Enquanto espero vou apenas esperar, não, não vou a nenhum lugar. Vou esperar. Nenhum lugar específico. Imagino conseguir e seguir o fantasma sonâmbulo ou a moja consciente, aquele sacrifício possível, não o necessário.
Pedro Moog – 2023 – olhar de São Paulo
O sacrifício possível, como o sono possível, nunca o de esquecer que transborda no sonho. Os sonhos, guardei na gaveta do armário. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2023 – Torres
Duas maçãs ao forno perfumam a casa e adocicam o tempo.
2 de novembro de 2023 chuva vento, mais chuva e limpeza. Casa limpa / vidros transparentes. Bom começo, bom fim de ano… Alegria transparente se soma a chuva, chuva, chuva. O incidente ficou agarrado na memória. Uma traição natural da amiga, atravessar-se na expectativa do outro. A gota do copo cheio: não consigo esquecer. Passado algum tempo, ou tanto tempo não consigo, não é possível acertar nada. Fica o engasgo. A pessoa vive remenda, repara, constrói e por vezes, às vezes, estraga a vida, a relação e a amizade. E me dou conta que o tempo / a passagem do tempo percebe, ou melhor, se ergue a partir dos acertos e erros e acasos, mas não é modificável. Não se trata de perdoar ou esquecer, passar por cima: o equívoco está alerta, aponta a defesa. A minha arma pessoal é não esquecer. Não quero ser atropelada duas vezes, três vezes pela mesma pessoa. Quando alguém emerge do passado e anuncia em tom comovido que deseja acertar ’tudo’ a seu modo singular, não se trata de acerto… Na vida não há meias soluções, alguma coisa teve início um dia, há muito tempo, no tempo das mães, da infância, das perdas, mas agora tem que se encerrar. Acabar. Acabar com ponto. O final. Outra história começa. Regar o jardim, revirar a terra. Respirar e caminhar. Outra direção. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2023 – Torres
porque tenho livres ao alcance das mãos posso seguir pensando, dizendo, mesmo que seja por outra voz, outro falar, outra nova ou velha palavra. o repetido, os fatos, estranhamente, se assemelham… alguém quer a vitrine, a notoriedade, a luz, e consegue.
Então,
“Fugir a uma realização, por causa das concessões feitas, produz relacionamentos falsos e uma sociedade doente; o esforço de atingir a realização, no entanto, termina recorrentemente em tragédia: o indivíduo é destruído na tentativa de escapar do seu mundo parcial.”(p.132)
“Fantasmas!…Eu quase acredito que sejamos todos fantasmas. Pastor Manders. Não é apenas o que herdamos de pais e mães que passeia em nós. É todo o tipo de ideia inútil, velhas crenças sem vida, e assim por diante. Eles não estão vivos mas agarram-se a nós por tudo isso e não podemos jamais nos livrar deles. Sempre que leio um jornal, parece que vejo fantasmas movendo-se furtivamente por entre as linhas. Deve haver fantasmas espalhados por todo o país, tão numerosos quanto os grãos de areia do mar. E então somos, todos nós, tão desgraçadamente tomados pelo medo da luz.” (p.133) De herói a vítima – A feitura da tragédia liberal, para Ibsen e Miller. Raymond Williams Tragédia moderna – Cosac Naify
[…] toda a esfera dos assuntos humanos é vista do ponto de vista de uma filosofia que pressupõe que mesmo aqueles que habitam a caverna dos problemas humanos são humanos, na medida apenas em que também querem ver, embora permaneçam iludidos por sombras e imagens.” (p.155)
Não é possível entender Platão sem ter em mente, ao mesmo tempo, sua repetida e enfática insistência na irrelevância filosófica desse domínio, acerca do qual sempre advertiu não se dever levá-lo demasiadamente a sério[…]
“Uma das muitas coisas que me tornam diferente das outras pessoas, é que os atos que pratico na vida real costumam terminar como cópias fiéis do que existe em minha imaginação. Ou melhor, não exatamente imaginação, e sim a recordação de minhas próprias fontes. Nunca consegui dominar a sensação de que cada experiência que pudesse ter na vida já havia sido vivida por mim de forma brilhante. […] Sentia realmente que em alguma ocasião do passado distante eu assistira em algum lugar a um pôr do sol de brilho e esplendor incomparáveis. Era culpa minha se os ocasos que vira depois sempre me pareciam desbotados.” (p.213) Yukio Mishima O Templo do Pavilhão Dourado
O que a gente é, como a gente imagina ser, e como nós mesmos transformamos T U D O em Templo Dourado ou Caverna ou Prisão ou Felicidade ou Infelicidade. A vida como a ilusão de ser vida, ou ser passado, esta coisa de futuro projetado que não é nada, apenas um agora consciente ou adormecido. As famosas pílulas do Huxley ou as descritas em livros espelhados. Tudo já foi dito, tudo já foi vivido, igual queremos repetir, inventar a beleza ou a feiura, refazer o feito, ajustar a boa receita. Carne ao ponto, mal passada, bem passada, ao ponto menos, ou ao ponto mais. Escrevi na primeira pessoa do plural, deveria ser no Eu / mas o egotismo se dilui num plural necessário, o texto de Mishima que conviveu com Kawabata e quis salvar o Japão, o Imperialismo ou se salvar… Salvar é uma boa palavra. Viver ou Morrer. Acolher ou deixar cair como as pétalas de rosas… Deveriam ser eternas, não são, ou são? Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2023 – Torres
Garagem de Arte / a galeria de arte / por tanto tempo festejada: brincadeira permitida / brincadeira aceita e assim, um sucesso. Claro que sinto saudade! Saudade do que foi intenso e verdadeiro. Toda a brincadeira é séria / tem regras e completa um tempo / o tempo com a garra/ a vontade enérgica de fazer acontecer. O tempo de brincar e imaginar. Saudade. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2023 – Torres
Acabo de ler o jornal / por que ainda leio? Deveria apenas assistir a qualquer coisa / imagem. Ou olhar para a chuva a limpar o mundo… Retrógada pessoa. Faço a imagem do dirigente preso na cristaleira, eternizado. Sim, o que vai parar na cristaleira nunca teve muita utilidade, mas enfeita, torna importante isso ou aquilo, digamos que valoriza. Casas em que o essencial importa e faz vida não possui cristaleiras. Espaços são preenchidos por utilidades. Armários cristaleiras são engraçados… Ou patéticos. Gostamos de morar na cristaleira entre o que será considerado importante e precioso. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2023 – Torres
O edifício em obras ajustes, ideias em movimento pode transformar nossa casa no inferno mais infernal possível – viajar ou evaporar ou alienar-se parece ser a boa ideia de jerico para resolver o problema, afinal, tais aventuras exigem dinheiro e disposição… e a anta que escuta a sugestão se espanta. Vontade de matar, estrangular, gritar parece mais acessível. A vingança? Quando tudo estiver do agrado dos belos, começar a sua /a minha obra empoeirada e atordoadora, particular. Abastecer o ambiente com mais pó mais tormentas, mais possibilidades. Logo estaremos todos irmanados na beleza! Bem vinda a demolição e a reconstrução! A tal ideia do mais adequado, mais belo. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2023 – Torres ameaçada de chuva. Chuvas e tormentas, o sol cura tudo depois e enlouquece o corpo.
A pessoa conta estórias descoladas da história. Fora da vida como ela é, mas, quem sabe da vida, daquela que nada sabemos, a vida que se encerra em sentimentos? Facetas esquisitas responsabilizam o outro pelo próprio caminho, o dela. Pedras não são estrada mas injustiças do caminho. E deveriam ser flores… Flores de facilidades. A vida do outro, bem, sempre é melhor, mas não deveria ser. Estranhezas! Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2023 – Torres
Cartas são fatias. Talvez as melhores do bolo, e lambuzam a verdade. Fechei as cartas, e abri uma página. Aquela louca vontade de seguir escrevendo, aquela loucura de buscar a interlocução e remexer a vida do outro, ou pensar que se apaixonar é empurrar um gosto ou decifrar o enigma. Depois, esquecer. Os amores amados são para ser esquecidos. Servem a vida, são como galhos, flores e frutos, às vezes não tem folhas, mas o tronco está lá. Uma árvore espetada num canto. Ah! Pode ter um gramado, uma cerca… Pode ter uma casa por perto, embora não se conheça todos os cantos. Para nós dois seria preciso fechar todas as portas, janelas e nos certificar que estamos absolutamente sozinhos. Nos certificar. Temos a ilusão de estar sempre em família, vigiados ou acabrunhados pelas mentiras sucessivas, invasões, mas juntos, em família. É muito estranho como tentamos policiar a vida, a inteligência. Nós nos vendemos barato. Aliás, temos a ganância de ter tudo, alcançar tudo, mas as asas limitadas não nos deixam ser gavião. Alegres passarinhos… Tudo limitado. Esta coisa sem graça das regras das obediências e dos desencontros. Queimar e apagar todas as cartas. Não deixar vestígios. Como se os nossos vestígios fossem modificar o mundo! Não. Nem a nós mesmos. Aos poucos necessitamos de ajustes e um alguém que nos cuide. E nos cuide ternamente / com ternura. Então eu te mando mais um bilhete escondido. Hoje vou tentar escrever com vontade. O exercício / o rascunho está feito. Um dia eu acerto. Outro beijo. Hoje já te mandei muitos beijos. Mas só envelheci, não rejuvenesci como promete o amor. Palavrinha desgastada esta. Mas acho que a amizade ainda pode se fortalecer, um cálice de vinho: Papa Figos / do Douro, pode ser a safra de 2019 / tinto. E um arroz bem feito, caprichado, uma salada fresca, ainda laranjas e bergamotas, ou figos… A boa refeição do /com bom rosbife coberto com cebolas. (risos) Estou com fome. Vou tratar de resolver isso. Ah! Comeria batatas fritas! Credo! O vinho é da casa Ferreirinha / mãos dadas com Portugal. Elizabeth M. B. Mattos – outubro (terminando, já calor) 2023 – Torres (ainda)