Despertar Iberê Camargo

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Vida clandestina, paralela a vida pública. Ouve-se o grito… Este permanece ecoando. E, a miséria se estratifica. Absurdamente, acredita -se no estado de graça, não na morbidez. Abandono, um rótulo. Se o acaso é justiceiro, esperança. Se matar foi defesa, ou insanidade, não importa. Está feito. Deus se fez homem, perdoa. E nos reconhecemos divinos.

Exílio voluntário, presença. Esconderijo quixotesco. Podemos ser insuportáveis, agressivos, ou violentos. A pequena felicidade constrange, às vezes, mas não é evidente. Conflito e deslocamento: insatisfação. Iberê clandestino. Os pincéis não param. Escreve com ferocidade, protesta.

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“(…) Agora a loucura domina o mundo, comanda com a autoridade da razão, fala como se fosse à verdade. Pobre dos inocentes, pobre dos peixes, pobre dos animais. (…), o homem é o único animal que não deveria estar na arca. As criaturas vão ao extermínio jogando bombas atômicas e gases venenosos, como se fossem confetes. Ah! A imagem da loucura entrará em todas as casas pelo mundo afora, para a alegria sádica que dá ver morrer. Depois se põe coroas no túmulo do herói desconhecido, e o Papa reza pelos mortos.” [1]

Conhecer Iberê Camargo é aceitar, mesmo apreensivo, o momento de ser tocado pela fúria do amor.  Sentir a revolta. Lições de coragem, de audácia. Nunca a paz, mas a realidade. O mundo salvo pelo insubordinado. Sua presença, justificativa secreta. Os insubordinados são o “sal” da Terra. E se Deus existe, Deus protege a justiça. O talento germina… Iberê Camargo explode dentro da pessoa, como a bomba atômica em Hiroshima. Ele se consome na tendinite, artrite, mal de coluna, dores de cabeça, depressão, estômago em fogo, enfim, nomes que explicam a doença. A explosão atinge amigos. E transforma… Acredita -se em salvação. Protestamos.

“Estranho e limitado é o ser humano, incapaz de entender o seu próprio ego. Não raro sinto-me como meus ciclistas, que vagam por um mundo deserto, morto. No fundo (…) eu sou eles. Mas eu tenho que dizer. Tenho que pintar a verdade porque só ela importa! E a beleza? Talvez verdade e beleza seja uma só coisa.” [2]

Teu silêncio me faz pensar no Vento da Desesperança que nos fala Mário Quintana. Este vento que ninguém sabe aonde mora e de onde vem, vento que vive como cão, que sopra sobre os charcos, que enraivece o fogo e propaga incêndio. Que sopra sobre tudo que é podre, morte e ruim; este vento separa os amantes, separa os irmãos, separa os amigos e fará com que não mais se vejam não mais se falem e, tudo isto, sem explicação ou razão. Ele transforma o amor em ódio. Ele apaga a vida. Será, Elizabeth, que este vento mau soprou sobre nós?  Desconfio que ele nasce e morre no coração do homem.” [3]

 


[1] Iberê Camargo, 16 – 1 – 1991. Fragmento da correspondência com E. M. B. Mattos.

[2] Iberê Camargo. P. Alegre, 13 – 2 – 1990. Fragmento da correspondência com E. M. B. Mattos.

[3] Iberê Camargo, 7 – 3 – 1988. Fragmento da correspondência com Elizabeth Menna Barreto Mattos.

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