Tu podes me levar, não esquece… hoje, amanhã, depois de amanhã já… Tenho certeza que virás por mais tempo (foi tão furtivo, tão abrir e fechar o nosso último encontro!), depois esquecemos tudo…, eu te prometo. Apenas hoje enquanto ferve o desejo. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2021 – Torres

viciada

Viciada em Duolingo. Envolvida na rotina. Netos, comidinhas e jogo. Filhos pendurados nos fios telefônicos, temperaturas se alteram… Leio jornal: amasso as notícias. Ventania inacreditável! Aliás, o vento carrega Torres. Já fez outras mágicas, sumiram as dunas. E a praça vira estacionamento (nada me surpreende mais do que isso?!). Automóveis percorrem distância urbana, nada de caminhadas, nem de pensamentos. Concentro inquietude! Superpopulação praiana se recolhe nos soberbos edifícios: deslumbrantes apartamentos, trancados nestes dias, o vento venta. A fantasia se espanta. Elucubração, ou desejo. Faz frio. Ou sou eu que encolho no inverno? Estranho mês de novembro friorento e surpreendente. Volto ao Duolingo. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2021 – Torres

Cheiro de terra, de verde e descoberta…