O grande desgosto ocupa o palco e arruma jeito / forma de estar na plateia, ou seja, se transforma na maior evidência e se consome, e me consome… Não se fala/pensa ou diz alguma coisa, pensa noutra coisa, apenas no desastre.
Amanheço pesada, atrapalhada, cinzenta. A chuva forte , o vento, a presença imposta, exige. Não posso resolver mais nada. Faço panquecas. Dobro a dose do café. Repasso as frutas. Escuto o mesmo disco, uma três vezes, não ligo a televisão. Respondo os recados no celular, e desligo conexões. Definitivos, os aborrecimentos. Eu não permito que cheguem à janela. Estão todos de castigo, abafados no quarto menor, no escuro. Eu me ponho também no castigo: intratável, apenas gulosa. Que ganhe dois quilos, não me importo, quem sabe quatro quilos? É um sentir em que o tato e todos os sentidos se reviram. Duas latas de leite consensado. Com três fazemos um banquete. Como é difícil brincar com a dor, abraçar a tristeza, sentir alguma coisa. Confesso que o pior desastre ainda é a completa indiferença, começar, aos poucos a desaparecer, diminuir, não comer, não falar, não fazer. O pior é quando o sono se deita na cama antes da pessoa, e não levanta. Paro de respirar. A chuva diminuiu. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres
Doçura do doce, acho que é assim… Não sei explicar, nem dividir, então, eu me derramo nas história perdida. Perdida? Todas elas vividas, vividas. Intensas. Encontradas na memória, no fiapo do tempo. Sim, foi mais vontade, foi loucura. Foi também acerto, acertei no intenso. Na loucura de ir. Como este vento! Arrancou o lugar do pacífico bom para transformar em revirado de restos. Os restos… A vida tem este contexto. O inverno rigoroso, o calor a maltratar, as tempestades previsíveis. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres entre o sombrio, o sol e a chuva.
Viver, bom demais, na balança, a diferença certa. Igual achei ótima esta de Pavese, em seu Ofício de Viver -, página 229.
” 13 de junho
Se é possível lançar mão da analogia com o dia, a velhice é a idade mais aborrecida porque não se sabe mais o que fazer de si, como à noite, quando a faina diária está concluída.“
Diário de Cesare Pavese de 1935-1950
Não escrevo poemas, não sei dos romances, nem dos ensaios, nem das pesquisas. Nem novelas, muito menos de contos. Forma perfeita. Maravilhosa literatura! Sou a bisbilhoteira das estantes. E as fatias me surpreendem, descobertas! Eu me apaixono, eu fico desatinada. Posso ter os olhos exaustos, a cabeça aos pulos! Coisas obsessivas do amor. Citações chegam em cambulhadas / não sou original. Já foi dito, escrito, citado. Como desistir antes… Envelhecer é o trajeto, antes não posso saltar… Viver é assim mesmo, etapas. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres
Ah! Tua coragem chega neste ramo de rosas! Jeito bom de mandar flores, rosas de todas as cores, um precioso bom dia. Obrigada. Não sei se mereço. Rabugenta, queixas e pedras, não sou pessoa agradável, nem para se pensar, porque os fluídos devem chegar escuros. Ufa! Desabafo! E penso no teu passeio, nas tuas voltas, neste teu rio de águas limpas, tuas caminhadas e tua alegria. Tuas pequenas viagens soltas! Eu sigo aqui acorrentada neste navio. Os jasmins me salvam, o verde me abraça e o silêncio. A obra do prédio, este ajardinado com oliveiras e palmeiras me parece tão sem propósito, mas, de repente, o céu se toma de um azul e de uma beleza que eu me curvo. Como as férias continuam férias, eu prolongo as cartas. As novas notícias, os jornais e as revistas parecem diferentes! Será verão ou será Brasil? Não sei. O meu ânimo e humor horrível e minha irracionalidade são de um país escuro, suponho. Igual resolvo te escrever. Depois conto detalhes das novidades domésticas… E da nova pintura! Vais gostar. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres
São apenas 108 páginas, estou na página 41 -, porque leio assim, muito, muito devagar. Tenho que interromper, fotografar, uso os pincéis para preencher a tela com cores parentes do vermelho, chegam no preto e vão a se esfacelar no rosa com o verde necessário. A tela, os pincéis, o cheiro forte do verão se derrama na tela. E escrever vira compulsão, poema, ou rascunho, conversa ou apenas o dedilhado do piano… são apenas cento e oito páginas. E Fosse não usa maiúsculas, nem ponto final, nem respira, escreve. Juro que estas semelhanças que usei ao longo do Amoras, em meus textos precários e fragmentados, não foi imitando o Fosse (Nobel de 2013), nem de dentro do gelo da Noruega atrás de um Fiorde, nem pela leitura obsessiva que fiz de Karl Ove Knausgär. Foi assim, um presente neste Natal. Um mergulho. E percebo que posso seguir… Outra vez, seguir. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro- 2024 bocejando.
Repetindo: porque afinal tu sempre velejaste, ou correste, ou fizeste esporte, ou saíste a ser isso e aquilo, e a seduzir, tu te especializaste em sedução e eu, eu fiquei a te olhar, a te pensar, a te olhar… a indecisa menina, aquela que ficou esperando o noivo que não chegou (bom que não tenha chegado, teria transformado minha vida num quintal de fundos). Acabei recebendo braçadas de rosas, galanteios e dancei. E chorei bastante, depois, engoli as lágrimas e corri pelas calçadas. Nunca consegui te alcançar, nenhum dos meninos daqueles mágicos veraneios… Atrasada eu. Todos se casaram depressa. Confesso, eu também apressei un mariage. E conheci em majestade o Rio de Janeiro, e casei na Igreja São José, num fevereiro escaldante…
Quando tu estendeste a mão eu apenas sorri e me joguei nos teus braços. Deveria ter te convidado para beber um suco, dar um passeio, olhar o jardim… Eu me joguei nos teus braços… Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres
Se o mudo desaba, ou sai do lugar, ou os planetas se chocam, ou a noite é para sempre noite, ou pior, o sol não sossega, e sem sombra… pois é, quando as catástrofes se sucedem, vemos filmes, perfeitos ou não, nada pode ser mais completo e divino do que a realização, o resultado de um filme ou das séries que reinam poderosas. Jogar cartas, dominar a música. Se o mundo desabar…desabaremos com ele. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres
Este mundo subterrâneo posso ver pela janela: não apenas mar, lagoa, dunas e aquelas ondas nas pedras. Pessoas, motos e sustos, sussurros. Sinto o medo pela janela. Pessoas entrelaçadas por vozes ameaçadoras, inquietas e olhares vigiando. São as frestas falando, mostrando… E já não podemos fazer nada. O calor castiga o tempo. A horta estressada, apesar da proteção, cuidados dá problemas… Onde estão os meus tomates? Bem! Temos uma oliveira no jardim. O gramado verde deve ser a boa chuva: verão molhado. Como será o inverno? Este tempo danado que não termina de passar, nem planeja, sacode a pessoa, e todos os sonhos. Todos? Projetos assustados. Assopro as velas, festejo. Acordo… É assim. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2024. Chegaram as contas, pontuais, o correio não atrasa. Eu fico exausta até terminar de contar.
Por mais palavras que sejam pronunciadas a cada momento numa cidade para expressar os desejos pessoais das pessoas, uma jamais se encontra entre elas: a palavra “redimir”. Posso presumir que todas as outras, as palavras mais apaixonadas e as mais complicadas expressões, e até relações marcadas como exceção, são gritadas e sussurradas simultaneamente em muitas duplicatas por exemplo, “você é o maior patife que já encontrei”,” ou “não há outra mulher mais linda quanto você”. Estas experiências tão pessoais poderiam ser representadas por estatísticas. Mas ninguém diz ao outro: você pode me redimir, ou ” seja meu redentor”, “faça isso por mim.” Aconteça o que acontecer, coisas possíveis e impossíveis, muito comovido ou não, mas ele jamais dirá redimir, redentor ou redenção. Uma barreira. Como explicar isso? Não sei. Uma lágrima sim, redenção não. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2023 – Torres Suponho que ninguém reparte ou divide de verdade / mas ama, odeia, perdoa, confessa, redimir não…
admiro em ti exatamente o quê? a pessoa / a trajetória / o que poderia ser e não foi… as respostas. de uma forma esquisita, muito minha, não faço perguntas, ao mesmo tempo sei que me consideram invasiva, imprópria, crítica, excesso de crítica ou de indignação. como gostariam que eu fosse? prestativa? ativa? gentil?
concluo que não fui uma mãe gentil, nem sou agradável, não tenho empatia pelos problemas?!
reconstruir uma mãe gentil
falar sobre o assunto / ventilar as arestas melhoraria minha capacidade de ser gentil? melhor?
afinal, o que significa, então, quando alguém te diz: eu te admiro? Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2024 – Torres com que roupa eu deveria estar neste verão escaldante? quem, de verdade, se interessa pelo que eu penso. pensar importa?
Nous nous touchons, comment? Par des coups d’ailes,
par les distances mêmes nous nous efleurons.
Un poète seul vit, et quelquesfois
vient qui le porte au-devant de qui le porta.
Rainer Maria Rilke / mai 1926 / A Marina Ivanovna Tsvétaïeva
Eu não sei traduzir. É um precioso livro / uma preciosa correspondência salva…
Nós nos tocamos, como? Pelo bater de asas, pelas distâncias, nós nos tocamos de muito leve (?/!?) Apenas um poeta vive, e algumas vezes vem alguém que o leva / carrega a frente /na / para a frente daquele que o carrega / que o leva…
Não sei se compreendi / se errei / quem sabe francês ou alemão ou russo, por favor, me ajuda!