sonho e precipício

Os sonhos são tão variados quanto os livros que lemos, os quadros que vemos. Sonhos curiosos, triviais, zombadores que dançam… visões, lembranças, devaneios. Texturas diferentes, diferentes são os efeitos que causam na mente, no corpo: cicatrizes. Então, num repente eu me mudei para Porto Alegre, o apartamento repleto de expectativas: venezianas abertas, e os detalhes da minha vida naquele momento…A Garagem de Arte, o trabalho feliz, algumas passadas. Perfeito. Quando inesperadamente, raivosamente eles me disseram: “não precisamos mais dos teus serviços”, tão fácil! Tão estarrecedor! Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2021 – Torres -, Porto Alegre perdeu o sentido! Afinal foi apenas um sonho , ou um brinquedo novo.

A transparência desta memória se assombra: os demônios da inveja se espalham, não estão comigo – eu era gente/pessoa e alegre, demais? Sem poder – precisava ser esmagada, talvez apedrejada, mas sobrevivi ao pesadelo – tenho o sol e a Lagoa do Violão, e estou protegida, ainda humana. E tenho Torres.

resolver

exigente a vida, passos certeiros em frente, apenas um titubeante, errado, ou mal calculado e pronto! desastre dolorido, esfarelamento / afinal este danado inferno está sempre a nos cercar, haja coragem! Beth Mattos, menos frio

a nudez

A nudez explica o encanto pelo encanto: perfuma. Liberta o prazer: corpo com corpo… A roupa protege do vento, do excesso do frio, a roupa protege do sol, do excesso do calor. A nudez se abre na luz: sombras no azul. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2021 – Torres

soluço alegre

eu me penduro na janela para examinar as buganvílias e desejar vida longa, encantamento, viver com gosto de agora de hoje, abraço na alegria que sacode a existência, os desejos. Se a lágrima escorrega no excesso de fazer, um brinde! A conversa e a palavra viram escultura definitiva, pedra, lascada, construção. Programa: ver a terra lá de cima e se maravilhar! Ver a vida no sol, caminhar, agradecer. Pequenos detalhes…e um gole de vinho. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2021 – Torres, ainda

apenas fotos

Rio de Janeiro 1974 / 1975 – volta ao Rio após separação – esta data mencionada eu me separei do Geraldo. A foto com Pedro foi meu retorno ao Rio depois do casamento com Jorge – o ciumento. (Dois maridos! complica!) a foto é de 1991 depois de outro divórcio. Outra vida. E viagem de festa ao Rio de Janeiro. Visita até a Frigga Moog, no Leme.

envolvida

Eu estava/fiquei envolvida… Ele trouxe o passado para o presente: eu me apaixonei. Outra vez. Então, ele resolveu ir embora. Assim, num repente: planejado ou desejado. Não sei. Eu estava/estou envolvida. Mas, quero me libertar de experiências repetitivas. Fico à deriva do fato, mergulho na história do outro. É preciso nadar.

Preciso fazer um novo inventário de minhas posses, do que restou. Quase nada. Vaidade? Talvez. Eu possuo a mim mesma, não completamente, eu tento… Tendência a imaginação, não há fato. Nós não nos encontramos na rodoviária, não bebemos o café nem abrimos o vinho. A imaginação vaga. Sonho revelador, o meu. Pensamento é coisa a ser recolhida, comparada, analisada, arquivada, ou resolvida. Não resolvemos nada. Ele, talvez, eu ainda espero. Eu não. Ideias fragmentadas.

Ventania, calor, depois tanto frio! Ideias habilidosamente coladas, como velhos jarros… Estou a desabafar, perdoa. Um STOP às cartas. Sem sentimento, ou amorosamente, não sei. Em todo caso afetuosamente, eu te mando jasmins com hortênsias e margaridas. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2021 – Torres – revirando as cartas de tantos anos, tanta adolescência e escolha estranhada, tantos caminhos! Beth M.B. Mattos – julho de 2021 – Torres / organizando as caixas

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Caderno vermelho

Garagem de Arte – Luciana de Abreu – primeira vernissage sob minha responsabilidade: Vitório GHENO, sucesso!

Elizabeth M.B. Mattos – (3h:36) 19 de abril de 2021 – Torres Eu tive/vivi os mimos possíveis – sempre. Sempre pode ser uma palavra FORTE e GRANDE e PODEROSA, mas, de repente, sempre pode ser a única possível em se tratando dos maridos, da juventude, o que nos parece F A L T A pode ser resolvido com um corte / uma ruptura definitiva, e, adequadamente, costurada: a memória colada assimila…

1984/1985 – caderno vermelho.

Epigrama Número 8

Encostei a ti, sabendo bem que eras somente onda. Sabendo bem que eras nuvem depus a minha vida em ti. Como sabia bem tudo isso, e dei – me ao teu destino frágil, fiquei sem poder chorar, quando caí.”

Cecília Meireles

26 de dezembro (12) de 1984 – quarta-feira – Santa Cruz do Sul

Espero pelo Jorge. Acordei cedo para terminar atividades da Escola Estadual Petituba, até o dia 29 estou comprometida com a escola…, não encontrei o Jorge em casa. Fiz almoço para nós dois e o espero. Uma hora da tarde. A casa organizada. Gosto da Travessa Canoas, não da fábrica de óleo inconveniente perto (odores/cheiros se atravessam em horários surpreendentes). Gosto da goiabeira que me acorda cantando bem cedo. E os cães se agitam… Consegui vender um dos cachorrinhos da Pitica. Botei anúncio para vender os outros. Quem sabe!? Escrevi carta para Ana Maria e outra para a mãe. Comi um milho, e espero. Ele não sabe dos horários, terei que voltar para a escola de tarde. Por onde andará? O possível e o impossível para ter a casa no lugar certo, o perfeito. Deve estar na obra. Orgulho. As pedras se amontoam no terreno. Emocionante, lindo… Os campos de golfe, o lago e a cidade: a casa de pedra. Ontem consegui conversar ao telefone com as meninas, estavam em Petrópolis, Pedro na casa da tia Lygia no Rio de Janeiro. Saudosos. Dona Frigga adoentada, espero que eles possam conviver com os avós nestas férias. Ana e Joana choraram com o cartão de Natal… Bons filhos, amorosos. Para nós, Jorge e eu, isso importa, o equilíbrio. Este ano passaremos o Natal sozinhos. Optamos: sem as crianças, ou festa, apenas nós, e a paz do campo. Estamos felizes, em nenhum momento lamentei a decisão. Seria / teria sido bom abraçar o pai e a mãe, mas estamos/ficamos cada vez mais longe, saudade. Espero que tenham Natal alegre co as filhas. Nós os convidamos, não quiseram viajar, compreendo. Eu teria enfeitado a casa e montado a árvore de Natal par eles. Para nós dois apenas as imagens do menino Jesus, Nossa Senhora e São José, três velas e um fio prateado, este presépio no canto da mesa…

Jorge molha o jardim enquanto preparo o jantar. Abrimos os pacotes, rezamos e bebemos um vinho. Os discos de Hendel e Bach na eletrola. O messias, orquestra e coro. Comprei três anjinhos de porcelana branca, meus anjinhos… Lamentei não termos um filho. Sinto emoção forte, buscamos força para reconstruir, abrir caminhos. Meia-noite fomos deitar e rezamos um Pai Nosso de mãos dadas… Foi um lindo Natal, Santo! Que deus nos abençoe! Hoje, mais um dia de trabalho. Vou ver o relógio. Que terá acontecido!? Ele ainda não voltou…

17 horas

Cheguei em casa e não o encontrei. Nem um bilhete. Penso em ir até a obra da casa (deve estar lá, almoçado em Rio Pardo), mas posso me desencontrar…Ele deveria “registrar” uma multa de quando fomos a Lajeado, será que lembrou? Foi para Rio Pardo sem tempo de me avisar. Quero ir a padaria, mas ele pode chegar. Coloquei mais roupa na máquina para lavar (a segunda). Tomei mais uma coca cola. Recolhi a roupa seca do varal. Vou tomar uma ducha, deitar um pouco, depois organizar as aulas. Trabalhar. Mas estou ansiosa. Jorge anda tão preocupado! Tanta falta de dinheiro! Esforço incrível, nós nos impusemos sacrifícios pela casa.

22 de abril de 2021 – dia de sol, bonito, bonito demais. Ontem terminei a arrumação da cômoda e das estantes onde estão (o presente não se fez passado, permanência dos danados dos cupins…, já sei que é tempo perdido, guerra perdida, paliativo, os pozinhos voltam/voltaram/voltarão… Toda a manhã em função da faxina dos vidros, faz a diferença, muda o cheiro. Depois, dormi um pouco, o corpo doí, preciso emagrecer. Tirei a mesa preta (agora na garagem), o apartamento aumenta, móveis pesados, grandes. Espaço, no meio da casa, alecrim dourado. Ainda estou cansada. Escrever me animaria, não. Vou caminhar um pouco com a Ônix. Com ela/para ela foi um dia corrido (as faxinas são novo jogo de esconde-esconde, ela tem horror!) e de estranheza, amanhã a segunda dose da vacina. Ana virá bem cedo.

Vacinada. Etapa vencida, brotam ideias de ir e vir, necessidades prementes, desejos urgentes: deveria ter comprado mais flores, e doces. Acertei no peixe. Delícia! A facilidade e o gosto. Na minha pequena lista incluirei temperos. Diz minha amiga que a cozinha, o meu laboratório, traz sempre surpresa boa interessante, vou ensaiar um bolo amanhã… Agora, voltar a dormir. O tempo ficou misturado, um dia com a noite, com o vento: pode ter cota misteriosa de multiplicação, ou a ideia pequenavoluntariosa de ordenar / organizar fica tomada de poder por meses e meses… Mas nada aconteceu: penso em ti todos os dias, provo os vinhos sem entusiasmo, caminho menos, faça planos para resolver aquilo e isso, leio menos, muito menos, limpo, limpo, limpo e a vontade de mudar, ir pro Rio ou pra São Paulo se aquieta. Vejo filmes. E gosto. Ouço música e me entusiasmo. Tudo passa pelo entusiasmo… Tenho que espichar as manhãs. Beth Mattos – abril de 2021, ainda bocejando em Torres, inquieta.

Junho e 2021 TORRES inverno GRANDE e frio como os invernos longos da infância. Lembro das lareiras (as três, queimando nós de pinho), e aquela sensação de vida, o cheiro peculiar, e a dança das chamas! A vida tem estas fatias de gozo espalhadas no tempo. Os nós faziam uma enorme pilha ao lado do que chamávamos quartinho do jardim… Tempo da grama bem verde e as folhagens coloridas abertas… Logo o colégio. Lá também mudava o colorido. O Beco do Carvalho!

18 de julho de 2021 – 75 anos da Magda, logo serão os meus – sim, perto dos 80: rimos / nós brincamos, energia. Acabei de falar com ela. Encontrei uma carta de 1968 – ela fazendo preparativos para uma viagem a Europa, e eu grávida… Sim, história enorme/grande a resgatar, ou a lembrar.

Organizando as cartas do pai, das madres, da mãe, dos filhos, da minha irmã Suzana, dos tios, amigos, do Carmélio Cruz, do Iberê Camargo, fotos da galeria Garagem de Arte repleta / lotada com fazíamos ser. Depois / ou foi antes / a cronologia me escapa. Quando conheci o Jorge, e seu ciúme. Quis apagar tudo para acertar, acertar e recomeçar. E eu, tola, num acesso, coloquei fora muitas cartas da mãe, muitas. Estúpida! Eram diárias as que ela me escrevia quando morei no Rio de Janeiro. Preciosas. Uma angustia se apoderou de mim, era já o ciúme dele, a presença tão constante, exigente. Olhos vigilantes. Achei que poderia sumir com o passado. As cartas da mãe voltavam ao meu casamento com Geraldo, aos filhos pequenos. Ao Rio de Janeiro, ao meu noivado desfeito, outro tempo. Não podemos apagar nada. Somos uma soma. Sempre mais, que pena! Tanta imaturidade minha, medo, vontade de recomeçar do zero, mas não existe zero. Se, de fato, tivesse entrado para o convento, não, estes meus recomeços estranhos. Eu não poderia reduzir destruindo as cartas, precisava carregar a liberdade de ser eu no mundo. Tudo muito bastante tanto demais confuso.

Encontro com cartas datas, e vento gelado em Torres. Sol e luz, e mais… Envelopes e desordem, fotos e juventude.

Onde estarão nossos tesouros?

Mundo pequeno, ou somos nós a coisa pequena…, a pensar. Tuas palavras, teu texto tem a convicção que eu procuro: o real. Acredito que pode acontecer, mas não tenho as mesmas certezas. Consigo ver, enquanto leio a carta, tanto tu quanto eu, somos felizes: talvez esta seja a verdade, a alegria perfeita, o dinheiro chega e desaparece: como brincar com areia. Tomei a liberdade de encaminhar para o Sérgio e para a Joana o que escreveste. Perfeito. Estranho reencontro o nosso. Como se as experiências no colégio fossem o menor pretexto para termos nos conhecido, mas foi lá nas famosas medres francesas que nos encontramos. E a Lúcia? Afinal não nos vimos mais – ficou a boa lembrança – com ela eu convivi mais, tu saíste logo do colégio, no entanto, mesmo morando na mesm cidade não provocamos um encontro. E tu, tu estás perto.

[…] “lindas cartas mandaste – mas gostei mais ainda do que escreveste tu, no final, sobre tua casa, tua mãe.”

O que escrevi? Circular, sempre a infância presa neste fio que define quem somos, mas seguimos sem saber. Sabe – se pelos avós: o amor, nós deveríamos buscá – lo no mesmo quarteirão. As referências seriam as mesmas, e a vida correria, então, lisa, compreensível.

Reencontrei o Sérgio, marcados pelas lembranças de meninos. E certos, os dois, que as famílias (avós, pai e mãe) nos aproximam, definitivamente: não importa sermos ou não sermos namorados, definitivo como tempo vivido, reencontrado. Éramos / somos os meninos de antes com as cabeças brancas: vidas em pedaços, perdidos e agora ali um diante do outro, estupefatos. Sabor novo. Nas nossas lembranças não nos demos conta que convivemos, de fato, pouco tempo: da Vítor Hugo seis anos entre música, dança, conversa e visitas. Nada sabíamos de fato um do outro, tão natural era estar juntos, enfeitiçados pela ideia das crianças que fomos, dos jovens…, na mesma calçada. Apreendi no mesmo piano que ela tocava o dó re mí , o solfejo, as mesmas notas. Não progredi. O mistério do passado que não se completa na nossa lembrança Beatriz, escapa.

lembranças são meio assombrações, às vezes me entristecem e me fazem pensar em tantos ‘turning points, escolhas, rumos tomados, inflexibilidades, doçuras… são os contrastes que nos permitem viver, já pensaste? se tudo fosse só bom, a vida seria chata demais, se fosse só ruim ou quando a gente só enxerga pelo filtro da depressão ou da tristeza, da saudade, quase intolerável.

Os contrastes, com eles esclarecemos os desencontros: nos perdemos e nos reencontramos, circularmente. Sequer fizemos escolhas, apenas respiramos, minha amiga. A vida nos aconteceu… Fizemos escolhas? Não tenho convicção.

O dinheiro, realmente, é o que dá peso, os filtros (da tristeza, da alegria etc.) são trocados pelo dinheiro – não que ele seja a coisa ‘mais’ importante da vida, mas é a coisa que regula…

O dinheiro define, tens razão. Fugir dele não resolve, não pensar, muito menos, negar – nada finda, nada começa sem passar pela moeda, os talentos bíblicos explicam isto ( a Parábola dos Talentos, lembras? ) Repensar todos os significados possíveis, redimensionar o valor deste condutor de vida. Sempre foi ele quem conduziu o mundo.

“sempre tô caraminholando algum jeito de abrir os cofres da fortuna, só preciso achar aonde estão…

Onde estarão os nossos tesouros? Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2021 – Porto Alegre – 2005

…intenso. E as Madres agostinianas importaram: amigas, correspondentes. Cartas pontuam a vida: Madre Maris Stella, Madre Paulina, Madre Hermínia… E o tempo enrola tudo. A correspondência encerra, no papel, mundos entrelaçados, esquisitices e tanta amorosidade…

espiritualidade

Todos os dias eu juro que vou me aperfeiçoar no jejum pra catar lucidez, ferver espiritualidade, mastigar certezas. Todos os dias eu tento, mas não consigo. Do jejum ao feijão com arroz. Devoro os assados. Bebo sucos e bebo também o que encontro nas garrafas com bolinhas. Depois pão de aipim. Ou aquele pão estalando dourado, quente para a manteiga derreter, ou o requeijão umedecer, a geleia adoçar. Café com leite. Chocolate quente. Um bolo de laranja! Logo o jejum da sesta derramada, pesada, escondida nos lençóis perfumados. (Como eu gosto!) Vou dormir, vou dormir tanto que nunca mais terei fome, vou ficar no meu sono, magra, bonita e perfumada. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2021 – Torres num dia perfeito: sono bom, caminhada boa, conversa boa, e teclado apressado…

banalidade

O esquisito do amor não é tanto florir, mas plantar, adubar, cavar e fazer nascer a ideia de crescer, deitar raízes: depois sossegar. Ora, ora! Amor é um minuto, um segundo, um sem tempo, um lampejo… Depois termina, ou se estica na preguiça.(Vai de cada um o jeito de amar!) Depois vira corrida, vira sonho. Pressa. Conquista. Posse. O intenso se atrapalha com as fraldas, as frutas a descascar, os beijos urgentes, assados regados a vinho e tanta preguiça! Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2021 – Torres