volta para a ficção

Eu a delimitar o Eu. Emparedar ideia, não deixar escapar: o que acontece não importa. Não é real, nem verdade. O corpo se estende no cansaço do corpo, então, as pernas se acomodam, soltas, livres. Eu me refestelo, arrumo o sono manso. O sono entendido se anima para dormir, amanhã, amanhã será/é promissor. Chuva e chuva, água chorando, e depois, vamos ver. A trovoada vai logo passar… Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2022 – Torres

nada vezes nada

coisa vazia de ser, coisa grande,

coisa engaçada,

coisa triste = nada

as coisas me cercam no vazio:

o nada

ainda a vida.

ao sorriso brejeiro,

as flores do vaso, as pedras,

as colheres de pau,

o enjoo.

o nada

esquisitices do tempo. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2022 – Torres

O bule

O BULE

O bule de chá vermelho.

O desejo de consumir me persegue: formato, cor, o bule branco inspirado no Buda. As canecas pequenas: folhas de chá flutuam sobre escultura, reproduções de Buda. Sinto o perfume da erva…

Ontem de tarde sai com a ideia de comprá-lo: examinei, olhei e larguei. Pensei nas xícaras, onde eu beberia o chá depois da infusão? Entrei na loja ao lado… Comprei fronhas, uma vermelha outras brancas. Em casa recostei-me.

Hoje acordei pensando outra vez no bule vermelho. Contabilizei. Não posso comprar pelo simples prazer de olhar… O formato? A cor, ou o desejo de beber chá? Não sei exatamente. Pensei no bule branco com o Buda… Peça exclusiva, tu me disseste, sem te sensibilizar com o meu olhar de cobiça… Olhar aguçado para o interior do objeto. Não apenas cor, formato, utilidade, mas antes de tudo, beleza. A matéria sustenta a forma, como o olhar persegue o belo.

Os bules de chá…

Claustrofóbica, sem acalmar a sensação de peso, aborrecimento que sentia sai outra vez. Não fui buscar o bule, queria ir ao cinema. O filme francês. A sessão já tinha iniciado. Dei meia volta, entrei na livraria. Separei três livros: pensei nas contas, comprei apenas um.

De volta ao quarto. Estiquei as pernas, e comecei a folhear o livro Entre Nós de Philip Roth: conversa de um escritor com seus colegas de trabalho. Iniciei por Mary McCarthy, correspondência. Depois, Conversa em Londres com Edna O’ Brien. Mulheres. Instinto ou magnetismo? Roth inicia descrevendo a rua, o prédio e depois o lugar onde ela vive.

“No escritório há uma escrivaninha, um piano, um sofá, um tapete oriental de um tom cor de rosa mais escuro que o papel de parede marmorizado, e pelas janelas à francesa que dão para o jardim vê-se uma quantidade de plátanos suficientes para encher um pequeno bosque”.

Volto a visualizar o bule de chá vermelho. Mentalmente o coloquei sob uma mesa imaginária naquela sala. Na descrição Roth ainda cita a famosa foto de Virginia Woolf. O volume de obras completas de J.M. Synge aberto no capítulo de The Aran Islandme. Menciona um volume da correspondência de Flaubert aberto numa carta para George Sand. Em seguida cita uma epígrafe escolhida pela autora:

“Antes de mais nada, quero dizer que não perdoo ninguém. Desejo a todos uma vida atroz nos fogos do gélido inferno e nas gerações execráveis que hão de vir”. Malone Morre, livro de Samuel Beckett que li neste verão em Torres… Diz ele que não encontra esta aspereza na sua obra. O’Brien justifica e explica.

“Quando tenho uma explosão, depois me sinto na obrigação de ser conciliadora. Isso tem acontecido ao longo de toda a minha vida. Não sou uma pessoa naturalmente dada ao ódio implacável, como também não sou uma pessoa naturalmente dada ao amor incondicional, e em conseqüência disso muitas vezes entro em choque comigo mesma e com os outros!”

Logo a seguir.

“Eu reclamo da solidão, mas ela me é tão cara quanto a idéia de me unir a um homem. Já disse muitas vezes que gostaria de dividir a minha vida em períodos alternados de penitência, gandaia e trabalho, mas como você certamente compreende isso não funcionaria muito bem num casamento convencional.”

Senti o prazer da leitura…

De forma direta a escritora irlandesa reforça sentimentos que eu conheço.

Somos todos tão iguais! Ou nos buscamos a cada nova leitura?

Esqueci por um momento o bule de chá vermelho.

Estou no escritório de Edna O’ Brien em Londres, escutando a conversa.

Volto a te escrever amanhã. Elizabeth M. B. Mattos – velho texto porto-alegrense.

chegar apressada

Vontade de pontuar com certeza -, como vou chegar? Vou pegar aquele ônibus, ainda tem um lugar. As estradas me surpreenderão. As vozes, as cabeças brancas agitadas com o novo. O que será ver o mar? Não apenas o mar, o infinito. Depois inspecionarei o navio: novo lugar. Água! tanta e tanta água neste mar! (risos) Apenas água. Tudo sob agitação: diversões, confraternização, a boa comida, espero. O bom sono… Claro! Conversas descabeladas e excitadas. Mover o mundo, sacudir a mesmice. E se deixar embalar, acredito. Estarei entregue, dançarei todas as músicas, carrego aquele pote mágico da alegria instantânea. Não estarei a ler, a ler, estarei a rodear, rodopiar. E a música se diluirá na tempestade, nas noites enluaradas, na neblina, sei lá… Ou fará sol grande? Deixarei de pensar, desenharei a fantasia, porque deixei o pote das tristezas e do não posso, não conseguirei entristecer, ensimesmar. Irei. Chegar? Chegar aonde? Como? Alguém me espera? Acho que sim, acho que não. Não avisei. Estarei eu a me encontrar… Se estiveres lá, eu te reconhecerei. Passou tanto tempo! De certo pelos olhos! Os olhos, se me olhares. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2022 – Torres

Que pensez – vous de me silence?

Uma ligação de afeto doce, intelectual e de estima mais do que uma paixão carnal / sexual. As paixões se confundem com o desejo embora se alojem na cabeça: plantadas, ramificam e se emaranham. Em lugar rescende e acorda, então flutuamos…Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – Torres

O silêncio conversa atrapalhado com tuas explicações… E eu caminho apressada, vou a me despir, surpreendo meu corpo, e meu pensamento. O amor escorrega, eu agarro/seguro, e, sinto.

” Que pensez – vous de me mon silence? Le croyez – vous libre? Je parti donc mercredi matin. Il était onze heures passées que mon bagage n’était pas encore prêt et que je n’avait point de voiture. Madame Fut un peu surprise de la quantité de livres, de hardes et de linge que j’emportais. Elle ne conçoit pas que je puisse durer loin de vous plus de huit jours. J’ arrive ici une heura avant q’on se mît à table. ” (1 octobre 1759) Diderot Lettres à Sophie Volland

dobras naturais

ao tempo…

a leitura desliza e alimenta, e floresce exuberante…

mergulhar na música, e no mar, salgar e viver.

“Eram homens do mar, acostumados à solidão e ao silêncio”.

Atentos as minúcias de grosserias e daquela distração inconveniente… Qualquer descuido o naufrágio. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – Torres

zero tempo

Não consumo tempo algum (zero tempo) para me mover de um ponto ao outro. Mas três vezes zero é igual a zero, e zero multiplicado por quantos quisermos, há de dar sempre zero. Portanto há de consumir zero tempo para percorrer todos os pontos que separam de B, ou seja, a linha toda. O que me resta dizer? Se não gastar tempo nenhum para passar de A a B, quando estiver em A, já está em B. Céus! É a madrugada no meio de um macarrão com carne moída (delícia) – ar de tempo entrando pela janela, o mesmo das notícias e do zero decisão, nesta eleição zero. Esquisita, mesquinha ou impotente. Não sei. Vamos nos mobilizar! Para zero situação! Passados quatro anos não seremos nada que outro zero. Assim como a lógica e a verdade não dependem de uma inteligência criada, assim também existe uma moralidade absoluta que não pode ser a função da criatura. Apenas nos deslocamos de lá para cá, meio desorientados, tristes, outras vezes excessivamente alegres, sem rumo.

Então faço um macarrão no meio da madrugada, bebo um copo de vinho e fico deliciada com o gosto da manteiga, do queijo fresco e do guisado no alho! Afinal eu faço o sabor do que como. Eu ainda cozinho, e me atrapalho e sigo.

Esta inquietude que votar exige. Este silêncio que nos impomos, pressão. E consumo de temo ao me mover, imóvel. Escrever tem esta loucura de pensar e pensar, equilibrar, e noutro mundo, na fantasia lógica do tempo., afinal cair como Alice do País das Maravilhas de Lewis Carrol:

” Muito bem – pensou Alice. – Depois de uma queda dessas não vou achar nada demais cair da escada! Lá em casa vão achar que fiquei muito corajosa! Ora, não vou contar nada, mesmo se cair de cima do telhado” ( O que era bem provável de acontecer).

Caindo, caindo, caindo. essa queda nunca teria fim?” (p.42) Lewis Carrol – Aventuras de Alice no País das maravilhas

Claro, que eu, vou chegar ao fundo nesta queda vertiginosa, seja resolvendo isso ou aquilo, trocando os móveis do lugar, tirando a poeira …Ou adubando ‘meu jardim’, sentindo o cheiro! Querendo o ruido da rua, e o silêncio da casa. Vida necessidade, penso mar, não o vejo. Moro no Paraiso, e não sei. Como a minha comida. Sucesso! Caminho duas quadras penso num longo passeio. Troco os lençóis logo que as fronhas deixam de ser frescas e perfumadas… E tomo diversas/muitas chuveiradas, posto que retirei a banheira, deixo a água me acalmar: a água escorre como solução: aquece, refresca, renova meu corpo. A tristeza dos lapsos, das pequenas lacunas, dos esquecimentos curiosos: eu ia buscar um copo com água, uma bergamota, ou apagar a luz? Vou e volto e refaço o trajeto. Il faut cuidado. Sou mesmo eu a me movimentar, a procurar, e acertar? Acerto o capítulo e a leitura inteira me consome. Apaixonada por cada virada de folha! Traição! Outros livros pela metade, outro sonho partido, outras vozes no trapézio. Uaiii!?!, preciso segurar o canto dos pássaros, deve ser o amanhecer. Ainda muito escuro. Vou me enrolar nas cobertas. Vou tentar. Droga! Estamos sempre tentando! Volto as fotos que fiz da Ônix – ilusório jardim nós temos, ilusória música, ilusória alegria. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – Torres

rótulos

Mudam-se os rótulos aos sistemas de governar os homens, mas esses sistemas não progridem, pelo menos no Brasil. andamos em círculos, atordoados… Amarela é a cor do dia. Uma agonia aflita do mesmo no mesmo = estacionamos. Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2022 – Torres

aflições da memória

Em algum lugar está aquela lembrança inteira: reuniões, o baile, a nossa meninice faceira e a música. E dançamos e fomos debutantes…coisas da memória! E o colégio, as cônegas, o internato. Somos este amontoado de lembranças, se nos perdemos umas das outras, perdemos um pedaço da memória, perdemos a parte boa da juventude.

A Memória é uma costureira, e não bastasse isso, das cheias de capricho. A Memória conduz sua agulha para fora e para dentro, para cima e para baixo, para cá e para lá. Não sabemos o que vem em seguida nem o que virá depois. Assim, o ato mais corriqueiro do mundo, como sentar-se a mesa e puxar para perto o suporte com o tinteiro e a pena, pode agitar milhares de fragmentos discrepantes, desconectados, ora acesos, ora apagados, subindo e flutuando e descendo e oscilando, tal como, surpreendidas no varal por um pé de vento, as roupas de baixo de uma família numerosa.” (p.53) Virgínia Wollf Orlando Uma biografia

Quando se abre um livro , a paixão, o feitiço se fortalece, e, escrever fica/gruda como doença, um estado febril ou tortura. É preciso ler, até a exaustão dos olhos, e escrever, mesmo sem enxergar. Um círculo vicioso. Saciados por um par de horas. Então a realidade assume o leme, outra vez, descemos da loucura do mundo novo, ou antigo, ou perdido e reencontramos o café com leite, o arroz om feijão, depois o sono! Uma vontade de chorar, um gosto de terminou sem sentido. E as lágrimas fazem o sono. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – Não acredito que a Lala Aranha espera a visita que não farei, a ternura que não abraçarei…