O que importa de ler ou escrever / importa o passo em direção ao outro, a revelação ou exposição feita / somos caramujos, carregamos a casa /esconderijo o tempo todo… (muito bom voltar a conversar contigo hoje). Escrever é aquele ato corajoso de deixar ‘escorregar’ um pouco do que somos, o todo, nem nós mesmos sabemos, assim, um pedacinho é muito. Quando alguém lê, alguém responde, sorri ou chora a mágica foi feita: somos.
Abro o livro e leio as referências feitas a nossa juventude. Tirei toda a roupa sim / mas não aconteceu nada / certo ele // eu era a menina apaixonada, fui a mulher e fui mãe e fui uma vida desoladamente apaixonada por ele / a gente atravessa o tempo assim, em estado de amor. // procurei agora o número do telefone / queria lhe dizer… o quê exatamente, não sei. E fico irritada porque ele escreve Betina / nunca, nunca ninguém me reconheceria neste diminutivo /talvez quisesse escrever Betinha / sempre me chamou de Betinha / que me ofendia um pouco por eu ser desabrochada no meu encantamento por ele.
abrindo o livro / voltando assim no tempo releio: (p.300- 303)
“Não vou deixar de comentar as 14 cartas de uma querida prima, muito bonita, morena de olhos verdes, mais jovem do que eu, o que eu espero que ela releve.
Beth Mattos era a mais nova das três irmãs. A mais velha talvez fosse um pouco, um ano, eu acho, mais velha do que eu, e todos brincavam que eu gostava dela a ponto de eu acreditar nisso quando eu tinha uns dez anos e, meio envergonhado, não me aproximar muito. Depois tinha a do meio, que era com quem eu brincava desenvolto. A Beth era a pirralha, a mais dependente dos pais, e regulava em idade com meu irmão, uns quatro anos mais jovem do que eu.
Ela tinha interesse em literatura e desenvolveu o lado romântico e sonhador. Quando fui pro Amazonas ela estava noiva de um amigo meu. Começou a me escrever como a um irmão que ela não teve, dizia, falando de suas inseguranças.
No entanto, alguns meses depois, houve o rompimento com seu noivo, aliás, filho de um político importante do PTB do Rio Grande do Sul. Escreveu páginas sobre esse sofrimento em várias cartas e seu esforço de recuperação da autoestima. Até que resolveu passar um período distante do seu ninho familiar no Rio de Janeiro. Lá conheceu um filho de Vianna Moog, o escritor ensaísta de Bandeirantes e Pioneiros, e com quem ele viria a se casar, cessando nossa correspondência.
Por coincidência, eu tinha levado esse livro para Boca do Acre e lido os dois primeiros capítulos. Não tive como não dá-lo para o deputado Renato, quando ouviu que já lera.
Beth passaria a morar no Rio. Para satisfazer curiosidades, conto que apesar disso não a encontraria mais antes de sua separação, quando seu filho mais velho tinha uns 8 anos. Continuava bonita, alegre e comunicativa. Nada demais, continua hoje uma mulher bonita e sensível, que adora literatura.
A Beth casaria, pois, muito cedo, como aconteceu com minha irmã, e certamente acontecia com a maioria das mulheres, interrompendo assim seus estudos formais e entrando na saga de do cuidar de filhos sob dependência econômica, numa sociedade atrasada e estado omisso. Mas a separação sociais ou a viuvez nas classes médias fazia esses mulheres se desdobrarem e voltarem a estudar, formando-se mais tarde, já que contavam, via de regra, com apoio familiar. Já era um novo comportamento. Percebo que aqui tenho um registro histórico e antropológico de 50 anos atrás face a um problema de gênero ainda presente, que determinou mudanças no comportamento das mulheres e o aparecimento de movimento importante no seio da sociedade brasileira.
Avançamos bastante nisso, nossas filhas solteiras já compõem cerca de 50% das classes médicas, por exemplo, quando na minha turma de faculdade eram apenas 5% ( uma delas já fez o curso casada).
Há muito a cuidar nas classes populares, onde a inexistência de apoio familiar, nas grandes cidades, e do apoio devido acaba por levar as mulheres ao mercado de trabalho e à marginalização de suas crianças de modo definitivo.
Lembrar a campeã em cartas daqueles cerca de oito meses de correspondência me dá também a oportunidade para falar do livro do seu ex-sogro, e da sua utilidade para entender essa floresta amazônica.
Vianna Moog era gaúcho e apoiou a revolução de 30, mas logo tornou-se crítico de Getúlio e participou da contra revolução de 32. Acabou preso e anistiado, tendo passado alguns anos no Amazonas e outros nos Estados Unidos. Lá, fez as observações do livro que citei, publicado em 1954. Agora penso em relê-lo de novo.
O sumário que retenho na memória por mais de 50 anos dá conta da condição ambiental para o desenvolvimento. Para muitos brasileiros mais instruídos, o brasileiro preguiçoso, descendente de portugueses desregrados, é o culpado por nosso atraso. Ah! Se os anglo-saxões tivessem aportado aqui! tudo seria diferente, como o é nos Estados Unidos da América. Um colega meu chegava a propor que o Brasil contratasse uma administração holandesa para tentar sair do atraso. – Afinal vejam o tamanho daquele país e seu poderio econômico! – Até hoje temos de aguentar essas asneiras repetidas sem fim.
Vianna Moog faz observações decisivas e documentadas (Moog, 1961). Com a vitória na guerra de secessão, houve uma emigração americana de famílias de ricos e laboriosos adversários políticos da nova ordem. Um contingente deles veio para o Brasil, dividindo-se em dois grupos: um foi para o Amazonas e outro para São Paulo.
Todos sabem o que aconteceu com os que foram para São Paulo. Se consolidaram como uma comunidade influente economicamente no interior do estado, onde o município de Americana subsiste por sua origem. Não formaram comunidades em termos de prosperidade no entanto, tão diferentes das que vieram formadas por pobres camponeses da Itália, por exemplo.
E o que aconteceu com os que vieram para a Amazônia? À primeira vista, sumiram. Vianna Moog encontra alguns poucos descendentes, entre eles, caboclos de olho azul e nome estranho. A floresta os engoliu. O modo de produção extrativo foi o caminho possível da subsistência.
Valia contar. Obrigado, Betinha, por me fazer lembrar disso.
A associação de idéias me leva a outra carta, de um político também já falecido que teve uma trajetória como a do Vianna Moog. Revolucionário em 30, se tornaria crítico também de Getúlio Vargas. Foi o importante Secretário de Educação do Rio Grande do Sul, marcado por tornar obrigatório o ensino de português nas escolas do estado. Deputado Federal pelo Partido Libertador, dissentiu do golpe de 64, saindo da vida pública. POr relações familiares distantes, ele era o “tio” Coelho – José Pereira Coelho de Souza. Foi também o sogro da minha irmã.
Reproduzo, para mostrar o sentimento de brasilidade de uma geração desaparecida, da qual somos órfãos, trechos da carta de cinco páginas datilografadas que me enviou. (p.303)
Não vou reproduzi-la embora a minha vontade seja essa. O livro do Eduardo Azeredo Costa deve estar nas livrarias. Fica aqui o beijo, a fantasia – a palavra (liguei ansiosa para ele) – a retomada do seu livro, o segundo. Saudade tem este gosto de memória que pode ser hoje. Obrigada Dado! Ainda estou aqui a te esperar. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2026 Torres