Estranhezas

Pesadelo, sonho. Fuga. Procura de refúgio no vazio, no descompromisso. O não pertencer a nenhum grupo. Um vácuo. Sem vaidade. O anonimato temerário. Sem caminho, perigosamente solitário. Sem apoio. Uma inteireza. Sem continuidade, plenitude. A consciência do grupo. Falta de ar, submeter-se…Submissão, angustia do pertencente. Lado certo, o justo? Ou equívoco. Falta de ar. Sufocar, e seguir o mesmo caminho. O diário. A rotina. Uma sina sem escolha. Seguir o rebanho. Programar. Estabilizar exige tanto!

Sem, sem, cem vezes o eu, nenhuma vez nós. O grupo corrói o sentimento de inteireza, subverte a vontade. Exige. Alerta. Os animais ultrapassam a barreira. Diferenças evidentes, outro bando. Dependência sem competição.

Estranho sono. Fantasmas, cheiros, vultos. E a morte ao final. Envelhecer tem este componente de alerta. O inimigo está na outra calçada. Libertação? Recomeço? Todos os pecados se amontoam na consciência, pesam. Trava. E tudo inicia na posse. No meio do copo com água, o vinho, depois a sede. Estranhezas…

 

“Compreendi então que pouquíssimos homens se realizam antes de morrer, e aprendi a julgar com mais piedade seus trabalhos interrompidos. Essa obsessão de uma vida frustrada imobilizava meu pensamento num ponto fixo como abcesso. Dava-se com a minha ânsia do poder o mesmo que se dá com o amor, que impede o amante de comer,  dormir, e até mesmo amar enquanto certos ritos não se cumprem.” (p.94)
Memórias de Adriano  de Marguerite Yourcenar: 3 Edição. Editora Nova Fronteira. Tradução de  Martha Calderaro

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