dinheiro X poder

Os detalhes eram/são o essencial, posso olhar devagar ou num relance, identifico. Também a risada, o tom da voz e o estabanado dos gestos, aquela intimidade casual. Se é servido quer o tudo, e mais. Se tem acesso, abusa de caixas fechadas. Até dos livros das estantes. Da geladeira, e também das janelas. Está em todos os lugares ao mesmo tempo.

A cada estrela um cuidado novo/diferente. Estrelas são determinantes. O tamanho da mala também. O dinheiro amolece. Servilismo, doçura, qualidades.

A dança supera a música. Mesa farta, presentes cintilantes; deslumbramento. Levemente infelizes, mas…  A pessoa que se desconhece, veste qualquer fantasia e segue o Carnaval. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro – 2020

maternidade

Amar com toda a alma e deixar o resto ao destino, era a regra simples que ela seguia.’Vot zapomni [agora lembre]’, ela dizia em tom um tom de conspiração ao chamar minha atenção para esta ou aquela coisa de que gostava em Vyra -“ (p.39) E eu me pergunto se existe um momento, um minuto em que deixo de carregar a maternidade… Será que transferi aos netos? E apenas bordejo o sentimento sério de contar/escrever/transcrever o que vou sentir quando vieres me visitar, e quietos tentaremos encontrar os sonhos, os pastéis e todos os sucos da nossa lembrança porque fecharei os olhos e serei menina, e tu poderás apenas sorrir, feliz…Vamos fazer a roda e vamos nos dar as mãos.

IMG-20200219-WA0019 arco iris.jpg

Foto de João Brentano

Mater / mãe e continuação. Algumas leituras e tantas voltas eu sinto na continuação… Este sentimento a germinar/abrolhar protetor e vigilante a crescer na maternidade: filho e mãe /abraço. Estou a ler devagar FALA, MEMÓRIA de Vladimir Nobokov. Ele escreve com a riqueza russa se posso explicar deste jeito, um vocabulário da elite e não se inibe em descrever o luxo com que viveu, e a delicadeza se estende aos pais, principalmente a mãe. “Minha mãe tudo fazia para encorajar a sensibilidade geral que eu tinha pela estimulação visual. Quantas foram as aquarelas que pintou para mim; que revelação foi quando me mostrou que a árvore lilás brota da mistura de azul e vermelho! Às vezes, em nossa casa de São Petersburgo, de um compartimento secreto na parede de seu quarto de vestir (e no qual nasci), ela retirava uma massa de joias para minha diversão à hora de dormir.” (p.36) E eu me dou conta que filhos e netos, estão cravados na minha vida tanto quanto um dia me senti cravada/apertada/colada na vida de minha mãe e do meu pai. Se oscilo na curva e no encanto, e na incerteza e no absoluto do que entendo amor, estou agarrada nesta luz. E as histórias de insônia, de espera, ansiedade e alegria genuína pertencem a eles (ao pai e a mãe e aos filhos e aos netos). As mães sentem veem com tanta nitidez a nebulosa de um filho! A maternidade. “Por baixo de meu delírio, ela reconhecia sensações que havia experimentado em si própria, e sua compreensão levava meu universo em expansão de volta a sua norma newtoniana. […] e ao escrever isto me volta o toque desta ternura reticulada que meus lábios costumavam sentir ao beijar o rosto dela – voa para mim com um grito de alegria vindo do passado azul de neve das janelas azuladas (cujas cortinas ainda estavam bertas). […] Poucos minutos depois, ela entrou no meu quarto. Trazia nos braços um embrulho grande. […] Ora, o objeto se revelou um gigantesco lápis Faber poligonal, de um metro e vinte de comprimento e grossura correspondente. […] Era, e alguns anos depois satisfiz minha curiosidade fazendo um buraco do lado para descobrir que o grafite percorria toda a extensão do lápis – um caso perfeito de arte pela arte da parte da Faber e do dr. Libner, uma vez que o lápis era grande demais para uso e, de fato, não era destinado ao uso.” (p.38) Não transcrevo a página inteira, quero dar apenas uma leve ideia da beleza e cuidado com que Nobokov escreve estas memórias zela/cuida para que os detalhes sejam preciosos. Nesta lembrança a mãe. Estes laço de amor extremo é a costura da Arte da Lembrança – significado de Vida. Então eu costuro a rua Vitor Hugo os desvelos da minha mãe. Ela deixou de ser ela para estender/esticar o mundo das filhas. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2020 Torres – Tenho este luzeiro aceso enquanto  filhos/netos se agitam a buscar o caminho. E na fantasia estendo o braço, as palavras para a fantasia do parceiro invisível, mas são eles que abraçam / beijam e zelam e acompanham. Bonito fruto – família, sempre podemos esticar a mão.

caneca

Ainda existem aveleiras

AVELEIRAS

“Ainda é possível, para além de todas as fronteiras, partilhar alguma coisa do mesmo verde de todas as fronteiras, partilhar alguma coisa do mesmo verde um pouco adstringente que envolve as avelã; ainda é possível é possível fazer brotar alguma coisa que crie um vínculo, como a simpatia…Velhice é o espaço que nos separa tenuemente da morte; mas dispomos de escolha, durantes breves minutos, entre nos imobilizar pouco a pouco para dar lugar em nossa vida, ou então, ao contrário, confiar em alguma coisa verde…” Robert Kanters

Estou envelhecendo, rápido quando espio o espelho, ou tento tirar uma foto eu me assusto. Eu me assusto. Ainda acredito que todas as surpresas de amor podem acontecer, revejo e repasso com ternura as fotos, e olho o verde das pitangueiras e como as frutas com brejeirice, posso escorregar no perfume do gramado e  voltar a pensar na cera do assoalho, nos lençóis perfumados, no sol atravessando os travesseiros e nas manhã penduradas no sono, sinto o gosto da xícara de café e desejo uvas, geleias e pão fresco.

No entanto, não me sinto velho. Ignoro se os homens de minha idade tem a mesma impressão que eu. No fundo, parece que permaneci um garoto“(p.113)

De certo o J. não vai ler os livros, não importa. Nem vou escrever uma história. Não tenho tempo porque envelheço tanto a cada amanhecer! Nem os dias serão mais ou menos esticados pelas minhas fantasias. O mundo se encolhe progressivamente…,mas eu gosto de te escrever como se teus olhos percorressem o texto e o meu corpo e eu toco no teu rosto. Elizabeth M.B.Mattos – fevereiro de 2020

de volta

Tenho livros de Simenon, ontem eu me reencontrei com  Ainda Existem Aveleiras. Já tarde, sem sono, depois de uma conversa comprida com J. abri o livro:” Naquela manhã, sentia -me eu mais ou menos feliz do que nos outros dias? Não tenho ideia e a palavra felicidade já não faz muito sentido para um homem de setenta e quadro anos.” (p.7) E não não consegui parar. Gostei muito e muito do livro nos anos 80, e dei de presente para a mãe, ela fez uma dedicatória para o pai, e ficou na biblioteca torrense deles como os livros do verão, George Simenon. Eu o guardei. Não. Claro que não pensei que o releria. Tantas leituras interrompidas, em fileiras, em espera e… Eu reli. Estou nas últimas páginas tomada de prazer. Interrompo para escrever. E a cada parágrafo sinto o interesse e a volta. E vou até o apartamento com “o carpete bege”, o aspirador sendo passado, a xícara de café preto. A descrição do apartamento me trouxe a casa da Vitor Hugo, o pai e a mãe, o espírito, e a certeza de que somos este pedacinho de passado resistindo… Tanto tempo para entender a essência!Estou com o hábito de anotar as idades dos personagens e vou a me arrastar atrás das impressões velhas, usadas de uma vida, e ao mesmo tempo, esfarrapadas porque envelhecidas. Céus! Ainda somos os mesmos, Como nossos pais, como diria Belchior na canção… Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2020

https://www.letras.mus.br/belchior/44451/#album:20-supersucessos-2004

 

 

corajosa

Beleza corajosa, a beleza livre se transforma em beleza fictícia, irreal. E o prazer chega/cresce/ transborda inteiro, perfeito porque o sentimento bafeja e a luz ilumina. Não chove, mas venta um amontoado de folhas coloridas, e areia tão fina no vento, esvazia a praia. Confetes de Carnaval. Vozes saem das calçadas e se penduram nas árvores. Deve, logo, escurecer. Este meu sono virado e azul! Elizabeth M.B. Mattos – Tanto trabalhado espalhado, apenas inciado…, amanhã retomo. Fevereiro de 2012 – Enjoada como se o gosto estivesse preso no meu olhar. Vou fechar as janelas. A leitura Las Hortensias de Filisberto Hernández sem foco. Já deveria ter sido feita, agora eu estranho.

Aquella  hanitación seria un presidio en un castillo, el piano hacia ruido de tormenta y en la ventana aparecia, a intervalos, un resplandor de relámpagos; […] “( p.16) Felisberto Hernández, Las Hortensias