sem importância

Domingo, 7

Dia sem a menor importância. […] Acho – me fatigado. Eu o estou, realmente: sinto vontade de chorar. Efeitos das mascaradas sobre mim: essa gente alegrada por uma mudança de roupa causa – me dó. Não me disfarço inteiramente, a cada instante? Sou Hamlet, Werther, Fausto, Pascal e muitos outros, sem que me admire disso; a onde que atravessa incessantemente minha imaginação muda a cada momento e traz – me pensamentos de todos os séculos, as alegrias e os sofrimentos de todos os homens. Vestiram uma fantasia de Pierrô? Muito bem! Eis aí alguma coisa de que rir, e de que maneira! Riso estúpido e louco, digno de velhas calçadas em que andam e do horizonte de construções que oferecem a seus olhos. Quando é que eu sou eu mesmo? Ou: que homem sou eu, se sofro tantas transformações em um dia? Não disponho senão da consciência para verificar pra verificar que não sou os que admiro, e uma profunda unidade para concentrar minha dor. Dai amor e orgulho a uma sombra e serei eu.” (p.109) Sully Prudhomme Diário íntimo  – 1863 –

“É preciso saber dizer a si mesmo: não podes, não deves…”(p.87)

Penso em L…Irresistível atração da felicidade desdenhada! O passado tem olhares disfarçados que matam. Tenho uma carta no bolso há oito dias. Ela partirá? Que imprudência! mas também que esperada emoção! repousar minha fronte em seus joelhos e descansar de existir. Dizer – lhe: a ti o eterno regresso, o regresso delicioso, sempre previsto e desejado, em meio dos desvios violentos de minha vida. Amar ternamente e violentamente.” (p. 95)

Eu penso em ti. E tu sabes o quanto! Porque pensas em mim. Vou voltar a te escrever. Penso em ti. E no teu olhar inquieto e brejeiro. Já estás tão perto! Vem me ver! Eu te espero, sem o sonho, no escuro da nossa imaginação. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2019 – Torres. Ah! Traz um casaco, faz frio e venta na beira da lagoa.

solidariedade

Querida Beth

Agradeço a tua solidariedade de amiga. Tenho sofrido muito. Certo setor da imprensa, por razões obscuras, adulteram os fatos com o evidente propósito de colocar a opinião pública contra mim. Felizmente a verdade triunfou na sentença do juiz. Espero que os desembargadores a confirmem. Irei para o Sul tão logo tudo acabe. Eu me alegro com a tua felicidade. Tu a mereces. Abraços para todos.  Afetuosamente, o Iberê  

Rio, 6 – 4 – 81

Antes, muito tempo antes. Em 1975 a correspondência. Nos tornamos amigos: estranho o percurso pelo teclado a procurar cartas datilografadas, armazenadas. Hoje, na minha fantasia, desejei secretária,  funcionária, um alguém que me ajudasse nesta ordenação misteriosa da correspondência. Das fotografias e até da memória. Dos velhos textos que transbordam alinhavados, mal escritos, gaguejantes. Quando Luiza nasceu Iberê foi ao hospital me visitar. Antes do sempre, amigo. E a história com F.T. se agarra na despedida agônica, como se ele me oferecesse um amigo. Estes elos misteriosos entre pessoas. Cartas. Muitas se perderam… Desapareceram. Ciúme, mal entendido. Eu confiava. Considero correspondência inviolável. Os tempos mudaram. O poder, a posse deforma. Os códigos são outros. Espiar, remexer. Não estamos sozinhos, constantemente vigiados. Tenho mágoas / queixas, não arrependimentos. Mágoas, a alegria me salvou. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2019 – Torres – houve um tempo de que acreditei…, todos nós acreditamos. Tempo de incerteza, o de hoje.

George  Orwell –  1984 – Livro a ser relido.

Era um dia frio e ensolarado de abril, e os relógios batiam treze horas. Winston Smith, queixo enfiado no peito no esforço de esquivar-se do vento cruel, passou depressa pelas portas de vidro das Mansões Victory, mas não tão depressa que evitasse a entrada de uma lufada de poeira arenosa junto com ele.” 

O solitário Winston Smith, alocado no Departamento de Documentação do Ministério da Verdade, é um dos funcionários responsáveis pela propaganda e pela reescrita do passado. Esta é a história impressionante que nós já esquecemos.  A escrita do passado e a escrita do futuro. E eu me perco entre / nos papéis. Nas estantes a procurar livros perdidos / espicaçados na memória gasta e desorganizada, a minha. Antes marcados por um lugar x ou lugar y da memória. Os que devem ser relidos, mas também os esquecidos a espera. Livros! Quantos caberão na mala? Quais devo carregar, e os esquecidos…, voltarão? Estou tragicamente nostálgica. Nada voltará, ninguém. Apenas uma voz na linha telefônica a dizer: Eu faria tudo diferente. Quero o nosso tempo de volta. É um grito azul perdido em Porto Alegre, eu tenho saudade do Rio de Janeiro.

começando…

Estou sempre começando. Mas, na verdade, eu não sei onde é o início. Deve ter havido mesmo um início destas inseguranças. Das frustrações, dos desencontros.

Antônia arrumou a mala, pensou no que eu precisaria… Olhei para ela, laboriosa, mais cansada. Sua agilidade me fortificava. Movimentava o corpo pesado pela gravidez com leveza. Eu me dei conta do quanto viajar era/seria inoportuno: não estaria aqui quando a criança nascesse. Era tarde para mim. Enfim, eu descuidava das recomendações. Principalmente Antônia precisava de mim. Baixei os olhos. Sobrevivência seria olhar pela janela, olhar pela janela, olhar pela janela. A vida repetida na tristeza: pressão. Lágrimas. Fui acarinhada, abraçada. Arrumou o meu cabelo.

– Está tudo pronto mãe. Artur colocou gasolina no carro, revisou os pneus… Aprumei meu corpo. E pegaria aquele avião. E.M.B. Mattos 1999

a esperar na penumbra

O rosto contraído, fechado, colado na vidraça como se esperasse desde muito, muito tempo. A casa na penumbra. A noite de lua acesa. Seu rostinho redondo se abre num sorriso. Cheguei tarde, outra vez: as pastas, sacolas despencam para o tapete. Ela corre ao meu encontro. Não fala. Cansada, quieta. Sinto angústia no silêncio. Arrisco uma pergunta, duas. Lacônicas respostas.

O apartamento iluminado pela luz da Praça das Nações. As plantas abertas nas cestas, perto da porta-janela da sacada. Respiro. Sinto as mãos molhadas e quentes. Seus dedos apertam meu braço. E o rosto aflito, com lágrimas, afunda no meu peito. Continua, inquieta, dolorida a minha menina. Tão menina! E eu!! Eu!!! Egoísta.

_” Tudo flui, dizia Heráclito. Tudo está em movimento e nada dura para sempre. Por esta razão, não podemos entrar duas vezes no mesmo rio. Isto porque quando entro pela segunda vez no rio, tanto eu como ele já estamos mudados”.

Minha voz aberta, e eu leio para ela. Seus olhos entram pela minha pele… Canção de ninar, o som monótono da minha voz. Ler, nesta hora de dormir, ler como mergulhar uma na outra, nosso código. Aquietamos a rotina. Ainda não sei o que aconteceu. Elizabeth M.B. Mattos – Porto Alegre – ainda na Garagem de Arte – ano em que as Torres Gêmeas foram derrubadas em Nova York.

 

divagando devagar com letras

A expressão do homem, suas vozes… O som do ser humano, o gesto, o andar, o escutar, mais uma vez o som genérico das vozes que não cantam soltas, nem livres, mas engajadas em espaços permitidos, e decodificadas por outras vozes / melodia.  O homem entre outros homens: dizemos para sermos ouvidos, escrevemos para sermos lidos, pintamos para sermos vistos, fazemos música, e compartilharmos o Eu. Um Eu de experiência exibida. Este mesmo homem quer, então, participar… Agir e fazer através da escrita: expressar. Escrever nunca é a cópia do que já foi feito, ou, pelo menos não deveria ser. Escrever é instalar-se na recusa do estabelecido.  O ato de escrever supõe coragem. Mas escrever assegura mudanças, implica em não se deixar apenas ocupar… Interiorizar-se, observa, mas participar / doar. Reconstruímos, e ou alteramos o estabelecido. Escrever é registro de intenção. O texto, espaço expressivo de quem escreve, sedução. Seduzir, uma aventura: admitir a necessidade de um propósito. O corpo do escritor se junta ao corpo do leitor num abraço que busca solução.  Assim, a atividade de escrever insere-se entre as outras atividades sociais.  Escrever, então, é fugir / chegar / exposição. Escrever é armadilha amorosa. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de tanto vento! Torres 2019 Pensando no escrito!

“Sempre voltava a ser tomado por nostalgia das viagens da minha juventude, em que ninguém me esperava e em que, pelo isolamento, tudo parecia mais misterioso, assim sendo, não quis abrir maneira antiga de viajar.” […] “era maravilhoso ser desconhecido, morar em hoteizinhos depois dos hotéis repugnantemente luxuosos, poder avançar e recuar, distribuir luz e sombra como eu quisesse. E, por mais que Hitler tenha tomado de mim mais tarde, jamais conseguiu me confiscar ou perturbar a agradável consciência de ter tido durante uma década uma vida européia de acordo com a minha vontade e com liberdade interior.” (p.292) Stefan Zwig  Autobiografia: o mundo de ontem

ONDE ESTAVAS NO DIA 28 DE AGOSTO?

O avião chegando. Expectativa. Saudade. Alívio. Vou ao teu encontro. Aperto teu corpo, respiro. Sinto naquele abraço o tamanho do desejo, tua falta.  Como posso ser ambivalente? Tantas vezes retornarei aos teus braços. Teus cabelos tão crespos, cheios! Teus olhos rasgados, inquietos. Tua boca engolindo meu corpo, aos pedaços. Teu rosto oriental, exige servidão. Estás dentro de mim neste abraço fechado.

O avião desce. Alegria ferve. Teu olhar me procura. Meus/teus olhos em nós.

Tuas perguntas as minhas. Estabeleço prazos e tempo. O ciúme sai devagar, cabisbaixo. Não me importa quem te beijou, quem te abraçou, o que fizeste, pensaste, quando não estamos/estávamos juntos.  Estou no beijo. Estás lá / aqui, exatamente, como eu te imaginava e estás no meu desejo. Esperas por mim, espero por ti. Levo presentes em linho, branco, macio nos lençóis. Outro perfume. Livros não comprei.

Teus braços pesados, magros, cansados, teus braços. Malas cheias de inverno.

Carrego sempre tantas malas! Quando saio, quando vou, quando voo dizes sorrindo teu azul! Tudo volta ao teu abraço. Onde estavas – amada – na noite de 28 de agosto? Liguei tantas muitas vezes e não te encontrei. É bom voltar para casa! Tenho tantas coisas dentro de mim que só posso resolver dentro de nós! Ele sorri. Abraça bem forte o meu corpo. Eu o inundo de saudade e, agora, sem ansiedade, alegria me afoga e me salva! Eu o amo! Depois segue dizendo / falando: Careço dos teus afagos. Apago lembranças. Respiro. Nós dois apenas: nossas falas, cumplicidade. Estou nas tuas conquistas como estás na minha vida. Amo teus medos e tu meu desespero. Amo o teu espanto. Tua história branca de sombra no meu caminho, fêmea. Amor afável. Matrimonial. Quero dormir abraçado no teu abraço de vinte anos cansados.

As janelas do quarto, cerradas. O barulho na rua, dentro do apartamento, não ouvimos/ nem escutamos.

Onde estavas naquela noite de 28 de agosto, daquela segunda-feira?

O abraço. Um abraço. Nosso abraço.  Falo.  Digo / eu explico.  Suspiro.  Outro abraço, um beijo, outro beijo, nas faces, entre as mãos.

Meu cheiro, agora, teu. E nem quero mais saber onde estavas naquela noite de 28 de agosto! Estamos. Vou continuar estando. Oxalá o vento de ventar se interrompa. Quero amor branco. O amor abre outro amor.  Filosofa feliz. Aqui ou lá? Juntos: o meu, o teu amor. Posso sorrir sem responder. Será que volto pra morrer nos nossos braços, abraços? Estou sempre na mala, retalhado. Ao teu lado eu sou eu. Longe não somos. Não sou eu, não és tu. Já não me importa nada onde estavas na noite de 28 de agosto de 1995.              

Acordamos tarde, os dois. É sábado. Jornais e café. Conversas enfiadas. Avanços, novos projetos. Dormimos abraçados e acordamos apertados. Tua voz aguda. Discutimos. Paramos. Submisso, sem ferir, sem magoar. Tenho culpa? Nenhuma. É um pacto, um acerto. Sobrevivência. Nada sei das noites brancas. Nem dos filmes. Dos livros. Do trabalho, da amiga. Uma viagem, mais uma? Não sei.  Começo a rir, sorrir, um bocejo. Levanto.

Quem sabe um telegrama. Não, hoje não; nem amanhã, tampouco segunda-feira. Talvez na quarta-feira ou sexta. Sábado o aniversário: quarenta e nove! Não. Não vou pensar… Preciso tempo. Escrever, esvaziar o ciúme. Como? Não sei. Enquanto espero o tempo me ganha / segue atrás daquela porta. Estás mais magra. Por que pesa o teu olhar? Sombra cansada? Guarda teu ciúme. Volta para nós. Ama em mim o outro homem, e amarei em ti todas as mulheres. Segura minha mão e fica. Quero teu corpo, teu sexo. Gosto de te sentir/ver despudorada: sem roupa, sem pejo. Teu andar, teu sentar. Veste tuas meias, estica a tua perna. Escolhe o sapato, caminha. Teu joelho! Saia bem curta e blusa justa!  Senta outra vez ali. Elizabeth M.B. Mattos (revisado em novembro de 2019 – Torres em movimento porque o feriado se alonga em surf e beleza!)

 

Stefan Zweig a ser encontrado, relido e atual, certeiro

Pois nada é mais perigoso do que a ambição dos pequenos de serem grandes, e o primeiro objetivo das pequenas nações, mal foram criadas, fora intrigar umas contra as outras, brigando em torno de minúsculas faixas de terra, poloneses contra tchecos, húngaros contra romenos, búlgaros contra sérvios; e em sua condição de país mais fraco de todos nessas rivalidades, a minúscula Áustria defrontava – se com a Alemanha todo-poderosa. Esse país despedaçado, mutilado, cujos soberanos outrora reinaram sobre a Europa, era, devo repetir sempre, a pedra angular.” (p.355)

Stefan Zweig já conheces. Lembro que te mandei o pequeno “24 horas na vida de uma mulher”.  Perfeito. Finalmente, eu me encontro com Autografia: o mundo de ontem. E também a vontade de reencontrar a OBRA COMPLETA: esteve nas estantes da biblioteca da casa na rua Vitor Hugo. Mergulhar na história, na literatura universal. Aventura, prazer! Zweig me faz respirar e querer mais e mais, mas a vida tem limite. Escrever pensar ler aumenta limites. Ah! Gosto de fel e de mel e de prazer! Estou viva! Respiro. Hoje acordei com aquela vontade de revirar livros caixas estantes/prateleiras, tempo e  amor. Efeito / intoxicação de livros e de insônias e tanto sono! Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2019 – Claro! Amores amados, os melhores, e os pais perfeitos, e as irmãs especiais, e os amigos certos. Retrospectiva de 70 anos esparramados em buganvílias e jasmins,  ciprestes, mar e campo, de certo, tudo amor e agora de frente pra lagoa e no tempo, tanto tempo!