sem descanso

Alma, temeroso pássaro, / A toda hora perguntas: / Quando virá repouso, quando virá paz, / Depois de tanta luta? / Ah, eu sei: mal chegam dias sossegados, / Uma nova saudade já transforma / Cada caro dia teu em um tormento. // E, mal oculta no abrigo, / Vais procurar novos dissabores / E cheia de impaciência incendeias / O espaço como a mais nova estrela. Hermann Hesse TRANSFORMAÇÕES

blindados / somos, os dois

Acordo querendo te dizer, soltar alegria, festejar teu jeito de olhar, e de dizer as coisas, de sentir, lembrar de nós dois a dançar concentrados, quase preocupados com a perfeição de sermos nós os dois, os caçulas e na convivência a seriedade. As fantasias, se existiram, muito apertadas na seriedade, éramos amigos. Transitamos por casamentos perfeitos, extraordinários, não foram casuais. Bonitos, inteligentes, quase perfeitos. e nós éramos perfeitos? Pois é, talvez a questão seja esta, por que nos queriam tão certos / tão conviventes / tão adequados? Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2022 – Torres

envelhecer o tempo

O tempo envelhece, nós somos parte ínfima deste envelhecer, o esquisito deste tempo somos nós a envelhecer…

Um estranhamento.

Congelo a memória, e depois, com o sol ela vai derretendo, aos poucos aquela água transborda, as pétalas pesam… as pétalas das rosas do jardim da Marina.
Aquela história, aquele colorido, aquele tempo encolhido, enfiado na caixa amarela, a remexer a memória do tempo, não apenas o meu, tanto tempo!
Angélica / Lygia Bojunga Nunes: o teatro, os alunos a Escola da Vila São João – alegria de

alegria, de lecionar, de estar lá, e o poder envolver o tempo!

De viajar / acertar Limoges, estar na França.
Depois a nostalgia, a despedida pode ser um encontro / e foi perfeito ir / voltar / estar e ter Torres.
A Dark, fazenda Santa Branca – Rio Pardo também, Santa cruz do Sul – seria eu? Outra vida a passear!
É o tempo passando / ou sou apenas eu a envelhecer? Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2022 – Torres –
As cores do cabelo, as possíveis, a mutação! Mutações!
Ana, eu, Luiza e Cláudio Bohrer

em silêncio

Em silêncio deveria permanecer quando a

Quando ficamos em silêncio, nos tornamos desagradáveis, disse Edgar, quando falamos, nos tornamos ridículos. Estávamos sentados há tempos diante das imagens no chão. Minhas pernas adormeceram de tanto sentar. Com as palavras na boca, pisoteamos tantas coisas quanto com os pés na grama. Mas também com o silêncio. Edgar fazia silêncio.” Herta Müller – Prêmio Nobel de Literatura 2009, nasceu na na Romênia em 1953. Tradução Cláudia Abeling – título original Herztier

quando desagradáveis em silêncio porque…

quando falamos, ridículos, (porque temos que nos explicar, esmiuçar, dizer o mesmo sentimento repetidas vezes), o mesmo…

as pernas adormecem “de tanto sentar”, de irem aos mesmos repetidos lugares / adormecem de cansar, eu poderia dizer? um texto é muito maior do que as palavras, claro, ela sabe dizer…

pisotear com os pés e com as palavras. Elizabeth M.B. Mattos – eu ouso continuar – 2022 – Torres

atravessar

Perco o fio, e, enrolada nele, a vontade de escrever / ou será a vida afogada nesta chuva invernosa, neste cinzento completo. Falta o cheiro da estação. Tanto frio eu sinto, ou este frio eu penso!? Não sei. Escuto vozes, eco, arrastam-se os risos protegidos do vento! Vou preparar a coragem, ando lenta lenta! Lenta! E a leitura desviada, presa na segunda guerra, logo a narrativa de outras guerras! Nós gostamos da batalha! Não é estranho?! Estar perto seria mais fácil sem o ciúme apertado do amor, apenas sentir! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2022 – Torres, parece mais frio que o outro inverno, mas é apenas o frio…

Herta Müller

uma pista / uma pedra / o frio do lençol

” Georg escreveu: As crianças não falam frase nenhuma sem: ter de. Eu tenho de, você tem de, nós temos de. Mesmo quando estão orgulhosas, elas dizem: Minha mãe teve de me comprar sapatos novos. E está correto. Também sinto isso: Tenho de me perguntar todas as noites se o dia vai chegar.” (p.139) Herta Müller – Fera D’Alma

tu e o vento / tu e tua beleza / tu / tua instabilidade alegre

se eu pudesse dizer, abrir aberto o desejo fechado, eu te contaria todas as histórias, e tu compreenderias

se eu pudesse…

eu queria que o amor brotasse de novo, assim como a grama cortada. Ele deve, desta vez, eu te prometo, crescer diferente, assim como os dentes das crianças, o cabelo, as unhas. Ele deve crescer como quiser e tu entenderás do céu, da calma, e da paciência.

tão cansada passei o dia, dolorida, cansada. Assustei-me com o gelo do lençol e depois com o calor que veio quando me dei. E dormi a tarde comprida, e entrei na noite. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2022 –

couve e feijão

Couve refogada / feijão, batatas douradas e pensei na Inglaterra. As minas, aquelas pessoas enfiadas naquelas cavernas o dia inteiro, as batatas, no meu imaginário introduzi o feijão e a couve. Na couve fiz o capricho, o gosto, a ideia inteira. Não. Não vou comer carne. Nem farei arroz. Feijão, couve e batatas. A comida define a pessoa. Então, hoje, durante toda a manhã, com picareta e coragem estive nas minas de carvão da Inglaterra. Estive com eles. Sem falar, não digo muita coisa em inglês, mas sei o quanto foi complicado, difícil aquele tempo! Preparar a comida é um exercício de sobrevivência, assumir o real. De repente, depois de um bom sono, um bom banho, uma boa caminhada, as panelas e os aromas! A comida! Define quem sou. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2022 – Torres

outro lado

Existe um outro lado do mundo, minha filha, um mundo escuro/obscuro/conhecido, mas não é o nosso. O sol e toda a luz deste inverno está no teu olhar, na lenha que colocas no fogo, no teu chimarrão, no cheiro de mar que invade tua casa, mal abres a porta! Nas venezianas escancaradas. No teu gramado, e na passarinhada agitada pelos ipês, pelas bananeiras, limoeiros e laranjeiras. Então, as pinceladas das tuas fotos, o colorido da tua comida, e os teus filhos, completam a luz! Este teu olhar, cansado de estudar, de fazer e fazer, de cumprir e ser, faz parte do momento, o fugaz! Aquele que o sono pode ser maior, a preguiça voluntariosa, e a vontade de se entregar pro amor, um, duas, três vezes a única solução! Ah! Este encontro com o amado faz o mundo desaparecer! Então! Então esquece o jeito de entender ou compreender / deixa o domingo rolar! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2022 – Torres