vontade

Vontade de ser feliz, completamente, totalmente feliz. Escolhi um caminho, estrada, rua tão esquisita! Então, percebo a felicidade, ali perto, ou teria sido ali daquele lado, e eu caminho em direção contrária… justo para contrariar a lógica. Tenho manchas no rosto, tenho apertos e sensações, desejos e estou, paradoxalmente, esvaziada. contrariar, perseguir o debate, a tal lógica escabelada… Vontade de ser feliz! A casa se estivesse perfumada e limpa! Se os livros já estivessem ordenadas e lidos! Um trabalho de estranhamento que não termina. Outra vez o desejo de abrir o portão e sair caminhando… Esforço! E deveria ser ser apenas natural…Beth M.B. Mattos – abril ( um mês diferente / sonoro) 2021 – Claro! eu me emocionei com Fátima Bernardes e aquela casa majestosamente branca e limpa! Os 80 anos de Roberto Carlos e toda a história que não aconteceu. Coisas de chorar! Mas eu sei, se olhar / ver / enxergar/ perceber, de certo tenho qualquer coisa de feliz!

Gaston Bachelard

Procura mais, mais, mais do que já tenho, mais em de tantos jeito até a fantasia completa, irreal… E tão agora, única, reinventada em detalhes.

“O ninho como toda imagem de descanso, de tranquilidade, associa – se imediatamente à imagem da casa simples. Da imagem do ninho à imagem da casa, ou vice-versa, as passagens só se podem fazer sob o signo da simplicidade. Van Gogh que pintou muitos ninhos e muitas choupanas, escreveu ao irmão: ‘A choupana com teto de palha me faz pensar num ninho de cambaxirra‘ (Van Gogh, Lettres à Théo, trd .fr., pág. 12) Não há para o olho atento do pintor uma reduplicação do interesse se, ao pintar um ninho, ele sonha com uma choupana, se ao pintar uma choupana sonha com um ninho. Há tais enlaces de imagens que parece que se sonha duas vezes, e que se sonha sobre dois registros. A imagem mais simples se duplica, é ela mesma e outra coisa que não ela mesma. As choupanas de Van Gogh são excessivamente cobertas de colmo. Uma palha espessa, grosseiramente trançada, acentua a vontade de abrigar além das paredes. De todas as virtudes do abrigo, o teto aqui é a testemunha dominante. Sob a cobertura do teto, as paredes são de barro toscamente trabalhado. As aberturas são baixas. A choupana está assentada na terra como um ninho no campo. E o ninho da cambaxirra bem parece uma choupana, pois é um ninho coberto, um ninho redondo. O Abade Vincelot o descreve nestes termos: ‘A cambaxirra dá a seu ninho a forma de uma bola muito redonda, na qual é feito um pequeno buraco colocado na parte inferior, para que a água não possa penetrar. Essa abertura é extraordinariamente dissimulada sob um galho. Frequentemente aconteceu – me examinar o ninho em todos os sentidos antes de perceber a abertura que dá passagem à fêmea‘ Vivendo em sua ligação manifesta a choupana ninho de Van Gohg, subitamente as palavras me dão prazer. Apraz – me dizer a mim mesmo que é um reizinho que mora na choupana. Eis uma imagem – como, uma imagem que sugere histórias.” (p.83) Gaston Bachelard A Poética do Espaço

Sequencia fantástica, já menciona o retorno. Eu me pergunto, em que momento construí estes desejos sonhos -sonhados, e a vontade que me faz retornar, voltar, retornar para seguir. Em círculo. “A casa é a própria pessoa, sua forma, seu esforço, mais imediato, eu direi, seu sofrimento.”

O delírio de pensar / o delírio de voltar / de transladar e correr, esconder, aquietar para encontrar… Esta dor do corpo que aperta pode ser a marca do inteiro, a perder pedaços ou a evoluir…. Beth Mattos Ler tudo outra vez, desenhar, pensar, escrever e recomeçar. Recomeçar tem dor, tem resistência. Haja coragem!

E pensar e pensar, e a pensar. A poética do Espaço – Gaston Bachelard

cambaxirra, o ninho

17 de abril de 2021

Acordei 9 horas. Tive um sonho / sono com / em detalhes, anotei. Diferente. Importante.

Tempo no/de silêncio! Temperamento forte, obstinado tu tens! Convicto. Sou/fico a pensar… Impressionante. Sentimento de certeza grande e poderosa. Mágoa intransponível, não. Intenso sentimento de certeza. Importante. Bom. Falei/conversei, contei das fantasias. Ele está, está, está…, como posso descrever? Não sei. Devagar, devagar volto no tempo, neste hoje com chuva! (que bom!) Algumas questões complicadas de crescer versus envelhecer. Se eu pudesse voltar no tempo! Não sei fazer mágica, sigo a pensar, a sentir. Beth Mattos, sem espelho.

Marina Pfeifer / foto do jardim…

adormecer

Limite de compartilhar: vida, vida, vida… Assumir compromisso. Cada amanhecer uma gota: lágrima, energia amorosa. É preciso adormecer: o sono e a despedida. No imaginário a eternidade do dia existe… Eternidade? Quem amamos… Amar, ceder, aceitar: compartilhar. Despedida solitária. Adormecer definitivo. Nada, ninguém substitui a vida solitária, a vida solitária… Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2021

ruídos

Chegado é o momento em que pairam no ar

Ruídos confusos a crescer na sombra.”

Dizer que te amo, ou dizer que te quero. Pedir que venhas, porque não posso ir, soa música e grito. Apaixonada insana! A pandemia nos prprotegeoteja, e os aviões nos levem. E o silêncio inteligente nos salve/salva. Que eu nunca mais te perca… E possas me tocar, do jeito desejado, e tu e eu, vamos rir no gozo desta alegria, nossa. Nossos detalhes. Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2021 – Torres

Coisas do Entardecer / Vitor Hugo / Coleção Abre – te Sésamo / ilustrado por Patrick Cuoratin / Editora Record

explicar

Estou sem entender / escrevo sem jeito. Frouxo, arriscando, sem saber. Sem consciência, não é normal…, não pode ser bom para você, não pode ser bom para mim, estamos a nos afastar. E de repente enfraquecemos o tempo, a vontade, empilhamos nas caixas as memórias que não se misturam, mas, reparaste? Como ficou fácil abrir a tampa certa, olhar de perto… Gozar, brincar, sensualizar meio ao acaso. O jogo é maior do que tu e muito maior do que eu. Nós dois juntos segurando as pontas deste enorme cadáver. Nossa adolescência escorrega pelas dunas de uma Torres praiana que não existe mais. Estamos perto /longe de quem somos. E tão absolutamente entregues! Beth Mattos – abril de 2021 –

foto de Marina Pfeifer – abril de 2021 – a rosa

mais que nunca antes

mais que nunca antes, tu e as tuas mágicas

Amanhece cinzento, pacífico. Eu, alegre por dentro, e por fora também (saída/acordada de  sono de sonho agitado, cheio de bons olhares), a explodir… Recolhi o jornal, vi as manchetes, nada satisfatórias. Passarinhada grita e se solta feliz. Tudo feliz ora, ora! Eu estou  alegre, por que não estariam os pássaros? Torres se aperta. Certo, apaixonada. Apaixonada. Antes / menos, muito menos do que hoje, agora. É mágica XYJMWCLK. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2021 – Torres

um dia ou dois dias?

Esta coisa de fugir do próprio pensamento talvez seja estratégia de guerra. Calçada vazia, espaçoso e cheio e vazio. Fantasmas se divertem: jeito simpático de voltar, insistir e se instalar…, tu vens para uma visita de um dia, ou de dois dias? Escrever, absolutamente artificial. O maior de todos os obstáculos, o silêncio. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2021 – Torres Acreditar no sonho/desejo e seguir cega e surda: o mar responde, o sol responde, o verão responde, e o outono faz promessas. E eu sei que estás esperando por mim…

meu querido,

As cidades se reconhecem pelo andar, como as pessoas. Abrindo os olhos, o recém-chegado deduziria o mesmo da vibração nas ruas, muito antes do que de qualquer detalhe típico. Ainda que fosse só imaginação, não importa. A supervalorização da pergunta: onde estou? vêm do tempo dos nômades, em que era preciso registrar os locais de pastagem.” […] Portanto, não se dê valor maior ao nome da cidade. Como todas as cidades grandes, era feia de irregularidade, mudança, avanço, passo desigual, choque de coisas e acontecimentos, e no meio disso tudo, pontos de silêncio, sem fundo, era feita de caminhos e descaminhos, de um grande pulsar rítmico e do eterno desencontro e dissonância de todos os ritmos, como uma bolha fervente pousada num recipiente feito de substâncias duradouras das casas, leis, ordens, tradições históricas. (p.9-10) Roberto Musil O Homem sem qualidade

Quero dormir e acordar num sonho: estaremos juntos, sem ansiedade: nesta pandemia, solidão, somos amantes. Não é incrível? Abraçados, misturados um no outro: tempo de benção, gratidão… Haverá um atalho, dois ou três e seremos nós. Voaremos, JMKCLXY. Quando eu me pergunto “Onde estou?” Sei que estou no teu sonho, e que tu estás no meu: abuso maravilhoso de beijar.

cupins: porta fechada

13 de abril de 2021: Torres, anoitecer agradável. Caminhamos apressadas, mas poderíamos fazer a volta na lagoa se eu não tivesse já um fio de medo crônico instalado. Será que eu deveria comprar um carrinho que me permitisse sair e ir e vir como se eu ainda fosse pessoa mulher capaz de beijar ou abraçar? Ah! Cruel associação! Estou fazendo pequenas e curiosas elucubrações. Amanhã converso com o filho, ou pergunto por aí, se afinal aperto meu orçamento e coloco um carrinho a minha disposição. AH! Esta ladeira da garagem vai ser dureza! Os sentimentos que uma mulher com minha idade entre 73 anos, ou 74, completando 75 anos?!! Dificuldade números e certezas… Suponho que esta experiência de envelhecer e rejuvenescer não tem como contar/explicar, em/com números; somos tu e eu a brincar. A matemática elementar… Nasci em 1946 -, nove de setembro. A pandemia alonga a loucura boa dos desejos. Alonga a organização interior exterior do/para fazer o necessário. Alonga a distância / barreira e intensifica o sentimento.

Coloca alguns livros a serem relidos ou dispensados, definitivamente, e nos prepara para voar, fazer pequenas loucuras ingênuas (ou nem tanto!) e definitivas. Agarra um copo de vinho, de whisky, uma caipirinha. Tudo seria/pode ser mais completo, detalhado, mais tu e eu. Não ver televisão: desafio de três ou quatro dias. Desligar o celular para não cometer a loucura de filmar o próprio corpo / imagens / enredos (alucinações). Todas construídas de vaidade tesão e equívocos. Ou não?

Última garrafa de vinho colocada na adega por ti: bebo dois cálices do vinho encorpado… A saborear devaneios aproveito os arrepios indecentes que se espalharam no meu sofá. Escrevi longas e detalhadas cartas (alertas) para os amigos, conversei com os filhos. Viajo de um estado para outro… Os teus, os meus que se misturam como nossos. Depois de arrumar a cortina, uma inversão solução, e mandar fazer as do quarto eu me sinto heroína: a descupinização alcançada no seu quinto dia, com vedações e esperanças. Sem TV, sem trocar a roupa, sem mexer nos livros, aguardo ansiosa o momento da limpeza. Escutei o piano até adormecer: velhos discos de vinil , com ranhuras. Tropeço nas águas da música. Volto ao tempo de menina: entrar / invadir / inventar a história de te encontrar. Loucamente te beijar. Do tímido vagar, para o amolecer da alma. Entrega, que pode ser apenas silêncio. Que vida temos levado! Que vida temos imaginado! Que vida inventada, tão boa! 

Leio curiosidades empurradas, outras sugeridas. Sinto tua falta para comentar a vírgula, a bobice desta expressão, a audácia daqueles escritos. Sinto tua falta! Sinto falta de ti. Sinto falta de você. As enlouquecidas ideias penduradas nos meus cachos, escapam dos bolsos afoitas. Quero desdobrar tudo, tecer tudo. Quero te amarrar… Não preciso dizer da saudade que sinto dos teus afagos, tua mão pelo meu corpo, teus beijos à beira do fogão e nossas loucuras amorosas pela casa. Então eu danço, na imaginação te envolvo: eu te amo nesta alegria. Claro! Lamento não termos nos encontrado mais cedo, tanto carregamos de experiências, outras vidas a partilhar. Escreve. Telefone, tão logo chegues em casa / ou te aproximes. Corro ao teu encontro (como nos filmes)…. Faz já tanto tempo que não toco teu corpo! Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2021 – Torres – Tu te importas? Na velhice, num galope, não me cuidei… Nesta juventude de hoje estou redesenhada de/por amor. Mas, mas, mas, assim mesmo, tu podes apagar a luz quando fores me beijar.