equilibrar

Não basta conviver (viver e crescer, nascer) entre pessoas inteligentes e criativas, amigáveis / é preciso ter a vontade de tocar/ser/chegar em algum lugar além do mesmo / do simples reproduzir. A alçada do voo, o deslocamento / alguns acertos emocionais… Não se trata de dividir em dois, mas multiplicar. Quando eu tento te justificar eu me perco porque estou / foco, insistentemente, do outro lado… Onde tu estavas quando aconteceu isso, ou aquilo, porque assumiste tanto e tudo em ombros e braços sem certezas. Peso demais, mãos inquietas de afeto. Que difícil equilibrar! Elizabeth M. B. Mattos – outubro esbravejando – 2023 já para o final.

uma /qualquer / a

Aquela história. Agarro um fato, dois, ou três, amontoo o cotidiano de levantar / fazer / esquece e seguir – ou não seguir, pronto, tenho a estória dentro de uma história de vida / qualquer. Levanto cedo, dou uma volta, com a preta, rápida, porque quero/vou voltar para a cama, e não volto… Depois vou a pensar que passou rápido este viver, ou ainda vai chegar mais, de que jeito, como? Respondo os emails / reduzidos, muito encolhidos. Compreendo. Jogo paciência. Passo um café / meia fatia de pão, descasco uma bergamota, penso em frutas, no almoço, na preguiça. A história de Maupassant me agarrou, e me levou pro bolso daquele tempo, o tempo em que as pessoas não escreviam, mas pensavam e se aventuravam… ou respiravam. Pois é, deixamos de respirar, mas fazemos acontecer as flores. Volto para a tragédia das guerras, das perdas e os desafios. Outras leituras. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2023 – Torres com uma modesta chuva, quem sabe um chuvão pra acompanhar o cinzento deste amanhecer.

rastrear o amor

Faço isso, vou rastreando o amor, encontro no inesperado. Sou eu que o encontro enquanto ele se perde nele mesmo, se desencontra. O amor se perde no ansioso de amar: não ouve, não sente, não consegue ver… Ah! Este danado sentimento se entrega às cegas mesmo e cheio de precauções. Calcula isso e aquilo que escorrega nas escadas, fica cheio de lama… Eu o ajudo a levantar. Lavo as roupas, passo, perfumo, vou acertando o beijo e o cabelo. O amor deve estar bonito. E a beleza tem ventania, mas precisa ser acalmada. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2023 – Torres indo para Porto Alegre – apesar das dúvidas, indo…

incoerente incoerência

Foto – Pedro Moog – outubro de 2023 – São Paulo

Essencial vida com raiz e terra a palpitar. Subverte o tempo ou alonga ou define ou pinta: define cor, a que existe, aquela escondida que brota. Nasce do olhar e dos pincéis agitados, acalmados serão neste fazer definição.

Esta coisa de viver e olhar e ver enxergando. Preciso explicar o tempo, faço explodir o momento. De um jeito interno a estourar limites. Não quero limites nem amarras, por este motivo entro no ônibus. Vou atrás daquela sombra, persigo eu mesmo, a amada.

Engraçado quando penso que tomei decisão definitiva, coisa nenhuma, ou bocejei, ou desatei o nó, depois chupei uma laranja. No silêncio de ser eu mesma vou semeando a Elizabeth, vejo a Beth, depois a Lisa, e a Elisa, a Liz despedaça deste nome pomposo de ser Elizabeth, não Gorda, ou Amada, ou mãe, irmã, filha! Pois esta coisa trágica de ser filha/filho atormenta. As respostas que não tenho estão nesta filiação ou na maternidade, nesta árvore sombra, pouso e raiz, ou naquele amado inexistente que eu puxo e repuxo atrás de um beijo, um abraço, uma resposta. Atrás do repouso, cura da minha doença, da tua doença, deste nosso adoecer espalhado: ser pessoa. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2023 – Torres, querendo Porto Alegre / alegre no ônibus.

vermelho

Vida das vidas: embalo. Leio. Costuro o passado, a escolha. Agarro um agora, largo / deixo cair outro agora. Momento de escolher, a minha vida, então, largo, deixo cair a vida do outro. Não é abandono, mas o essencial de viver a vida, a minha, então, escolho. Elizabeth M. B. Mattos enquanto o tempo se alarga. Outubro de 2023 – Torres

yukio mishima

“Em minha experiência de vida geralmente parece funcionar uma espécie de código. Como um corredor de espelhos, uma imagem única é refletida várias vezes, até uma profundidade infinita. Coisas que havia visto no passado achavam-se nitidamente refletidas naquelas que eu encontrava pela primeira vez, e sentia estar sendo guiado por tais semelhanças para os recessos interiores do corredor, para algum inimaginável aposento interior. Não é de repente que colidimos com nosso destino.” (p. 147) Yukio Mishima O Templo do Pavilhão Dourado

Uma certa vida paralela que está / ou já é tecida por um elemento aleatório a nossa vontade, mas desenhado anteriormente. Qualquer coisa que move a pessoa. Aquele irmão que traiu um irmão uma vez, num acidente doméstico, numa fala inapropriada, ou com a namorada / com a ideia brincalhona de tirar vantagem, se repete, se repete indefinidamente, inconscientemente, ou consciente… É mais forte a concorrência do que a vontade. Disputar um lugar, ter o que o outro tem. E se prestamos atenção a estes desvios como rotas, caminhos, posso curar / acertar na imagem, no defeito ou na qualidade. O “corredor de espelhos” que Mishima descreve são / ou podem ser / esta visão obsessiva, este sentimento desviado. Antecipação do que virá, aquela ‘coisa’ que nos persegue. O ciúme doente, o desejo doente, a inveja… Os pecados capitais que rondam. Aquele amor de amar quem não nos ama, ou nos submeter… Esquisitices de ser gente. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2023 – Torres – viagem da leitura lenta e misturada, dos meus autores preferidos –

A gente, tantas vezes, não se sente íntimo de si mesmo, a cada tropeço uma descoberta encabulada da verdade. Mais confesso, mais escondo..

Eu não me sentia íntimo de coisa alguma no mundo, exceto o Templo Dourado, não tinha intimidade nem com meu passado.” (p.147)

desejo de permanência

II

Prendeu os cabelos, o calor sufoca e aperta, diferente do frio. Cansaço. O cansaço é uma falência de todas as resistências do organismo: entrego os limites, e adoeço. A vontade adoece. Os limites deixam de ser limites, ultrapassam… (ultrapassam a força necessária para continuar, continuar a ser limite e coragem). Perco a força, esqueço o mistério de poder / fazer ou encaminhar o desejo de viver. Leio o jornal com olhos cansados, sem expectativa. Amar é mais e também aquelas figurinhas simplificadas de um tempo fantasia… Amolecer as guardas criticas e hiperbólicas para ser mais, mais do que apenas um instante. A Feira do Livro sobrevive a enxurrada de desespero e as guerras parecem distantes, como foi a Segunda Guerra Mundial, transparente. Transparente até ser sacudida pela realidade do extermínio. E acontecia tão perto o terror! Estamos a podar o sol e qualquer alegria… Perdemos /ou eu perco referências e… Perco o senso / a força / a vontade. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2023 – Torres – com sol, voltou o sol.

Em que momento a pessoa deixa de ser pessoa e se transforma em artista / o escrever em escritor / o pincel em arte quando as cores se misturam, o olhar em poetar. Quando se faz a mágica?

categoricamente

Com certeza, uma pessoa que nunca pensou em adquirir, nem cobiçou ou quis comprar / ou ter o prazer de escolher esta coisa – objeto no lugar daquela coisa, disputou com o olhar uma vitrine… Não merece. Suponho que o enfado da coisa chegou antes, antes do desejo. Esta pessoa não merece ter.

Pessoas viciadas em roupas / em modelito específicos, não deveriam ter casas, mas morar em hotel / na impessoalidade e comodidade de um hotel. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2023 – Torres

grau de chatice

Um grau de chatice que tem cheiro e textura… Gruda e sufoca. Nunca posso me controlar, extrapolo o possível, e o impossível. Cubro de rosas e jasmins, reservo os espinhos. Coloco fitas para atrair… Precisam ser coloridas e de aveludadas, macias! As questões preciosas guardo num bom cofre / velho e fiel. A descrição do ambiente, do detalhe torna precioso o assunto. Subo os degraus com vagar e atenção, sozinha, sem apoio, ainda. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2023 – Torres