George Bataille

“Porque é que o tempo duma duma revolução daria brilho às artes e às letras? O desencadeador da violência armada casa mal com o cuidado de enriquecer um domínio de que só a paz assegura o usufruir. Os jornais encarregam-se então de dar a sua figura ao destino do homem: é a própria cidade, não os heróis das tragédias e dos romances, que dá ao espírito esse estremecimento que geralmente nos provocam as figuras imaginárias. Uma visão imediata da vida é pobre, comparada aquela que a reflexão e arte do historiador elaboram. Mas se acontece o mesmo com o amor, que encontra a sua verdade inteligível na memória (se bem que a maior parte do tempo o amor dos heróis míticos tem para nós mais verdade que os nossos ), diremos nós que o tempo de conflagração, mesmo quando o pouco despertar da nossa consciência o oculta, não nos absorve inteiramente? Também o tempo da revolta é em princípio desfavorável à eclosão das letras.” (p.126) George Bataille A literatura e o mal

desejo de permanência

incitado desejo de permanência

I

Cabelos crespos. Dedos finos, pernas arqueadas, e mãos fortes. Espiar, confirmar e aquietar poderia ser uma meta, ou o resultado. Tirou a roupa para se ver/olhar no espelho oval atrás da porta. Depois colocou o chapéu azul com a fita branca e o cabelo se movimentou nas costas. O lenço estampado, colorido, amarrou na cintura: as pontas com dois apertados nós se balançaram no umbigo. Calçou os sapatos de verniz e girou o corpo.

Nunca seria bonita, ou mais bonita, ou satisfatoriamente bonita. Era como era… Aceitar. Era mulher, não era homem, mas trabalhava tanto e ameaçadoramente rápido, rápido demais: produzia. As hortênsias, as rosas, e as margaridas explodiam no jardim. Do forno da cozinha, o perfume / o cheiro / o gosto dos assados atraiam, podia vender muito em uma semana. Ganhava fregueses e gosto porque o fazer se fazia.

Apesar de já ter passado os vinte e cinco anos não pensava em casar, nem deixar de ser ela com ela mesma. Talvez tivesse um filho, talvez, mas não planejava. E gostava de ter Francisco por perto, mas não tão perto assim… As amigas, tinha duas, palpitavam. E os pais arejavam ideias, mas, ocupados, não interferiam. Ela morava no pavilhão dos fundos da casa dos tios, pagava um módico aluguel, mantinha a horta e cuidava dos pessegueiros além das flores. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2023 – As guerras se contaminam, explodem e se espalham… Enquanto escrevo imagino que pensas em mim, imagino, ou desejo. Decido. Vou escrever.

vestígio

Os vestígios de hoje se confundem. Na memória esquecida de hoje voltam inquietos, violados. Se anotei a receita hoje, e arrumei a casa para depois beber o café, esqueci… Esqueci a tal anotação, não encontro o papel. Estes falhos instantes me atormentam. Releio tua carta. Escrita jovem, saltitante a tua. A minha se arrasta até entender que estás vivo, inteiro, alojado nas experiências, nas tuas repartições… as tuas, não as nossas. Que medo eu sinto! Como esta guerra, estas guerras que se misturam na frente da câmara para redefinir o velho. tão o mesmo! Pois, com certeza estás certo. Remendar as lembranças quando o de antes não faz sentido… Há que pesquisar, cheirar a terra, acreditar na chuva e neste sol modesto de agosto. Eu te vejo amanhã. Eu te vejo da mesma janela… Um beijo. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2023 – sempre foco os anos pares – o dos meus 18 anos…

fora de hora

Faço comida fora da hora. Invento o frango, corto em pedaços. Sinto cheiro da vida, e, claro, penso / lembro que cozinhávamos juntos. De repente, vejo/enxergo o sítio: os cães e teus amanheceres. As margaridas. Tua cerca de atravessar conversa. Tua festa em Viamão. Passo a borracha no tempo. Mas a voz fica em riscado apertado: lápis forte, o desenho marcado… Não adianta apagar. Passo outro lápis colorido por cima, avermelhado, o amarelo se mistura ao verde. Teu sorriso se ilumina. Muito bom pensar em ti. Vou te escrever uma carta para alegrar este frio de Porto Alegre. Elizabeth M. B. Mattos. Outubro de 2023.

12 de outubro de 2023

Dia esquisito. Festeja-se como Dia da Criança, na verdade, dia de Nossa Senhora Aparecida. Memória: dia em que minha mãe morreu. Eu não estava em Porto Alegre / em Rio Pardo, eu acho, ou o que importa? Tanto tempo! A data, inusitada e significativa data/marco do tempo, as nossas: as tuas. O que de fato importam? Importam. Mais avança o tempo, a idade, a minha, a tua importam. Questiono o porquê, e como, e como será amanhã? Como estás meu querido? Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2023

O pai, guri. Eu com Ana Maria, Pedro e Joana, pequena. Érico Veríssimo, Rita Ruschel, a afilhada.

Luiza, a minha caçula gaúcha. Rio Pardo – Fazenda Santa Branca

caleidoscópio

segura a beleza. deforma, gira…

quero estar / sentir a brincadeira, meu querido, amado. como vou te contar a ausência destes dias? sem palavras, entre vírgulas?! ou sei lá, sem voz. gira o caleidoscópio e me verás, inteira, festiva. igual presa na saudade. escuto e escorrego. vício de te pensar, de chegar…

fez bonito, fez céu branco no azul. agora chove tanto e tão e tanto, gosto de ter meu mundo lavado, enxaguado.

e não me dizes nada, como no poema… pois é, como o poema que mandaste / escrevo no teu silêncio e imagino. lembro o beijo. desastrado beijo o meu, os livros me explicaram, tu não disseste nada, surpreso. coisa de menina. estávamos na tua biblioteca.

descemos as escadas, às pressas, surpresos, os dois: uma enxurrada de palavras… não lembro mais. sentamos no pequeno sofá e começaste a tocar violão, a música equilibrou a tarde. a música responde a toda e qualquer inquietação, a gente embala e esvazia o tempo.

vou beber água mineral e me distrair com a bolinhas… Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2023 – Porto Alegre

foto de Pedro Moog

como menina

Volto a estudar, estudar como menina: um certo enfado, uma surpresa. Pensava que sabia tudo, que nunca esqueceria ou que… Estudar e anotar, e repetir sem decorar. Como uma rajada de vento agitando os cabelos a surpresa me surpreende. Vou a me impressionar com a novidade… Mesclo, refaço, absorvo e logo, tão ao mesmo tempo, chega a incerteza: para que? por quê? A lógica. Interrompo. Talvez o livro de Georges Bataille, Ma mère, comece a fazer efeito… Detalhada e minuciosa leitura. Internalizo a emoção do autor, acordo a minha… Afinal a verdadeira leitura. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2023 – Porto Alegre

fragmento

O momento é um movimento de uma luz que não ilumina, mas aquece. Uma dor que caminha arrasta os pés. Desorientada, sem rumo.

As lágrimas descem. A urgência se encabula na incapacidade de fazer mais, mas a vontade entre festeira, e desanimada, oscila, arrasta o fragmento. Brinca. Beth M.B. Mattos – outubro de 2023 – Porto Alegre

energia e fresta

Agarro o tempo da coragem: energia, impulso de conseguir. Conseguir exatamente o quê? Viver.

Viver tem um querer escondido. Coragem para dizer não. Acomodar, equilibrar as frutas, trazer o verde com os pincéis carregados de marrom, e não sendo bem lavados, relaxadamente mergulhados no ponte, veio o amarelo lambuzado! Acerto o quadro, o desenho, as cores me confundem… A vida tem estes arrepios incertos! Noites mal dormidas e um punhado de energia… Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2023 – Porto Alegre assobiando