trocar de roupa

… a recordação assemelha-se a uma cebola, que precisa ser despelada a fim de que seja exposto o que então pode ser lido letra por letra…” 

Mas eu cresci e cresci. Já com dezesseis anos, quando cheguei ao trabalho obrigatório ao reich, consideraram que eu crescera o que tinha de crescer. Ou será que por fim medi 1,72m apenas quando me tornei soldado e sobrevivi só por sorte ou por acaso ao final da guerra? Nem cebola nem âmbar dão importância a essa pergunta. Os dois preferem saber de outras coisas com mais exatidão. O que há de encapsulado: o que foi engolido com vergonha, segredos que sempre de novo trocam de roupagem. Aquilo que ocupa seu ninho como os ovos de piolho nos cabelos. Verbos evitados verborragicamente. Estilhaços de pensamento. Aquilo que dói. E continua doendo... (p.59) Günter  Grass Nas peles da cebola

livro gras

Sim. Existe o que aparentemente nunca existiu, pulsa no interior. Dificuldade para entender a guerra. Quem fugiu da Alemanha, mas em algum momento compactuou porque era alemão. Eu me sinto amassada, triturada pela leitura. Não sei se quero esta memória. Günter Grass se desdobra com veracidade, coragem, total nudez. Como é difícil dizer a verdade. A ficção é tão confortável! Se fazer personagem num Eu… Dizer a verdade, escrever sobre o que foi/é a verdade… Difícil! Tropeço na leitura. Será que eu quero alguma verdade? Elizabeth M.B. Mattos. Torres – 2019.

 

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Aquilo que dói e continua doendo. Aquilo que respira enterrado. O equívoco. O monstro que alimento e me espicaça. A leitura poderá sufocar, ou a vida salva e transforma.

A Ladeira da Memória

Velhas e incansáveis citações. O livro me perturba, estremeço. Preciso me agarrar ao corrimão e descer as escadas devagar. Subir parece mais fácil.

“-Não sei se me faço entender… Se queremos andar, caímos. Já a noite, todavia, anda muito certinha desde milênios. Isto é, certinha relativamente. Na grande viagem ela também oscila um pouco na ‘bitola’ por causa das folgas e apertos a que os sábios chamam mutações e processões…

De fato íamos num embalo.

-Ah! A noite! Vai atravessando estas bandas, desmesurada e compacta, preservando o que recebeu do dia, guardadora fiel da contingência legal do tempo horário… Sim, realidade opaca, não imóvel nunca mas sempre conteúdo e medida, instante e sucessão, ela é indiferente e cega, cega e inumana…

Pensei comigo: ‘ Meu tio deixou de ler os clássicos, anda agora a ler ciência e filosofia…” (p.21) José Geraldo Vieira A Ladeira da Memória

Eu me salvo a cada parágrafo. Beth Mattos

 

quando engoli perguntas

Droga! Indigestão. Contar e perguntar lava o passado, alveja, perfuma a vida. Danadas lembranças/memórias se abrem expostas, machucadas. E tudo empurro… Há de haver um buraco bem grande para se enfiar com elas, e depois volto ilesa. Viver é tão bom! Estou com Günter Grass “Porque e também aquilo tem de ser lembrado. Porque poderia faltar alguma coisa petulantemente dando na vista. Porque quem foi que e quando foi que caiu no poço, e isso quando já era tarde demais: meus buracos tamponados apenas mais tarde, meu crescimento irrefreável, minhas relações linguísticas com objetos perdidos. E também este motivo de ser mencionado: porque quero sempre ter a última palavra.

A recordação ama o jogo de esconde-esconde das crianças. Ela se escafede. Inclina-se a embelezar as coisas e gosta de enfeitar, muitas vezes sem motivo. Ela contraria a memória, que se mostra pedante e, quizilenta, quer ter sempre razão.” (p.10) Nas peles da cebola – tradução de Marcelo Backes, Record, 2007 – Rio de Janeiro

eu foto do joão

Solange

Minha amiga Solange está certa, o aperto que aperta e estrangula se gruda na finitude da vida, agora, nesta idade, tenho certeza, mínima certeza, se sou lúcida e lógica ou coerente e pessoa, vai terminar a festa no por do sol. Elizabeth M.B.Mattos – janeiro de 2019

brinca desconfiada

História travada. Vazia de sentido. Sem personagem, nem divagação. Inteligente, emocionalmente, atrapalhada. Boneca mimada, brinca desconfiada entre acertos certos. Encabulada, escondida. Casa ruidosa. A mãe acende um cigarro depois do outro entre costuras bordados, enxovais. Um armário cheio de portas, depois de abrir a primeira, uma alavanca, outra porta se abre. Bom esconderijo aquele.  Livros se enfileiram nos seus olhos.  Sabe – se o que pode e não se pode fazer. Seguindo sinais na rota, tudo é possível. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2019 – Torres

mundo de brennand

desvio

Este desejo plural de ter esta ou aquela vida gera certa angústia, aflição, até entristece. Desejos não são apenas complementares. Escolhas obsessivas e lineares dificultam sentimentos concretos, se posso definir sentimento como concreto. Não quero apenas a boneca vestida de Chapeuzinho Vermelho, quero o bebê com fraldas, também a vestida de princesa. Quero todas bonecas da vitrine. Insatisfação com o limite da escolha. A interferência prazerosa de uma pessoa altera tudo. O desejo é plural maior do que um compartimento limitado que a vida possibilita. Amar alguém  em especial como único  será  limitar. Ter que escolher entre este e aquele amado. Ou não escolher. Uma gramática complicada em português ou na matemática.  Viver é  o caminho,  o fazer e as pessoas o oásis a ilusão. As interferências  o sal ,  o gosto,  a explicação. Nossos lamentos se desenham em abraços e beijos. E apaixonar ou enlouquecer de amor não se explica. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2019
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lugar certo

Voltar ao lugar certo: revisitar o jardim das hortênsias encher o bolso de pedras redondas. Passar o café, esquentar o pão. Geleia e manteiga. Descascar frutas. E o dia se confessa tranquilo e feliz. Beth Mattos – Torres janeiro de 2019

mulheres emolduradas