A idade não importa. Era menina- criança. Sentia o tempo lento. Medo imobiliza. Encolhida no fundo da cadeira. As brasas se espalham acesas no jornal. Fogo. Estupefação diante das riscas brilhando no tapete. Não era mais cinza, nem cinzas! Ao lado, sob o mármore, a grande tigela com água… O silêncio na casa. Apenas a biblioteca atenta ao soluço preso que desdobra manso em lágrimas, depois gemido desespero, e, por fim, o espanto da casa inteira acordando… Consolo no abraço. Brasas apagadas, tristeza grudada, sem explicação, sem palavra, presa na menina. Como na história do Bambi… Os álbuns de colar figurinhas se transformavam em histórias. O tesouro completo manuseado. Histórias conhecidas, ansiosamente esperadas. A cada envelope, quatro figurinhas. Já era hora de dormir, não dormia. E, de repente, solta o soluço. E já um gemido inconsolável. A mãe do Bambi morreu, a mãe do Bambi morreu! Choro largo, grosso. Verdadeiro, difícil, e trágico. Histórias violentas. Amorosas. Felizes. Naquele incêndio da floresta, com a morte da mãe do Bambi, compreendeu que os homens perseguem, e matam inocentes. Queimam a terra, sangram a vida, impiedosos. Eles, os homens, inconscientemente cruéis?
Exercito a memória. Não sem dificuldade. Relembrei a imobilidade do não fazer, das lágrimas. Quantas vezes recomeçar sem reagir na hora de agir? Imóvel diante do fogo. Num balanço de ir e vir, indefinidamente. Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2014 – Porto Alegre