memória das justificativas inexplicáveis…

1.

Nada fácil entrar sem quebrar a casca, deixar escorrer o que importa, guardar o essencial, não é fácil. Malabarismo. Desviar das pessoas, dizer a verdade, sentir intensamente. Como todos os sentimentos intensos nos são vedados, somos metade. Nos enfiamos na vida do outro, na metade e respiramos. Os homens foram por muitos, muitos e muitos anos escudos da beleza, da feminilidade, da palavra até de uma mulher. Um jogo estranho, afinal somos seres humanos, e deveria ser irmandade. Não. Há a tal guerra de vaidades, aquele comportamento ligeiro, descuidado de uma pessoa com a outra. Um descaso aparente, mas sempre descaso certeiro.

A vacina chegou cedo para mim, pragmático? De certo terei outras oportunidades, outras vidas, ou já sou a sobra de vidas vividas. A minha alegria espanta o dia porque não tenho motivo nenhum para festejar, igual festejo. Costuro os humores carregados. Desligo as vozes cruéis. Protejo os olhos do sol. E deixo a chuva me dar prazer. Uma observação esquerda vira direita. Um jogo de acertar, de perder e ganhar como quebra-cabeça.

Eu volto as mesmas histórias quando se trata de descobrir o caminho de chegar na paz. Paz serenidade, encontro e amorosidade.

Aquele rapaz que encontrei aos dezoito anos tão disponível na casa do meu primo Eduardo era um engodo certo que se pretendia político. Ah! Se eu soubesse o perigo destes almofadinhas! Era irmão de uma colega de colégio. Daquela facilidade com armadilha. Desprevenida, atabalhoado e alegre. O Colégio Bom Conselho parecia apenas festa, o rapaz era azul naquele mundo. Incorrigível distraída, e mergulhada em futilidade objetiva, noivei.  O rapaz, brinquedo de sonhos, indeciso se deixou conduzir (inadvertidamente brincou e brindou e puft, desapareceu…), Cerimônia século XIX, romance rosa de M. Delly, céus! O divertido enxoval, e preparativos não deixou tempo para pensar. Meninas se casavam cedo: estaria no calendário daquele ano. Noivado morno de beijos sem abraços, apenas gustativo nos jantares, nas horas marcadas. Céus! Como o meu romantismo de revistas em quadrinho, e conversas avoadas me fizeram voar… L.A. era de uma vaidade inquestionável e raso sentimento. Nada percebi, aliás, eu não sabia nada de mim mesma, como saberia alguma coisa de nós? O carimbo feito do mesmo jeito espantoso e coerente veio em seguida: personalidades encolhidas, canhestras e sem brilho, alguma coisa devo ter feito, coisa indevida. Depois de sete ou oito meses o mesmo pai engravatado e cerimonioso, sem maiores explicações, veio devolver a menina descompromissada demais, irreverente demais, e ou milhões de coisas que não sei. Fiquei chocada, estupefata. Fiquei marcada. Fiquei ferida. Fiquei machucada. E me levaram para o Rio de Janeiro. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2020 – Torres

Clarice Lispector e suas mágicas.

– madrugada – Inquietude do corpo, dor na perda, no braço. Inchaços do corpo. O espelho perturba. Posso passar o dia num fazer tranquilo, agarrada na boa rotina, e foi apenas mais um dia. Quero estar na sensação certa, nem sempre acerto. Escrevo. – Aos pedaços, livros inacabados… Fotografo a casa. Cozinho. Faço um suco, experimento o vinho. Depois, saudade indefinida do que está a passar, do que está a me esperar… Loucura: desejo pequeno e egoísta de ficar/ser/estar tu mesma outra vez, ou sempre. Não é assim…, mas quem explica para quem o certo ou o errado? Cortes esquisitos. Não digo. Não explico a chuva. Escuto vozes sem ouvir / entender, ou escutar. Olho pela janela distraída. É bonito. Penso em mudar, e ir/voltar para Porto Alegre. Energia nova. Às mudanças de casa, de cidade, de jeito, de rua…, mudar. O olhar, o gesto, o cheiro afiado…  Comprar perfume, flor, livro. Descobrir novo autor. Fio de esperança, lágrima escondida. Nem sei mais… Nada mudaria nada. Nenhuma fala ou explicação resolve. Como disse um amigo, esmiúças, este muito/tanto!, de nada adianta… Não adianta mergulhar e esparramar o mesmo, sempre o mesmo. Eu o aborreço. Como se as perguntas tivessem necessariamente que ter respostas. Ou as festas não terminassem. E o enterro, a despedida, a morte tivesse respostas. Não tem. Estas questões se retorcem. Conhecer mais, ou menos de mim mesma, dos outros, do manejo do pejo, encontrar um hoje melhor ou pior. O mesmo. Ser pessoa / gente entre outras pessoas, olhar mais, esquecer menos…, constatações.  Medidas. Estou tão e completamente esvaziada que o desejo de viajar/ de mudar se acomoda nas arrumações das gavetas.  Entrar no avião… Depois estremeço mais um pouco. Certezas? Perdi convicções.  Assim mesmo inverto a conta. Brinco de durar 95 anos, lúcida, ou 100 anos como a velha de Garcia Marques, amarrada numa árvore milenar, brotando. Poderei ainda fazer? O quê? Brincadeira engraçada de medir o tempo, de agarrar o cálculo. Escuto a Ônix roncando. Dorme esparramada na cama que fica ao lado da minha. Como eu gosto deste som!

Tirei duas fotos. A louca e desesperada loucura de fotografar para confirmar.  Desenhar antes de escrever. Escrever antes de pensar. Lembro do FT a me explicar / confidenciar o mecanismo ativado de poetar. Bonito aquilo de dizer antes, e depois, e sacudir tudo dentro do saco das ideias do rascunho: o livro seguinte. Parece isso mesmo viver. O livro seguinte. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2021 – Torres

rastro

Beleza e poder. Rastro de estrela. Sucesso. Fotos, aquarelas, desenhos, ideias, rascunhos, textos, e um pedaço de novela num novelo de lã azul. Amados amores esfriam: acrescento pimenta… Gasosa água gelada. Mastigo coloridas mangas, lambuzo as mãos nos pêssegos macios. Chupo uvas rosadas, delícias sem sol deste verão. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2021

Pedro Moog e o café carioca

devagar divagar desligar

Amanheço quando o mundo dorme, desperto devagar: vejo escuro. Ouço. Gosto do entardecer. Conversa o silêncio… Amanhecer, recomeçar, refazer. Que venha o sonho! O sono! Junto a compreensão. Não entendo nada, afinal, também eu não sei do que se trata, com certeza Geraldo estava certo.

Geraldo Moog

Impossível que uma cidade não desempenhe algum papel em nossas vidas. Tampouco faz diferença se temos coisas boas ou ruins a dizer dela: o fato é que, por meio de uma lei de gravitação mental, a cidade atrai nosso espírito.” (p.24) K. Blixen A fazenda africana

Eu me pergunto por que Torres? Torres não responde, não explica nada, apenas me esconde neste longo entardecer. Bom! Logo amanhece, recomeço a pensar: por quê? Aceito. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro 2021

sonoro domingo amanhece

Ônix acompanha nascer o dia. Passarinhada: festa fresca e limpa. Chuvarada carrega um tanto e tudo para a lagoa, lagoa… Devo comprar um maiô. Voltar ao mar, salgar o corpo, pintar o cabelo, estremecer o tempo. Estou / vivo naquele limbo (in)desejado: pacífico, inquieto. Tanto a ser feito sem definir/sem saber! Pinguinho de disso ou daquilo, e sou eu sem coragem de contar. Beth Mattos – janeiro de 2021- Torres.

chuva e palavra amiga

destes dias amorosos, inquietos e completos

quando tu chegas, e me abraças: não falamos, e assim quietos deixamos o coração acalmar

eu te perdoo: dias , meses, ou ano sem notícia, eu te perdoo, tão logo / apenas nos beijamos

impressionante como esquecemos todas as ausências!

hoje foi um destes dias completos. Beth Mattos

radar

Sinto o que acontece. Pressinto. Covarde, nem sempre assumo a palavra, fujo. Omitir pode ser ruim, assumir complicado. A lucidez perturba. Convencer difícil. Uma cabeça pensa e gira e se alimenta, e o outro? Escorrega. O inimigo se aproxima, manso e ardiloso. A vida se estende por caminhos estranhos. (Sinto medo, não por mim, mas por ele, estremeço.) A ingenuidade / a tolice: o crédulo indefeso, não enxerga, acredita com boa fé e perde. Alertar faz o coração se agitar, a responsabilidade, assusta. Não se envolver, covardia. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2021 – Torres

desacorçoada


Urca – Rio de Janeiro

15 de janeiro de 2021 / sexta-feira . Desanimada. Sim, desanimada. Três  dias imobilizada, terça – feira, na metade da tarde, cortei o pé direito,  fundo. Bastante dor. Esta imobilidade me deixa exausta. Não encontro o sono, nem a preguiça. Preciso me acomodar na cadeira, ficar quieta, mas… De natureza agitada, cada dia fecha uma semana, uma enormidade: tempo e vontades a serem engolidas. Hoje coloquei roupas na máquina de lavar, pendurei, depois dormi um pouco.  Mais um pouco. Outro pouco. Parada necessária. O freio corta o dia, faz dois maçantes dias.  Parada necessária alonga: esticam as horas. Não leio nem escrevo. Eu me aborreço.  Coisas  presas da rotina interna, não do dia: ranço da alma. Café com leite cansado. Cansado deste nada fazer. Cansado de esperar. Estancar, curar, costurar o pé. Que se feche a pele. O vidro rasgou bem fundo. Rasgo vermelho, costurado. Espectadora. Então, me preocupo com a Ônix a querer passear. Também ela entristece desacorçoada… A natureza de fazer/ polir/ limpar se afunda.  Foi só  um corte, mas deixo que seja rio turbulento e agitado. Lembro de outros desastres de pressas desastradas.  Esperar, acalmar e enternecer, verbos necessários.  Desenho interrompido,  voz sem música.  Dia cinzento e fresco. Temperatura limpa, quase invernosa.  Súbito chegam as fotos  do Rio: sinto saudade. Saudade atabalhoada da juventude livre. A conversa se espalha. Depois, monólogo, conversa enroscada. Estas paradas necessárias esfumam / colorem / interpretam… Efeito pandemia: tristeza. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2021 – Torres 

desordem nos espíritos

“1905

Eu me lembrava de ter lido não sei onde que Belloz observava que, quando a desordem anda nos espíritos, as leis tornam – se numerosas e são sem cessar as reclamações de novas leis que nada conseguem, porque o indispensável é reformar os espíritos, para o que elas são impotentes.” (p.48) Lima Barreto – Diário íntimo Fragmentos – Mercado Aberto – 1997

anfíbios

A releitura devolve o tempo. Reflexão. Um amontoado de passado nos livros lidos / relidos. E já escapa porque envelheço, eu me agarro nos galhos da alegria. Eu me enfio nas malas dos filhos, e dos netos para estar com eles, onde estiverem, invento. Não muda o destino. Não permanecerei, sou transitória. É preciso dizer adeus. Perdas são encontros internos. O Planeta Terra deve permanecer, mesmo ao se transformar: ele é o infinito. Ou também não é? Beth Mattos

O homem é um anfíbio que vive simultaneamente em dois mundos – o mundo da realidade e o mundo por ele próprio fabricado – o mundo da matéria, da vida e da consciência e o mundo dos símbolos. Quando pensamos, fazemos uso de grande variedade de sistemas de símbolos: linguísticos, matemáticos, pictóricos, musicais, ritualísticos. Sem esses sistemas de símbolos, não teríamos arte, nem ciência, nem lei, nem filosofia, nem sequer rudimentos da civilização; em outras palavras, seríamos animais. Os símbolos são indispensáveis. […] As soluções coletivas, a que muitos se apegam com tanta fé, nunca são adequadas. ” Para se compreender a miséria e a confusão existentes em nós mesmos e, portanto, o mundo, temos de encontrar dentro de nós mesmos a clareza que nasce do Pensar correto. Tal clareza não se presta a organização, pois não podemos permutá – la entre nós. O pensamento do grupo organizado é puramente maquinal. A clareza não é resultado de asserção verbal. O pensamento correto não é produto ou mero cultivo do intelecto, nem é tampouco, conforme a padrão algum, por mais digno e nobre que este seja. Ele vem com o autoconhecimento. Se tu não te compreendes, não terás base para pensar; sem autoconhecimento o que pensas não é verdadeiro.” (p.7-10) Aldous Huxley – prefácio do livro a primeira e última Liberdade Jidu Krishnamurti / terceira edição Cultrix 1972

Este constante ‘vir a ser’, alcança um estado após outro, gera contradição, não é verdade? Por que então, em vez de encararmos a vida como um desejo permanente, não a encaramos como uma série de desejos transitórios em oposição entre si? A mente não tem necessidade de viver em estado de contradição. Se considero a vida, não como um desejo permanente, mas como uma série de desejos temporários, que variam constantemente, não há mais contradição.” (p.63) Jidu Krishnamurti – a primeira e última Liberdade